kenny_anthony_ HISTÓRIA CONCISA DA FILOSOFIA
500 pág.

kenny_anthony_ HISTÓRIA CONCISA DA FILOSOFIA


DisciplinaFilosofia e Ética3.590 materiais82.266 seguidores
Pré-visualização50 páginas
significa «parece fria», de modo que apreender através dos sentidos é 
o mesmo que parecer. Apenas o que é verdadeiro pode ser conhecido; 
assim, se o conhecimento é a percepção sensorial, teremos de aceitar a 
doutrina de Protágoras segundo a qual aquilo que parece é verdadeiro, 
84 
ou pelo menos aquilo que parece a uma pessoa específica é verdadeiro 
para essa pessoa. 
 Por detrás de Protágoras está Heraclito. Se é verdade que tudo, no 
mundo, está constantemente a sofrer mudanças, então as cores que 
vemos e as qualidades que sentimos não podem ser realidades objecti-
vas e estáveis. Cada uma é, pelo contrário, o produto do encontro 
momentâneo entre um dos nossos sentidos e algum elemento transitó-
rio no fluxo universal que lhe corresponda. Quando um olho, por 
exemplo, entra em contacto com um seu correspondente visível, come-
ça a ver a brancura, e o objecto começa a parecer branco. A brancura 
propriamente dita é gerada pela relação entre estes dois progenitores, 
o olho e o objecto. O olho e o objecto, do mesmo modo que a brancura 
a que dão origem, fazem eles próprios parte do fluxo universal; não 
são imóveis, embora o seu movimento seja lento por comparação com 
a velocidade com que as impressões dos sentidos vão e vêm. A visão 
que o olho tem do objecto branco e a brancura do próprio objecto são 
dois gémeos que nascem e morrem um com o outro. Uma descrição 
semelhante pode ser feita para os outros sentidos; e assim podemos 
ver, pelo menos no que diz respeito ao reino dos sentidos, a razão por 
que Protágoras dizia que aquilo que parece, é; pois a existência de uma 
qualidade e a sua aparição ao sentido apropriado são inseparáveis uma 
da outra. 
 Mas a vida não é toda feita de sensações. Nós temos sonhos, nos 
quais aparecemos com asas e voamos; os loucos sofrem delírios, nos 
quais acham que são deuses. Certamente que estas são aparências que 
não estão de acordo com a realidade! Metade da nossa vida é passada a 
dormir; e talvez nunca possamos ter a certeza se estamos acordados ou 
a sonhar; portanto, como pode qualquer de nós dizer que aquilo que 
lhe parece num dado momento é verdade? 
 Para responder a isto, Protágoras pode apelar de novo a Heraclito . 
Suponhamos que Sócrates fica doente e que o vinho doce lhe sabe a 
amargo. Segundo a descrição dada antes, a amargura nasce de dois 
progenitores, o vinho e aquele que saboreia. Mas o Sócrates doente é 
um saboreador diferente do Sócrates saudável, e de um progenitor 
diferente nascerá naturalmente um filho diferente. Como cada pessoa 
que tem sensações está constantemente a mudar, cada sensação é uma 
experiência única e irrepetível. Pode não ser verdade que o vinho é 
amargo, mas é verdade que é amargo para Sócrates. Nenhuma outra 
pessoa está em condições de corrigir o Sócrates doente quanto a isto, 
de modo que também aqui Protágoras é corroborado: aquilo que me 
85 
 
parece a mim, é verdadeiro para mim. Teeteto pode continuar a 
defender que a percepção é conhecimento. 
 Mas será que todo o conhecimento é percepção ? Saber uma língua, 
por exemplo, é mais do que simplesmente ouvir os sons pronunciados, 
coisa que podemos fazer com uma língua que não conheçamos. É 
verdade, ev identemente, que muitas vezes aprendo algo \u2014 por exem-
plo, que o Parténon fica na Acrópole \u2014 vendo-o com os meus olhos. 
Mas, mesmo depois de fechar os olhos, ou de me ir embora, continuo a 
saber que o Parténon é na Acrópole. Portanto, a memória é um exem-
plo de conhecimento sem percepção. Mas talvez Teeteto ainda não 
tenha sido derrotado: Protágoras pode vir em seu auxílio replicando 
que é possível saber e não saber algo ao mesmo tempo, como quando 
pomos uma mão à frente de um dos olhos: tanto podemos ver como 
não ver a mesma coisa ao mesmo tempo. 
 Sócrates parece ficar reduzido a uma reacção ad hominem. Como 
pode Protágoras ser professor e lev ar dinheiro por isso se ninguém 
está em melhor posição do que qualquer outra pessoa no que diz res-
peito ao conhecimento, visto que o que parece a cada homem é verda-
deiro para ele? Protágoras replicaria que, ao passo que não é possível 
ensinar alguém de modo a que substitua os pensamentos falsos por 
verdadeiros, um professor pode fazer-nos substituir maus pensamen-
tos por bons pensamentos, pois, apesar de todas as aparências serem 
igualmente verdadeiras, nem todas são igualmente boas. Um sofista 
como Protágoras pode levar um aluno a ficar em melhor estado, tal 
como um médico poderia curar Sócrates da doença que lhe afectava o 
paladar, fazendo com que o vinho lhe soubesse de novo a doce. 
 Em resposta a isto, Sócrates apoia-se no argumento de Demócrito 
para mostrar que a doutrina de Protágoras se derrota a si mesma. 
Parece verdade a todos os homens que alguns deles conhecem melhor 
do que outros diversas áreas de especialidade; nesse caso, tal deve ser 
verdade para todos os homens. Parece à maior parte das pessoas que a 
tese de Protágoras é falsa; nesse caso, a sua tese tem de ser mais falsa 
do que verdadeira, pois os que nela não acreditam são mais do que os 
que nela acreditam. A teoria de Protágoras pode parecer estar assente 
em alicerces sólidos quando aplicada à percepção sensorial, mas é 
deveras implausível se for aplicada aos diagnósticos médicos ou às 
previsões políticas. Cada homem pode ser a medida do que é, mas 
mesmo no caso das sensações ele não é a medida do que será: um 
médico sabe melhor do que o doente se ele terá febre e um comercian-
te de vinhos saberá melhor do que um consumidor se um vinho ficará 
doce ou seco. 
86 
 Mas mesmo onde é mais forte, no domínio da sensação, a tese de 
Protágoras é vulneráv el, argumenta Sócrates, pois depende da tese do 
fluxo universal, que é, ela própria, inconsistente. De acordo com os 
heracliteanos, tudo está constantemente a mudar, quer no que diz 
respeito ao mov imento local (o movimento de lugar para lugar), quer 
no que diz respeito à alteração qualitativa (como, por exemplo, a 
mudança de branco para preto). Ora, se uma coisa permanecesse no 
mesmo sítio, poderíamos descrever o modo como mudaria qualitati-
vamente, e, se tivéssemos uma porção de cor constante, poderíamos 
descrever o modo como ela se moveria de lugar para lugar. Mas se 
ambos os tipos de mudança tiverem lugar simultaneamente, ficamos 
reduzidos ao silêncio; não somos capazes de dizer que coisa está a 
mover-se, nem que coisa está a sofrer uma alteração. A própria per-
cepção sensorial estará em fluxo: um episódio de visão transformar-se-
á de repente num episódio de não-visão; a audição e a não -audição 
seguir-se-ão uma à outra incessantemente. Isto é tão diferente daquilo 
que tomamos como conhecimento que se o conhecimento for idêntico 
à percepção, será tanto conhecimento como não conhecimento. 
 Sócrates prepara-se então para dar a estocada final examinando os 
órgãos corpóreos dos sentidos: os olhos e os ouvidos, os meios por 
meio dos quais vemos as cores e ouvimos os sons. Aquilo que é objecto 
de um dos sentidos não pode ser percepcionado por outro sentido: não 
podemos ouvir as cores ou ver os sons. Mas, nesse caso, o pensamento 
de que um som e uma cor não são uma e a mesma coisa, mas duas 
coisas diferentes, não pode ser o produto nem da vista nem do ouvido. 
Teeteto tem de conceder que não há órgãos para a percepção da mes-
midade e da diferença nem da unidade e da multiplicidade; é a própria 
alma que contempla os termos comuns que se aplicam a tudo. Mas a 
verdade acerca das propriedades corpóreas mais tangíveis só pode ser 
alcançada por meio do recurso a estes termos comuns, que pertencem 
não aos sentidos mas à alma. O conhecimento não reside nas impres-
sões sensoriais, mas na reflexão que a alma faz sobre elas. 
 Por fim, Teeteto abandona a tese de que o conhecimento é a per-
cepção; propõe que, em vez disso, consiste nos juízos da alma que 
reflecte. Sócrates aprova esta mudança