Sociologia Clássica - Durkheim, Weber e Marx
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Sociologia Clássica - Durkheim, Weber e Marx


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a 
sociedade é que explica o comportamento do indivíduo). O suicídio, definido por 
Durkheim como \u201ctodo caso de morte provocado direta ou indiretamente por um ato 
positivo ou negativo realizado pela própria vítima e que ela sabia que devia provocar esse 
resultado\u201d ,não se deve apenas a causa psicológicas, psicopatológicas ou mesmo a 
processos de imitação. Uma das forças que também determina o suicídio é social. Para 
entender este fenômeno, Durkheim distingue três tipos de suicídio:
\u2022 Suicídio egoísta: quando não estão integrados à instituições ou redes sociais 
que regulam suas ações e lhes imprimam a disciplina e a ordem (como a 
família, a igreja, o trabalho), os indivíduos acabam tendo desejos infinitos que 
não podem satisfazer. Este egoísmo, quando frustrado, pode levar a ondas 
sociais de suicídio. Ele também pode ser constatado quando o indivíduo se 
desvincula de suas redes sociais, sofrendo com depressão, melancolia e outros 
sentimentos.
\u2022 Suicídio altruísta: praticado quando o indivíduo se identifica tanto com a 
coletividade, que é capaz de tirar sua vida por ela (mártires, kamikases, honra, 
etc.); 
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\u2022 Suicídio anômico: é aquele que se deve a um estado de desregramento social, 
no qual as normas estão ausentes ou perderam o sentido. Quando os laços que 
prendem os indivíduos aos grupos se afrouxam, esta crise social provoca o 
aumento da taxa de suicídios.
Pode-se notar claramente que, em cada um dos tipos de suicídio estudados por 
Durkheim, aparece a relação entre o indivíduo e a sociedade. O suicídio pode ser causado 
ou pelo excesso de peso da sociedade sobre o indivíduo, ou por falta de integração do 
mesmo na coletividade. Mas, em qualquer dos casos, suas causas serão sempre sociais. 
Nesta obra, aparece novamente a questão da anomia, que é, para Durkheim, o problema 
central das sociedades modernas. Ao contrário de fenômenos como o crime, que Durkheim 
considerava como um fato social normal; o suicídio era para ele um fato social patológico, 
que evidenciava que havia profundas disfunções na sociedade moderna. A existência do 
suicídio anômico era um indício de que o excessivo enfraquecimento da consciência 
coletiva, a perda de uma moral orientadora e disciplinadora dos comportamentos, além do 
exacerbamento do individualismo, representava um sério risco para a integração social e a 
preservação da sociedade. Neste texto, o tema da \u201canomia\u201d vai se tornando cada vez mais 
um dos aspectos essenciais da reflexão durkheimiana e de seu diagnóstico sobre a 
modernidade. Voltaremos a este assunto, quando tratarmos do pensamento político de 
Durkheim. 
3.3. As formas elementares da vida religiosa (1912)
A mesma determinação do social sobre o particular pode ser sentida em uma das 
últimas obras de Durkheim: As formas elementares da vida religiosa. Embora escrita já no 
final de sua vida, trazendo assim algumas modificações no pensamento do autor, as teses 
fundamentais de Durkheim são reafirmadas nesta obra. Neste livro, à partir da análise do 
totemismo australiano, Durkheim procura elaborar uma teoria sociológica da religião. 
Para ele, todas as religiões são constituídas pela divisão da sociedade em duas esferas: a 
sagrada e a profana. Para Durkheim, a superioridade da esfera do sagrado não passa de uma 
percepção difusa que os homens têm da força do social sobre eles mesmos. A religião é a 
sociedade transfigurada. Mais uma vez, é a sociedade que é superior ao indivíduo e a 
religião não passa de uma expressão desse fato. Além de uma explicação para a origem da 
religião; Durkheim também desenvolve nesta obra uma teoria sociológica do 
conhecimento, mostrando que a capacidade do homem em explicar o mundo ao seu redor 
tem origem na sociedade, que serve de modelo para este processo. 
Para realizar suas pesquisas na área da teoria sociológica da religião, Durkheim 
parte daquela que considera como sendo a mais simples das religiões dentro do processo 
evolutivo: o totemismo. Esta religião, encontrada em vários grupos sociais australianos, não 
foi estudada diretamente por Durkheim, que se serviu de outros relatos para chegar às suas 
conclusões. Através do estudo do totemismo, acreditava ele, poder-se-ia aplicar as 
conclusões das pesquisas para a compreensão de todas as religiões, mesmo àquelas mais 
evoluídas e complexas. 
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Para Durkheim, a essência da religião está na distinção da realidade em duas esferas 
distintas: a esfera sagrada e a esfera profana. A esfera sagrada se compõem de um 
conjunto de coisas, de crenças e de ritos que formam uma certa unidade, que podemos 
chamar de religião. A religião envolve tanto o aspecto cognitivo ou cultural (crenças), 
quanto material ou institucional (ritos) da esfera sagrada. Quando as crenças religiosas são 
compartilhadas pelo grupo, temos o que o pensador chama de \u201cigreja\u201d. Quanto a esfera 
profana, trata-se daquele conjunto da realidade que se define por oposição ao sagrado, 
constituindo, em geral, a esfera das atividades práticas da vida: economia, família, etc. 
ESFERA SAGRADA Religião = 
(crenças + ritos)
Igreja
ESFERA PROFANA Atividades cotidianas
Analisando os grupos sociais australianos, Durkheim sublinhou o fato de que os 
diversos clãs (grupos de parentesco não constituídos por laços de sangue) tinham certos 
símbolos que os identificavam, chamados de totem. Este símbolo do clã (um animal, uma 
árvore, etc.) era representado em diversos objetos, que passavam a ser considerados 
sagrados. O totem representa não só um ser em particular, mas também todos aqueles 
artefatos que o imitam (como uma imagem do jacaré, em relação ao próprio animal, por 
exemplo). Diante deste ser (e das suas representações), os indivíduos tinham que adotar 
comportamentos religiosos, que Durkheim estudou com cuidado. Em sua análise dos ritos 
religiosos, o autor distingue os ritos negativos (proibições), os ritos positivos (deveres 
religiosos) e ainda os ritos de expiação (cerimônias de perdão pelas violações cometidas), 
que constituem o conjunto de práticas que definem as religiões.
É interessante notar que nestas tribos australianas, a divindade não é concebida como 
um ser pessoal, distinto dos homens. É por isso que Durkheim rejeita as teorias que 
explicam a origem da religião a partir deste pressuposto, como é o caso do animismo e do 
naturismo. Enquanto para o primeiro, a religião constitui a crença em um espírito, o 
naturismo postula que a divindade seria a transfiguração das forças naturais que o homem 
percebe agindo na natureza. No totemismo, a noção de divindade pessoal ainda não está 
elaborada. A divindade é concebida como uma força anônima e impessoal que encontramos 
em cada um dos seres, como animais, plantas ou outros objetos. É por isso que se trata da 
mais simples das religiões: o conjunto da realidade no qual esta força se encontra é que 
constitui a esfera sagrada. É por isso, enfim, que Durkheim afirma que a esfera sagrada, em 
oposição à esfera profana, constitui a essência de qualquer religião. 
Depois de definir o fenômeno religião, Durkheim preocupa-se em demonstrar sua 
origem, assinalando sempre o fato de que este fenômeno tem uma origem social. Na 
verdade, esta força difusa, anônima e impessoal, mas acima de tudo superior, que os 
homens sentem que agem sobre eles e ao qual devem obediência, não passa de uma 
percepção não elaborada da força da sociedade sobre o indivíduo. Como diz o próprio 
autor, \u201cde modo geral, não há dúvida de que a sociedade tem tudo o que é preciso para 
despertar nos espíritos a sensação do divino, exclusivamente pela ação que exerce sobre 
eles; ela é, para seus membros,