Sociologia Clássica - Durkheim, Weber e Marx
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Sociologia Clássica - Durkheim, Weber e Marx


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por uma profunda \u201ccrise\u201d. Mais do que compreender o que estava acontecendo, a grande 
preocupação dos estudiosos do século XIX era saber que atitude tomar diante dos 
acontecimentos. A sociologia, como qualquer ciência, não tem apenas uma função teórica. 
Pelo contrário, se os homens do século XIX queriam entender a sociedade, é porque 
desejavam compreender os seus mecanismos de funcionamento e atuar sobre ela. A 
sociologia, desde cedo, tenta responder também há uma questão prática e, por esta razão, 
podemos dizer que ela possui uma função política. 
A importância de se entender o projeto político subjacente em toda análise 
sociológica, deve-se a dois fatores básicos.
O primeiro fator é de ordem teórica. Se cada teoria sociológica assumiu uma atitude 
diferente em relação ao mundo moderno é porque enxergava a realidade de forma 
diferente. A medida que foram identificando quais as características do mundo moderno e, 
principalmente, quais os problemas típicos da sociedade moderna, os sociólogos também 
foram apontando as soluções que achavam mais adequados para resolver estes problemas. 
É assim que cada perspectiva sociológica foi desenhando também o seu projeto político. 
Afinal, como diz a sabedoria popular, a teoria condiciona a prática. Esquematicamente: 
No entanto, o inverso também é verdadeiro. Se havia explicações diferentes para a 
realidade social, é porque os teóricos da sociologia se comprometeram de forma diferente 
com o mundo moderno. Enquanto certos teóricos estavam preocupados com a defesa da 
ordem social que nascia, outros logo se opuseram a ela, ressaltando seus limites e 
contradições. Neste caso, foi a prática (política) que condicionou a teoria (sociologia). Por 
isso, podemos chamar este segundo fator como sendo de ordem prática.
Neste sentido, a sociologia apenas reflete um dos elementos fundamentais da 
sociedade moderna: a luta política pela interpretação dos rumos e também pela condução 
do mundo moderno, ou, como diria Marx, a luta de classes. Desde cedo, a sociologia se viu 
atravessada pelo conflito entre as forças promotoras da mudança social ( a burguesia), as 
forças que procuravam frear os processos de mudança (conservadores ou reacionários) e 
ainda as forças que questionavam os supostos ganhos e conquistas da sociedade moderna (o 
proletariado). A inserção dos sociólogos em uma ou outra destas classes sociais vai acabar 
se refletindo nas teorias sociológicas, que acabam traduzindo a visão de mundo destes 
grupos sociais em suas elaborações teóricas. 
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Assim, uma das primeiras questões que os clássicos da sociologia procuraram 
responder é como a sociologia se inseria neste complexo jogo da luta de classes, de seus 
diferentes interesses e de sua visão de mundo. Em resumo, cada um deles buscou 
responder qual seria a função política da sociologia. 
Para um primeiro grupo de teóricos, a sociologia deveria ser uma ciência que, 
inspirada no modelo da sociedade feudal, deveria aspirar e mostrar o caminho para 
construir a ordem, a paz e a harmonia que existiam nas sociedades tradicionais. Para este 
modelo, a sociologia teria uma função conservadora. Caberia a esta ciência mostrar que, 
apesar das intensas mudanças que levaram a dissolução do mundo feudal-tradicional, o 
mundo moderno deveria estabilizar as suas instituições, como condição para o bom 
funcionamento da sociedade. A sociologia, neste caso, optou em favor das forças que 
lutaram pela instauração do mundo moderno: a burguesia. Esta concepção da ciência 
sociológica tornou se a aliada da burguesia no sentido de preservar e manter as conquistas 
desta classe social. 
Um segundo grupo de pensadores, todavia, afirmava que a sociologia deveria se 
manter distante da luta política, adotando uma postura de neutralidade. Nesta concepção, 
a sociologia estaria acima das lutas sociais e dos interesses de classe. Este grupo de 
pensadores se dividia entre aqueles que achavam que, em vista de sua neutralidade, a 
sociologia era a única que podia oferecer soluções \u201cimparciais\u201d e \u201cobjetivas\u201d para os 
problemas sociais ( soluções que estariam acima da luta de classes) ; e entre aqueles que 
achavam que a sociologia não era a responsável pela escolha das soluções a adotar: esta 
escolha caberia a sociedade. Para a sociologia restaria apenas a tarefa de mostrar os 
caminhos possíveis e as prováveis conseqüências das eventuais escolhas feitas pelos 
indivíduos. 
No entanto, uma terceira posição partia justamente da crítica a este tipo de teoria. 
Para a postura crítica ou transformadora, a neutralidade não passava de uma forma 
dissimulada de apoiar a ordem social vigente e as classes sociais que lutavam pela sua 
conservação. Afinal, somente quem se beneficia com a situação social não luta pela 
transformação do \u201cstatus quo\u201d. Para os teóricos críticos, a sociologia deveria assumir com 
coragem uma atitude de negação do sistema vigente, lutando pela sua transformação e pela 
construção de uma nova forma de convivência social. Isto implicava, diziam estes teóricos, 
apoiar diretamente a classe social que estava excluída dos frutos do mundo moderno e que, 
justamente por isso, representava a maior força social interessada na transformação do 
sistema: o proletariado. 
Em função destas e de outras motivações, podemos afirmar que a compreensão dos 
pressupostos ideológicos e políticos implícitos nas teorias sociológicas é fundamental para 
a compreensão da sociologia. Em primeiro lugar, porque a compreensão deste aspecto 
possibilita um estudo crítico destas teorias, apontando como as opções políticas dos 
cientistas sociais condicionaram estas mesmas teorias. E, em segundo lugar, porque a 
reflexão sobre as opções políticas da sociologia coloca o estudante diante da mesma 
questão. Que atitude assumir diante da realidade social? Quais os interesses que 
condicionam meu estudo da realidade? Em que medida minha inserção em determinada 
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classe social condiciona minha visão de mundo? De que forma posso me inserir nas lutas 
sociais? Qual a relação da ciência com a política? 
Estes questionamentos continuam atuais e constituem, ainda hoje, problemas 
fundamentais para os cientistas sociais. De modo geral, os clássicos da sociologia 
apontaram as atitudes básicas desta ciência em relação à realidade social. Uma postura 
conservadora, a busca da neutralidade ou mesmo da transformação social são as opções 
políticas fundamentais da sociologia. Longe de estar distante ou mesmo imune das lutas 
sociais e políticas, procurar entender a realidade e fazer ciência também tem repercussões 
políticas. Fazer sociologia não deixa de ser um ato político, modificando, conforme as 
conclusões, a correlação de forças entre as classes sociais. Portanto, um debate sobre as 
opções políticas da sociologia constitui uma boa oportunidade para o estudante rever a 
forma pela qual ele mesmo se insere na sociedade, suas lutas e seus conflitos. Neste 
sentido, os clássicos da sociologia nos colocam diante desta questão e nos obrigam a pensar 
sobre nosso modelo de sociologia e sua relação com a realidade política. 
4. BIBLIOGRAFIA
a) Manuais e dicionários de ciências sociais 
BOBBIO, Norberto. Dicionário de política. 8. ed. Brasília: UnB, 1995, 2. vols.
BOTTOMORE, Tom; OUTHWAITE, Willian. Dicionário do pensamento social 
do século XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996. 
DEMO, Pedro. Sociologia: uma introdução crítica. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1987.
LAKATOS, Eva Maria. Sociologia Geral. 6. ed. São Paulo: Atlas, 1990.
TRUJILLO-FERRARI,