kenny_anthony_ HISTÓRIA CONCISA DA FILOSOFIA
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Destes quatro proveio o que foi e é e sempre será 
Árvores, bestas e seres humanos, homens e mulheres, todas 
As aves do ar e os peixes gerados pela água brilhante, 
E também os deuses de vida longa, há muito adorados nas alturas. 
Estes quatro são tudo o que há, cada um deles misturando-se 
E, na mistura, a variedade do mundo alcançando. 
 
 O entrelaçamento e a mistura dos elementos, no sistema de Empé-
docles, é causado por duas forças: o Amor e a Discórdia. O Amor com-
bina os elementos, fazendo surgir uma coisa de muitas coisas, e a 
Discórdia obriga-as a separarem-se, fazendo surgir muitas coisas a 
partir de uma. A história é um ciclo no qual é por vezes dominante o 
Amor, outras a Discórdia. Sob a influência do Amor, os elementos 
unem-se numa esfera homogénea e gloriosa; depois, sob a influência 
da Discórdia, separam-se em seres de diferentes tipos. Todos os seres 
compostos, como os animais, as aves e os peixes, são temporariamente 
criaturas que vão e vêm; só os elementos são sempiternos, e só o ciclo 
cósmico não cessa nunca. 
 As descrições que Empédocles faz da sua cosmologia são, umas 
vezes, prosaicas e, outras, poéticas. A força cósmica do Amor é muitas 
vezes personificada na exultante deusa Afrodite, e as primeiras fases 
do desenvolvimento cósmico são identificadas com uma era de ouro 
em que ela reinava. O elemento do fogo é por vezes denominado 
Hefesto, o deus-sol. Mas, apesar das suas roupagens simbólicas e 
míticas, o sistema de Empédocles merece ser levado a sério enquanto 
esboço de explicação científica. 
 Estamos habituados a considerar o sólido, o líquido e o gasoso 
como os três estados fundamentais da matéria. Não era absurdo con-
siderar o fogo, e em particular o fogo solar, como um quarto estado da 
matéria, de igual importância. De facto, pode dizer-se que o surgimen-
to, no nosso século, da disciplina de física do plasma (que estuda as 
propriedades da matéria à temperatura solar) reconquistou para este 
quarto elemento a paridade em relação aos outros três. O Amor e a 
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Discórdia podem ser identificados como os análogos antigos das forças 
de atracção e repulsão que têm desempenhado um papel significativo 
no desenvolvimento da física teórica ao longo dos séculos. 
 Empédocles sabia que a Lua brilhava por reflectir a luz; pensava, 
contudo, que o mesmo se passava com o Sol. Tinha consciência de que 
os eclipses do Sol eram causados pela interposição da Lua. Sabia que 
as plantas se reproduziam por via sexual e defendia uma teoria elabo-
rada segundo a qual a respiração estava relacionada com o movimento 
do sangue dentro do corpo. Apresentou uma teoria rudimentar da 
evolução . Num estádio primitivo do mundo, defendia ele, o acaso 
formou, a partir da matéria original, membros e órgãos isolados: bra-
ços sem ombros, olhos fora das órbitas, cabeças sem pescoços. Estas 
partes de corpos de animais, semelhantes a peças de lego, juntaram-se, 
de novo por acaso, em organismos, muitos dos quais eram monstruo-
sidades, como bois com cabeças humanas ou seres humanos com 
cabeça de boi. A maioria destes organismos fortuitos era frágil ou 
estéril; apenas as estruturas mais aptas sobreviveram para dar origem 
à espécie humana e às outras espécies de animais que conhecemos. 
 Até mesmo os deuses, como vimos, eram produto dos elementos de 
Empédocles. Por maioria de razão, a alma humana era um composto 
material, feito de terra, ar, fogo e água. Cada elemento \u2014 e na verdade 
as forças do amor e da discórdia \u2014 desempenhava o seu papel no 
funcionamento dos nossos sentidos, de acordo com o princípio de que 
o semelhante é percepcionado pelo semelhante. 
 
Com a terra vemos a terra, com a água, a água, 
Com o ar o ar do céu, com o fogo o fogo consumidor; 
Com o Amor percepcionamos o Amor, a Discórdia com a triste Discór-
dia. 
 
 O pensamento, estranhamente, identifica-se com o movimento do 
sangue à volta do coração: o sangue é uma mistura refinada de todos 
os elementos, o que explica a natureza abrangente do pensamento. 
 O poema religioso de Empédocles intitulado Purificações torna 
evidente que ele aceitava a doutrina pitagórica da metempsicose, a 
transmigração das almas. A discórdia castiga os prevaricadores, atri-
buindo as suas almas a outros tipos de criaturas, terrestres ou mari-
nhas. Empédocles recomendava aos seus seguidores que se abstives-
sem de ingerir criaturas vivas, pois os corpos dos animais que come-
mos são a morada das almas castigadas. Não é claro se, para evitar 
estes risc os, seria suficiente adoptar o vegetarianismo, uma vez que, do 
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ponto de vista de Empédocles, uma alma humana podia migrar para 
uma planta. O melhor destino para um homem, dizia ele, era tornar-se 
um leão, se a morte o transformasse em animal, e um loureiro, se o 
transformasse em planta. Mas o melhor era transformar-se em deus; 
aqueles que tinham mais probabilidades de conseguir este enobreci-
mento eram os videntes, os autores de hinos e os médicos. 
 Empédocles, que era estas três coisas, dizia ter ele próprio sofrido a 
metempsicose: 
 
Pois eu já fui um rapaz e uma rapariga, 
Um arbusto e um pássaro, e um peixe mudo do mar. 
 
 A nossa existência actual pode ser miserável, e as nossas perspecti-
vas para depois da morte sombrias; mas depois da expiação dos nossos 
pecados por meio da reincarnação podemos esperar o descanso eterno 
à mesa dos imortais, livres de cansaços e sofrimentos. Era sem dúvida 
isto que Empédocles esperava quando mergulhou no Etna. 
OS ATOMISTAS 
 Demócrito foi o primeiro filósofo significativo a nascer no conti-
nente grego: era originário de Abdera, no extremo nordeste do territó-
rio. Foi discípulo de Leucipo, acerca de quem pouco se sabe. Na anti-
guidade, os dois filósofos são frequentemente mencionados em con-
junto, e o atomismo que os tornou a ambos famosos foi provavelmente 
criação de Leucipo. Aristóteles conta-nos que Leucipo tentou reconci-
liar os dados dos sentidos com o monismo eleático, isto é, com a teoria 
de que havia apenas um Ser eterno e imutável. 
 
Leucipo pensava ter uma teoria que estava de acordo com a percepção 
dos sentidos, que não iria abolir o nascer, nem a morte, nem o mov i-
mento, nem a multiplicidade das coisas. Isto concedia ele às aparên-
cias, concedendo àqu eles que defendem o uno que o movimento é 
impossível sem o vazio, que o vazio é Não-Ser e não parte do Ser, por-
que o Ser era um plenum absoluto. Mas não havia unicamente um tal 
Ser, mas muitos, infinitos em número e invisíveis devido à pequenez da 
sua ma ssa. 
 
 Contudo, não mais do que uma linha de Leucipo sobreviveu intacta. 
Para termos acesso ao conteúdo da teoria atómica, temos de recorrer 
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ao que é possível saber a partir do seu discípulo. Demócrito era um 
polímato e o prolixo autor de quase 80 tratados sobre temas que iam 
desde a poesia e a harmonia à táctica militar e à teologia babilónica. 
Mas é sobretudo pela sua filosofia natural que é conhecido. Conta-se 
que Demócrito dizia preferir descobrir uma só explicação científica a 
tornar-se rei dos Persas. Mas era também modesto nas suas aspirações 
científicas: «Não tentes saber tudo», dizia ele, «senão vais acabar por 
nada saber». 
 A característica fundamental do atomismo de Demócrito era a de 
que a matéria não era infinitamente divisível. De acordo com o ato-
mismo, se tomarmos uma porção de qualquer tipo de matéria e a 
dividirmos tanto quanto pudermos, teremos de parar em alguma altu-
ra, naquela altura em que chegarmos a fragmentos tão ínfimos que 
sejam indivisíveis. O argumento que levou a esta conclusão parece ter 
sido filosófico e não experimental. Se a matéria fosse divisível até ao 
infinito, suponhamos então que esta divisão foi feita \u2014 pois se a maté-
ria for genuinamente divisível deste modo, nada de incoerente haverá 
nesta suposição. Qual o tamanho dos fragmentos que resultam