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eficiência nas estratégias de comunicação e instrucão, no suporte tecnológico capaz de
minimizar as desvantagens e, principalmente, nas formas diferenciadas de avaliar e intervir
no planejamento individual e coletivo.
Nessa abordagem ecológica, a mediação e a modificação do meio são fundamentais
para propiciar oportunidade de aprendizagem. O trabalho é transdisciplinar: o professor do
ensino regular identifica e registra as necessidades educacionais especiais em conjunto com
o professor especializado de apoio, a família e a equipe de suporte (fonoaudiólogo, terapeuta
ocupacional, fisioterapeuta, psicólogo), avaliando as necessidades específicas e sugerindo
ajudas, adaptações e recursos que facilitam o processo de interação, comunicação e
aprendizagem da criança.
Mesa e cadeira adaptada por terapeuta ocupacional (T.O.).
Pais e professores no Centro de Apoio Pedagógico de Laramara, SP.
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5. A importância da interação e comunicação na educação e inclusão de
crianças com deficiência múltipla em creche e pré-escola
Para inclusão de crianças com múltipla deficiência em creches e pré-escolas há
necessidade de professores empenhados na interação, acolhida e escuta dessas crianças,
interessados em compreender suas necessidades e desejos, pessoas disponíveis para
interpretar suas formas de expressão e comunicação que, muitas vezes, as diferenciam das
demais crianças da mesma faixa etária. E, principalmente, professores desejosos e
empenhados em querer ajudá-las.
Nesse sentido, a adequação da proposta pedagógica para atender as necessidades
específicas das crianças com múltipla deficiência na educação infantil precisa valorizar a
interação e comunicação, a construção do sistema de significação e linguagem, a expressão
oral e as diferentes formas de comunicação alternativas e de expressão. Isso possibilita a
independência e o desenvolvimento da autonomia moral e intelectual desses educandos.
Trabalhar com as \u201cdiferenças\u201d: alunos com diferentes níveis de desenvolvimento,
aprendizagem e, diferentes maneiras de interagir e comunicar-se, crianças com possibilidades,
interesses e necessidades diversificadas, torna-se para o professor uma tarefa desafiadora.
De um lado, é uma situação que pode apresentar muitas dificuldades iniciais, angústias,
conflitos, desequilíbrios; por outro lado, pode ser uma situação de aprendizagem e crescimento,
tanto para os alunos quanto para o professor. Essa pode ser, portanto, uma experiência criadora
no sentido da construção do conhecimento por formas e caminhos diversificados, pois motiva
e impulsiona buscas, trocas positivas de interação, de ajuda e cooperação.
Ter alunos com diferentes níveis e estilos de aprendizagem possibilita ao professor,
aproveitar essas diferenças para promover situações de aprendizagem que provoquem
desafios, problematizações, questões a serem discutidas, investigadas. Isso deve levar a escola
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como um todo à reflexão conjunta, a buscar novas formas de interação e comunicação para
a resolução de problemas no cotidiano escolar.
Há, entretanto, crianças com limitações e dificuldades reais que não podem ser negadas;
necessitam portanto de eficiente mediação no processo de interação e comunicação, de
adaptação e modificação no currículo e no ambiente como forma de compensar as dificuldades
e minimizar as defasagens.
O movimento de inclusão não atribui a incapacidade apenas à criança, mas às limitações
produzidas na interação com o meio, entendidas como tempo e espaço onde a criança vive,
interage, brinca, comunica-se, aprende e se socializa.
Conhecer, então, as características do ambiente familiar e escolar onde o aluno se
desenvolve, as formas de interação e expressão utilizadas pelo aluno, pelos colegas e seus
cuidadores, conhecer também os interesses, necessidades e experiências vividas constituem-
se em valiosos pontos de partida para adaptar as atividades às demandas das crianças com
deficiência múltipla.
A necessidade básica do ser humano, independentemente da habilidade ou nível de
desenvolvimento cognitivo, é de comunicação. Isso significa compartilhar sentimentos,
desejos, ações, experiências e pensamentos.
As crianças com múltipla deficiência geralmente apresentam dificuldade de comunicar
seus pensamentos, desejos, intenções. A maior parte desses alunos não apresenta linguagem
verbal, mas pode comunicar-se por gestos, olhar, movimentos corporais mínimos, sinais,
objetos e símbolos. Necessitam, para isso, de pessoas interativas, receptivas, que ofereçam
apoio e incentivem esse processo de comunicação não-verbal. Brodin (1991) observou que
essas crianças tomam pouca iniciativa de comunicação espontânea, talvez pelo fato de terem
pouca experiência nesse sentido, e porque os adultos tendem a superprotegê-las, adiantado-
se às suas necessidades, sem esperar que haja algum esforço para comunicar-se.
Estudiosos da deficiência múltipla, Nielsen (1983) e Akesson & Brodin (1991) afirmam
que o adulto se converte na parte mais forte da interação, tende a falar sem esperar resposta
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ou sem dar tempo suficiente para que a criança possa produzir a resposta, reduzindo, assim,
a capacidade responsiva e a intenção comunicativa.
O grande desafio que se impõe aos centros de educação infantil no Brasil hoje constitui-
se na transformação da cultura pedagógica. Isso requer a compreensão das possibilidades
de desenvolvimento e aprendizagem, e a identificação dos talentos, necessidades e limites
de todas as crianças, considerando suas diferenças e os mecanismos funcionais de cada
uma, conhecendo seus interesses, desejos e experiências vividas.
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6. Currículo: eixos da proposta pedagógica
A organização e estruturação do currículo, na educação infantil, compreendem dois
eixos de experiências: formação pessoal e social (identidade, autonomia, brinquedo,
movimento e conhecimento de si e do outro) e conhecimento do mundo (diferentes formas
de linguagem e expressão, artes, música, linguagem oral, escrita e matemática, conhecimento
da natureza e sociedade).
Kuhlmann (apud Faria & Palhares,1999), analisando esses eixos da educação infantil,
afirma que tomar a criança como ponto de partida da proposta pedagógica exigiria
compreender que, para ela, conhecer o mundo envolve o afeto, o prazer, o desprazer, a fantasia,
o brincar, o movimento, a poesia, as ciências, as artes plásticas e dramáticas, a linguagem, a
música e a matemática de forma integrada, pois a vida é algo que se experimenta por inteiro.
Essa mesma proposta pedagógica e organização de currículo são essenciais para as
crianças com múltipla deficiência. Não há necessidade de um currículo especial. Há, sim,
necessidade de ajustes nos objetivos, adaptações nos conteúdos e atividades, avaliações
diferenciadas para que esses alunos possam experimentar a vida por inteiro.
Kishimoto (2000), apontando os problemas e perspectivas da educação infantil, diz que
a inclusão de brinquedos no interior da escola requer sua organização de forma peculiar,
sem sofisticação, adaptada aos interesses e necessidades das crianças, favorecendo a
recriação da brincadeira, a cooperação e a expressão da criança.
Sugere, ainda, o uso das linguagens expressivas de forma integrada: artes visuais,
plásticas, música, dança, teatro, movimento e literatura infantil, que devem ser enfatizadas
na prática pedagógica da educação infantil.
O \u201cbrincar\u201d deve ser o eixo do currículo e da proposta pedagógica. O brincar, o
movimento, as histórias e a arte devem perpassar todos os conteúdos do currículo para que
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não ocorra a escolarização precoce ou didatização do lúdico. O grande obstáculo para inclusão
de crianças com múltipla deficiência têm sido a antecipação da escolarização, com ênfase no
processo de produção da leitura