Aprender Antropologia (François Laplantine)
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Aprender Antropologia (François Laplantine)


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verdade, e por alguns apenas de
seus esp´\u131ritos os menos ortodoxos, a partir da observac¸a\u2dco direta de um ob-
jeto distante (Le´ry) e da reflexa\u2dco a dista\u2c6ncia sobre este objeto (Montaigne),
permite a constituic¸a\u2dco progressiva, na\u2dco de um saber antropolo´gico, muito me-
nos de uma cie\u2c6ncia antropolo´gica, mas sim de um saber pre´-antropolo´gico.
38 CAPI´TULO 1. A PRE´-HISTO´RIA DA ANTROPOLOGIA:
Cap´\u131tulo 2
O Se´culo XVIII:
a invenc¸a\u2dco do conceito de homem
Se durante o Renascimento esboc¸ou-se, com a explorac¸a\u2dco geogra´fica de conti-
nentes desconhecidos, a primeira interrogac¸a\u2dco sobre a existe\u2c6ncia mu´ltipla do
homem, essa interrogac¸a\u2dco fechou-se muito rapidamente no se´culo seguinte,
no qual a evide\u2c6ncia do cogito, fundador da ordem do pensamento cla´ssico,
exclui da raza\u2dco o louco, a crianc¸a, o selvagem, enquanto figuras da anorma-
lidade.
Sera´ preciso esperar o se´culo XVIII para que se constitua o projeto de fun-
dar uma cie\u2c6ncia do homem, isto e´, de um saber na\u2dco mais exclusivamente
especulaivo, e sim positivo sobre o homem. Enquanto encontramos no se´culo
XVI elementos que permitem compreender a pre´-histo´ria da antropologia, en-
quanto o se´culo XVII (cujos discursos na\u2dco nos sa\u2dco mais diretamente acess´\u131veis
hoje) interrompe nitidamente essa evoluc¸a\u2dco, apenas no se´culo XVIII e´ que
entramos verdadeiramente, como mostrou Michel Foucault (1966), na mo-
dernidade. Apenas nessa e´poca, e na\u2dco antes, e´ que se pode apreender as
condic¸o\u2dces histo´ricas, culturais e epistemolo´gicas de possibilidade daquilo que
vai se tornar a antropologia.
\u201dAntes do final do se´culo XVIII\u201d, escreve Fou-cauilt, \u201do homem na\u2dco existia.
Como tambe´m o poder du vida, a fecundidade do trabalho ou a densidade
histo´rica da linguagem. E´ uma criatura muito recente que o demiurgo do sa-
ber fabricou com suas pro´prias ma\u2dcos, ha´ menos de duzentos anos (...) Uma
coisa em todo caso e´ certa, o homem na\u2dco e´ o mais antigo problema, nem o
mais constante que tenha sido colocado ao saber humano. O homem e´ uma
invenc¸a\u2dco e a arqueologia de nosso pensamento mostra o quanto e´ recente.
E\u201d, acrescenta Foucault no final de As Palavras e as Coisas, \u201dqua\u2dco pro´ximo
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40 CAPI´TULO 2. O SE´CULO XVIII:
talvez seja o seu fim\u201d.
O projeto antropolo´gico (e na\u2dco a realizac¸a\u2dco da antropologia como a enten-
demos hoje) supo\u2dce:
1) a construc¸a\u2dco de um certo nu´mero de conceitos, comec¸ando pelo pro´prio
conceito de homem, na\u2dco apenas enquanto sujeito, mas enquanto objeto do
saber; abordagem totalmente ine´dita, ja´ que consiste em introduzir dualidade
caracter´\u131stica das cie\u2c6ncias exatas (o sujeito observante e o objeto observado)
no corac¸a\u2dco do pro´prio homem;
2) a constituic¸a\u2dco de um saber que na\u2dco seja apenas de reflexa\u2dco, e sim de
observac¸a\u2dco, isto e´, de um novo modo de acesso ao homem, que passa a ser
considerado em sua existe\u2c6ncia concreta, envolvida nas determinac¸o\u2dces de seu
organismo, de suas relac¸o\u2dces de produc¸a\u2dco, de sua linguagem, de suas insti-
tuic¸o\u2dces, de seus comportamentos. Assim comec¸a a constituic¸a\u2dco dessa posi-
tividade de um saber emp´\u131rico (e na\u2dco mais transcendental) sobre o homem
enquanto ser vivo (biologia), que trabalha (economia), pensa (psicologia) e
fala (lingu¨´\u131stica). . . Montesquieu, em O Esp´\u131rito das Leis (1748), ao mos-
trar a relac¸a\u2dco de interdepende\u2c6ncia que e´ a dos feno\u2c6menos sociais, abriu o
caminho para Saint-Simon que foi o primeiro (no se´culo seguinte) a falar
em uma \u201dcie\u2c6ncia da sociedade\u201d. Da mesma forma, antes dessa e´poca, a lin-
guagem, quando tomada em considerac¸a\u2dco, era objeto de filosofia ou exegese.
Tornou-se paulatinamente (com de Brosses, Rousseau) o objeto espec´\u131fico de
um saber cient´\u131fico (ou, pelo menos, de vocac¸a\u2dco cient´\u131fica);
3) uma problema´tica essencial: a da diferenc¸a. Rompendo com a convicc¸a\u2dco
de uma transpare\u2c6ncia imediata do cogito, coloca-se pela primeira vez no
se´culo XVIII a questa\u2dco da relac¸a\u2dco ao impensado, bem como a dos poss´\u131veis
processos de reapropriac¸a\u2dco dos nossos condicionamentos fisiolo´gicos, das nos-
sas relac¸o\u2dces de produc¸a\u2dco, dos nossos sistema de organizac¸a\u2dco social. Assim,
inicia-se uma ruptura com o pensamento do mesmo, e a constituic¸a\u2dco da ide´ia
de que a linguagem nos precede, pois somos antes exteriores a ela. Ora, tais
reflexo\u2dces sobre os limites do saber, assim como sobre as relac¸o\u2dces de sentido
e poder (que anunciam o fim da metaf´\u131sica) eram inimagina´veis antes. A
sociedade do se´culo XVIII vive uma crise da identidade do humanismo e da
conscie\u2c6ncia europe´ia. Parte de suas elites busca suas refere\u2c6ncias em um con-
fronto com o distante.
Em 1724, ao publicar Os Costumes dos Selvagens Americanos Compara-
dos aos Costumes dos Primeiros Tempos, Lafitau se da´ por objetivo o de
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fundar uma \u201dcie\u2c6ncia dos costumes e ha´bitos\u201d, que, ale´m da continge\u2c6ncia dos
fatos particulares, podera´ servir de comparac¸a\u2dco entre va´rias formas de hu-
manidade. Em 1801, Jean Itard escreve Da Educac¸a\u2dco do Jovem Selvagem
do Aveyron. Ele se interroga sobre a comum humanidade a` qual pertencem
o homem da civilizac¸a\u2dco em que nos transportamos e o homem da natureza,
a crianc¸a-lobo.1 Mas foi Rousseau quem trac¸ou, em seu Discurso sobre a
Origem e os Fundamentos da Desigualdade, o programa que se tornara´ o da
etnologia cla´ssica, no seu campo tema´tico2 tanto quanto na sua abordagem:
a induc¸a\u2dco de que falaremos agora;
4) um me´todo de observac¸a\u2dco e ana´lise: o me´todo indutivo. Os grupos sociais
(que comec¸am a ser comparados a organismos vivos, podem ser considerados
como sistemas \u201dnaturais\u201dque devem ser estudados empiricamente, a partir du
observac¸a\u2dco de fatos, a fim de extrair princ´\u131pios gerais, que hoje chamar´\u131amos
de leis.
Esse naturalismo, que consiste numa emancipac¸a\u2dco definitiva em relac¸a\u2dco ao
pensamento teolo´gico, impo\u2dce-se em especial na Inglaterra,3 com Adam Smith
e, antes dele, David Hume, que escreve em 1739 seu Tratado sobre a Natureza
Humana, cujo t´\u131tulo completo e´: \u201dTratado sobre a natureza Humana: tenta-
tiva de introduc¸a\u2dco de um me´todo experimental de racioc´\u131nio para o estudo
de assuntos de moral\u201d. Os filo´sofos ingleses colocam as premissas de todas
as pesquisas que procurara\u2dco fundar, no se´culo XVIII, uma moral natural\u201d,
um \u201ddireito natural\u201d, ou ainda uma \u201dreligia\u2dco natural\u201d.
* * *
Esse projeto de um conhecimento positivo do homem \u2013 isto e´, de um estudo
de sua existe\u2c6ncia emp´\u131rica considerada por sua vez como objeto do saber \u2013
constitui um evento considera´vel na histo´ria da humanidade. Um evento que
se deu no Ocidente no se´culo XVIII, que, evidentemente, na\u2dco ocorreu da noite
para o dia, mas que terminou impondo-se ja´ que se tornou definitivamente
1Cf. o filme de Franc¸ois Truffaut, VEnfant Sauvage (1970), e o livro de Lucien Malson
que the serviu de base.
2Rousseau estabelece a lista das regio\u2dces devedoras de viagens \u201dfiloso´ficas\u201d: o mundo
inteiro menos a Europa ocidental.
3A precocidade e preemine\u2c6ncia, no pensamento ingle\u2c6s, do empirismo em relac¸a\u2dco ao
pensamento france\u2c6s, caracterizado antes pelo racionalismo (e idealismo), podem a meu
ver explicar em parte o crescimento ra´pido (no comec¸o do se´culo XX) da antropologia
brita\u2c6nica e o atraso da antropologia francesa.
42 CAPI´TULO 2. O SE´CULO XVIII:
constitutivo da modernidade na qual, a partir dessa e´poca, entramos. A fim
de avaliar melhor a natureza dessa verdadeira revoluc¸a\u2dco do pensamento \u2013
que instaura uma ruptura tanto com o \u201dhumanismo\u201ddo Renascimento como
com o \u201dracionalismo\u201ddo se´culo cla´ssico \u2013, examinemos de mais perto o que
mudou radicalmente desde o se´culo XVI.
1)Trata-se em primeiro lugar da natureza dos objetos observados. Os relatos
dos viajantes dos se´culos XVI e XVII eram mais uma busca cosmogra´fica do
que uma pesquisa etnogra´fica. Afora algumas incurso\u2dces t´\u131midas para a´rea das
\u201dinclinac¸o\u2dces\u201de dos \u201dcostumes\u201d,4o objeto de