kenny_anthony_ HISTÓRIA CONCISA DA FILOSOFIA
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à mudança tem-
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poral. Para perceber por que razão tirou Parménides esta conclusão, 
temos de admitir que ele pensava que «ser água» ou «ser ar» se rela-
cionava com «ser» da mesma maneira que «correr depressa» e «correr 
devagar» se relaciona com «correr». Uma pessoa que comece por 
correr depressa e que depois corra devagar continua todo o tempo a 
correr; analogamente, para Parménides, o que for primeiro água e 
depois ar continua a ser. Quando a água de uma chaleira se evapora, 
tal pode ser, nas palavras de Heraclito, a morte da água e o nascimento 
do ar; mas, para Parménides, não é a morte nem o nasc imento do Ser. 
Sejam quais forem as mudanças que possam ter lugar, não são mudan-
ças do ser para o não-ser; são sempre mudanças no Ser e não mudan-
ças do Ser. 
 O Ser tem de ser eterno, pois não poderia ter tido origem no Não-
Ser nem tornar-se no Não-Ser, pois não há tal coisa. Se o Ser pudesse 
\u2014 per impossibile \u2014 provir do nada, o que poderia fazer com que isso 
acontecesse num momento em vez de outro? Na verdade, o que dife-
rencia o passado do presente e do futuro? Se não é um tipo de ser, o 
tempo será irreal; mas, se é um tipo de ser, então tudo será parte do 
Ser, e o passado, o presente e o futuro não serão senão um Ser. 
 Parménides procura mostrar, com argumentos análogos, que o Ser 
é indiviso e ilimitado. O que iria dividir o Ser do Ser? O Não-Ser? 
Nesse caso, a divisão seria irreal. O Ser? Nesse caso não haveria div i-
são, mas o Ser contínuo. O que poderia impor limites ao Ser? O Não-
Ser não pode fazer nada a coisa alguma; e, se imaginarmos que o Ser 
está limitado pelo Ser, então o Ser não alcançou ainda os seus limites. 
 
Pensar uma coisa é pensar que é, nem mais. 
À parte o Ser, seja o que for que exprimamos, 
O pensamento não alcançará. Nada é ou será 
Para além dos limites do Ser, visto que o decreto do Destino 
O agrilhoou, inteiro e imóvel. Todas as coisas são nomes 
Que a credulidade dos mortais forjou \u2014 
Nascimento e destruição, ser tudo ou nada, 
Mudanças de lugar, e cores que vão e vêm. 
 
 O poema de Parménides tem duas partes: a Via da Verdade e a Via 
da Aparência. A Via da Verdade contém a doutrina do Ser, que exami-
námos até agora; a Via da Aparência trata do mundo dos sentidos, o 
mundo da mudança e da cor, o mundo dos nomes vazios. Não temos 
de nos demorar na Via da Aparência, pois o que Parménides nos diz 
sobre isso não é muito diferente das especulações cosmológicas dos 
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pensadores jónicos. Foi a sua Via da Verdade que estabeleceu um 
programa de acção para a filosofia dos séculos seguintes. 
 O problema que os filósofos posteriores enfrentaram foi o seguinte: 
o senso comum sugere que o mundo contém coisas que perduram, 
como montanhas rochosas, e coisas que mudam constantemente, 
como cursos de água impetuosos. Por um lado, Heraclito tinha decla-
rado que, a um nível fundamental, até mesmo as coisas mais sólidas 
estavam em fluxo perpétuo; por outro lado, Parménides defendeu que 
até mesmo o que aparentemente é mais fugaz é, a um nível fundamen-
tal, estático e imutável. Pode qualquer das doutrinas ser refutada? Há 
alguma maneira de as reconciliar? Para Platão e para os que se lhe 
seguiram, responder a estas perguntas era uma das tarefas fundamen-
tais da filosofia. 
 
 Um aluno de Parménides, Melisso (acme em 441), pôs em prosa 
escorreita as ideias que Parménides tinha exposto em versos opacos. 
Dessas ideias extraiu duas consequências particularmente chocantes. 
Uma delas era a de que a dor era irreal, pois implicava uma deficiência 
do ser. A outra era a de que o espaço vazio ou o vácuo era coisa que 
não existia: teria de ser parte do Não-Ser. Logo, o movimento era 
impossível, pois os corpos que ocupam espaço não têm outro sítio para 
onde se deslocar. 
 
 Zenão, um amigo de Parménides cerca de 25 anos mais novo que 
ele, desenvolveu uma engenhosa série de paradoxos, concebidos para 
mostrar, além de qualquer dúvida, que o movimento era inconcebível. 
O mais conhecido destes paradoxos propõe-se demonstrar que quem 
se desloca depressa nunca consegue ultrapassar quem se desloca dev a-
gar. Suponhamos que Aquiles, um atleta rápido, faz uma corrida de 
100 metros com uma tartaruga que só consegue correr a ¼ da sua 
velocidade, dando à tartaruga um avanço de 40 metros. Na altura em 
que Aquiles tiver chegado aos 40 metros, a tartaruga estará ainda 10 
metros à sua frente. Quando Aquiles tiver percorrido esses 10 metros, 
a tartaruga estará 2,5 metros à sua frente. De cada vez que Aquiles 
vence o hiato entre os dois, a tartaruga origina outro hiato, mais 
pequeno, à sua frente; assim, parece que Aquiles não pode nunca 
ultrapassar a tartaruga. Outro argumento, mais simples, procurava 
mostrar que ninguém consegue correr de uma ponta a outra de um 
estádio, pois, para chegar ao outro extremo, temos primeiro de chegar 
a meio do estádio, para chegar a meio do estádio temos primeiro de 
chegar a meio dessa distância, e assim por diante ad infinitum. 
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 Estes e outros argumentos de Zenão partem do princípio de que as 
distâncias são infinitamente divisíveis. Esta suposição foi contestada 
por alguns pensadores posteriores e aceite por outros. Aristóteles, a 
quem devemos a preservação dos enigmas, foi capaz de deslindar 
algumas das ambiguidades. Contudo, só depois de muitos séculos os 
paradoxos conheceram soluções que satisfizessem tanto os filósofos 
como os matemáticos. 
 Platão diz-nos que, quando Parménides era um homem de cabelos 
grisalhos com 65 anos, viajou com Zenão de Eleia para assistir a um 
festival em Atenas, tendo aí conhecido o jovem Sócrates. Isto teria 
ocorrido por volta de 450 a. C. Alguns especialistas pensam que a 
história é uma invenção com fins dramáticos; mas o encontro, se teve 
lugar, inaugurou de modo esplêndido a idade de ouro da filosofia 
grega em Atenas. Regressaremos já de seguida à filosofia ateniense; 
entretanto, falta ainda ter em consideração outro pensador da penín-
sula italiana, Empédocles de Ácragas, e mais dois físicos jónicos, Leu-
cipo e Demócrito. 
EMPÉDOCLES 
 Empédocles atingiu a sua plenitude em meados do século V e era 
um cidadão da cidade da costa sul da Sicília que agora se chama Agri-
gento. Tem fama de ter sido um político activo, um democrata ardente 
a quem foi oferecida a posição, por ele recusada, de rei da sua cidade. 
Mais tarde foi banido e praticou a filosofia no exílio. Era célebre como 
médico, mas, de acordo com os biógrafos antigos, tanto curava por 
magia como recorrendo aos medicamentos, tendo mesmo devolvido à 
vida uma mulher morta há 30 dias. Nos seus últimos anos, dizem-nos 
os seus bió grafos, chegou a acreditar ser um deus, encontrando a sua 
morte ao saltar para o vulcão Etna para estabelecer a sua divindade. 
 Quer Empédocles tenha sido um taumaturgo, quer não, merece a 
sua reputação como filósofo original e imaginativo. Escreveu dois 
poemas, maiores do que o de Parménides e mais fluentes, se bem que 
também mais repetitivos. Um deles era sobre a ciência, e o outro sobre 
a religião. Do primeiro, Da Natureza, possuímos cerca de 400 versos 
dos originais 2000; do segundo, Purificações, só so breviveram peque-
nos fragmentos. 
 A filosofia da natureza de Empédocles pode ser encarada como uma 
síntese do pensamento dos filósofos jónicos. Como vimos, cada um 
deles escolheu uma certa substância como o ingrediente básico do 
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universo: para Tales, era a água; para Anaxímenes, o ar; para Xenófa-
nes, a terra; para Heraclito, o fogo. Para Empédocles, todas estas qua-
tro substâncias estavam em pé de igualdade enquanto elementos bási-
cos (ou «raízes», para usar o seu termo) do universo. Empédocles 
pensava que estes elementos tinham existido desde sempre, mas que 
se misturavam uns com os outros, em várias proporções, para dar 
origem àquilo que constituía o mundo.