Émile Durkheim
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Émile Durkheim


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DURKHEIM Émile \u2013 \u201cPedagogia e Sociologia\u201d, in Educação e Sociologia, São Paulo, Editora Melhoramentos, 1965.
Capítulo III
PEDAGOGIA E SOCIOLOGIA\ufffd
& 1 \u2013 Caráter social da educação; & 2 \u2013 Importância da ação educativa; & 3 \u2013 Fins e meios da educação; & 4 \u2013 Conclusão.
& 1 \u2013 Caráter social da educação
	Até bem pouco \u2013 e ainda hoje as exceções podem ser contadas \u2013 os pedagogistas estavam quase todos de acordo em ver, na educação, um fenômeno eminentemente individual\ufffd. Em consequência, a pedagogia era corolário imediato e direto da psicologia, nada mais. 
	Para Kant como para Mill, para Herbert como para Spencer, a educação teria como objeto primacial o de realizar em cada indivíduo, levando-os ao mais alto grau de perfeição possível, os atributos constitutivos da espécie humana, em geral. Dava-se como verdade evidente, axiomática, que há uma educação, e uma só, a qual, com exclusão de qualquer outra, conviria indiferentemente a todos os homens, quaisquer que fossem as condições históricas e sociais de que dependessem. Era um ideal abstrato e único, que os teoristas de educação se propunham determinar. Admitia-se que houvesse uma natureza humana, cujas formas e propriedades seriam determinadas uma vez por todas; e o problema pedagógico consistiria em verificar de que modo a ação educativa devia exercer-se, sobre a natureza do homem, assim definida. Ninguém pensava, sem dúvida, que o homem apresentasse, de uma só vez, desde que entra na vida, tudo o que ele pode e deve ser. É de elementar observação que o ente humano não se constitui senão progressivamente, no curso de lentas transformações, que começam no nascimento, para somente chegarem a termo na idade madura. Mas supunha-se que tais transformações não fariam mais do que atualizar virtualidades, trazer à luz energias latentes que já existissem, preformadas, no organismo físico e mental da criança. O educador nada teria de essencial a juntar à obra da natureza humana.
	Não criaria nada de novo. Seu papel seria limitado a impedir que essas virtualidades existentes não se atrofiassem por inação, não se desviassem da direção normal ou não se desenvolvessem muito vagarosamente.
	Daí, não terem as condições de tempo e de lugar, ou o estado social, enfim, nenhum interesse para a pedagogia. Uma vez que o homem trouxesse já consigo todos os germes de seu desenvolvimento, bastaria a observação do indivíduo para a determinação exata das regras desse desenvolvimento. O que importava era conhecer as faculdades nativas e sua natureza. Ora, a ciência que tem por objeto descrever e explicar o homem individual é a psicologia. Parecia, pois, que ela bastasse a todos os reclamos do pedagogo.
	Infelizmente, essa concepção da educação se acha em contradição formal com tudo quanto nos ensina a história; não se aponta um só povo, com efeito, que a tenha posto em prática.
	Preliminarmente, observemos o seguinte: muito ao contrário de haver uma educação universal, adaptada a toda a espécie humana, não há, por assim dizer, sociedade em que vários sistemas pedagógicos não coexistam, funcionando paralelamente. É a sociedade formada de castas? A educação varia de uma casta a outra; a dos patrícios não é a dos plebeus; a de Brama não é a de Sudra. Igualmente, na Idade Média, que diferença entre a cultura que recebia o jovem pajem, instruído em todas as artes da cavalaria, e a do vilão\ufffd que não ia à escola senão para aprender alguns magros elementos do cálculo, do canto e da gramática! Não vemos ainda hoje, a educação variar, com as classes sociais e até mesmo com o habitat? A da cidade não é a do campo, a do burguês não é a do operário. 
	Dir-se-á que essa organização não é moralmente justificável e que tende a desaparecer. Responder a tal objeção não é difícil. É evidente que a educação de nossos filhos não deve depender do acaso que os faz nascer, aqui e não acolá, nesta família e não naquela. Mas, mesmo que a consciência moral de nossa época tivesse recebido a esse respeito completa satisfação, a educação não se tornaria por isso mais uniforme. Mesmo que a carreira de cada criança não fosse mais predeterminada, ao menos em grande parte, por uma cega hereditariedade, a diversidade moral das profissões não deixaria de acarretar, em conseqüência, uma grande diversidade pedagógica.
	Cada profissão constitui um meio sui generis, que reclama aptidões particulares e conhecimentos especiais, em que reinam certas idéias, certos usos, certas maneiras de ver as coisas; e, como a criança deve ser preparada, em vista da função a que será chamada, a educação, a partir de certa idade, não pode permanecer mais a mesma para todos. Eis por que a vemos, em todos os países civilizados, tendendo cada vez mais à diversificação e especialização; e tal especialização se torna, dia a dia, mais precoce. A heterogeneidade que assim se produz não tem como causa injustas diferenças de classe, mas, nem por isso, é menor. Para encontrar uma educação absolutamente homogênea e igualitária, seria preciso remontar até às sociedades pré-históricas, no seio das quais não existe diferenciação \u2013 ao menos em teoria. Mas essa espécie de sociedade não representa senão um momento ideal na história da humanidade.
	Ora, é evidente que tais sistemas educativos especiais não são, de modo algum, organizados em vista de fins individuais. Sem dúvida, acontece, às vezes, que eles realizam o desenvolvimento no indivíduo de aptidões particulares que nele estavam imanentes, e que não demandavam senão oportunidade de expansão: nesse sentido, pode-se dizer que auxiliam a realizar a natureza individual. Mas bem sabemos quanto essas vocações estritamente definidas são excepcionais. Nos casos mais freqüentes, não somos predestinados, pelo temperamento ou caráter, a uma função bem determinada.
	O homem médio é eminentemente plástico; pode ser utilizado, com igual proveito, em funções muito diversas. Se, pois, o homem se especializa, e se especializa sob tal forma ao invés de tal outra, não é por motivos que lhe sejam internos; ele não é, nesse ponto, levado pelas necessidades de sua natureza. É a sociedade que, para poder manter-se, tem necessidade de dividir o trabalho entre seus membros, e de dividi-los de certo modo. Eis por que já prepara, por suas próprias mãos, por meio da educação, os trabalhadores especiais de que necessita. É, pois, por ela e para ela que a educação se diversifica.
	Há mais, no entanto. Bem longe de nos aproximar necessariamente da perfeição humana, ela não se efetua, ao contrário, sem uma deformação parcial do indivíduo; e isso mesmo, para se por em harmonia com as predisposições naturais de cada qual. 
	Porque não podemos desenvolver com a intensidade necessária as faculdades que a nossa especialização implica, sem deixar que as outras se embotem pela inação, isto é, sem abdicar por conseqüência de uma boa parte de nossa natureza. Para exemplificar: o homem como indivíduo não é feito menos para agir que para pensar. Até mesmo, por isso que ele é, antes de tudo, um ser vivo, e a vida é ação \u2013 as faculdades ativas lhe são talvez mais essenciais que as outras. Sem embargo, a partir do momento em que a vida intelectual das sociedades atinja certo grau de desenvolvimento, há e deve haver, necessariamente, homens que se consagrem de modo exclusivo ao pensamento, homens que não fazem senão pensar. Ora, o pensamento não se pode desenvolver senão quando se desprende do movimento, senão desviando o indivíduo da ação imediata. Assim se formam essas naturezas incompletas em que todas as energias de atividade são convertidas, por assim dizer, em reflexão, e que, embora truncadas, constituem elementos indispensáveis ao progresso científico. Jamais a análise abstrata da constituição humana teria permitido prever que o homem fosse suscetível de alterar assim o que passa por ser de sua essência, nem que uma educação fosse necessária para preparar essas úteis alterações.
	Todavia, qualquer que seja a importância desses casos especiais, não se poderia contestar que eles