A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
12 pág.
AARÃO REIS, Daniel   Ditadura e Sociedade, as reconstruções da memória

Pré-visualização | Página 3 de 8

reformistas foram adqui-
rindo um claro cunho nacionalista, anti-imperialista (leia-se: contra a prepon-
derância dos capitais estrangeiros), e estatista, dada a importância conferida 
ao Estado, e ao lugar central que ocuparia, nas propostas de reorganização da 
economia e da sociedade. A partir de 1963, quando Jango recuperou enfim os 
plenos poderes presidenciais, e considerando o imobilismo das elites e classes 
dominantes, que não pareciam sensíveis às demandas populares, os movimen-
tos radicaliiaram-se cada vez mais, empolgando crescentes setores sociais. No 
início do ano seguinte, já se podia falar num movimento reformista revolucio-
nário,ª principalmente se consideradas as alas mais radicais do Partido Traba-
lhista Brasileiro/PTB, do PCB/Partido Comunista Brasileiro, da Frente Parla-
mentar Nacionalista e da Frente de Mobilização Popular, mini-parlamento al-
ternativo construído pelas forças populares mais decididas. No âmbito das es-
8 Quer-se referir com o termo um processo, ou um movimento, que, embora ainda 
comprometido com reformas, as apresenta de tal forma que sua realização tende a 
implicar rupturas revolucionárias. A rigor, nos processos históricos concretos, não 
há, nem nunca houve, uma muralha da China entre reforma e revolução. Basta 
atentar p~ra as grandes revoluções do século 20. O conceito no Brasil foi consagra-
do por Carlos Nelson Coutinho, mas pode ser referido, a meu ver, à conjuntura po-
lítica anterior à instauração da ditadura militar no Brasil e, especialmente, às alas 
radicais dos movimentos sociais que lutavam pelas reformas de base. No entanto, 
mesmo no interior do PCB, explicitavam-se as relações entte reforma e revolução. 
Cf. DIAS, Giocondo. Sentido revolucionário da luta pelas reformas. Novos Rumos, 
n. 255, 10/15 jan. 1964. Cf. igualmente FERREIRA, 2004. 
35 
ParuI 
História e Mnnória 
querdas organizadas, como expressão do processo em curso, e o incentivando, 
multiplicavam-se organizações políticas claramente definidas pelo enfrenta-
mento revolucionário: Partido Comunista do Brasil/PC do B, Ação Popu-
lar/ AP, Movimento Revolucionário Tiradentes/MRT, Ligas Camponesas, Mo-
vimento Nacionalista Revolucionário/MNR, Organização Marxista Revolu-
cionária/ORM, entre outras, atestam o fenômeno. Com imprensa própria e 
grande atuação junto aos movimentos sociais, apareciam no cenário com um 
peso desproporcional ao número efetivo de seus militaptes, pressionando as 
forças políticas mais tradicionais. a radicalizarem também suas posições: 
Nos primeiros meses de 1964, configurava-se uma clara ofensiva políti-
ca reformista-revolucionária dos movimentos mais radicalizados. Crescia a 
descrença na possibilidade de que as reformas pudessem ser conquistadas nas 
margens legais. As eleições realizadas em outubro de 1962, para o parlamento 
federal e para um certo número de governos estaduais, evidenciaram o peso 
considerável das direitas e das forças centristas, que resistiam às reformas de 
base. Inspiradas pelas revoluções .vitoriosas em várias partes do mundo, em 
particular pelos êxitos aparentes da revolução c;ub.ana, e também pelos cho-
ques e enfrentamentos travados em diversas tegiões do terceiro mundo, qs se-
tores e organizações mais radicais ousavam já propostas de ruptura. Brizola 
falava num inevitável desfecho, atribuindo ao termo conotações apocalípticas. 
No congresso de fundação da Confederação Nacional dos Trabalhadores da 
Agricultura/CONTAG, apareceu e foi ovacionada uma palavra de ordem que 
sintetizava diagnósticos e prognósticos: reforma agrária na lei ou na marra. 1º 
Estavam longe as esquerdas de então, em particular os setores mais ra-
dicais, da plataforma de resistência de agosto de 1961. A posição defensiva, de 
defesa da legalidade, metamorfoseara-se em posição ofensiva, e, se fosse o caso, 
contra a lei. 
36 
9 Cf. as publicações do PCB: A Voz Operária, e, particularmente, o semanário Novos 
Rumos, editado a partir de 1959; as do PC do B, especialmente A Classe Operária, e 
as da Organização Revolucionária Marxista, em particular a revista Marxismo mi-
litante e o jornal Política Operária. 
10 A palavra de ordem foi amplamente agitada no congresso de fundação da Confe-
deração Nacional dos Trabalhadores na Agricultura/CONTAG e difundida, por 
toda a imprensa de esquerda, mesmo pelos partidos mais moderados de esquerda, 
como o PCB. 
Capítulo 2 
Ditadura e soâedade; as reconstruções da memória 
As direitas, amplamente derrotadas em agosto de 1961, cedo se rearti-
cularam. De início de forma lenta, ainda confusas e desorientadas, pouco a 
pouco, ganhando ritmo e vigor. Os partidos conservadores começaram a se 
mover, entre os quais, a União Democrática Nacional/UDN, com seus dois lí-
deres de estatura nacional, Carlos Lacerda e Magalhães Pinto, governadores 
respectivamente da então Guanabara e de Minas Gerais; o Partido Social Pro-
gressita/PSP, liderado por Adhemar de Barros, dáí a pouco eleito governador 
de São Paulo, em 1962; e o próprio Partido Social Democrático/PSD, formal-
mente da base política de Jango, mas cujos setores mais radicais, de direita, 
iriam ajudar a vertebrar novas organizações políticas extra, ou supra-partidá-
rias: o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais/IPES e o Instituto Brasileiro de 
Ação Democrática/IBAD. 11 Os êxitos obtidos nas eleições de 1962, quando ga-
nharam os governos estaduais de São 'Paulo, Rio Grande do ~ul, Paraná, entre 
outros, consolidando também maioria na Câmara e no Senado federais, im-
pulsionaram as direitas, conferindo-lhes determinação e ousadia. 
Num outro plano, a Igreja Católica e sua cúpula institucional, a Con-
ferência Nacional dos Bispos do Brasil/CNBB, claramente tomavam partido 
por posições conservadoras. Tenderam a caracterizar nos movimentos popu-
lares uma inspiração, e uma dinâmica, comunizantes. O fantasma da revolu-
ção cubana assombrava: lá também uma revolução nacionalista e democráti-
ca transmudara-se numa revolução socialista e numa ditadura revolucionária, 
levando um país católico para a órbita da União Soviética, sede e centro do 
materialismo ateu. Ora, segundo a encíclica de Pio XI, não formalmente revo-
gada pelo aggiornamento promovido por João XXIII, o comunismo era intrín-
secamente mau_.12 Não viria ele, na esteira das reformas de base, assolar o maior 
país católico do mundo, a Terra da Santa Cruz? Não se pode dizer que a Igre-
11 O estudo de René Dreifuss,.já citado, cf. n. 7, desvendou as articulações entre lide-
ranças civis, religiosas e militares qtie levaram à formação e à ação destas organiza-
ções, assim como o impacto que tiveram na sociedade brasileira. Cf. igualmente o 
estudo organizado por ASSIS, 2001. 
12 A encíclica Divinis Redemptoris, de 1937, afirmava: "Velai, Veneráveis Irmãos, para 
que se não deixem iludir os fiéis. Intrinsecamente mau é o comunismo e não se 
pode admitir, em campo algum, a colaboração recíproca, por parte de quem quer 
que pretenda salvar a civilização cristã". Agradeço a referência ao colega e amigo 
Rodrigo Motta. 
37 
Parte l 
História e Memória 
ja, como um todo, derivou para posições de direita. Mas é fato que a Institui-
ção, na grande maioria, e na cúpula, adotou posições de resistência às refor-
mas e aos movimentos que as defendiam. Não gratuitamente, logo depois da 
vitória do golpe mijitar, de março de 1964, a CNBB abençoaria, com sua au-
toridade, os vitoriosos. 
Quanto às Forças Armadas, e apesar das mutações efetuadas por Jan-
go nos principais comandos, passariam a questionar, de forma .gradativa, o 
rumo dos acontecimentos, principalmente a partir do momento. em que os 
graduados das diversas forças incorporaram-se ao movimento das reformas 
de base. Ameaçados nos fundamentos da disciplina e da hierarquia, condi-
ções indispensáveis para o exercício de comando de quaisquer forças milita-
res regulares, os oficiais da Marinha, da

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.