Parasitologia 2 - Fernando Zanette
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Parasitologia 2 - Fernando Zanette


DisciplinaInternato Médico IV – Saúde do Adulto – Clínico3 materiais38 seguidores
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querda) 
 Cisticercose Humana 
A cisticercose humana se qualifica como uma doença causada pela ingestão 
acidental de ovos de helmintos da família Taenidae, em especial a Taenia solium, os 
quais se desenvolverão em cisticercos no corpo do homem, fazendo com que este 
assuma, grosseiramente, a posição de hospedeiro intermediário no lugar do suíno. A 
gravidade da doença depende muito da região infectada \u2013 podendo afetar, basicamente, 
qualquer tecido corporal -, e, no momento em que os embriões se alojam no cérebro, a 
afecção recebe a denominação especial de neurocisticercose, um quadro de intensa 
gravidade e que coloca a vida do paciente em alto risco. 
 Morfologia 
Como já falado na seção teníase, o cisticerco se enquadra como a larva da 
Taenia solium. Ele tem formato arredondado ou ovoide, com cápsula protetora translúcida, podendo medir até 15mm 
de comprimento e 8mm de largura. O cisticerco apresenta, em seu interior, um escólex invertido. 
 Transmissão 
Podemos citar, essencialmente, três maneiras de infecção pela cisticercose. 
 Autoinfecção externa: processa-se quando um portador de T. solium elimina ovos e proglotes e os leva, 
acidentalmente, à boca por meio de mãos contaminadas. 
 Autoinfecção interna: esta, por outro lado, pode 
ocorrer durante vômitos ou movimentos retroperistálticos do 
intestino, quando as proglotes grávidas ou os ovos de T. solium 
atingem o estômago, sofrem ação do suco gástrico e promovem a 
ativação das oncosferas no intestino delgado, gerando um ciclo 
autoinfectante. 
 Heteroinfecção: por fim, a heteroinfecção se manifes-
ta quando o homem ingere os ovos de T. solium por meio de água 
ou alimentos contaminados. 
 Ciclo biológico 
Ao ingerir os ovos ou anéis de T. solium, o homem assume 
\u2013 como já dito \u2013 o papel de hospedeiro intermediário e 
desenvolve a cisticercose. Nesse caso, o embrião hexacanto é 
liberado dos ovos três dias após a ingesta, penetra a mucosa 
duodenal, atinge a circulação e se aloja em tecidos e/ou órgãos 
do ser humano - como cérebro, olhos, tecido muscular e tecido 
celular subcutâneo \u2013 e forma os cisticercos. 
 Classificação científica 
Filo Platyhelmintes 
Classe Cestoda 
Ordem Cyclophyllidea 
Família Taeniidae 
Gênero Taenia 
Espécie Taenia solium 
Ciclo biológico da T. solium e cisticercose humana 
 Patogenia e sintomatologia 
A patogenia da cisticercose \u2013 como de muitas outras parasitoses \u2013 depende, de modo geral, do número, tama-
nho, fase do parasita, local infectado e das respostas 
do órgão afetado. Uma vez que os cisticercos se 
alojam nos tecidos, ele começa a captar, do 
hospedeiro, nutrientes essenciais para sua 
sobrevivência. Na fase inicial, processa-se uma 
discreta inflamação, o que gera poucos sintomas 
perceptíveis. Com a evolução gradativa da doença, a 
reação inflamatória progride e ocasiona lesão 
celular. 
Quando alojado no tecido muscular, a cisti-
cercose normalmente se manifesta na forma de dores 
à movimentação e dificuldades de locomoção, 
miosite acompanhada de febre, podendo levar a 
casos de atrofia muscular e até fibrose, além de 
cãibras e fadiga muscular; na região ocular, 
distúrbios visuais, deslocamento de retina, 
hemorragias, edema de retina e, em alguns casos 
mais graves em que o nervo óptico é atingido, até cegueira; na medula espinal, tende a produzir compressão medular; 
na região subcutânea, os cisticercos criam nódulos que são facilmente palpáveis; no músculo cardíaco, palpitações e 
dispneia; 
Quando os cisticercos se alojam no sistema nervoso 
central, pode acarretar lesões nos nervos, vasos, meninges e 
ventrículos, promovendo a redução da luz dos vasos bem 
como a obstrução dos forames ventriculares, o que pode levar 
a casos de hidrocefalia e até mesmo morte súbita. O principal 
sintoma, nesse quadro, manifesta-se como crises convulsivas \u2013 
majoritariamente na forma parenquimatosa, visto que o cisto 
provoca a formação de um granuloma no parênquima 
cerebral, responsável pela epilepsia. Outros sintomas, no 
entanto, costumam surgir, como cefaleia intensa, vômitos em 
forma de jato, marcha atáxica, deterioração intelectual, 
episódios psicóticos, diplopia (visão dupla), vertigens, 
paralisia de nervos cranianos e distúrbio de comportamento. 
 Diagnóstico 
 Clínico 
Um diagnóstico clínico de forma segura \u2013 assim como na teníase \u2013 mostra-se bastante difícil já que os sintomas 
da cisticercose se assemelham a diversas outras doenças. Para se realizar um bom diagnóstico, a anamnese detalhada 
se apresenta essencial, investigando a procedência do paciente, seus hábitos alimentares, a existência de portadores 
de teníase na família, entre outros. 
Juntamente a isso, o correto exame físico pode diagnosticar a cisticercose na região cutânea devido à formação 
dos nódulos; na região ocular, quando os humores ainda estiverem transparentes, é possível que um cisto seja 
observado já que constituem uma vesícula esférica esbranquiçada. 
Imagem histológica de neurocisticercose por cisticerco cellulosae, o cisticerco da T. 
solium 
Corte de cérebro com múltiplos cisticercos viáveis 
Na neurocisticercose, pacientes com um pequeno número de cistos se demonstram, usualmente, assintomáti-
cos, em contraposição a uma infestação maciça, a qual tende a apresentar síndrome de hipertensão intracraniana, 
com as crises epilépticas ocorrendo em grande maioria dos pacientes. 
 Laboratorial 
O diagnóstico laboratorial da cisticercose, de modo geral, pode ser feito por meio de exames de imagem como 
radiografias, tomografias, ultrassom ou ressonância magnética, com detecção dos cisticercos alojados no tecido do 
homem. Exames de coleta de anticorpos específicos para os cisticercos também podem ser realizados. Pela sua 
gravidade, daremos especial atenção aos exames voltados à neurocisticercose. 
Para a neurocisticercose, realizam-se exames citoquímicos e imunológicos do líquido cefalorraquidiano. No 
ELISA, pesquisa-se a presença de IgG e IgM no líquor. A melhor técnica para o diagnóstico dessa enfermidade se 
mostra a técnica de EITB (Immunoblot ou Enzyme-linked Immunoelectrotransfer Blot) devido à alta sensibilidade e 
especificidade. Esse teste combina elementos imunoenzimáticos com a alta resolução do decil sulfato de 
poliacrilamida (SDS-PAGE). Deve-se ressaltar que as alterações no líquor não se manifestam quando o cisticerco se 
encontra calcificado ou reabsorvido ou quando sua localização não exerce influência sobre a constituição do líquor, 
necessitando a recorrência dos exames de imagem. 
 Exames de imagem 
O diagnóstico confirmado de neurocisticercose 
se faz por meio de exames de neuroimagem. Partindo 
dos exames de menor complexidade e custo, o raio X 
pode ser utilizado, contudo somente cisticercos 
calcificados \u2013 que podem surgir anos após a infecção \u2013 
são passíveis de observação por esse método. A 
tomográfica computadorizada e a ressonância 
nuclear magnética do crânio se demonstram técnicas 
de imagem mais empregadas por possibilitarem a 
visualização do número e da identificação do 
cisticerco em diversos estágios de desenvolvimento, 
caracterização das formas larvárias e alterações 
anatomofisiológicas resultantes da presença dos ovos 
no sistema nervoso. 
A tomografia computadorizada salienta-se como o método de escolha para estudo de pacientes com suspeita 
de neurocisticercose por identificar microcalcificações típicas da fase crônica. A ressonância magnética, por sua 
vez, caracteriza-se como mais sensível quando os cisticercos são pequenos, de localização intraventricular e 
subaracnoide. 
 Diagnóstico diferencial: na neurocisticercose, deve-se fazer o diagnóstico diferencial com distúrbios 
psiquiátricos e neurológicos (principalmente