kenny_anthony_ HISTÓRIA CONCISA DA FILOSOFIA
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difícil \u2014 tão enigmática que algumas 
pessoas a tomaram como um texto de física e outras como um tratado 
político. («O que dela consigo compreender é excelente», disse Sócra-
tes mais tarde, «o que não consigo compreender pode muito bem ser 
também excelente; mas só um mergulhador do mar alto poderá che-
gar-lhe ao fundo.») 
 Nesse livro Heraclito falava de uma grande Palavra, ou Logos, 
sempre subsistente e de acordo com a qual todas as coisas se originam. 
Escrevia de modo paradoxal, afirmando que o universo é simultanea-
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mente divisível e indivisível, gerado e não gerado, mortal e imortal, 
Palavra e Eternidade, Pai e Filho, Deus e Justiça. Não admira que toda 
a gente, como ele se queixava, achasse o seu Logos consideravelmente 
incompreensível. 
 Se Xenófanes, com o seu estilo de argumentação, era semelhante 
aos filósofos profissionais modernos, Heraclito estava muito mais de 
acordo com a ideia popular moderna do filósofo como guru. Heraclito 
não tinha senão desprezo pelos seus predecessores filosóficos. Muito 
estudo, dizia, não nos ensina a ser homens sensatos; caso contrário, 
teria feito de Hesíodo, Pitágoras e Xenófanes homens sensatos. Hera-
clito não argumentava, proferia: era um mestre das máximas fecundas 
de ar profundo e sentido obscuro. O seu estilo délfico era talvez uma 
imitação do oráculo de Apolo que, nas suas próprias palavras, «nem 
fala, nem esconde, mas manifesta-se por sinais». Os seguintes adágios 
contam-se entre os mais bem conhecidos de Heraclito: 
 
O caminho a subir e a descer é um e o mesmo. 
A harmonia oculta é melhor do que a manifesta. 
A guerra é pai de todos e de todos é soberana; a uns apresenta-os como 
deuses e a outros como homens; de uns ela faz escravos, de outros 
homens livres. 
Uma alma seca é mais sábia e melhor. 
Para as almas, tornar-se água é a morte. 
Um ébrio é um homem conduzido por um rapaz. 
Os deuses são mortais, os seres humanos imortais, vivendo a sua mor-
te, morrendo a sua vida. 
A alma é uma aranha e o corpo é a sua teia. 
 
 Heraclito explicava assim a última observação: tal como uma ara-
nha, no meio de uma teia, se dá conta assim que uma mosca quebra 
um dos seus fios e de longe se precipita como se estivesse em aflição, 
também a alma humana, se alguma parte do corpo está magoado, se 
precipita imediatamente para aí, como se não conseguisse suportar a 
injúria. Mas, se a alma é uma aranha diligente, também é, segundo 
Heraclito, uma centelha da substância das ígneas estrelas. 
 Na cosmologia de Heraclito, o fogo desempenha o papel que a água 
tinha em Tales e o ar em Anaxímenes. O mundo é um fogo sempre 
ardente: todas as coisas vêm do fogo e vão para o fogo; «todas as coi-
sas se podem trocar pelo fogo, como os bens se trocam por ouro e o 
ouro por bens». Há um caminho descendente, no qual o fogo se trans-
forma em água e a água em terra, e um caminho ascendente, no qual a 
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terra se transforma em água, a água em ar e o ar em fogo. A morte da 
terra é tornar-se água, a morte da água é tornar-se ar e a morte do ar é 
tornar-se fogo. Há um único mundo, o mesmo para todos, e não foi 
Deus nem o homem que o fizeram; sempre existiu e sempre existirá, 
passando, de acordo com ciclos determinados pelo destino, por uma 
fase de inflamação, que é a guerra, e uma de combustão, que é a paz. 
 A visão de Heraclito da transmutação dos elementos num fogo 
sempre ardente conquistou a imaginação dos poetas até aos nossos 
dias. T. S. Eliot, em Quatro Quartetos, decidiu glosar a afirmação de 
Heraclito de que a água era a morte da terra: 
 
Há inundação e seca 
Por sobre os olhos e na boca, 
Águas mortas e mortos areais 
Que pela primazia guerreais. 
O solo, ressequido e desventrado, 
Fica de boca aberta pelo labor anulado 
E ri-se sem alegria nesse exercício 
\u2014 Que é da terra o final exício. 
 
 Gerard Manley Hopkins escreveu um poema intitulado «Que a 
Natureza é um Fogo Heracliteano», repleto de imagens provenientes 
de Heraclito: 
 
 Milhões atestados, consome-se a grande fogueira da natureza. 
Mas extinto o mais formoso e mais querido, a centelha mais sua, 
O homem, e o éctipo de fogo deste, a sua presença no espírito, desapa-
rece ligeiro! 
Ambos estão num insondável, tudo está num sombrio enorme 
Submergido. Oh! mágoa e indignação! Aparição humana, que refulgiu 
Desapareceu, disjungida, uma estrela, a morte invade com o oblívio¼ 
 
 Perante esta situação, Hopkins busca conforto na promessa de uma 
ressurreição final \u2014 uma doutrina cristã, claro, mas uma doutrina que 
conhece a sua antecipação numa passagem de Heraclito que fala de 
seres humanos que regressam e se tornam guardiães vigilantes dos 
vivos e dos mortos. «O fogo», disse Heraclito, «virá e julgará e conde-
nará todas as coisas.» 
 O aspecto dos ensinamentos de Heraclito que mais impressionou os 
filósofos no mundo antigo não foi tanto a visão do mundo como uma 
fogueira, mas antes o corolário segundo o qual tudo no mundo estava 
num estado de constante mudança e fluxo. Tudo passa, disse Heracli-
to, e nada permanece; o mundo é como um curso de água corrente. As 
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águas que vemos perante nós, nas margens de um rio, não são as 
mesmas em dois momentos distintos, e não podemos banhar os nossos 
pés duas vezes nas mesmas águas. Até aqui, tudo bem; mas Heraclito 
foi mais longe e afirmou que nem sequer podemos entrar duas vezes 
no mesmo rio. Isto parece falso, quer seja tomado literalmente, quer 
seja tomado alegoricamente; mas, como veremos, esta ideia foi extre-
mamente influente na filosofia grega posterior. 
A ESCOLA DE PARMÉNIDES 
 A situação filosófica é muito diferente quando nos voltamos para 
Parménides, que nasceu nos últimos anos do século VI. Apesar de ter 
sido, provavelmente, um discípulo de Xenófanes, Parménides passou a 
maior parte da sua vida não na Jónia mas em Itália, numa cidade 
chamada Eleia, cerca de 110 quilómetros a sul de Nápoles. Diz-se que 
Parménides redigiu um excelente conjunto de leis para a sua cidade, 
mas nada sabemos da sua actividade política nem da sua filosofia 
política. Parménides é o primeiro filósofo cujos escritos nos chegaram 
em quantidade apreciável: escreveu um 
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poema filosófico nuns versos desajeitados, do qual temos cerca de 120 
linhas. Na sua obra não se dedicou à cosmologia, como os primeiros 
milésios, nem à teologia, como Xenófanes, mas a um estudo novo e 
universal que a ambos abrangia e transcendia: a disciplina a que os 
filósofos posteriores chamaram ontologia. A ontologia deriva o seu 
nome de uma palavra grega que, no singular, é on e, no plural, onta: é 
esta palavra \u2014 o particípio presente do verbo grego ser \u2014 que define o 
tema de Parménides. O seu singular poema pode reivindicar o título de 
carta régia fundadora da ontologia. 
 Para explicar o que é a ontologia e do que trata o poema de Parmé-
nides, é necessário entrar em minúcias relativamente a questões de 
gramática e de tradução. A paciência do leitor relativamente a este 
pedantismo será compensada, pois entre Parménides e os dias de hoje 
a ontologia viria a ter um crescimento vasto e luxuriante, de modo que 
só uma compreensão firme do que Parménides queria dizer, e do que 
não conseguiu dizer, nos permite traçar um percurso claro, ao longo 
dos séculos, pela selva ontológica. 
 O tema de Parménides é o «to on», o que, traduzido literalmente, 
quer dizer «o que é». Antes de explicarmos o verbo, temos de dizer 
qualquer coisa sobre o artigo. Em português usamos por vezes um 
adjectivo, precedido por um artigo definido, para referir uma classe de 
pessoas ou coisas, como quando dizemos «os ricos», para referir as 
pessoas ricas. A formulação correspondente era muito mais frequente 
em grego do que em português: os gregos podiam usar a expressão «o 
quente» para referir as coisas quentes e «o frio» para referir as coisas