DIREITO PROCESSUAL PENAL – PONTO 03
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DIREITO PROCESSUAL PENAL – PONTO 03


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tempus regit actum, de forma que, caso a autoridade deixe de exercer o cargo que lhe assegure o foro por prerrogativa de função, os autos serão enviados para 1ª instância, sendo válido todos os atos praticados. Igual entendimento é inteiramente aplicável se houver deslocamento de competência em razão da mudança de cargo (Ex: era Governador \u2013 STJ e assumiu o mandato de Senador \u2013 STF)
Súmula 394 do STF e Princípio Tempus Regit Actum
A Turma indeferiu habeas corpus em que se pretendia a nulidade do processo criminal pelo qual ex-prefeita de comarca do Estado de São Paulo fora condenada pela prática do crime de corrupção ativa (CP, art. 333, caput). No caso concreto, Procurador de Justiça oferecera denúncia perante o Tribunal de Justiça local. No entanto, o então desembargador relator, diante do posterior cancelamento do Enunciado da Súmula 394 do STF (\u201cCometido o crime durante o exercício funcional, prevalece a competência especial por prerrogativa de função, ainda que o inquérito ou a ação penal sejam iniciados após a cessação daquele exercício\u201d), declarara-se incompetente e remetera os autos ao juízo de primeiro grau. Alegava-se violação ao princípio do promotor natural, consistente no fato de o juízo de primeiro grau ter recebido a denúncia formulada por procurador de justiça atuante em segundo grau, quando o promotor natural da causa seria o promotor de justiça da comarca de origem. Entendeu-se aplicável o princípio tempus regit actum, do qual resulta a validade dos atos antecedentes à alteração da competência inicial, considerando-se que, na espécie, a denúncia fora oferecida em data anterior a do cancelamento da mencionada súmula. Precedente citado: Inq 687 QO/SP (DJU de 9.9.99). 
HC 87656/SP, rel. Min. Sepúlveda Pertence, 14.3.2006. (HC-87656)
Trata-se da competência originária dos tribunais. No Brasil, determinadas pessoas em razão da dignidade do cargo são julgadas originariamente por tribunal. Há duas razões para a existência dessa prerrogativa, conforme entendimento doutrinário:
afastar o julgamento de pressões locais, como regra, os tribunais estão afastados das questões locais;
permitir que seja proferido um julgamento melhor, graças a maior qualificação dos julgadores de 2a instância.
Trata-se de PRERROGATIVA e não de PRIVILÉGIO, porque ocorrem em razão do cargo e não da pessoa. Foro por prerrogativa de função como existe no Brasil, somente aqui em nenhum outro país.
Prerrogativa \u2013 é determinada em razão do cargo;
Privilégio \u2013 é determinada em razão da pessoa.
No mundo inteiro existe isso? Foro por prerrogativa de função como existe no Brasil, só aqui. Até ex-autoridades possuem foro de prerrogativa por ex-função.
As pessoas dotadas de foro por prerrogativa de função não podem se valer dos recursos ordinários (apelação ou recurso em sentido estrito). Somente podem impugnar a decisão por meio de RECURSO ESPECIAL ou RECURSO EXTRAORDINÁRIO. Atenção: é cabível o ajuizamento da ação de HC. Aqui, importante a ressalva de que o STF já se posicionou no sentido de que pessoas com foro por prerrogativa de função não tem direito ao duplo grau de jurisdição, aí compreendido como a possibilidade de reexame integral da sentença (matéria de fato e de direito) por órgão jurisdicional diverso e de hierarquia superior (RHC 79.785, STF). A interposição de RE e REsp não é entendida como duplo grau, porque eles não devolvem a instância ad quem o conhecimento da matéria de fato.
2.6.1.2 Característica marcante: o julgamento é feito numa única instância (não há apelação, segundo jurisprudência do STF), vale dizer, não há garantia do duplo grau de jurisdição, já que somente cabe REsp e RE que são recursos de natureza extraordinária [devolução limitada ao exame da questão federal, sem possibilidade de reexame das provas]. Do ponto de vista constitucional essa jurisprudência do STF é muito questionável. Está em total discrepância com o art. 8º, II, \u201ch\u201d, da Convenção Americana de Direitos Humanos (direito de recorrer da sentença a juiz ou tribunal superior). (DIREITO INTERNACIONAL: não prevê como regra a possibilidade de recurso, tanto que as decisões da CIJ são irrecorríveis).
2.6.1.3 Regras fundamentais sobre a competência por prerrogativa de função:
1ª) crime cometido antes do início da função: altera-se a competência (o juízo natural), quando o agente assume a nova função. Se não for julgado, uma vez cessada a função, volta o processo para a vara de origem.
2ª) crime cometido durante o exercício das funções: é julgado pelo foro especial. E depois de cessada a função? 
A Lei 10.628/02, que alterou o Art. 84 do CPP, estendeu o for por prerrogativa de função para os atos funcionais após o término do exercício da função. Além disso, estendeu o foro especial também para os casos de improbidade administrativa (que retrata situações de má gestão da coisa pública). 
CPP, Art. 84. A competência pela prerrogativa de função é do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal de Justiça, dos Tribunais Regionais Federais e Tribunais de Justiça dos Estados e do Distrito Federal, relativamente às pessoas que devam responder perante eles por crimes comuns e de responsabilidade. (Redação dada pela Lei nº 10.628, de 24.12.2002)
§ 1o A competência especial por prerrogativa de função, relativa a atos administrativos do agente, prevalece ainda que o inquérito ou a ação judicial sejam iniciados após a cessação do exercício da função pública. (Incluído pela Lei nº 10.628, de 24.12.2002)
§ 2o A ação de improbidade, de que trata a Lei no 8.429, de 2 de junho de 1992, será proposta perante o tribunal competente para processar e julgar criminalmente o funcionário ou autoridade na hipótese de prerrogativa de foro em razão do exercício de função pública, observado o disposto no § 1o. (Incluído pela Lei nº 10.628, de 24.12.2002)
A história dessa lei começou com o ajuizamento de ações de improbidade contra FHC, pelo MPF. Com a preocupação em relação à prisão de FHC foi publicada a lei. 
Em verdade, a lei reativou parcialmente a súmula 394, do STF, que havia sido cancelada pelo STF (INQ 287). Essa súmula foi cancelada em 11/2001e possuía a seguinte redação: 
Súmula 394 do STF \u2013 Cometido o crime durante o exercício funcional, prevalece a competência especial por prerrogativa de função, ainda que o inquérito ou a ação penal sejam iniciados após a cessação daquele exercício. 
Fundamentos do voto do min. SEPÚLVEDA PERTENCE:
o STF cancelou a súmula, assim o legislador ordinário não pode usurpar a competência do STF de interpretar a CF;
as decisões do STF não estão sujeitas a referendo do legislador, ou seja, o que o STF interpretou, não pode ser refutado por lei do legislador ordinário (Interpretação da Constituição conforme a lei) e sim através de emenda constitucional;
a competência originária em improbidade administrativa não está prevista na CF, assim, o legislador ordinário não poderia fazê-lo.
O STF já se posicionou sobre a inconstitucionalidade da Lei no julgamento da ADI 2797.
3ª) crime cometido após o exercício das funções: não há que se falar nesse caso em foro especial (Súmula 451 do STF).
4ª) Não importa o local da infração nos casos de competência originária dos tribunais: o sujeito será sempre julgado pelo seu juiz natural (isto é, pelo seu Tribunal natural). Juiz de direito de São Paulo que comete crime no Maranhão: será julgado pelo TJ de SP.:
Jurisprudência:
***STJ
Na esteira da jurisprudência deste Superior Tribunal de Justiça, o crime perpetrado por silvícola deve ser processado e julgado pela Justiça Estadual, reservando-se para a Justiça Federal os casos em que envolver interesse direto da coletividade indígena. 2. Incidência do verbete Sumular n.º 140 do STJ, litteris: "compete à Justiça Comum Estadual processar e julgar crime em que indígena figure como autor ou vítima." (CC 34518/PA, Rel. Ministra LAURITA VAZ, TERCEIRA SEÇÃO, julgado em 23/04/2003, DJ 05/05/2003, p. 217)
Compete à Justiça