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AARÃO REIS, Daniel   Ditadura e Sociedade, as reconstruções da memória

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Aeronáutica e do Exército pressio-
navam Jango a se afastar de m.ovimentos que tendiam a sair dos marcos ins-
titucionais. Dois episódios contribuiriam para consolidar grande parte da 
oficialidade em posições de direita, para as quais, aliás, já se encontravam 
vocacionadas, pela própria natureza das instituições a que serviam: a insur-
reição dos sargentos de Brasília, em setembro de 1963, e a insubordinação da 
associação dos marinheiros no Rio de Janeiro, em março de 1964." 
Restaria mencionar os capitalistas, pudicamente conhecidos como 
empresários, cujo papel absolutamente crucial, embora desvendado, ainda 
continua não merecendo a atenção dispensada.1• Temiam que as reformas de 
base, uma vez implementadas, subvertessem os padrões habituais de domi-
nação e as taxas de lucro. Foram peças decisivas na ar'ticulação do IPES e do 
IBAD, no comando da grande mídia - jornais e televisões-, no financiamen-
to de projetos e de organizações e na montagem dos contactos e alianças na-
cionais e internacionais. 
Toda esta frente, bastante heterogênea, constituiu um verdadeirn movi-
mento civil, expresso em encontros, comícios e nas famosas Marchas da Famí-
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13 Cf. PARUCKER, 1992. E tambéi:n CAPITANI, 1997. 
14 Os trabalhos recentemente publicados por Elio Gaspari, citados, comprovando o 
que DREIFUSS, 1981, também já havia assinalado, evidenciam a ativa participação 
dos capitalistas nacionais na urdidura e desencadeamento do movimento golpista 
e, mais tarde, no financiamento da polícia política. Sem dúvida, também foram eles 
os grandes beneficiários do milagre econômico brasileiro. Apesar disso, continuam 
sendo relativamente "esquecidos" quàndo se exercita a memória sobre o período da 
ditadura militar. 
Capitulo 2 
Dita.dura e sociedade: as reconstruções da memória 
lia com Deus e pela Liberdade, reunin.do milhões de pessoas em todo o país, 
fundamentais para legitimar as posições favoráveis à intervenção militar gol-
pista. Conferiram bases sociais à aliança entre o Dinheiro, a Cr~z e a Espada 
que derrubou o governo Jango. 
O interessante a notar, no entanto, é que as direitas, ao contrário do que 
ocorrera em agosto de 1961, apareciam agora em posições defensivas, de defe-
sa da legalidade e da democracia, justificando o golpe como um último recur-
so para salvar a democracia. De sorte que as direitas terão passado por uma 
mutação oposta à das esquerdas. Enquanto estas, inebriadas pela vitória de 
agosto de 1961, passavam à ofensiva política, e desafiavam abertamente ale-
galidade existente, aquelas situavam-se em defesa da legalidade e da ordem de-
mocrática, articulando o movimento ofensivo a partir de posições defensivas, 
embora seja certo dizer que muitas de suas forças organizadas manifestassem 
um superior desprezo pelos valores democráticos e conspirassem cada vez 
mais abertamente no sentido do golpe. 
O desfecho, como desejava e anunciava Brizola, mas em sentido contrá-
rio a suas expectativas, ocorreu, como se sabe, no final de março de 1964. De 
um lado, o reformismo revolucionário das esquerdas. De outro, as direitas e os 
movimentos conservadores, contra-reformistas e contra-revolucionários. Ga-
nharam desta vez as direitas, depois de mais uma série de eletrizantes batalhas 
de Itararé, resolvidas, como sempre, pela tradicional arma do telefone. A partir 
de 1 º de abril de 1964, o país entrava na longa noite da ditadura militar. 
Encerrado o embate, no campo de luta, iniciaram-se imediatamente as 
batalhas de memória. 
As direitas no poder, enquanto durou a ditadura militar, esmeraram-se 
em cultivar a memória do golpe como intervenção salvadora,'em defesa da de-
mocracia e da civilização cristã, con'tra o comunismo ateu, a baderna e a cor-
rupção. Para isto mobilizaram-se grandes meios propagandísticos e educacio-
nais.15 O esforço, no curto prazo, teve resultados apreciáveis, sem dúvida. A 
partir de um certo momento, já todos, ou quase todos, passavam a se referir 
ao golpe militar, que de fato se verificara, como revolução, como os golpistas 
15 Particularmente no período em que foi presidente o general Garrastazu Médici, or-
ganizou-se uma Assessoria de Propaganda, a AÊRP/Assessoria Especial de Relações 
Públicas, que desempenhou um grande papel nas campanhas publicitárias do 
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gostavam de referir a intervenção militar. Entretanto, progressivamente, na 
medida mesma em que a ditadura foi se tornando impopular, _e que se foi 
mostrando insustentável a versão de que uma ditadura podia salvar, ou cons-
truir, uma democracia, e que a sociedade passou cada vez mais a aderir e a 
simpatizar com os valores democráticos, _as versões de esquerda, também for-
muladas desde o momento seguinte à derrota, passaram a aparecer com mais 
vigor. Nesta memória, apagaram-se a radicalização e o confronto propostos 
pela maré reformista, sobretudo pelos setores mais radicais, desapareceu o ím-
peto ofensivo que marcara o movimento pelas reformas de base, evaporou-se 
o reformismo revolucionário. Neste quadro, as esquerdas, e Jango em particu-
lar, ressurgiram como vitimas bem intencionadas, atingidas e perseguidas pelo 
movimento golpista. A ameaça revo,fucionária, alegariam desde sempre as es-
querdas, inexistira na prática, não passara de infelizes declarações retóricas e 
metafóricas de U_!ll punhado de lideranças esquerdistas desavisadas, um fan-
tasma, uma espécie de bicho-papão, habilmente ·explorados pelas direitas na 
manipulação deste profundo sentimento humano, que, posto a serviço da po-
lítica, pode gerar, segundo as circunstâncias, uma tremenda energia: o m_edo. 16 
Para desespero dos militares golpistas, estigmatizados como gorilas, estas ver~ 
sões predominariam, quase incontrastáveis, a partir dos anos 80, quando hou-
ve a redemocraticação do país. 17 
Assim, as esquerdas, derrotadas no campo dos enfrentamentos sociais, 
históricos, puderam ressurgir vitoriosas, nas batalhas de memória. 
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"Brasil Grande". Na mesma época, foram constituídas as disciplinas de Educação 
Moral e Cívica (primeiro grau), Organização Social e Política do Brasil/OSPB (se-
gundo grau) e Estudos de Problemas Brasileiros/EPB, (ensino superior), todas 
obrigatórias, e imaginadas na perspectiva de inculcar valores e propostas políticas 
à juventude brasileira. 
16 A descaracterização e a diluição da ofensiva reformista revolucionária foram am-
plamente difundidas pela imprensa de esquerda, desde o período ipi.ediatamente 
posterior à vitória do golpe. O caráter drástico da derrota serviu de argumento para 
provar as inconsistências das supostas ameaças de esquerda. A interpretação seria 
retomada pelo excelente filme: Jango, de Sílvio Tendler, e pelos trabalho de Caio 
Navarro de Toledo apresentado no Seminário a respeito dos 40 anos do golpe mi-
litar, promovido no Rio de Janeiro em 2004 (cf. nota 1). Cf. igualmente: TOLEDO, 
1997. 
17 Cf. D'ARAÚJO; SOARES; CASTRO, 1994/1, também 1994/2 e 1995. Em 2004, a 
Biblioteca do Exército lançou, em dez volumes, uma extensa coleção de depoi-
Capitulo 2 
Ditadura e sociedade: as reconstruções da memória 
A CONSOLIDAÇÃO DA DITADURA: 
DA CELEBRAÇÃO AO ESTIGMA 
A ditadura militar instaurou-se com grandes propósitos. Sua "vanguar-
da" política mais consistente, o IPES. 1' desejava destruir o sistema legado por 
Vargas e remodelar o país. Entretanto, a frente heterogêna que havia conquis-
tado o poder impôs limites a estas ousadias. Por outro lado, esta mesma fren-
te impediu uma radicalização exacerbada do arbítrio, permitindo-se brechas 
por onde p'uderam manifestar-se setores contrariados com as políticas gover-
namentais e até mesmo forças de esquerda, que recobraram alento, principal-
mente nas classes médias, na mídia e nos meios artístico-culturais, cujas ma-
nifestações sempre alcançam uma grande repercussão. 
Os militares,estigmatizados como gorilas, foram perdendo popularida-
de e legitimidade.

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