Rubens Alves - O Que é Religião
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Rubens Alves - O Que é Religião


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e a noite, a composição do ácido sulfúrico e o ponto de congelamento da água em nada dependem 
da vontade do homem. Ainda que ele nunca tivesse existido, a natureza estaria aí, passando muito 
bem, talvez melhor. . . Com a çujtura as coisas são diferentes. A transmissão da herança, os 
direitos sexuais dos homens e das mulheres, atos que constituem crimes e os castigos que são 
aplicados, os adornos, o dinheiro, a propriedade, a linguagem, a arte culinária \u2014 tudo isto surgiu da 
atividade dos homens. Quando os homens desaparecerem, estas coisas desaparecerão também. 
Aqui está a curiosa propriedade a que nos referimos: nós nos esquecemos de que as coisas, 
culturais foram inventadas e, por esta razão, elas aparecem aos nossos olhos como se fossem naturais. Na 
gíria filosófico-sociológica este processo recebe o nome de reificação, Seria mais fácil se falássemos em 
coisificação, pois é isto mesmo que a palavra quer dizer, já que ela se deriva do latim res, rei, que quer 
dizer "coisa". Isto acontece, em parte, porque as crianças, ao nascerem, já encontram um mundo 
social pronto, tão pronto tão sólido quanto a natureza. Elas não viram este mundo saindo das mãos dos 
seus criadores, como se fosse cerâmica recém-moldada nas mãos do oleiro. Além disto, as gerações 
mais velhas, interessadas em preservar o mundo frágil por elas contruído com tanto cuidado, tratam 
de esconder dos mais novos, inconscientemente, a qualidade artificial (e precária) das coisas que estão 
aí. Porque, caso contrário, os jovens poderiam começar a ter ideias perigosas. . . De fato, se tudo o que 
constitui o mundo humano é artificial e convencional, então este mundo pode ser abolido e refeito de 
outra forma. Mas quem se atreveria a pensar pensamentos como este em relação a um mundo que tivesse 
a solidez das coisas naturais? 
Isto se aplica de maneira peculiar aos símbolos. De tanto serem repetidos e compartilhados, de tanto 
serem usados, com sucesso, à guisa de receitas, nós os reificamos, passamos a tratá-los como se fossem 
coisas. Todos os símbolos que são usados com sucesso experimentam esta metamorfose. Deixam de ser 
hipóteses da imaginação e passam a ser tratados como manifestações da realidade. Certos símbolos 
derivam o seu sucesso do seu poder para congregar os homens, que os usam para definir a sua situação e 
articular um projeto comum de vida. Tal é o caso das religiões, das ideologias, das utopias. Outros se 
impõem como vitoriosos pelo seu poder para resolver problemas práticos, como é o caso da magia e da 
.ciência. Os símbolos vitoriosos, e exata-mente por serem vitoriosos, recebem o nome de verdade, 
enquanto que os símbolos derrotados são ridicularizados como superstições ou perseguidos como 
heresias. 
E nós, que desejamos saber o que é a religião, que já sabemos que ela se apresenta como uma rede de 
símbolos, temos de parar por um momento para nos perguntar sobre o que ocorreu com aqueles que 
herdamos. Que fizeram conosco? Que fizemos com eles? E para compreender o processo pelo qual 
nossos símbolos viraram coisas e construíram um mundo, para depois envelhecer e desmoronar em 
meio a lutas, temos de reconstruir uma história. Porque foi em meio a uma história cheia de eventos 
dramáticos, alguns grandiosos, outros mesquinhos, que se forjaram as primeiras e mais apaixonadas 
respostas à pergunta "o que é a religião?" 
No processo histórico através do qual nossa civilização se formou, recebemos uma herança 
simbólico-religiosa, a partir de duas vertentes. De um lado, os hebreus e os cristãos. Do outro, as 
tradições culturais dos gregos e dos romanos. Com estes símbolos vieram visões de mundo totalmente 
distintas, mas eles se amalgamaram, transformando-se mutuamente, e vieram a florescer em meio às 
condições materiais de vida dos povos que os receberam. E foi daí que surgiu aquele período de nossa 
história batizado como Idade Média. 
Não conhecemos nenhuma época que lhe possa ser comparada. Porque ali os símbolos do sagrado 
adquiriram uma densidade, uma con-cretude e uma onipresença que faziam com que o mundo 
invisível estivesse mais próximo e fosse mais sentido que as próprias realidades materiais. 
Nada acontecia que não o fosse pelo poder do sagrado, e todos sabiam que as coisas do tempo estão 
iluminadas pelo esplendor e pelo terror da eternidade. Não é por acidente que toda a sua arte 
seja dedicada às coisas sagradas e que nela a natureza não apareça nunca tal como nossos olhos a 
vêem. Os anjos descem à terra, os céus aparecem ligados ao mundo, enquanto Deus preside a 
todas as coisas do topo de sua altura sublime. E havia possessões demoníacas, bruxas e bruxarias, 
milagres, encontros com o diabo, e as coisas boas aconteciam porque Deus protegia aqueles 
que o temiam, e as desgraças e pestes eram por Ele enviadas como castigos para o pecado e a 
descrença. Todas as coisas tinham seus lugares apropriados, numa ordem hierárquica de valores, 
porque Deus assim havia arrumado o universo, sua casa, estabelecendo guias espirituais e impe-
radores, no alto, para exercer o poder e usar a espada, colocando lá em baixo a pobreza e o 
trabalho no corpo de outros. 
Tudo girava em torno de um núcleo central, temática que unificava todas as coisas: o drama da 
salvação, o perigo do inferno, a caridade de Deus levando aos céus as almas puras. E é perfeitamente 
compreensível que tal drama tenha exigido e estabelecido uma geografia que localizava com 
precisão o lugar das moradas do demónio e as coordenadas das mansões dos bem-aventurados. 
Se o universo havia saído, por um ato de criação pessoal, das mãos de Deus \u2014 e era inclusive 
possível determinar com precisão a data de evento tão grandioso \u2014 e se Ele continuava, pela sua 
graça, a sustentar todas as coisas, concluía-se que tudo, absolutamente tudo, tinha um 
propósito definido. E era esta visão teleológica da realidade (de tetos, que, em grego, significa 
fim, propósito) que determinava a pergunta fundamental que a ciência medieval se 
propunha: "para quêT'. Conhecer alguma coisa era saber a que fim ela se destinava. E os filósofos 
se entregavam a investigação dos sinais que, de alguma forma, pudessem indicar o sentido de cada 
uma e de todas as coisas. E é assim que um homem como Kepler dedica toda sua vida ao estudo da 
astronomia na firme convicção de que Deus não havia colocado os planetas no céu por acaso. 
Deus, era um grande músico-geômetra, e as regularidades matemáticas dos movimentos dos astros 
podiam ser decifradas de sorte a revelar a melodia que Ele fazia os planetas cantarem em coro, 
no firmamento, para o êxtase dos homens. No final de suas investigações ele chegou a representar 
cada um dos planetas por meio de uma nota musical. O que Kepler fazia em relação aos 
planetas os outros faziam com as plantas, as pedras, os animais, os fenómenos físicos e químicos, 
perguntando-se acerca de suas finalidades estéticas, éticas, humanas. . . De fato, era isto mesmo: o 
universo inteiro era compreendido como algo dotado de um sentido humano. É justamente aqui que 
se encontra o seu caráter essencialmente religioso. 
Aqui eu me detenho para um parêntesis. Imagino que o leitor sorria, espantado perante tanta 
imaginação. Curioso, mas é sempre assim: de dentro do mundo encantado das fantasias, elas sempre se 
apresentam com a solidez das montanhas. Para os medievais não havia fantasia alguma. Seu mundo era 
sólido, constituído por fatos, comprovados por inúmeras evidências e além de quaisquer dúvidas. Sua 
atitude para com o seu mundo era idêntica à nossa atitude para com o nosso.