U - Estatuto da Cidade
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U - Estatuto da Cidade


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informações.
Desta forma, o guia não pretende esgotar as possibilidades de leitura da lei, mas, sempre que
possível, contextualizar as informações e indicar metodologias e procedimentos de aplicação,
discutindo suas implicações.
O processo de formulação e negociação do Estatuto da Cidade foi bastante longo e coincidiu
com um movimento de renovação de práticas de planejamento local no país. Assim, boa parte
do conteúdo do Estatuto foi experimentada concretamente por municípios. Por esta razão
incluímos no Guia referências a algumas destas experiências municipais apresentando não só
sua formulação, mas procurando trazer também alguma informação sobre os processos de
implementação e seus resultados.
Os exemplos mencionados não cobrem, de forma alguma, a totalidade das práticas locais,
nem foram selecionados por qualquer critério de qualificação do tipo \u201cmelhores práticas\u201d. São
apenas referências que exemplificam as diferentes formas de interpretar e aplicar os
instrumentos, procurando ilustrar os argumentos que demonstram, em cada um dos itens
analisados, as conseqüências advindas desta interpretação. Estes exemplos estão incluídos
ao longo do Guia sob a forma de caixas de texto.
O Guia está organizado em três grandes partes: uma primeira de introdução geral à discussão;
uma segunda parte contendo os comentários da lei propriamente ditos; e uma terceira, de anexos.
A INTRODUÇÃO qualifica a realidade urbana e a prática de planejamento e gestão sobre a qual
o Estatuto da Cidade pretende incidir. Aponta também o processo de renovação que vem
ocorrendo nas últimas décadas e que se consolida com a entrada em vigência do Estatuto.
A segunda parte \u2013 Estatuto da Cidade: os INSTRUMENTOS \u2013 está organizada em seções,
organizando os comentários de todos os artigos da lei de acordo com a natureza do
instrumento: diretrizes gerais, Plano Diretor, instrumentos de indução, instrumentos de
financiamento, instrumentos de regularização, instrumentos de democratização e disposições
gerais. Para cada uma das seções, são apresentados \u201cCOMENTÁRIOS URBANÍSTICOS\u201d e
\u201cCOMENTÁRIOS JURÍDICOS E ADMINISTRATIVOS\u201d, que são diferenciados no texto através do tipo de
fonte utilizada e cor da página.
Os COMENTÁRIOS URBANÍSTICOS estão sempre organizados da seguinte forma: O QUE É O INSTRU-
MENTO e sua origem (o conceito e de onde surgiu este conceito), COMO IMPLEMENTAR (passos e
requisitos necessários para definir a forma específica de aplicação na cidade), ALERTAS (cuidados
que se deve tomar com possíveis efeitos negativos), TRAJETÓRIA DE IMPLEMENTAÇÃO DO INSTRUMENTO
(quais municípios já os aplicaram, com quais resultados).
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Os \u201cCOMENTÁRIOS JURÍDICOS E ADMINISTRATIVOS\u201d, apresentados nas páginas de cor cinza, estão sempre
organizados em três partes: o FUNDAMENTO CONSTITUCIONAL e legal do instrumento, as PROVIDÊNCIAS
LEGAIS e administrativas que devem ser tomadas para sua aplicação e a RESPONSABILIDADE DOS ENTES
FEDERATIVOS e dos agentes públicos envolvidos na aplicação do instrumento.
É importante ressaltarmos que o Guia do Estatuto da Cidade deverá servir para públicos de
várias áreas de atuação profissional e social. Dessa maneira, constitui mais uma obra de
referência do que um texto corrido, a ser lido do princípio ao fim. O leitor perceberá que o
Guia eventualmente retornará a temas já antes tratados, sempre que uma abordagem ou
esclarecimento específico forem necessários.
A terceira parte \u2013 ANEXOS \u2013 contém um CATÁLOGO apresentando a referência de cada um
dos instrumentos nos artigos do Estatuto da Cidade, assim como as leis federais que se
relacionam a estes. Em seguida é apresentada uma LISTAGEM \u2013 preliminar \u2013 de leis municipais
que contêm uma formulação local dos instrumentos, seguida por uma tabela que indica
as legislações municipais aplicadas. Nos anexos apresentamos também um LEVANTAMENTO
BIBLIOGRÁFICO que incorpora não apenas os textos e livros citados ao longo do Guia, mas
também outras obras e documentos, constituindo um ponto de partida para uma pesquisa
na área. Finalmente, os anexos contêm a íntegra do capítulo de Política Urbana da
Constituição Federal, da Lei no 10.257/2001 e a Medida Provisória no 2.220.
A organização deste Guia procurou atender simultaneamente a demandas de apoio e leitura
de várias ordens, que foram sendo captadas através da participação do Instituto Pólis nas
atividades do Fórum Nacional de Reforma Urbana e em encontros, seminários, debates,
assessorias e cursos sobre o tema. Reflete, portanto, a contribuição de um grande número
de pessoas \u2013 muito além daquelas que estão citadas nos créditos ou notas de rodapé. Agrade-
cemos aqui a todos que com suas lutas, reflexões, questões, observações e práticas
construíram o conhecimento que se encontra registrado nestas páginas.
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INTRODUÇÃO
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1 | O QUE É O ESTATUTO DA CIDADE
Durante o processo de consolidação da Constituição de 1988, um movimento multissetorial e
de abrangência nacional lutou para incluir no texto constitucional instrumentos que levassem à
instauração da função social da cidade e da propriedade no processo de construção das cidades.
Retomando a bandeira da Reforma Urbana, este movimento reatualizava, para as condições de
um Brasil urbanizado, uma plataforma construída desde os anos 60 no país. As tentativas de
construção de um marco regulatório a nível federal para a política urbana remontam às propostas
de lei de desenvolvimento urbano elaboradas pelo então Conselho Nacional de Desenvolvimento
Urbano nos anos 70, que resultaram no PL no 775/83.
Como resultado dessa luta, pela primeira vez na história, a Constituição incluiu um capítulo
específico para a política urbana, que previa uma série de instrumentos para a garantia, no
âmbito de cada município, do direito à cidade, da defesa de da função social da cidade e da
propriedade e da democratização da gestão urbana (artigos 182 e 183).
No entanto, o texto constitucional requeria uma legislação específica de abrangência nacional:
para que os princípios e instrumentos enunciados na Constituição pudessem ser
implementados, era necessária, por um lado, uma legislação complementar de regulamentação
dos instrumentos; por outro, a construção obrigatória de planos diretores que incorporassem
os princípios constitucionais em municípios com mais de 20.000 habitantes.
Iniciou-se, então, na esfera federal, um período de mais de uma década de elaborações,
negociações, idas e vindas em torno de um projeto de lei complementar ao capítulo de política
urbana da Constituição. Esse projeto de lei (Projeto de Lei no 5.788/90), que ficou conhecido
como o Estatuto da Cidade, foi finalmente aprovado em julho de 2001, e está em vigência a
partir de 10 de outubro desse mesmo ano. A partir de agora, o capítulo de política urbana da
Constituição de 1988, em combinação com o Estatuto da Cidade e o texto da Medida Provisória
no 2.220, dão as diretrizes para a política urbana do país, nos níveis federal, estadual e municipal.
Por outro lado, vários municípios não esperaram a promulgação desta lei federal para instaurar
práticas e implementar os princípios expressos na Constituição, de tal forma que, durante a
década de 90, enquanto se discutia e construía o Estatuto, acontecia em âmbito local, um
processo rico de renovação no campo da política e do planejamento urbanos. A redação,
finalmente aprovada e sancionada, de certa maneira, incorpora esta experiência local,
consagrando práticas e instrumentos já adotados, além de abrir espaço para outros que, por
falta de regulamentação federal, não puderam ser implementados.
Este Guia do Estatuto da Cidade propõe-se a auxiliar a todos aqueles que, em sua prática
cotidiana, deparam-se com os desafios de conhecer e implementar as diretrizes