kenny_anthony_ HISTÓRIA CONCISA DA FILOSOFIA
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agora organizado numa igreja 
disciplinada, disseminou-se pelo Império Romano. Ganhou raízes 
principalmente nas cidades, em comunidades presididas por bispos: a 
palavra cristã para designar os não-cristãos \u2014 «pagão» \u2014 era origi-
nalmente apenas a palavra latina para «homem do campo». Neste 
período, as atitudes cristãs para com a filosofia eram muito diversas. 
Alguns dos primeiros autores cristãos, como Justino Mártir, um ex -
platónico convertido à nova religião, serviu-se de excertos dos diálogos 
de Platão para defender a perspectiva cristã, sustentando que Platão 
fora influenciado pela Bíblia hebraica. Outros, como o autor africano 
Tertuliano, afirmaram que Atenas e Jerusalém nada tinham em 
comum e condenaram todas as tentativas para apresentar um cristia-
nismo estóico, platónico ou dialéctico. 
 Contudo, a batalha em que os teólogos cristãos ortodoxos do século 
II se envolveram não foi tanto contra os sistemas hostis da filosofia 
pagã, mas sobretudo contra certos grupos que, no interior da própria 
Igreja, conc ebiam arrebatadas misturas de cosmologia platónica, pro-
fecia hebraica, teologia cristã e mística oriental. Ao passo que Jesus e 
S. Paulo tinham pregado uma mensagem tão acessível aos pobres e 
incultos quanto aos rabis e filósofos eruditos, os membros destes gru-
pos, conhecidos colectivamente como «gnósticos», afirmavam estar na 
posse de um saber especial e misterioso (Gnosis), herdado dos primei-
ros apóstolos, que conferia a quem o possuía uma posição privilegiada 
e destacada comparativamente aos simples crentes. 
 Os gnósticos não acreditavam que o mundo material tivesse sido 
criado pelo Bom Deus; era obra de poderes inferiores e maléficos, e a 
sua criação um absoluto desastre. O cosmos era governado por pode-
res maléficos que habitavam as esferas planetárias; assim, no decurso 
da sua vida, um bom gnóstico devia evitar qualquer envolvimento com 
os assuntos do mundo. Na morte, a alma, se devidamente purificada 
por meio do ritual gnóstico, voaria em direcção ao céu de Deus, muni-
da de encantamentos para derrubar as barreiras colocadas no seu 
caminho pelas forças do mal. Dada a natureza maléfica do mundo, era 
pecaminoso casar e gerar descendência. Alguns gnósticos praticavam 
uma disciplina ascética, e outros eram desenfreadamente promíscuos; 
em ambos os casos, a premissa básica era a de que o sexo era desprezí-
vel. 
 Os escritores cristãos dominantes denunciaram o gnosticismo como 
heresia (usando a palavra grega para seita filosófica \u2014 hairesis). Sen-
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tiam-se mais à vontade com os filósofos totalmente exteriores à Igreja, 
como os membros da escola estóica, que tinham recuperado populari-
dade sob o domínio dos imperadores romanos. Contudo, os partidários 
de tais tradições filosóficas clássicas demonstravam geralmente des-
prezo pelo cristianismo, que nem sempre distinguiam claramente da 
heresia gnóstica ou do judaísmo tradicional. Quando o filósofo estóico 
Marco Aurélio se tornou imperador, em 161, revelou-se um duro per-
seguidor dos cristãos. 
 O Império Romano atingira por essa altura a sua máxima extensão. 
Aquando da morte de Augusto, a sua fronteira setentrional fora conso-
lidada ao longo do Danúbio e do Reno; sob o domínio dos seus suces-
sores imediatos, a província da Bretanha foi acrescentada ao Império, 
e a lei imperial estendia-se já ao longo de toda a costa do Norte de 
África, convertendo o Mediterrâneo num mar romano. Sob o domínio 
do próprio Marco Aurélio , a fronteira oriental do Império estendeu-se 
até ao Eufrates. 
 Ao longo de 100 anos, desde a derrota de Marco Aurélio , o Império 
foi governado por membros da família de César e de Augusto. Sucessi-
vos imperadores demonstraram em si próprios, em graus variáveis, o 
adágio de que o poder absoluto corrompe absolutamente. Para aqueles 
que estavam sob a influência directa do imperador, foi uma era de 
capciosa crueldade, intercalada por períodos de clemência, inércia e 
demência. Mas, ao passo que a corte de Roma era um caldeirão de 
vícios, ódios e terror, a paz imperial trouxe inusitados benefícios aos 
milhões de pessoas que viviam nas vastas províncias do Império. A 
Europa, o Norte de África e o Próximo Oriente gozaram séculos de 
tranquilidade como jamais tinham conhecido ou viriam a conhecer. E 
isto foi possível graças a um exército permanente de menos de 120 mil 
homens, assistidos por auxiliares locais. As instituições cívicas e legais 
romanas mantiveram a ordem em comunidades espalhadas por três 
continentes, e as estradas romanas prov idenciaram uma rede viária ao 
longo da qual os viajantes levaram a literatura latina e a filosofia grega 
aos cantos mais remotos do Império. 
 A dinastia de César chegou ao fim com a morte de Nero, em 69. 
Depois de um ano, no decurso do qual três imperadores se apodera-
ram do poder e morreram após breves e inglórios reinados, a estabili-
dade foi restabelecida por Vespasiano, um general que passara os 
últimos anos do reinado de Nero a reprimir uma revolta judia na 
Palestina. O filho de Vespasiano, Tito, que mais tarde lhe sucederia 
como imperador, saqueou Jerusalém em 70 e dispersou os seus habi-
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tantes. A partir de então, os cristãos espalhados pela Europa foram os 
principais conservadores das tradições e valores judaicos. 
 Embora o irmão e sucessor de Tito, Domiciano, rivalizasse com 
Nero em vaidade e crueldade, foi seguido por uma série de imperado-
res comparativamente admiráveis que presidiram, entre os anos 96 e 
180, ao melhor período do Império Romano. Ocorreu no fim deste 
período a primeira tentativa substancial para harmonizar o cristianis-
mo com a filosofia grega. Clemente de Alexandria (150?-215?), na 
viragem do século, publicou um conjunto de Miscelâneas (Stroma-
teis), escritas num estilo de conversas informais, nas quais argumenta 
que o estudo da filosofia é não apenas permissível como necessário ao 
cristão educado. Os pensadores gregos eram pedagogos da adolescên-
cia do mundo, divinamente destinados a trazê-lo a Cristo na sua matu-
ridade. Clemente recrutou Platão como um aliado contra o dualismo 
dos gnósticos, fez algumas experiências com a lógica de Aristóteles e 
elogiou o ideal estóico da libertação relativamente à paixão. Explicou 
como alegóricos certos aspectos da Bíblia e principalmente do Antigo 
Testamento que os gregos cultos consideravam grosseiros e ofensivos. 
Com isto fundou uma tradição alexandrina que teria um longo cami-
nho a percorrer. 
 Clemente foi um antologista e um divulgador; o seu mais jovem 
contemporâneo alexandrino, Orígenes (185-254), foi um pensador 
original. Filho de um mártir cristão, Orígenes sentia-se menos à von-
tade que Clemente no mundo cultural da sua época. Embora fosse 
extremamente versado em filosofia grega, que aprendera com o plató-
nico alexandrino Amónio Sacas, via-se a si próprio, antes de mais 
nada, como um estudioso da Bíblia, cujo texto autêntico se esforçou 
por determinar. 
 Não obstante, Orígenes incorporou no seu sistema muitas ideias 
filosóficas que os cristãos ortodoxos consideravam heréticas. Por 
exemplo, pensava, como Platão, que as almas humanas existiam antes 
do nascimento ou da concepção. A primeira criação de Deus fora um 
mundo de espíritos livres; quando estes se aborreceram de uma vida 
de infinita adoração, Deus criou o mundo tal como o conhecemos, 
dando às almas humanas incarnadas a liberdade que poderiam utilizar 
para ascender, ajudadas pela Graça de Cristo, a um destino celeste. 
Orígenes defendia também, em conflito com a ortodoxia cristã, que 
todos os seres racionais, fossem santos ou pecadores, anjos ou demó-
nios, seriam ulteriormente salvos e encontrariam a bem-aventurança. 
Modificou a doutrina de S. Paulo sobre a ressurreição do corpo, ensi-
nando, segundo alguns dos seus discípulos, que os mortos se ergue-
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riam em forma etérea e, de acordo com outros,