kenny_anthony_ HISTÓRIA CONCISA DA FILOSOFIA
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e as relações amorosas devem ser públicas. A procriação será 
rigorosamente regulamentada, de modo a que a população se mantenha 
estável e saudável. As crianças deverão ser criadas em infantários sem ter 
contacto com os pais. Os guardiães e os auxiliares não poderão ser deten-
tores de propriedade privada, nem tocar em metais preciosos; viverão em 
comunidade como soldados num acampamento e receberão, de graça, 
provisões modestas mas adequadas. 
 Sócrates admite que a vida destes governantes possa não parecer 
muito atraente, mas a felicidade da cidade é mais importante do que a 
felicidade de uma classe. Se a própria cidade quiser ser feliz, terá de 
ser uma cidade virtuosa; e as virtudes da cidade dependem das virtu-
des das classes que a constituem. 
 Quatro virtudes sobressaem como fundamentais: a sabedoria, a 
coragem, a temperança e a justiça. A sabedoria da cidade é a sabedoria 
dos seus governantes; a coragem da cidade é a coragem dos seus sol-
dados; e a temperança da cidade consiste na submissão dos artesãos 
aos governantes. E a justiça? Radica no princípio da divisão do traba-
lho a partir do qual teve origem a cidade-estado: cada cidadão e cada 
classe fazendo aquilo que lhe é mais apropriado. A justiça é cumprir a 
sua função ou preocupar-se apenas com a sua vida; é a harmonia entre 
as classes. 
 O Estado imaginado por Sócrates é fortemente totalitário, despro-
vido de privacidade, dominado pela mentira e em flagrante contradi-
ção com os direitos humanos mais básicos. Se Platão pretendia que a 
sua descrição fosse tomada como um esboço de organização política 
para a vida real, então merece todo o opróbio a que tem sido votado 
quer pelos conservadores, quer pela esquerda. Mas é preciso lembrar 
que o objectivo explícito destas elucubrações sobre o sistema político 
ideal era lançar luz sobre a natureza da justiça na alma; e é isso que 
Sócrates passa a fazer a seguir. 
 Sócrates propõe a existência de três elementos na alma que corres-
pondem às três classes do Estado imaginado. «Será que nós com-
preendemos com uma parte, irritamo-nos com outra e com outra 
ainda desejamos os prazeres da alimentação, da procriação e assim por 
diante? Ou será que toda a alma intervém de cada vez e em todas estas 
formas de comportamento?» Para decidir a questão, faz apelo a fenó-
menos de conflito mental. Um homem pode ter sede e, apesar disso, 
não querer beber; aquilo que nos impele a praticar uma acção tem de 
ser diferente daquilo que nos impede de a praticar; portanto, tem de 
haver uma parte da alma que reflecte e outra que é o veículo da fome, 
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da sede e do desejo sexual. A estes dois elementos pode chamar-se 
«razão» e «apetite» ou «concupiscência». Ora, a ira não pode ser 
atribuída a nenhum destes elementos, pois a ira entra em conflito com 
a concupiscência (podemos ter repugnância pelos nossos próprios 
desejos perversos) e pode estar separada da razão (as crianças têm 
birras antes de chegarem à idade do discernimento). Assim, temos de 
postular um terceiro elemento na alma, a irascibilidade, além da razão 
e da concupiscência. 
 Esta divisão é baseada em duas premissas: o princípio da não con-
trariedade e a identificação das partes da alma por meio dos seus 
desejos. Se X e Y são relações contrárias, nada pode, irrestritamente, 
estar em X e em Y no que respeita à mesma coisa; e o desejo e a aver-
são são relações contrárias. Os desejos de concupiscência são suficien-
temente claros, e os da irascibilidade consistem em brigar e em casti-
gar; mas, de momento, nada nos é dito acerca dos desejos da razão. 
Sem dúvida que o homem em quem a razão luta com a sede é aquele a 
quem o médico ordenou que não bebesse; nesse caso, o oposto da 
concupiscência será o desejo racional da saúde. 
 A tese de Sócrates é a de que a justiça num indivíduo é a harmonia 
entre estas três partes da alma e que a injustiça é o desacordo entre 
elas. A justiça no Estado significava que cada uma das três ordens 
cumpria a sua função própria. «Cada um de nós será de igual modo 
uma pessoa justa, executando a sua tarefa, apenas se as várias partes 
da nossa natureza executarem as suas.» A razão deve governar, e a 
irascibilidade educada deve ser sua aliada. Ambas deverão governar a 
concupiscência insaciável e impedi-la de ultrapassar os limites. Como 
a justiça, as três outras virtudes cardeais relacionam-se com os ele-
mentos da alma: a coragem estará localizada na irascibilidade, a tem-
perança residirá na unanimidade dos três elementos, e a sabedoria 
estará «naquela pequena parte que governa». Parte essa que «possui o 
saber do que convém a cada um dos três elementos da alma e a todos 
em conjunto». 
 A justiça na alma é um pré-requisito mesmo para as actividades do 
homem interesseiro e ambicioso: a criação de riqueza e os assuntos de 
Estado. A injustiça é uma espécie de guerra civil entre os elementos 
quando usurpam as funções uns dos outros. «Produzir a justiça na 
alma, como a saúde no corpo, consiste em dispor, de acordo com a 
natureza, os elementos da alma para dominarem ou serem dominados 
uns pelos outros; a injustiça, como a doença, consiste em, contra a 
natureza, governar ou ser governado um pelo outro.» Visto que a vir-
tude é a saúde da alma, é absurdo perguntar se é mais proveitoso viver 
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de modo justo ou praticar injustiças. Toda a riqueza e poder do mundo 
não fazem com que valha a pena viver a vida se a nossa constituição 
corpórea degenerar e nos atormentar; e pode a vida merecer ser vivida 
se o próprio princípio pelo qual vivemos estiver adulterado e corrom-
pido? 
 Atingimos agora o fim do 4.o dos 10 livros da República, e o proces-
so dialéctico avançou em vários estádios. Uma das hipóteses admitidas 
contra Trasímaco fora a de que a função da alma é deliberar, governar 
e cuidar da pessoa. Agora que a alma foi dividida em razão , concupis-
cência e irascibilidade, esta ideia é abandonada: estas funções perten-
cem não a toda a alma, mas apenas à razão. Uma outra hipótese é 
usada no estabelecimento da tricotomia: o princípio da não contrarie-
dade. Acontece que este não é um princípio em que se possa confiar no 
mundo quotidiano. Nesse mundo, aquilo que se está a mover está 
também, sob algum aspecto, imóvel; aquilo que é belo é também, de 
algum modo, feio. Apenas a ideia de Beleza nunca cresce nem definha, 
não sendo bela numa altura e feia noutra, nem bela em relação a uma 
coisa e feia em relação a outra. Todas as entidades terrenas, incluindo 
a alma tripartida, são afectadas pela ubiquidade da contrariedade. A 
teoria da alma tripartida é apenas uma aproximação à verdade, uma 
vez que não faz menção às Ideias. 
 Na República, as Ideias fazem a sua primeira aparição no Livro V, 
onde são usadas como base da distinção entre duas faculdades ou 
estados mentais: o conhecimento e a opinião. Os governantes de um 
Estado ideal têm de ser educados de tal modo que atinjam o verdadei-
ro conhecimento; e o conhecimento diz respeito às Ideias, as únicas 
que realmente são (isto é, para qualquer P, apenas a Ideia de P é com-
pleta e irrestritamente P). A opinião, por outro lado, diz respeito aos 
objectos terrenos que, ao mesmo tempo, são e não são (isto é, para 
qualquer P, tudo o que no mundo é P, é também num ou noutro aspec-
to não-P). 
 
a b c d 
Sombras Criaturas Números Ideias 
 
Opinião 
 
Conhecimento 
 
 No Livro V I, estas faculdades são por sua vez subdivididas, com a 
ajuda do diagrama acima; a opinião contém dois elementos: a) a ima-
ginação, cujos objectos são «sombras e reflexos», e b) a crença, cujos 
objectos são «as criaturas vivas que estão à nossa volta e as obras da 
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natureza ou das mãos dos homens.» O conhecimento tem também 
duas formas. O conhecimento por excelência é d) a compreensão filo-
sófica, cujo método é a dialéctica e cujo objecto é o reino das Ideias. 
Mas o conhecimento