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AARÃO REIS, Daniel   Ditadura e Sociedade, as reconstruções da memória

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revolucionária. E desencadearam ações 
armadas com o objetivo de conduzi-la nesta direção com uma ousadia e uma de-
terminação sem limites. Não mais estavam dispostos a permanecer numa tradi-
24 Cf. REIS FILBO; SÁ, 1985. A leitura dos documentos políticos da esquerda revolu-
cionária da época, reunidas nesta coletânea e disponíveis, dentre outros, no Arqui-
vo Público do Rio de Janeiro, de São Paulo e da Unicamp (Arquivo Edgar Leuen-
roth), evidenciam o sentido revolucionário e ofensivo de suas propostas. Outras in-
terpretações, alternativas, podem ser encontradas em GORENDER, 1998; e RI-
DENTI, 1993. 
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Parte I 
História e Mem6ria 
ção estóica de morrer pela revoluçiio, mas se sentiam dispostos, se fosse o caso, a 
matar por e/a.25 Encarnavam, sem dúvida, um espírito ofensivo que recuperava as 
tradições de ousadia das grandes revoluções vitoriosas do século 20. 
Entretanto, as propostas revolucionárias não encontraram respaldo 
na sociedade. É certo que, em determinados momentos, algumas ações espe-
taculares chegaram a atrair simpatia em importantes setores da população 
dos grandes centros urbanos. Efêmera simpatia. De modo geral, a sociedade 
não se empolgaria pela luta armada. Os ecos das comemorações pelos gols 
marcados no México pela seleção tri-campeão mundial ressoariam mais al-
tos, e cobririam, os gritos dos que estavam nas câmaras de tortura da OBAN 
e dos DOI-CODis- Destacamentos de Operações e Informações/Centros de 
Operações de Defesa Interna. E, assim, aqu_ela energia e aquela ,coragem fo-
ram despedaçadas e trituradas, nas cidades e nas áreas rurais, pela policia 
política da ditadura. 
Enquanto se consumava a destruição das esquerdas revolucionárias, 
ganhando corpo com a sua completa aniquilação, já se elaboravam análises 
críticas e auto-críticas a respeito das propostas de luta armada. No exílio e no 
Brasil, mesmo entre muitos que haviam se envolvido diretamente no proces-
so, crescia uma profunda revisão crítica de avaliações, estratégias e métodos. 
Como sempre acontece nestas situações, não foi simples, nem fácil, nem li-
near. Perderam gratativamente força as teses apocalípticas, baseadas nos im-
passes, no confronto e no recurso à força armada. Sem que muitos perdessem 
a perspectiva revolucionária, aquelas esquerdas descobriam os valores, e a im~ 
portância, da democracia. 
Criaram-se assim as condições para que, no interior da luta pela anis-
tia, se operasse uma notável reconstrução: a luta armada ofensiva contra adi-
tadura militar, com o objetivo de destruir o capitalismo e instaurar uma dita-
dura revolucionária, ou seja, o projeto revolucionário transmudou-se em re-
sistência democrática contra a ditadura. As organizações revolucionárias, ma/-
gré elles-mêmes, foram recriadas como alas extremadas da resistência democrá-
tica. Ora, e de acordo com as elaborações prevalecentes no apagar das luzes do 
regime ditatorial, corno todos, ou quase todos, haviam resistido, aqueles bra-
vos rapazes e moças de armas na mão ganhavam seu lugar, legítimo, como os 
25 A formula é de DEBRAY, 1974/1 e 2. 
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Capitula 2 
Ditadura e sodalade: as reconstruções da memória 
desesperados de uma nobre causa, os equivocados de uma luta justa, agora, afi~ 
nal, triunfante, a redemocratização. 
Por estas razões, mereciam a anistia, mesmo os que tinham se envolvi-
do nos crimes de sangue. E se em 1979, não foi ainda possível incorporá-los to-
dos sob o manto da anistia, mais tarde, em edições sucessivas, todos seriam 
agraciados, podendo, inclusive, postular reparações morais e indenizações 
materiais ao Estado.26 
DA CONSTRUÇÃO HISTÓRICO-SOCIAL DA 
DITADURA À NAÇÃO DE DEMOCRATAS 
São evidentes as dificuldades da sociedade brasileira e~ recordar o pe-
ríodo da ditadura militar. Os brasileiros não devem se autoflagelar por isto ( um 
cacoete i:iacional), nem se imaginar como particularmente desmemoriados, 
como se costumá dizer. A rigor, não se trata de algo original. Também a socie-
dade francesa, mais de meio século depois, ainda tem dificuldade de se colocar 
frente à frente com a ocupação nazista e com a reduzidíssima resistência que 
ofereceu ao invasor e à ocupação." O mesmo se poderia dizer, entre muitos e 
muitos exemplos, dos alemães em relação a Hitler e ao nazismo, ou dos russos 
quando pensam na ditadura de Stalin. Sempre quando os povos transitam de 
uma fase para a outrá da história, e quando a seguinte rejeita taxativamente a 
anterior, há problemas de memória, resolvidos por reconstruções mais ou me-
nos elaboradas, quando não pelo puro e simples esquecimento. 
A sociedade brasileira, depois que aderiu aos valores e às instituições 
democráticas, enfrenta grandes dificuldades em compreender como partici-
pou, num passado ainda muito recente, da construção de uma ditadura, que 
definiu a tortura como política de Estado. E, apesar de o regime ter sido con-
26 Depois da primeira lei de Anistia, em 1979, outras leis foram ampliando O alcance 
da an_is~a, até a última, a Lei 10.559, de 13 de novembro de 2002, garantindo am-
plo dire1to a reparações e a indenizações. 
27 f: conhecida a cruel anedota norte-americana segundo a qual se a França fosse es-
perar pelos franceses para obter a libertação do país, estaria hoje certamente falan-
do alemão. 
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PRruI 
História e Memória 
siderado abominável, não o expulsou a pedradas ou a tiros, antes compade-
ceu-se de um processo de transição pelo alto, lento, segur°. e gradual e de uma 
anistia recíproca. Mas a ditadura militar, não há como negá-lo, por mais que 
seja doloroso, foi um processo de construção histórico-social, não um aciden-
te de percurso. Foi processada pelos brasileiros, não imposta, ou inventada, 
por marcianos. Reconhecê-lo pode ser um exercício preliminar para com-
preender seus profundos fundamentos históricos e sociais e para criar condi-
ções para que o abominável não volte a assombrar e a atormentar a história 
destes brasis. 
O presente artigo tentou considerar alguns aspectos da história recen-
te da ditadura militar, relacionando determinados acontecimentos e episódios 
à memória que se construiu e se continua a construir a respeito. 
Na gênese da ditadura, tendeu-se a apagar o grande embate social. O 
projeto reformista revolucionário evaporou-se, transformado em um fantas-
ma. As esquerdas foram vitimizadas. Os amplos movimentos sociais de direita, 
praticamente apagados." Os militares, estigmatizados gorilas, culpados únicos 
pela ignomínia do arbítrio. A ditadura, quem a apoiou? Muito poucos, raríssi-
mos, nela se reconhecem ou com ela desejam ainda se identificar. Ao contrário, 
como se viu, quase todos resistiram. Mesmo a esquerda revolucionária trans-
mudou-se numa inventada resistência democrática de armas nas mãos. 
E assim a nação que construiu a ditadura absolveu-se e reconstruiu-se 
como uma nação democrática, reconciliando-se, reconciliada, legitimando, 
uma vez mais, a sugestão do pensador francês, E. Renan, qu~, há mais de cem 
anos, já dizia, sem nenhuma sombra de cinismo: "O esquecimento, e eu direi 
mesmo o erro histórico, são um fator essencial na criação de uma nação ... as-
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28 Ê interessante, e bastante sintomático que, até o momento, não existam trabalhos 
acadêmicos publicados sobre as Marchas da Familia com Deus pela Liberdade ou 
a respeito das bases sociais da ditadura militar no Brasil. Neste sentido, uma im-
portante lacuna vem ser preenchida por uma dissertação de mestrado, ·orientada 
pelo Professor Carlos Fico, do Programa de Pós-Graduação em História da Uni-
versidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ. Foi preciso esperar 40 anos para que ti-
véssemos um primeiro inventário das Marchas ... cf. Presot, Aline Alves, 2004. Do 
ponto de vista da história política, foi também necessário esperar quase 40 anos 
para ver surgir um trabalho sério sobre as bases sociais e históricas da ARENA: cf. 
GRINBERG,

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