kenny_anthony_ HISTÓRIA CONCISA DA FILOSOFIA
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tornaram-se protegidos dos 
esclarecidos califas de Bagdade. Entre 750 e 900, estes sírios traduzi-
ram Aristóteles para a língua árabe e tornaram acessível ao mundo 
muçulmano as obras científicas e médicas de Euclides, Arquimedes, 
Hipócrates e Galeno. Ao mesmo tempo, foram importadas da Índia 
obras de matemática e astronomia e adoptados os algarismos «ára-
bes». 
 Os pensadores árabes apressaram-se a explorar o património do 
conhecimento grego. Alkindi, um contemporâneo de Erígena, escre-
veu um comentário ao tratado aristotélico De Anima. Apresenta uma 
notável interpretação da desconcertante passagem em que Aristóteles 
se refere a duas mentes: uma mente para fazer coisas e uma mente 
para se tornar coisas. A mente que faz coisas, afirma ele, é uma única 
inteligência supra-humana e opera sobre as inteligências passivas 
individuais (as mentes em vias de se tornarem) de modo a produzir o 
pensamento humano. Alfarrabi, que morreu em Bagdade em 950, 
seguiu esta linha interpretativa; como membro de uma seita de sufi 
conferiu-lhe uma tonalidade mística. 
 O mais importante dos filósofos muçulmanos deste período foi Ibn 
Sina ou Avicena (980 -1037). Nascido na região de Bujara, Avicena foi 
um estudante precoce. Adolescente, dominava já a lógica, a matemáti-
ca, a física, a medicina e a metafísica, publicando aos 20 anos uma 
enciclopédia dessas disciplinas. Os seus talentos médicos eram incom-
paráveis e muito procurados: passou a última parte da sua vida como 
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médico da corte do governante de Isfahan. Escreveu algumas obras em 
persa e muitas outras em árabe; mais de 100 sobreviveram, no original 
ou nas suas versões latinas. O seu Cânone de Medicina, onde junta as 
suas próprias observações a uma cuidadosa selecção de material clíni-
co grego e árabe, foi utilizado pelos médicos europeus até ao século 
XVII. Foi com Avicena que estes aprenderam a teoria dos quatro humo-
res ou fluidos corporais \u2014 sangue, fleuma, cólera e bílis negra \u2014 que se 
supunha determinarem o estado de saúde e o carácter dos seres 
humanos, tornando-os, respectivamente, sanguíneos, fleumáticos, 
coléricos ou melancólicos, conforme o caso. 
 O sistema metafísico de Avicena baseava-se no de Aristóteles. Mas 
Avicena alterou-o de um modo que iria influenciar enormemente o 
rumo do aristotelismo. Adoptou a doutrina da matéria e da forma e 
elaborou-a à sua maneira: qualquer entidade corpórea consiste em 
matéria sob uma forma substancial que faz dela um corpo (uma «for-
ma de corporalidade»). Todas as criaturas corpóreas pertencem a 
espécies particulares; nenhuma delas, porém, possui apenas uma 
forma substancial, mas muitas (um cão, por exemplo, possui a anima-
lidade, o que faz dele um animal, e o carácter canino, que faz dele um 
cão). 
 Segundo os aristotélicos, as almas são formas, e cada ser humano 
possui, de acordo com esta teoria, três almas: uma alma vegetativa 
(responsável pela nutrição, o crescimento e a reprodução), uma alma 
animal (responsável pelo movimento e a percepção) e uma alma racio-
nal (responsável pelo pensamento racional). Nenhuma das almas tem 
existência anterior ao corpo; mas, ao passo que as duas almas inferio-
res são mortais, a alma superior é imortal e sobrevive à morte do corpo 
em condições de felicidade ou frustração, de acordo com a vida que 
teve. Seguindo a interpretação que Alfarrabi dá a Aristóteles, Avicena 
distingue entre duas faculdades intelectuais: o intelecto humano 
receptivo que absorve a informação recebida por meio dos sentidos e o 
intelecto activo único e supra-humano que confere aos seres humanos 
a capacidade para apreender conceitos e princípios univ ersais. 
 O intelecto activo desempenha um papel central no sistema de 
Avicena: não só ilumina a alma humana, como é também a causa da 
sua existência. A matéria e as várias formas do mundo são emanações 
do intelecto activo, sendo ele próprio o último membro de uma série 
de emanações intelectuais da imutável e eterna Causa Primeira \u2014 
designadamente, Deus. 
 Ao descrever a natureza única de Deus, Avicena introduz a sua 
célebre distinção entre essência e existência. Isto decorre da sua expli-
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cação dos termos universais, como, por exemplo, «cavalo». No mundo 
material existem apenas cavalos individuais; o termo «cavalo», contu-
do, pode ser aplicado a muitos seres individuais diferentes. Uma 
essência como a cavalidade distingue-se de ambos e em si mesma não 
é una nem múltipla, sendo neutra entre a existência e a não existência 
de quaisquer cavalos reais. 
 Seja qual for o tipo de criatura que consideremos, nada encontra-
remos na sua essência que seja responsável pela existência das coisas 
desse tipo. Nem a mais completa investigação sobre o tipo de coisa que 
algo é demonstrará a existência de tal coisa. Assim, ao descobrirmos a 
existência de coisas de um certo tipo, temos de procurar uma causa 
externa que acrescente existência à essência. Pode haver uma série de 
causas dessas, mas essa série não pode continuar indefinidamente. A 
série tem de terminar numa entidade cuja essência explique a sua 
existência, algo cuja existência não seja derivada de qualquer coisa 
exterior a si: algo cuja essência implique a sua existência. Avicena 
chama «existente necessário» a tal ser; e, obviamente, apenas Deus 
preenche os requisitos necessários. É Deus que dá existência às essên-
cias de todos os outros seres. Já que a existência de Deus depende 
apenas da sua essência, a sua existência é eterna; e já que Deus é eter-
no, conclui Avicena, eterno é também o mundo que dele emana. 
 Avicena era um muçulmano convicto e teve o cuidado de conciliar o 
seu sistema filosófico com os mandamentos do Profeta, que considera-
va uma iluminação única do Intelecto Activo. Do mesmo modo que a 
filosofia grega operava no contexto dos poemas homéricos e a filosofia 
cristã e judaica no contexto do Velho e Novo Testamentos, a filosofia 
muçulmana tomava como base de apoio o Alcorão. Contudo, as inter-
pretações de Avicena do livro sagrado foram consideradas não ortodo-
xas pelos conservadores, pelo que a sua influência se faria sentir mais 
entre os cristãos do que entre os muçulmanos. 
O SISTEMA FEUDAL 
 Na altura da morte de Avicena, a Cristandade atravessava um período 
de profundas alterações. A unificação europeia de Carlos Magno não 
durou muito, e, entre os seus sucessores, foram poucos aqueles que 
lograram exercer uma governação efectiva para além das fronteiras da 
Alemanha. Ocupavam, contudo, o cume de uma elaborada estrutura 
social e política piramidal \u2014 o sistema feudal. Ao longo de toda a Europa, 
grandes e pequenos castelos eram governados por senhores com a sua 
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própria corte e exército que juravam vassalagem a senhores mais pode-
rosos, aos quais ofereciam, a troco de protecção, apoio militar e financei-
ro. Por sua vez, estes senhores mais poderosos eram subordinados, ou 
vassalos, dos reis. Embora o sistema feudal tivesse conseguido, na maior 
parte dos casos, preservar a paz numa Europa fragmentada, as guerras 
estalavam com frequência em resultado de contestações ao sistema de 
vassalagem. Em 1066, por exemplo, o normando Guilherme o Conquis-
tador invadiu a Inglaterra e justificou o seu acto afirmando que o último 
rei saxão, Harold, lhe tinha jurado fidelidade e que tinha quebrado o seu 
juramento ao apropriar-se da coroa de Inglaterra. 
 Ao passo que a posse de terras locais e os laços pessoais entre vas-
salo e senhor constituíam os fundamentos da sociedade secular, a 
organização da Igreja tornava-se cada vez mais centralizada. É certo 
que as abadias onde os monges habitavam em comunidade eram tam-
bém grandes proprietárias de terras, e que os abades e bispos eram 
poderosos senhores feudais; mas, com o avançar do século XI, o seu 
poder cresceria essencialmente graças à supremacia da Santa Sé de 
Roma. Diversos Papas corruptos e ineficazes