kenny_anthony_ HISTÓRIA CONCISA DA FILOSOFIA
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Os seus escritos não sobreviveram; o nosso 
conhecimento dos seus ensinamentos apoia-se na obra de escritores 
do período romano, como Séneca, filósofo da corte de Nero, e o impe-
rador Marco Aurélio . Sabemos que fundou a tradição estóica da divisão 
da filosofia em três disciplinas princ ipais: lógica, ética e física. Os seus 
discípulos defendiam ser a lógica o esqueleto, a ética a carne, e a física a 
alma da filosofia. Zenão preocupou-se essencialmente com a ética, mas 
esteve muito ligado a dois dialécticos originários de Mégara \u2014 Diodoro 
de Cronos e Fílon \u2014 que prosseguiram a tarefa do Liceu de preencher as 
lacunas que Aristóteles deixara na sua lógica. 
 Após a morte de Zenão, a liderança da Stoa passou para Cleantes, 
um pugilista convertido que se especializou em física e metafísica. 
Homem devoto, Cleantes escreveu um notável hino a Zeus, ao qual se 
dirige em termos que um monoteísta judeu ou cristão consideraria 
apropriados para endereçar ao Nosso Senhor: 
 
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 Zeus todo-poderoso 
 Autor da Natureza, designado por muitos nomes, ave! 
 A tua lei a todos governa; e a voz do mundo para ti se ergue. 
 Pois de ti nascemos, e só nós entre as coisas vivas 
 Que se movem na terra fomos criados à imagem de Deus. 
 
 S. Paulo conhecia este hino e citou-o quando pregou em Atenas. 
 A Cleantes sucedeu Crisipo, que liderou a escola entre 232 e 206. 
Fez da ética a sua especialidade, mas também desenvolveu e alargou o 
trabalho dos seus predecessores, tendo sido o primeiro a apresentar o 
estoicismo como um sistema inteiramente integrado. Uma vez que as 
obras destes três primeiros estóicos se perderam, é difícil determinar 
com precisão o contributo de cada um; as suas doutrinas avaliam-se 
melhor em conjunto . 
 A lógica dos estóicos difere da aristotélica em vários aspectos. Aris-
tóteles utilizou letras como variáveis, ao passo que os estóicos usaram 
números; a estrutura típica de uma frase numa inferência aristotélica 
era «Todo o A é B»; a frase típica de uma inferência estóica era «Se a 
primeira, então a segunda». A diferença entre letras e números é tri-
vial; aquilo que importa realmente é que as variáveis de Aristóteles 
representavam termos (sujeitos e predicados), ao passo que as variá-
veis dos estóicos representavam frases inteiras. A silogística aristotéli-
ca formaliza aquilo que hoje em dia poderíamos chamar «lógica de 
predicados»; a dos estóicos formaliza aquilo a que chamamos «lógica 
proposicional». Vejamos um típica inferência considerada pelos estói-
cos: 
 
 Se Platão está vivo, Platão respira. 
 Platão está vivo. 
 Logo, Platão respira. 
 
 Na lógica estóica, a validade do argumento não depende do conteú-
do das frases individuais \u2014 esta é uma das suas mais importantes 
características. De acordo com o ponto de vista estóico, o seguinte 
argumento não é menos sólido do que o anterior: 
 
 Se Platão está morto, Atenas é na Grécia. 
 Platão está morto. 
 Logo, Atenas é na Grécia. 
 
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 A primeira premissa deste argumento será verdadeira se, tal como 
os estóicos, aceitarmos uma definição particular do «se¼, então¼» 
inicialmente sugerida por Fílon. Segundo este filósofo, uma frase com 
a forma «Se a primeira, então a segunda» será verdadeira em todos os 
casos, excepto quando a primeira for verdadeira e a segunda falsa. No 
dia a dia, utilizamos geralmente o «se¼, então¼» quando existe uma 
ligação qualquer entre o conteúdo das frases assim interligadas. Mas 
usamos por vezes a definição de Fílon \u2014 por ex emplo, quando dizemos 
«Se Atenas é na Turquia, eu sou holandês», como forma de negar que 
Atenas se situa na Turquia. Acontece que a definição mínima dos 
estóicos para o «se» é a mais útil para o desenvolvimento técnico da 
lógica proposicional, e é essa que os lógicos utilizam actualmente. A 
lógica proposicional dos estóicos é hoje entendida como o elemento 
básico da lógica, sobre o qual a lógica de predicados de Aristóteles se 
constrói como uma superstrutura. 
 Sob a designação de «lógica», os estóicos investigaram também a 
filosofia da linguagem. Possuíam uma sofisticada teoria dos signos, 
que estudava tanto as coisas significantes como as significadas. As 
coisas significantes eram classificadas como voz, fala ou discurso. A 
voz podia representar o som inarticulado, a fala o som articulado mas 
falho de sentido, e o discurso o som articulado e com sentido. As coisas 
significadas podiam ser corpos ou afirmações (lekta). Por afirmações 
entende-se não a frase, mas aquilo que é dito na frase. Se digo «Díon 
caminha», a palavra «Díon» significa o corpo que vejo; mas aquilo que 
quero dizer com a frase não é um corpo, mas sim uma afirmação sobre 
um corpo. 
 Neste sentido, há um choque entre a lógica e a física estóicas: as 
afirmações da lógica estóica são entidades não corpóreas, ao passo que 
a física estóica apenas reconhece a existência aos corpos. Os estóicos 
pensavam que, em tempos, existia apenas o fogo , do qual emergiram 
gradualmente os restantes elementos e os acessórios habituais do 
universo. No futuro, o mundo regressará ao fogo numa conflagração 
universal, e então o ciclo da sua história repetir-se-á uma e outra vez. 
Tudo isto ocorre de acordo com um sistema de leis a que podemos 
chamar «destino », porque as leis não admitem excepções, ou «prov i-
dência», porque as leis foram estabelecidas por Deus com propósitos 
benéficos. 
 Os estóicos aceitavam a distinção aristotélica entre matéria e for-
ma; mas, como materialistas conscienciosos que eram, defendiam que 
a forma era também corpórea \u2014 um corpo delicado e subtil a que 
chamavam «sopro» (pneuma). A alma e a mente humanas eram feitas 
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deste pneuma, tal como Deus, que é a alma do cosmos, cosmos este 
que, no seu todo, é um animal racional. Se Deus e a alma não fossem 
eles próprios corpóreos, argumentavam os estóicos, não poderiam agir 
sobre o mundo material. 
 O sistema divinamente concebido é a chamada Natureza, e o fim da 
nossa vida deveria ser viver de acordo com a Natureza. Já que todas as 
coisas são determinadas, nada pode escapar às leis da Natureza. Mas 
os seres humanos são livres e responsáveis, apesar do determinismo 
do destino. A vontade deve ser dirigida no sentido de viver de acordo 
com a natureza humana por meio da obediência à razão. É esta aceita-
ção voluntária das leis da Natureza que constitui a virtude; e a virtude 
é necessária e suficiente para a felicidade. A miséria, o encarceramento 
e o sofrimento, já que não podem roubar a virtude, também não 
podem roubar a felicidade; uma pessoa virtuosa não pode sofrer 
nenhum verdadeiro mal. Significa isto que devemos ser indiferentes à 
infelicidade dos outros? Bom, a saúde e a riqueza merecem na verdade 
a nossa indiferença; mas os estóicos, de modo a poderem cooperar 
com os não -estóicos, foram forçados a concordar que certos assuntos 
mereciam mais indiferença do que outros. 
 Uma vez que a sociedade é natural aos seres humanos, o estóico, no 
seu objectivo de viver em harmonia com a Natureza, deverá tomar o 
seu lugar na sociedade e cultivar as virtudes sociais. Embora a escrav a-
tura e a liberdade sejam igualmente indiferentes, é legítimo preferir 
uma à outra, ainda que a virtude possa ser praticada em ambas as 
situações. E quanto à própria vida? Será objecto de indiferença? O 
estóico virtuoso não perderá a sua virtude quer viva, quer morra; mas 
é legítimo que tome a opção racional de abandonar a vida sempre que 
se encontrar perante aquilo que os não-estóicos consideram males 
intoleráveis. 
CEPTICISMO 
 As línguas modernas mantêm vestígios tanto do epicurismo como 
do estoicismo, mas com diferentes graus de exactidão. Em inglês, 
epicure designa um gastrónomo \u2014 mas este encontraria escassa satis-
fação na dieta à base de pão e queijo de Epicuro. Mas uma atitude 
estóica perante