Teoria_Geral_do_Crime_-_1a_Parte
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verificação de como se relacionam e se organizam as várias figuras típicas e os dispositivos de natureza jurídica genérica, segundo uma ordem hierárquica, de modo que uns excluem os outros.
O problema apresenta enorme relevância prática porque, quando aparece, tratando-se de concorrência de preceitos primários das normas incriminadoras, a solução irá ligar o agente a uma ou diversa sanctio juris, e as penas nem sempre são iguais, qualitativa e quantitativamente.
A maioria dos autores trata o conflito aparente de normas como questäo de aplicação da lei penal. Todavia, por motivos de natureza prática e didática, o tema será aqui tratado dentro no estudo da tipicidade.
O conflito aparente de normas não se confunde com o concurso de crimes. Neste existe concorrência real de normas, pois há a violação de várias normas ou violação sucessiva da mesma lei repressiva (assim ocorre no concurso material, formal e crime continuado). Já no concurso aparente de normas, há a violação de apenas uma norma.
O conflito aparente de normas ocorre quando somados os seguintes fatores:
unidade de fato;
pluralidade de normas;
aparente aplicação de mais de uma norma ao mesmo fato;
efetiva aplicação de somente uma das normas.
Ocorre, portanto, quando a conduta parece subsumir-se em duas ou mais normas penais incriminadoras, quando, na verdade, subsume-se em uma só.
Diz-se aparente porque só seria real se a ordem jurídica não resolvesse a questão. Mas a ordem jurídica a resolve.
São três os princípios que resolvem os conflitos aparentes de normas:
princípio da especialidade;
princípio da subsidiariedade;
princípio da consunção.
Alguns autores incluem, ainda, um quarto princípio: o da alternatividade (mas este, como será visto, não trata de conflito aparente de normas).
Princípio da especialidade
Diz-se que uma norma penal incriminadora é especial em relação a outra, geral, quando possui em sua definição legal todos os elementos típicos desta, e mais alguns, de natureza objetiva ou subjetiva, denominados especializantes, apresentando, por isso, um minus ou um plus de severidade. A norma especial, ou seja, a que acresce elemento próprio à descrição legal do crime previsto na geral, prefere a esta: lex specialis derogat generali.
Afasta-se, desta forma, o bis in idem, pois o comportamento do sujeito só é enquadrado na norma incriminadora especial. Nestes casos, há um tipo especial, contendo um "crime específico", e um tipo genérico, descrevendo um "crime genérico". Aquele prefere a este.
O princípio da especialidade possui uma característica importante: a prevalência da norma especial sobre a geral se estabelece in abstracto, pela comparação das definições abstratas contidas nas normas. Assim, por exemplo, a norma que define o infanticídio é especial em relação à que descreve o homicidio, que é geral. O tipo do infanticídio contém os elementos da figura típica do homicídio e mais alguns ("sob a influência do estado puerperal", "o próprio filho", "durante o parto ou logo após"), que são considerados especializantes.
No caso do latrocínio, exposto acima, a figura típica qualificada prevista no art. 157, § 3º, in fine, é especial em face da norma incriminadora do homicídio qualificado pela conexão teleológica (art. 121, § 2º, V). A norma genérica faz referência a "outro crime", i. e., delito indeterminado e sem especificação, enquanto o art. 157, § 3º, in fine, contém um crime especifíco: morte para subtrair.
O tipo fundamental é excluído pelo qualificado ou privilegiado, que deriva daquele. Nestes termos, o furto simples (art. 155, caput) é excluído pelo privilégio do (art. 155, § 2º); o estelionato simples (art. 171, caput) é excluído pelo qualificado (art. 171, § 3º) etc.
O disposto no art. 12 do CP (art. 12 \u2013 "As regras gerais deste Código aplicam-se aos fatos incriminados por lei especial, se esta não dispuser de modo diverso") tem fundamento no princípio da especialidade. Lembre-se que tal dispositivo refere-se às regras do Código e das normas extravagantes, atribuindo prevalência a estas, se diversas das determinadas pelo estatuto codificado. Desta forma, se a lei especial, incriminando certos fatos, ou considerando determinadas figuras típicas sob ângulo diferente, ditar preceitos particulares para a sua própria aplicação, em contraposição às normas do Código, o conflito apenas aparente de normas será resolvido pelo princípio da especialidade.
Princípio da subsidiariedade
Há relação de primariedade e subsidiariedade entre normas quando descrevem graus de violação do mesmo bem jurídico, de forma que a infração definida pela subsidiária, de menor gravidade que a da principal, é absorvida por esta: lex primaria derogat legi subsidiariae.
A infração definida pela norma subsidiária, chamada \u201ccrime famulativo\u201d ou "soldado de reserva" (expressão de Nelson Hungria), não é só de menor gravidade que a da principal, mas dela se diferencia em relação à maneira de execução, pois é uma parte desta. A figura típica subsidiária está contida na principal. Assim, a figura típica do crime de ameaça (art. 147) está incluída no tipo de constrangimento ilegal (art. 146).
A subsidiariedade pode ser:
expressa (ou explícita);
tácita (ou implícita).
Ocorre a subsidiariedade expressa quando a norma, em seu próprio texto, subordina a sua aplicação à não-aplicação de outra, de maior gravidade punitiva. Exs.:
O art. 132 do CP, após descrever em seu preceito primário o crime de "perigo para a vida ou saúde de outrem", impõe no preceito secundário a pena de detenção, de três meses a um ano, "se o fato não constitui crime mais grave". O legislador, de forma explícita, diz que a norma do art. 132 só é aplicável se o fato näo constitui infração de maior gravidade, que pode ser tentativa de homicídio, perigo de contágio de moléstia grave, abandono de incapaz etc. (normas primárias);
O art. 129, § 3º, define o crime de "lesão corporal seguida de morte", com a seguinte proposição: "Se resulta morte e as circunstâncias evidenciam que o agente não quis o resultado, nem assumiu o risco de produzi-lo". Impõe a pena de reclusão, de quatro a doze anos. A norma é subsidiária, pois só é aplicável quando inexistente o dolo do homicídio. Presente este, aplica-se a norma do art. 121.
Podem ser citados, ainda, dentre outros, os casos dos arts. 238, 239 e 307 do CP.
Por seu turno, há subsidiariedade tácita quando uma figura típica funciona como elementar ou circunstância legal específica de outra, de maior gravidade punitiva, de forma que esta exclui a simultânea punição da primeira. Neste caso, as elementares de um tipo penal estão contidas em outro, como elementares ou circunstâncias. Diz-se implícita porque a norma subsidiária não determina, expressamente, a sua aplicação à não-ocorrência da infração principal. Exs.:
O crime de dano (art. 163) é subsidiário do furto qualificado pela destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa (art. 155, § 4º, I). Os elementos típicos do dano funcionam como circunstância qualificadora do furto;
A ameaça (art. 147) é crime famulativo do constrangimento ilegal (art. 146). A ameaça funciona como elementar do constrangimento ilegal;
Princípio da consunção
Ocorre a relação consuntiva, ou de absorção, quando um fato definido por uma norma incriminadora é meio necessário ou normal fase de preparação ou execução de outro crime, bem como quando constitui conduta anterior ou posterior do agente, cometida com a mesma finalidade prática atinente àquele crime. Nestes casos, a norma incriminadora que descreve o meio necessário, a normal fase de preparação ou execução de outro crime, ou a conduta anterior ou posterior, é excluída pela norma a este relativa: lex consumens derogat legi consumptae.
O comportamento descrito pela norma consuntiva constitui a fase mais avançada na concretização da lesão ao bem jurídico, aplicando-se, entäo, o princípio de que major absorbet minorem.
Nessa relaçäo de consunção situam-se as normas em círculos concêntricos, dos quais o maior se refere à norma consuntiva.
Na relaçäo consuntiva
everaldo
everaldo fez um comentário
otimoooooooo
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Fabiana
Fabiana fez um comentário
O melhor !????✅????
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Wendell
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Ótimo!!!
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