kenny_anthony_ HISTÓRIA CONCISA DA FILOSOFIA
500 pág.

kenny_anthony_ HISTÓRIA CONCISA DA FILOSOFIA


DisciplinaFilosofia e Ética3.589 materiais82.204 seguidores
Pré-visualização50 páginas
não pode ser a Ideia que começou por ser 
postulada. Assim, tem de haver outra Ideia de P; mas, por 3, esta será, 
por sua vez, P; e assim sucessivamente até ao infinito. Portanto, ao 
contrário do que diz 1, não haverá uma só Ideia, mas um número infi-
nito delas. 
69 
 
 O problema pode ser ilustrado por «Homem» no padrão argumen-
tativo acima. Se houver vários homens, então, por 1, há uma Ideia de 
Homem. Mas esta, por 3, é ela própria homem. A Ideia de Homem, 
mais os homens originais, constituem portanto uma nova colecção de 
homens. Portanto, por 1, tem de haver uma Ideia de Homem que cor-
responda a esta nova colecção. Mas, por 2, esta não pode ser a Ideia 
que já encontrámos; de modo que tem de ser outra Ideia. E assim até 
ao infinito; não podemos parar logo na primeira ou na segunda Ideia 
de Homem. Aristóteles veio a chamar a esta refutação da teoria das 
Ideias «o argumento do Terceiro Homem». O problema nunca foi 
resolv ido por Platão; e, como já foi dito, os estudiosos discutem entre 
si se ele ignorou a objecção ou se abandonou toda ou parte da teoria 
das Ideias em resultado dela. 
 O problema para o qual a solução de Platão é inadequada é por 
vezes denominado «o problema dos universais». Nas discussões 
modernas deste problema, são detectáveis quatro noções que têm 
alguma semelhança com as Ideias de Platão: 
 
A) Universais concretos. Numa frase como «A água é fluida», a 
palavra «água» é tratada por alguns filósofos como o nome de 
um só objecto disseminado, a parte aquosa do mundo, composto 
por poças, rios, lagos e assim por diante. Um universal concreto 
destes teria alguma semelhança com as Ideias de Platão. Expli-
caria a preferência de Platão em referir-se às suas Ideias por 
meio de modos de falar concretos (por exemplo, «o belo») em 
vez de abstractos («a beleza»). Conferiria um significado claro à 
sua teoria de que os particulares participam nas Ideias: a água 
específica desta garrafa é, de um modo bastante literal, uma par-
te de toda-a-água-do-mundo. Assim, mostra-se facilmente que 
as teses 2, 3a e 4 são verdadeiras. Contudo, um universal con-
creto difere bastante de uma Ideia platónica no que diz respeito 
a 3b e a 5 \u2014 a água que há no universo pode ser localizada e 
pode mudar em quantidade e no modo como está distribuída; 
podemos vê-la e tocá-la; e tem muitas outras propriedades além 
de ser água. 
B) Paradigmas. Sugeriu-se mais de uma vez que as Ideias platóni-
cas poderiam ser consideradas paradigmas ou padrões: pode 
pensar-se que a relação entre os indivíduos e as Ideias é seme-
lhante à que existe entre os objectos com um metro de compri-
mento e o metro padrão de Paris de acordo com o qual a escala 
metro foi definida. Isto realça bem o elemento de imitação e 
70 
semelhança da teoria de Platão: ter um metro de comprimento 
é, justamente, parecer-se em comprimento com o metro padrão; 
e se duas coisas têm um metro de comprimento, isso acontece 
em virtude desta semelhança comum em relação ao paradigma. 
Como um universal concreto, um objecto paradigmático condiz 
com aqueles aspectos das Ideias platónicas que as fazem parecer 
entidades substanciais; como um universal concreto, não tem as 
propriedades pelas quais as Ideias transcendem o mundo sensí-
vel. O metro padrão não está no céu, mas em Paris, e é observ á-
vel não pela visão intelectual, mas por meio dos olhos que temos 
na cara. 
C) Atributos e propriedades. Os lógicos falam por vezes de atribu-
tos, como a humanidade e a propriedade de ser divisível por 
sete. Estas entidades abstractas partilham os aspectos mais 
transcendentais das Ideias de Platão; a humanidade não cresce 
nem se move como os seres humanos, e em nenhuma parte do 
mundo se poderia ver ou tocar na divisibilidade por sete. Pode-
ríamos dizer que todos os homens são humanos em virtude de 
partilharem uma humanidade comum. Poderíamos afirmar que 
esta humanidade é o atributo ao qual o predicado «\u2026 é um 
homem» se refere nas frases «O Pedro é um homem» e «O João 
é um homem». Mas, se concebermos deste modo as Ideias 
como atributos, é muito difícil ver como poderia Platão alguma 
vez ter pensado que a humanidade em si mesma, e só ela, é 
realmente um ser humano. Não é óbvio que a humanidade é 
uma abstracção e que apenas um indivíduo concreto pode ser 
um ser humano? 
D) Classes. Os atributos funcionam como princípios de acordo com 
os quais os objectos podem ser coligidos em classes: os objectos 
que possuem o atributo da humanidade, por exemplo, podem 
ser agrupados na classe dos seres humanos. Em alguns aspectos, 
as classes parecem estar mais próximas das Ideias platónicas do 
que os atributos: a participação numa Ideia pode ser entendida 
sem grande esforço como a pertença a uma classe. As classes, tal 
como os atributos e ao contrário dos paradigmas e dos univer-
sais concretos, parecem-se com as Ideias nas suas propriedades 
abstractas. Há, todavia, uma diferença importante entre atribu-
tos e classes. Duas classes com os mesmos membros (com a 
mesma extensão, como os filósofos por vezes dizem) são idênti-
cas entre si, ao passo que o atributo A pode não ser idêntico ao 
atributo B, mesmo que todos e só aqueles que possuem A tam-
71 
 
bém possuam B. Ser um ser humano, por exemplo, não é o 
mesmo atributo que ser um bípede sem penas, embora a classe 
dos bípedes sem penas possa muito bem ser a mesma que a clas-
se dos seres humanos. Os filósofos exprimem esta diferença 
dizendo que as classes são extensionais, ao passo que os atribu-
tos não; não é claro se as Ideias de Platão são extensionais como 
as classes, ou não extensionais como os atributos. A dificuldade 
de identificar as Ideias com classes advém das teses 2 e 3. A 
classe dos homens não é um homem, e não podemos, em geral, 
dizer que a classe dos F é F; algumas classes são membros de si 
próprias, e algumas não. Nesta área, há problemas que apenas 
se tornaram completamente visíveis mais de dois milénios de-
pois. 
 
 Conceitos como os de atributo ou classe são descendentes mais ou 
menos sofisticados da noção platónica; nenhum deles, porém, faz 
justiça às muitas facetas das Ideias. Se quisermos ver como as teses 1 a 
5 pareceram plausíveis a Platão, é preferível partir não de qualquer 
conceito técnico moderno, mas de uma noção mais informal. Conside-
re-se um dos pontos cardeais \u2014 Norte, Sul, Leste ou Oeste. Tome-se a 
noção de Leste, por exemplo, não como se poderia tentar explicá-la em 
termos de uma noção abstracta \u2014 por exemplo, a qualidade de ficar 
situado a leste \u2014 mas por meio de uma reflexão ingénua sobre as 
várias expressões que, em Portugal, usamos para nos referirmos ao 
Leste. Há muitos lugares que estão a leste de nós, como por exemplo 
Belgrado, Varsóvia e Hong Kong. Qualquer lugar que, deste modo, 
esteja a leste, está no Leste, e é de facto parte do Leste (participação); 
ou, se preferirmos, está mais ou menos na mesma direcção que o Leste 
(imitação). É em virtude de estar no Leste, ou em virtude de estar na 
mesma direcção que o correspondente ponteiro da bússola, que aquilo 
que está a leste de nós está a leste (tese 1). Ora o Leste não pode ser 
identificado com nenhum dos lugares que estão a leste de nós; é relati-
vo ao sítio onde se está, sendo um erro pensar que «o Leste» significa 
um lugar como a Índia, uma vez que, de outro ponto de vista (por 
exemplo, o de Pequim) a Índia é parte do Oeste (tese 2). O próprio 
Leste está, é claro, a leste de nós \u2014 para se andar em direcção ao Leste 
tem de se andar para leste \u2014 e o Leste não é nada para além de leste; 
podemos dizer «O Leste é vermelho», mas estaremos então a querer 
dizer que a parte oriental do céu é vermelha (tese 3). Nada senão o 
Leste é irrestritamente leste: o Sol está algumas vezes a leste e outras a 
oeste, a Índia é a leste do Irão, mas a oeste do Vietname; todavia, em 
72 
todas as