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AARÃO REIS, Daniel   Ditadura e Sociedade, as reconstruções da memória

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O próprio ditador, líder do processo e autor da proposta de dis-
tensão lenta, segura e gradual, hesitava quanto aos meios e aos objetivos. 
Entretanto, eram agora muito fortes as pressões pelo fim da ditadura. 
No plano internacional, a guerra fria dera lugar a relações distendidas 
entre as duas superpotências, falava-se mesmo que os EUA e a URSS estavam 
prestes a converter o planeta num vasto condomínio. O presidente Carter, elei-
to em 1976, defendia com vigor o respeito aos direitos humanos e os regimes 
democráticos. 
No Brasil, a Igreja Católica mudara radicalmente de lado, substituin-
do a bênção aos militares pela condenação ao capitalismo selvagem, à tortura 
e ao arbítrio. O MDB, fortalecido pela vitória eleitoral, ganhava legitimidade 
política e apoio social. Até mesmo setores importantes da base política do go-
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22 Do assassinato de Vladimir Herzog, em 1975, ao atentado do Rio-Centro, em 1981, 
foram inúmeros os atos de terrorismo dos "órgãos" de repressão no sentido de de-
ter a transição pelo alto no rumo da redemocratização do país. A partir de um cer-
to momento, porém, em vez de intimidar, fizeram mais forte o movimento pela re-
democratização. 
Capitulo 2 
Ditad11ra e sociedade: as reconstruçôe.s da memória 
verno inclinavam-se pela distensão e pela democracia. Entre os próprios mi-
litares, conscientes dos perigos de derrapagem engendrados pela crescente 
autonomia dos aparelhos de repressão, crescia a ade_são às pro'postas de disten-
são, isolando os radicais que desejavam permanecer grudados nas fórmulas 
ditatoriais. Ou seja, a ditadura, como fórmula política, perdia legitimidade 
aos olhos de grande parte dos de cima: capitalistas, chefes militares, políticos 
de expressão, formadores de opinião. Finalmente, mas não menos importan-
te, as próprias esquerdas, no seu conjunto, superavam as diferentes propostas 
de confronto violento, e passavam a acolher, e a elaborar, perspectivas demo-
cráticas e de participação nas lutas institucionais. Diversos movimentos so-
ciais e políticos, animados por estas forças, desempenharam importante pa-
pel no processo da redemocratização, mostrando, muitas vezes, rara cora-
gem, pois, se hoje se sabe que a democracia foi reconquistada no país, na épo-
ca, de modo nenhum esta questão era considerada como dada, inclusive por-
que, como já se disse, ainda havia forças que apostavam na ditadura militar, 
ou simplesmente se conformavam com a sua permanência por um tempo 
ainda indefinido. 
Asim, a liberalização do regime foi progredindo, entre avanços e re-
cuos, pacotes e pancadas, transações e transições, à brasileira, até que foi 
possível liquidar a censura e, um pouco mais tarde, revogar os atos institu-
cionais. Nem tudo o que fora previsto nos estados maiores acontecera. Mas 
o país recuperara a democracia, ou suas premissas essenciais, em ordem e 
tranquilidade. 
No processo a nação foi se metamorfoseando. Ali já não havia mais 
partidários da ditadura, e todos eram convictos democratas. Figuras da maior 
expressão - favoráveis à instauração do arbítrio e, durante muitos anos, par-
tidários de sua continuidade - e seus beneficiários surgiam agora visitando 
presos políticos e defendendo a democracia, e fosse alguém duvidar da auten-
cidade de seus propósitos, seria imediatamente estigmatizado como mesqui-
nho revanchista. Chegou um momento em que não se sabia mais como pude-
ra existir naquele país uma ditadura tão feroz. A força daquela maré democrá-
tica, tão disseminada, suscitava a questão de como fora possível àquela gente 
ter aturado tantos anos o arbítrio dos militares, e não· logo escorraçado a di-
tadura tão repudiada? 
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Paru I 
Hist6ria e Memória 
Cada um a seu modo, todos haviam resistido. 
Resisttncia, a palavra font encontrada. Virou um mote. Seria preciso 
agora universalizá-la. De modo que não houvesse naquela refrega vencedores 
e vencidos, pois era grande o ânimo da conciliação. 
A LUTA PELA ANISTIA OU A UNIVERSALIZAÇÃO 
DA RESISTÊNCIA DEMOCRÁTICA 
A luta pela anistia arrostou tremendas dificuldades. Hoje, passados 25 
anos da aprovação da primeira lei de anistia, em 1979, mais de 15 anos depois 
da aprovação da Constituição de 1988, restabelecidas as plenas liberdades de-
mocráticas, não é muito fácil recuperar a atmosfera de tensão que prevalecia 
nos estertores do regime ditatorial, mesmo depois de revogados os atos insti-
tucionais e a censura à imprensa e.aos meios de comunicação. 
Enunciada desde antes do Al-5, para os perseguidos depois do golpe de 
1964, a proposta de anistia desapareceú de _cena durante longos anos para re-
tornar à consideração da sociedade no processo de abertura promovido pelo 
governo Geisel. Mas enfrentaria poderosas resistências. No governo e fora 
dele, nas forças de direita e de extrema-direita e mesmo em setores de centro 
que recusavam estender uma eventual anistia aos chamados crimes de sangue." 
Empreendida de início por pequenos grupos de familiares e amigos de 
presos e exilados, trabalhando em condições de extremo risco, porque sujeitos 
ao total arbítrio da ditadura ainda vigente, com uma coragem que nunca se-
ria demais enaltecer, a idéia da anistia foi progredindo lentamente no país, 
principalmente nas grandes cidades, entre os estudantes u~iversitários, inte-
lectuais, artistas e formadores de opinião. 
Duas vertentes cedo se destacaram: de um lado, os que desejavam uma 
anistia ampla, geral e irrestrita e, além disso, uma apuração conseqüente dos 
crimes da ditadura, com o desmantelamento dos orgãos da polícia política, a 
famigerada comunidade de informações, responsável pela execução da tortura 
como política de Estado. De outro, uma tendência desejosa de alcançar uma 
anistia que reconciliasse a família brasileira, uma esponja suficientef!lente es-
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23 No jargão da época, eram considerados crimes de sangue os que configurassem 
atentados à vida de pessoas. 
Capitulo 2 
Ditadura e sociedade: as reconstruções da memória 
pessa para conseguir que todos esquecessem tudo e nada mais restasse senão 
a construção da democracia nos horizontes que então se abriam. 
Prevaleceu na sociedade a segunda formulação, concretizada na anistia 
redproca (beneficiando torturados e torturadores), afinal efetivada em fins de 
agosto de 1979. A pequena margem com a qual o congresso a aprovou, e ainda 
assim excluindo do seu alcance um conjunto de acusados, diz bem do conser-
vadorismo daquela sociedade que emergia apenas de uma longa noite ditatorial. 
Do ponto de vista das relações entre memória e história, entretanto, e 
para além das diferenças de concepção presentes no processo de luta pela anis-
tia, houve uma tendência extraordinária, e unânime, em consagrar uma pro-
funda metamorfose na recuperação da luta armada contra a ditadura militar. 
Como já foi referido, desde o período anterior ao golpe, formaram-se 
no país tendências e organizações de esquerda dispostas ao confronto violen-
to com o poder. A perspectiva reformista revolucionária traduzia-se, entre 
muitas outras, pela palavra de ordem: reforma agrária na lei ou na marra. 
Depois da instauração da ditadura militar, estas tendências constitui-
riam a chamada esquerda revolucionária. Tinham porque se chamar assim. 
Sob o impacto das revoluções vitoriosas, ou em curso, nos anos 60 (Cuba, 
Vietnã, Argélia), propunham a destruição da ditadura militar e do capitalismo 
e a construção de uma sociedade socialistá, regida por uma ditadura revolu-
cionária. Podiam divergir, e divergiam, e se consumiam nestas divergências, a 
respeito de como nomear o processo que desejavam empreender, mas havia 
um acordo básico no que se desejava realizar: nada menos do que a revolucio-
narização social, política e econômica, profunda e radical, da sociedade." 
Imaginavam o capitalismo enredado em contradições insanáveis, e que a 
sociedade estava madura para a aventura

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