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PrincPrincíípiospios Fundamentais Fundamentais de Farmacologiade Farmacologia II 2 Capítulo Um 1 Interações Fármaco–Receptor OBJETIVOS ! Compreender a base molecular das interações fárma- co–receptor e seus efeitos celulares subseqüentes. !! CASO 1 Decidido a aproveitar a sua recente aposentadoria, o Sr. B. fez questão de passar a jogar tênis o mais freqüentemente possível no ano passado. Nos últimos 3 meses, entretanto, começou a sentir-se cada vez mais cansado. Além disso, hoje em dia, ele não consegue mais terminar as refeições, apesar de sempre ter sido um “bom garfo”. Preocupado e querendo saber o motivo desses sintomas inespecíficos, o Sr. B. marcou uma consulta com seu médico. Durante o exame físico, o médico percebe o baço aumentado, que se estende até cerca de 10 cm abaixo do arco costal esquerdo; nos demais aspectos, o exame físico do Sr. B. encontra-se dentro dos limites normais. O exame de sangue revela aumento na contagem total de leucócitos (70.000 células/mm3), com aumento absoluto no número de neutrófi- los, bastonetes, metamielócitos e mielócitos, porém sem célu- las blásticas (células precursoras indiferenciadas). A análise citogenética das células em metáfase demonstra que 90% das células mielóides do Sr. B. possuem o cromossomo Filadélfia (indicando uma translocação entre os cromossomos 9 e 22), confirmando o diagnóstico de leucemia mielóide crônica. O médico começa o tratamento com imatinibe. QUESTÕES 1. De que maneira a tirosinoquinase do receptor BCR-Abl afeta as vias de sinalização intracelulares? A. Essa quinase fosforila hormônios esteróides, fazendo com que eles supra-regulem reguladores da transcrição de cres- cimento do crescimento celular. B. Essa quinase fosforila o resíduo de tirosina na cauda citoplas- mática do receptor e abre os canais da membrana plasmática, permitindo a entrada dos reguladores de crescimento. Fig. 1.1 Quatro Tipos Principais de Interações entre Fármacos e Receptores. A maioria das interações fármaco–receptor pode ser dividida em quatro grupos. A. Os fármacos podem ligar-se a canais iônicos que se estendem pela membrana plasmática, produzindo uma alteração na condu- tância do canal. B. Os receptores hepta-helicoidais que se estendem através da membrana plasmática estão acoplados funcionalmente a proteínas G intracelulares. Os fármacos podem influenciar as ações desses receptores através de sua ligação à superfície extracelular ou à região transmembrana do receptor. C. Os fármacos podem ligar-se ao domínio extracelular de um receptor transmembrana e causar uma alteração de sinalização no interior da célula através da ativação ou da inibição de um domínio intracelular enzimático (boxe retangular) da mesma molécula do receptor. D. Os fármacos podem sofrer difusão através da membrana plasmática e ligar-se a receptores citoplasmáticos ou nucleares. Trata-se freqüentemente da via utilizada pelos fármacos lipofílicos (por exemplo, fármacos que se ligam a receptores de hormônios esteróides). Alternativamente, os fármacos podem inibir enzimas no espaço extracelular, sem a necessidade de atravessar a membrana plasmática (não mostrado). GDP = difosfato de guanosina. Interações Fármaco–Receptor 3 C. Essa quinase remove grupos de fosfato dos receptores de proteína G, permitindo a ativação da via de sinalização da adenilil ciclase. D. Essa quinase remove grupos de fosfato do DNA, permitindo que os reguladores da transcrição tenham acesso a genes específicos. E. Essa quinase fosforila proteínas citosólicas, levando à desre- gulação do crescimento celular. 2. Como o imatinibe interrompe a atividade da proteína BCR-Abl? A. O imatinibe reverte a mutação do cromossomo Filadélfia. B. O imatinibe impede a transcrição do cromossomo Filadélfia. C. O imatinibe liga-se ao sítio de ligação de ATP da tirosinoqui- nase BCR-Abl, desnatura a proteína e destrói o receptor de quinase. D. O imatinibe liga-se à membrana plasmática e impede o aces- so da BCR-Abl a seu sítio-alvo de ligação. E. O imatinibe inibe a capacidade da BCR-Abl de fosforilar subs- tratos. No mês seguinte, as células contendo o cromossomo Filadélfia desaparecem por completo do sangue do Sr. B. e ele come- ça a sentir-se bem o suficiente para competir num torneio de seniores. O Sr. B. continua tomando imatinibe diariamente, e as contagens hematológicas estão totalmente normais. O Sr. B. não sente mais fadiga. Ele não tem certeza do que o futuro lhe reserva, porém sente-se feliz por ter tido a chance de aproveitar a sua aposentadoria de forma saudável. 3. Ao contrário do imatinibe, a maioria dos tratamentos mais anti- gos para a leucemia mielóide crônica (por exemplo, interfero na- α) produzia efeitos adversos significativos do tipo gripal. Por que essas terapias mais antigas provocam efeitos adversos signifi- cativos na maioria dos pacientes, enquanto o imatinibe (como neste caso) só provoca efeitos adversos em um número muito pequeno de pacientes? A. Os tratamentos mais antigos têm como alvo todas as células mielóides. B. Os tratamentos mais antigos têm como alvo a proteinoqui- nase BCR-Abl nas células de função normal. C. Os tratamentos mais antigos têm como alvo a produção da BCR-Abl em todas as células hematopoéticas. D. Os tratamentos mais antigos têm como alvo o cromossomo Filadélfia em todo o corpo. E. Os tratamentos mais antigos têm como alvo toda a produção futura de proteinoquinase BCR-Abl. 4. Por que o imatinibe constitui uma terapia específica para a leu- cemia mielóide crônica? A. O imatinibe liga-se seletivamente à proteína BCR-Abl do receptor de tirosinoquinase em células hematopoiéticas de crescimento anormal. B. O imatinibe degrada seletivamente o cromossomo Filadélfia nas células leucêmicas. C. O imatinibe é seletivamente dirigido para os receptores asso- ciados à tirosinoquinase. D. O imatinibe liga-se seletivamente a fosfatases, que fosforilam a tirosina. E. O imatinibe é seletivamente dirigido para a síntese da BCR- Abl nas células precursoras hematopoiéticas. 5. Quando um fármaco interage com seu receptor, a magnitude da resposta celular pode ser maior do que a magnitude do efeito imediato da interação fármaco–receptor molecular. Isso é designado como: A. taquifilaxia B. recrutamento de receptor C. amplificação do sinal D. ativação de segundo mensageiro E. dessensibilização heteróloga !! CASO 2 Um homem de 62 anos de idade é levado às pressas ao hospital após ter ingerido o conteúdo de uma lata de inseticida orga- nofosforado numa tentativa de suicídio. Ao chegar ao depar- tamento de emergência, os médicos de plantão percebem um odor estranho que emana do paciente. O paciente não reage, e o exame físico revela sudorese profusa, pupilas mióticas e secreções orais e brônquicas copiosas. São também observadas fasciculações musculares difusas, porém o paciente encontra-se flácido e paralisado. Quando o paciente é intubado, o médico observa quantidades abundantes de secreções aquosas de odor estranho. Subseqüentemente, o médico desenvolve lacrimeja- mento e broncoespasmo. As roupas molhadas do paciente são removidas e descartadas com segurança. Os enfermeiros tam- bém acabam apresentando subseqüentemente lacrimejamento e rinorréia. QUESTÕES 1. Os sinais do paciente são compatíveis com atividade excessiva da acetilcolina nos receptores tanto muscarínicos quanto nicotí- nicos. Os inseticidas organofosforados provocam toxicidade ao impedir o metabolismo normal da acetilcolina. O sítio de ligação mais provável dos organofosforados reside em: A. um receptor de adesão de superfície celular B. uma enzima extracelular C. um receptor de tirosinoquinase D. um regulador da transcrição E. uma enzima intracelular de transdução de sinais 2. Com base em seus efeitos nas sinapses colinérgicas, os inseti- cidas organofosforadosdevem ser considerados: A. antagonistas reversíveis não-competitivos B. antagonistas reversíveis competitivos C. agonistas inversos D. agonistas diretos E. agonistas indiretos 3. A ligação oxigênio–fósforo formada entre os inseticidas orga- nofosforados e a acetilcolinesterase está sujeita a um processo de “envelhecimento”, em que a ligação resulta em destruição permanente da função da acetilcolinesterase. A ligação oxigê- nio–fósforo “envelhecida” é: A. uma ligação iônica B. uma interação hidrofóbica C. um grupo de interação de van der Waals D. uma ligação covalente E. uma ligação de hidrogênio 4 Capítulo Um 4. Normalmente, a acetilcolina atua em seu receptor nicotínico na junção neuromuscular para efetuar a despolarização e a con- tração da célula muscular. O receptor nicotínico de acetilcolina é um exemplo de: A. um canal iônico regulado por ligante B. um canal iônico regulado por voltagem C. um receptor acoplado à proteína G e regulado por ligante D. um receptor de tirosinoquinase regulado por ligante E. uma enzima extracelular regulada por voltagem 5. Os receptores acoplados à proteína G são compostos de domí- nios extracelulares, regiões transmembrana e regiões intrace- lulares. Qual das seguintes afirmações acerca dos receptores acoplados à proteína G é correta? A. O domínio extracelular consiste em sítios enzimáticos, os quais hidrolizam o trifosfato de guanosina a difosfato de guanosina, após a ligação do ligante. B. A região intracelular é ligada a uma proteína G, a qual afeta moléculas de sinalização após a ligação do ligante. C. A região transmembrana consiste em cinco subunidades, as quais liberam a proteína G após a ligação do ligante. D. Quando a região transmembrana se abre, permite a passa- gem de íons através dela. E. Os receptores acoplados à proteína G são específicos para receptores de acetilcolina. 2 Farmacodinâmica Fig. 2.1 Curvas de Ligação Ligante–Receptor. A. Gráficos lineares da ligação fármaco–receptor para dois fármacos com valores distintos de Kd. B. Gráfico semilogarítmico da mesma ligação fármaco–receptor. A Kd é a constante de dissociação em equilíbrio para determinada interação fármaco–receptor — um valor mais baixo de Kd indica uma interação fármaco–receptor mais firme (de maior afinidade). Em virtude dessa rela- ção, o Fármaco A, que apresenta uma Kd mais baixa, ligar-se-á a uma maior proporção de receptores totais do que o Fármaco B em qualquer concentração de fármaco. Observe que a Kd corresponde à concentração do ligante [L], em que 50% dos receptores estão ligados (ocupados) pelo ligante. [L] é a concentração de ligante (fármaco) livre (não-ligado), [LR] é a concentração de complexos ligante–receptor e Ro é a concentração total de receptores ocupados e desocupados. Por conseguinte, LR Ro é a ocupação fracionária de receptores, ou a fração de receptores totais ocupados (ligados) pelo ligante. Fig. 2.2 Curvas de Dose–Resposta Graduadas. As curvas de dose–res- posta graduadas demonstram o efeito de um fármaco como função de sua concentração. A. Gráfico linear de curvas de dose–resposta graduadas para dois fármacos. B. Gráfico semilogarítmico das mesmas curvas de dose–resposta. Observe a estreita semelhança com a Fig. 2.1: a fração de receptores ocupados [LR]/[Ro] foi substituída pelo efeito fracionário E/Emáx, em que E é uma resposta quantificável a determinado fármaco (por exemplo, elevação da pressão arterial). CE50 é a potência do fár - maco ou a concentração em que o fármaco produz 50% de seu efeito máximo. Nesta figura, o Fármaco A é mais potente do que o Fármaco B, visto que produz metade do efeito máximo numa concentração mais baixa do que o Fármaco B. Os Fármacos A e B exibem a mesma eficácia (resposta máxima ao fármaco). Observe que a potência e a eficácia não estão intrinsecamente relacionadas – um fármaco pode ser extremamen- te potente, porém pode ter pouca eficácia, e vice-versa. [L] é a concentra- ção do fármaco, E é o efeito, Emáx é a sua eficácia e CE50, a potência. Linear Semilogarítmico 0,5 Fármaco A Fármaco B Fármaco A Fármaco B 0 KdA KdB KdA KdB [LR] [L] [L] [R0] 0,5 0 1,0 [LR] [R0] A B 1,0 0,5 Fármaco A Fármaco B Fármaco A Fármaco B 0 1,0 CE50(A) CE50(B) CE50(A) CE50(B) E [L] [L] EMáx E EMáx 0,5 0 1,0 A Linear B Semilogarítmico 6 Capítulo Dois OBJETIVOS ! Compreender a base molecular da ligação fármaco– receptor e seu impacto sobre as relações dose–res- posta do fármaco, assim como o índice terapêutico de um fármaco. ! Compreender as ações dos agonistas e de várias clas- ses de antagonistas e suas relações com a potência e a eficácia do fármaco. !! CASO 1 O Almirante X., de 66 anos de idade, é um comandante de submarino aposentado, com história de tabagismo de 70 maços de cigarros por ano (dois maços por dia durante 35 anos) e his- tória familiar de coronariopatia. Embora normalmente ignore os conselhos de seus médicos, toma pravastatina prescrita para reduzir o nível de colesterol, bem como aspirina para diminuir o risco de oclusão da artéria coronária. Um dia, enquanto estava trabalhando em sua carpintaria, o Almirante X. começa a sentir um aperto no tórax. A sensação torna-se rapidamente dolorosa, e a dor começa a irradiar-se pelo braço esquerdo. Ele liga para a emergência e uma ambulância o transporta até o departamento de emergência mais próximo. Uma vez concluída a avaliação, constata-se que o Almirante X. está tendo um infarto do miocárdio anterior. Como o hospital não dispõe de laboratório para cateterismo cardíaco e como o Almirante X. não tem nenhuma contra-indicação específica para a terapia trombolítica (por exemplo, hipertensão não-con- trolada, história de acidente vascular cerebral ou cirurgia recen- te), o médico inicia a terapia com um agente trombolítico, um ativador do plasminogênio de tipo tecidual (t-PA) e heparina, um anticoagulante. A administração de uma dose inadequada desses dois fármacos pode ter conseqüências terríveis (hemor- ragia e morte), em virtude de seus baixos índices terapêuticos; por esse motivo, o Almirante X. é rigorosamente monitorado, e o efeito farmacológico da heparina é determinado periodica- mente pelo tempo de tromboplastina parcial (TTP). Os sinto- mas do Almirante X. diminuem nas horas seguintes, embora permaneça no hospital para monitoração. Recebe alta depois de 4 dias, e os medicamentos prescritos por ocasião da alta incluem pravastatina, aspirina, atenolol, lisinopril e clopidogrel para prevenção secundária de infarto do miocárdio. QUESTÕES 1. Qual das seguintes afirmações é correta no que concerne à relação entre a interação molecular de um fármaco com o seu receptor e a potência do fármaco? A. Quanto maior o número de receptores ocupados por um fármaco, maior a sua potência. B. Os fármacos com alta potência possuem uma CE50 alta. C. Os fármacos com alta potência apresentam uma curva dose–resposta situada à direita de fármacos menos potentes, porém semelhantes. D. A presença de um antagonista competitivo desvia a curva dose–resposta do agonista para a direita e diminui a sua potência. E. Quanto maior a potência de um fármaco, mais alta a cons- tante de dissociação fármaco–receptor, Kd. 2. Qual das seguintes afirmações sobre a eficácia de um fármaco é correta? A. A eficácia de um fármaco é diretamente proporcional à sua constante de dissociação de ligação fármaco–receptor. B. A eficácia máxima de um agonista é a condição em que a sinalização do fármaco mediada pelo receptor é máxima. C. Os fármacos altamente eficazes apresentam valores elevados de DE50 e baixos valores de DL50. D. Os fármacos altamente eficazes medeiam seus efeitos em uma fração mais baixa de ligação do receptor.E. A presença de um antagonista competitivo reduz a respos- ta máxima possível à ligação fármaco–receptor e, portanto, diminui a eficácia do fármaco. 3. Quais as propriedades de certos fármacos, como a aspirina, que permitem a sua administração sem monitoração dos níveis Fig. 2.3 Efeitos dos Antagonistas sobre a Relação Dose–Resposta do Agonista. Os antagonistas competitivos e não-competitivos possuem diferentes efeitos sobre a potência (a concentração do agonista que pro- duz metade da resposta máxima) e a eficácia (a resposta máxima a um agonista). A. Um antagonista competitivo diminui a potência de um agonista sem afetar a sua eficácia. B. Um antagonista não-competitivo reduz a eficácia de um agonista. Conforme ilustrado aqui, a maioria dos antagonistas não-competitivos alostéricos não afeta a potência do agonista. Agonista isolado Agonista + Antagonista Antagonista isolado Agonista isolado Agonista + Antagonista Antagonista isolado 100 50 0 100 50 0 Concentração de agonista ou de antagonista % d e Re sp os ta % d e Re sp os ta A Antagonista competitivo B Antagonista não-competitivo Farmacodinâmica 7 plasmáticos do fármaco, enquanto outros fármacos, como a heparina, exigem esse tipo de controle? A. Enquanto a aspirina é um agente oral, a heparina é admi- nistrada por via parenteral. B. A aspirina é disponível sem prescrição e pode ser tomada com segurança sem monitoração. C. Enquanto a aspirina exerce um efeito farmacológico irrever- sível, que não necessita de monitoração, o efeito reversível da heparina precisa ser monitorado. D. Enquanto a aspirina exibe uma relação dose–resposta gra- duada, a heparina apresenta uma relação dose–resposta quantal, que precisa ser monitorada periodicamente. E. Enquanto a aspirina apresenta um índice terapêutico maior, a heparina possui um índice terapêutico pequeno. 4. Por que o fato de um fármaco ter baixo índice terapêutico sig- nifica que o médico deve ter mais cuidado na sua administra- ção? A. Os fármacos com baixo índice terapêutico podem causar toxicidade numa DE50 elevada. B. Os fármacos com baixo índice terapêutico só podem causar toxicidade numa pequena faixa de doses de fármaco. C. Os fármacos com baixo índice terapêutico podem causar efeitos irreversíveis após a sua administração. D. Os fármacos com baixo índice terapêutico não exercem efei- tos terapêuticos até que a dose administrada se aproxime da dose tóxica. E. Os fármacos com baixo índice terapêutico têm maior grau de segurança quando administrados em doses terapêuticas. 5. O conceito de “receptores de reserva” refere-se: A. à supra-regulação dos receptores, intensificando o efeito de um fármaco (agonista) B. ao fato de que a CE50 é maior do que a Kd C. à ocorrência de uma resposta agonista máxima com uma ocupação de menos de 100% dos receptores D. ao fato de que os receptores são resistentes à presença de seus antagonistas E. ao achado de potência aumentada, apesar da presença de antagonistas dos receptores !! CASO 2 Pittsburgh, PA; novembro de 1988: Um homem de 34 anos de idade é entregue por um motorista de carro particular no local de chegada das ambulâncias de um departamento de emergên- cia. Está despenteado e apático, e os guardas de segurança o levam imediatamente à emergência. É rapidamente colocado em um monitor cardíaco, e um acesso intravenoso é estabeleci- do. Os sinais vitais revelam uma freqüência cardíaca de 26 bpm e apnéia. Não tem pressão arterial palpável, porém verifica-se um pulso lento palpável na artéria femoral. São observadas marcas recentes de agulha, compatíveis com injeções aplica- das há pouco tempo, na fossa cubital esquerda. Os médicos suspeitam de que ele seja uma vítima da epidemia atual de heroína “superpotente”, “China White”, que está se alastrando pelo Condado de Allegheny. Apesar de intubação oral, venti- lação mecânica, medidas de suporte vital cardíaco avançado e grandes doses intravenosas de um antídoto, o paciente falece. QUESTÕES 1. Em 1988, a área de Pittsburgh, PA sofreu uma epidemia de usuários de heroína que morriam por overdose acidental de um agonista opióide sintético de ação curta, o 3-metil fenta- nil, conhecido, na rua, como “China White”. Foi estimado que esses análogos sintéticos do fentanil possuem 6.000 vezes a potência da morfina. O fentanil farmacêutico tem 75 a 100 vezes a potência da morfina. Se fosse traçada uma curva de dose–resposta semilogarítmica desses três agonistas opióides, qual deles teria a menor CE50 e a curva de dose–resposta mais para a esquerda? A. morfina B. fentanil C. 3-metil fentanil D. naloxona E. naltrexona 2. Em 1988, os usuários de heroína procuravam a “superpotente China White” pela experiência de intenso ímpeto e excitação em tomar uma droga potente com efeitos potencialmente fatais. Muitos usuários injetavam, sem suspeitar, o 3-metil fentanil e, em poucos minutos, sofriam parada cardiorrespiratória. Os que sobreviviam para receber assistência médica necessitavam de grandes doses de naloxona. Em muitos casos, os pacientes apre- sentavam reversão dos efeitos agonistas opióides dentro de pou- cos minutos após a administração inicial de naloxona, porém, em seguida, sofriam ressedação, o que exigia múltiplas doses de naloxona. Esse efeito da naloxona é característico de: A. um efeito farmacológico de agonista reversível B. um efeito farmacológico de antagonista competitivo reversível C. um efeito farmacológico de antagonista não-competitivo D. um efeito farmacológico de agonista parcial E. um efeito farmacológico de agonista inverso 3. A heroína é habitualmente medida em doses de bolsas de 25 mg. Os usuários incautos da “China White”, que poderiam ter obtido o “barato” desejado com três bolsas de heroína, morriam após injetar uma única bolsa de 3-metil fentanil. Se 50% dos usuários da “China White” morreram após injetar uma bolsa de 3-metil fentanil, qual das seguintes afirmações é correta? A. A heroína é mais potente do que o 3-metil fentanil. B. O índice terapêutico do 3-metil fentanil é maior que o da heroína. C. A DE50 para o 3-metil fentanil é de 25 mg. D. A DT50 para o 3-metil fentanil é de 75 mg. E. A DL50 para o 3-metil fentanil é de 25 mg. 4. Com base no caso anterior, qual das seguintes afirmações é correta? A. O índice terapêutico do 3-metil fentanil é elevado. B. A CE50 do 3-metil fentanil é elevada. C. A DL50 do 3-metil fentanil é elevada. D. A afinidade do 3-metil fentanil pelo receptor opióide µ é alta. E. A Kd do 3-metil fentanil é alta. 8 Capítulo Dois 5. Qual das seguintes opções é um exemplo de ação de um antagonista químico? A. A naloxona liga-se ao receptor opióide µ e impede os efeitos agonistas opióides. B. Os anticorpos específicos contra a digoxina ligam-se à digo- xina e impedem a sua ação na bomba de sódio-potássio cardíaca. C. O fentanil liga-se ao receptor opióide µ e impede a ação da morfina. D. Os antagonistas dos receptores β-adrenérgicos ligam-se ao receptor β1-adrenérgico e diminuem a taquicardia no con- texto do hipertireoidismo. E. O manitol atrai osmoticamente a água para o túbulo renal e impede a sua reabsorção. 3 Farmacocinética OBJETIVOS ! Compreender os fatores que afetam a absorção, a dis- tribuição, o metabolismo e a excreção dos fármacos. ! Compreender de que maneira as características far- macocinéticas de um fármaco podem ter impacto em seus efeitos terapêuticos e potencialmente tóxicos. !! CASO 1 O Sr. W., de 66 anos de idade, é um consultor de tecnologia que viaja freqüentemente para fora do país como parte de seu trabalho na indústria de telecomunicações. O único problema clínico que apresenta consiste em fibrilação atrial crônica, e o Sr. W. toma varfarina como únicamedicação crônica. O Sr. W. viaja para a Turquia para uma consultoria. Na última noite de sua estada, comparece a um grande jantar em que são servidos shish kebabs e outros alimentos que não costuma comer com freqüência. No dia seguinte, apresenta diarréia aquosa, fétida e profusa. O médico estabelece o diagnóstico de diarréia do viajante e prescreve um ciclo de 7 dias de sulfametoxazol-trimetoprim. O Sr. W. já está totalmente restabelecido dentro de 2 dias após o início dos antibióticos, e, 4 dias depois (enquanto ainda está tomando os antibióticos), ele recebe alguns clientes em outro jantar com mesa farta. O Sr. W. e seus convidados ficam embriagados durante o jantar, e, ao sair do restaurante, o Sr. W. tropeça e cai no meio-fio da calçada. No dia seguinte, o joelho direito do Sr. W. está muito inchado, exigindo uma avaliação no departamento de emergência local. O exame físico e os estudos de imagem são compatíveis com hemartrose do joelho direito de tamanho moderado, e os exames laboratoriais reve- lam uma acentuada elevação da Relação Normalizada Inter- nacional (INR), que é uma medida padronizada do tempo de protrombina e, nesse contexto clínico, um marcador substituto para os níveis plasmáticos de varfarina. O médico de plantão alerta o Sr. W. sobre o seu nível de varfarina encontrar-se na faixa supraterapêutica (tóxica), e que esse efeito deve-se, prova- velmente, a interações medicamentosas adversas envolvendo a varfarina, os antibióticos e a recente intoxicação pelo álcool. QUESTÕES 1. Qual das seguintes situações poderia levar um paciente com níveis terapêuticos bem estabelecidos de um medicamento de uso crônico a desenvolver subitamente manifestações clínicas de toxicidade farmacológica? A. O paciente começa a tomar o medicamento com alimentos. B. O paciente começa a tomar outro medicamento, que inten- sifica o metabolismo hepático de primeira passagem do medicamento de uso crônico. C. O paciente começa a tomar outro medicamento, que aumen- ta a ligação do medicamento de uso crônico às proteínas. D. O paciente começa a tomar outro medicamento, que inibe o metabolismo hepático do medicamento de uso crônico. Fármaco Livre ExcreçãoAbsorção Metabolismo Receptores Circulação sistêmica Livre Ligado Reservatórios teciduais Livre Ligado Metabólitos (ativos e inativos)Fármaco ligadoà proteína Fig. 3.1 Absorção, Distribuição, Metabolismo e Excreção (ADME) dos Fármacos. Os princípios básicos de farmacocinética afetam a quantidade de fármaco livre que finalmente irá alcançar o sítio-alvo. Para produzir um efeito em seu alvo, o fármaco precisa ser absorvido e, a seguir, distribuído pelo seu alvo antes de ser metabolizado e excretado. Em qualquer momento, o fármaco livre na circulação sistêmica encontra-se em equilíbrio com os reservatórios teciduais, as proteínas plasmáticas e o sítio-alvo (que habitualmente consiste em receptores); apenas a fração do fármaco que consegue ligar-se a receptores específicos terá um efeito farmacológico. Observe que o metabolismo de um fármaco pode resultar em metabólitos tanto ativos quanto inativos; os metabólitos ativos tam- bém podem ter a capacidade de exercer um efeito farmacológico sobre os receptores-alvo ou, algumas vezes, em outros receptores. Adaptado, com autorização, de Hardman JG, Limbird LE, eds. Goodman & Gilman’s The Pharmacological Basis of Therapeutics, 10th Ed, Fig. 1.1, p. 3. New York: The McGraw-Hill Companies, 2001. 10 Capítulo Três E. O paciente começa um esquema de exercício físico agressi- vo, aumentando, assim, a sua massa muscular. 2. Qual foi a causa dos níveis supraterapêuticos de varfarina do Sr. W. e a ocorrência subseqüente de sangramento? A. O sulfametoxazol-trimetoprim inibiu o metabolismo hepático e a depuração da varfarina. B. O sulfametoxazol-trimetoprim intensificou o crescimento das bactérias gastrintestinais que normalmente degradam a var- farina após a sua administração oral. C. O sulfametoxazol-trimetoprim teve um efeito adverso antico- agulante. D. O sulfametoxazol-trimetoprim competiu com a varfarina pela sua ligação no sítio receptor de ação. E. O sulfametoxazol-trimetoprim impediu a secreção renal da varfarina. 3. Como a situação do Sr. W. poderia ter sido evitada? A. A varfarina deveria ter sido suspensa enquanto o paciente estava tomando sulfametoxazol-trimetoprim. B. A dose de sulfametoxazol-trimetoprim deveria ter sido redu- zida enquanto o paciente estava tomando varfarina. C. A dose de varfarina deveria ter sido reduzida enquanto o paciente estava tomando sulfametoxazol-trimetoprim. D. A dose de varfarina deveria ter sido reduzida enquanto o paciente estava consumindo etanol em excesso no jantar. E. A dose de sulfametoxazol-trimetoprim deveria ter sido redu- zida enquanto o paciente estava consumindo etanol em excesso no jantar. 4. Os fármacos distribuem-se no corpo com base em um mode- lo de quatro compartimentos e no volume de distribuição de cada fármaco. Qual das seguintes afirmações é correta no que concerne à relação entre a administração de um fármaco e a sua distribuição? A. Os fármacos que exibem alta ligação às proteínas plasmá- ticas tendem a distribuir-se rapidamente no compartimento muscular rico em proteína após a sua administração intrave- nosa. B. Os fármacos que apresentam um grande volume de distri- buição tendem a distribuir-se em todos os compartimentos após a sua administração. C. Os fármacos tendem a distribuir-se rapidamente no compar- timento de tecido adiposo, em virtude de sua maior capaci- dade de captação e ligação dos fármacos. D. Os fármacos que penetram no compartimento altamente vascular após a sua administração tendem a permanecer neste compartimento e redistribuem-se lentamente para outros compartimentos. E. Os fármacos que apresentam um pequeno volume de dis- tribuição tendem a atravessar rapidamente a barreira hema- toencefálica. 5. Qual das seguintes características dos fármacos facilita o seu transporte através das membranas biológicas? A. fármaco não-polar B. fármaco de grande tamanho molecular C. fármaco ionizado D. pequeno gradiente de difusão para o fármaco E. fármaco hidrofílico !! CASO 2 Você está trabalhando em uma clínica local. O seu paciente, o Sr. S., é um homem de 65 anos de idade que você está acompa- nhando atentamente nessas últimas semanas devido a medidas progressivamente elevadas de sua pressão arterial. Esta manhã, você acaba de registrar uma pressão arterial de 145/105 mm Hg. Decide prescrever um diurético tiazídico e um antagonista dos β-receptores como tratamento anti-hipertensivo. Enquanto tenta escolher entre o atenolol e o propranolol para o Sr. S., você lembra que o diurético tiazídico que irá prescrever tem uma ligação de 98% às proteínas plasmáticas no sangue. Você também considera os seguintes fatos em relação aos dois anta- gonistas dos β-receptores. Atenolol Propranolol Ligação às proteínas plasmáticas 5% 95% Excreção urinária do fármaco 85% 1% inalterado Volume de distribuição 39 L 270 L Seletividade β1/β2 β1-seletivo Não-seletivo QUESTÕES 1. De que maneira a ligação diferencial do atenolol versus a do propranolol às proteínas plasmáticas afeta a sua decisão sobre o tratamento deste caso? A. O atenolol liga-se menos altamente às proteínas, de modo que terá menos capacidade de alcançar os sítios receptores através da circulação. B. O atenolol liga-se menos altamente às proteínas, de modo que terá menos probabilidade de interferir na ligação do diurético tiazídico às proteínas plasmáticas. C. O propranolol liga-se menos altamente às proteínas, de modo que terá menos probabilidade de deslocar o diurético tiazídico de seus sítios de ligação às proteínas plasmáticas. D. O propranolol liga-se mais altamente às proteínas, de modo queterá maior probabilidade de competir com o tiazídico pela sua ligação a seus sítios receptores no órgão-alvo. E. O propranolol liga-se mais altamente às proteínas, de modo que será necessária a administração de uma dose menor para obter um efeito semelhante ao do atenolol. 2. O Sr. S. tem 65 anos de idade e você suspeita de que ele esteja apresentando uma diminuição da função hepática relacionada com a idade. Como esse fato influencia na sua decisão sobre a escolha do tratamento neste caso? A. O atenolol é mais altamente metabolizado pelo fígado, e pode ser necessário reduzir a dose para evitar o acúmulo do fármaco e seus efeitos adversos. B. O atenolol é menos altamente metabolizado pelo fígado, e pode ser necessário aumentar a dose para assegurar a obtenção de concentrações terapêuticas. C. O propranolol é menos altamente metabolizado pelo fígado, e pode ser necessário aumentar a dose para assegurar a obtenção de concentrações terapêuticas. Farmacocinética 11 D. O propranolol é mais altamente metabolizado pelo fígado, e pode ser necessário reduzir a dose para evitar o desenvolvi- mento de insuficiência hepática. E. O propranolol é mais altamente metabolizado pelo fígado, e pode ser necessário reduzir a dose para evitar o acúmulo e os efeitos adversos do fármaco. 3. Você sabe que alguns fármacos exercem efeitos adversos inde- sejáveis no SNC. Tendo em vista os parâmetros farmacocinéticos do atenolol versus os do propranolol, como essa informação influencia a probabilidade de efeitos adversos potenciais sobre o SNC associados a cada um desses fármacos? A. O atenolol possui um menor volume de distribuição e não irá alcançar concentrações terapêuticas no SNC. B. O atenolol possui um maior volume de distribuição e não terá maior probabilidade de causar efeitos adversos no SNC. C. O propranolol possui um maior volume de distribuição e será retido no compartimento do tecido adiposo, de modo que terá menor probabilidade de causar efeitos adversos no SNC. D. O propranolol possui um maior volume de distribuição e terá maior probabilidade de efeitos adversos no SNC. E. O propranolol possui maior volume de distribuição e terá maior probabilidade de alcançar concentrações terapêuticas no SNC. 4. Você lembra que, em certas ocasiões, o Sr. S. queixou-se de sintomas semelhantes aos da asma. Como esse fato poderia afetar a escolha de um antagonista dos β-receptores? A. O atenolol é β1-seletivo e não será eficaz no controle da doença reativa das vias respiratórias. B. O atenolol é β1-seletivo e pode contribuir para o broncoes- pasmo em pacientes com doença reativa das vias respirató- rias. C. O propranolol é não-seletivo para os β-receptores e não será eficaz no controle da doença reativa das vias respiratórias. D. O propranolol é não-seletivo para os β-receptores e irá apre- sentar eficácia reduzida como agente anti-hipertensivo. E. O propranolol é não-seletivo para os β-receptores e pode contribuir para o broncoespasmo em pacientes com doença reativa das vias respiratórias. 5. A taxa de metabolismo e de excreção na maioria dos fármacos aumenta à medida que a concentração do fármaco aumenta na circulação sistêmica. Este é um exemplo de: A. alta relação de extração B. cinética de saturação C. cinética de primeira ordem D. cinética de ordem zero E. meia-vida de eliminação extensa 12 Capítulo Quatro 4 Metabolismo dos Fármacos QUADRO 4.1 Substratos, Indutores e Inibidores Farmacológicos de Várias Enzimas do Citocromo P450 Enzima P450 Substratos Inibidores Indutores P450 3A4 Agentes anti-HIV: Indinavir Nelfinavir Ritonavir Saquinavir Antibióticos macrolídios: Claritromicina Eritromicina Benzodiazepínicos: Alprazolam Midazolam Triazolam Bloqueadores dos canais de cálcio: Diltiazem Felodipina Nifedipina Verapamil Estatinas: Atorvastatina Lovastatina Imunossupressores: Ciclosporina Tacrolimo Outros: Loratadina Losartana Quinidina Sildenafil Agentes antifúngicos (azólicos) Itraconazol Cetoconazol Agentes anti-HIV: Delavirdina Indinavir Ritonavir Saquinavir Antibióticos macrolídios: Claritromicina Eritromicina Troleandomicina (não azitromicina) Bloqueadores dos canais de cálcio: Diltiazem Verapamil Outros: Cimetidina Suco de toronja (grapefruit) Mifepristona Nefazodona Norfloxacin Agentes anti-HIV: Efavirenz Nevirapina Antiepilépticos: Carbamazepina Oxcarbamazepina Fenobarbial Fenitoína Rifamicinas: Rifabutina Rifampicina Rifapentina Outros: Erva-de-são-joão (Continua) Metabolismo dos Fármacos 13 P450 2D6 Agentes antiarrítmicos: Flecainida Mexiletina Propafenona Antidepressivos: Amitriptilina Clomipramina Desipramina Imipramina Nortriptilina Antipsicóticos: Haloperidol Perfenazina Risperidona Venlafaxina !-Antagonistas: Alprenolol Bufuralol Carvedilol Metoprolol Pembutolol Propranolol Timolol Inibidores da recaptação de 5-HT: Fluoxetina Paroxetina Opióides: Codeína Dextrometorfano Agentes antiarrítmicos: Amiodarona Quinidina Antidepressivos: Clomipramina Antipsicóticos: Haloperidol Inibidores da recaptação de 5-HT: Fluoxetina Paroxetina Nenhum identificado P450 2C19 Antidepressivos: Clomipramina Imipramina Inibidores da bomba de prótons: Lansoprazol Omeprazol Pantoprazol Outros: Propranolol R-varfarina Inibidores da bomba de prótons: Omeprazol Outros: Fluoxetina Ritonavir Sertralina Noretindrona Prednisona Rifampicina OBJETIVOS ! Compreender as diversas vias de metabolismo dos fármacos. ! Compreender o modo pelo qual fatores individuais e farmacológicos podem afetar o metabolismo dos fármacos. !! CASO 1 A Sra. B. é uma mulher branca de 32 anos de idade que, nos últimos 5 dias, vem se queixando de faringite e dificuldade na deglutição. O exame físico revela lesões brancas e cremosas sobre a língua, que são identificadas como candidíase oral, uma infecção fúngica. Seu histórico inclui atividade sexual com diversos parceiros, uso inconstante de preservativo e uso QUADRO 4.1 Substratos, Indutores e Inibidores Farmacológicos de Várias Enzimas do Citocromo P450 (Continuação) Enzima P450 Substratos Inibidores Indutores (Continua) 14 Capítulo Quatro P450 2C9 Agentes antiinflamatórios não-esteróides (AINE): Ibuprofeno Suprofeno Antagonistas do receptor de angiotensina II: Irbesartana Losartana Outros: S-varfarina Tamoxifeno Agentes antifúngicos (azólicos): Fluconazol Miconazol Outros: Amiodarona Fenilbutazona Rifampicina Secobarbital P450 2E1 Anestésicos gerais: Enflurano Halotano Isoflurano Metoxiflurano Sevoflurano Outros: Acetaminofeno Etanol Dissulfiram Etanol Isoniazida P450 1A2 Antidepressivos: Amitriptilina Clomipramina Clozapina Imipramina Outros: R-varfarina Tacrina Quinolonas: Ciprofloxacin Enoxacin Norfloxacin Ofloxacin Outros: Fluvoxamina Carne grelhada no carvão Vegetais da família das crucíferas Insulina Omeprazol Fenobarbital Rifampicina Tabaco contínuo de anticoncepcionais orais durante os últimos 14 anos. O quadro sugere um diagnóstico de infecção pelo HIV-1, que é confirmado pela análise da reação em cadeia da polimerase (PCR). A Sra. B. apresenta baixa contagem de células T CD4, e inicia-se imediatamente um esquema padrão de fármacos anti- HIV, que inclui o inibidor da protease, o saquinavir. A candi- díase oral regride com um agente antifúngico tópico. A despeito da terapia agressiva, as contagens de células CD4 continuam a diminuir, e, vários meses depois, a paciente procura o médico com fadiga e tosse persistente. Um exame mais detalhado leva ao diagnóstico de tuberculose. QUESTÕES 1. Muitos fatores influenciamo metabolismo e o transporte nor- mais dos fármacos. Ao considerar o esquema farmacológico mais apropriado para o tratamento tanto da tuberculose aguda quanto da doença subjacente pelo HIV da Sra. B., quais os fatores que o seu médico deveria considerar? A. A candidíase oral, quando presente, impede a absorção gas- trintestinal dos anticoncepcionais orais. B. A proteína de resistência a múltiplos fármacos 1 (MDR1), um transportador, irá bloquear a absorção gastrintestinal dos agen- tes antituberculose em pacientes com infecção pelo HIV. C. O metabolismo do saquinavir será intensificado pela admi- nistração de agentes antituberculose. D. O metabolismo do saquinavir será intensificado pela ingestão de suco de toronja (grapefruit). E. A eliminação renal de agentes antituberculose é impedida pelo saquinavir. 2. Um dos fármacos de primeira linha no tratamento da tubercu- lose é a rifampicina, que diminui a eficiência dos inibidores da protease do HIV. Qual o mecanismo envolvido nessa interação medicamentosa? A. A rifampicina induz a atividade da enzima 3A4 do P450. B. A rifampicina induz a produção de ácido glicurônico. C. A rifampicina inibe a atividade do transportador MDR1. D. A rifampicina compete com os inibidores da protease pela sua ligação à 3A4 do P450. E. A rifampicina desvia os inibidores da protease para os rins para a sua rápida eliminação. QUADRO 4.1 Substratos, Indutores e Inibidores Farmacológicos de Várias Enzimas do Citocromo P450 (Continuação) Enzima P450 Substratos Inibidores Indutores Metabolismo dos Fármacos 15 3. A isoniazida é outro fármaco comumente utilizado no tratamento de pacientes com tuberculose. Por que a origem étnica da Sra. B. dá a seu médico motivo para se preocupar ao considerar o uso desse fármaco? A. Se for um “acetilador rápido”, a Sra. B. corre risco de con- centrações supraterapêuticas de isoniazida. B. Se for um “acetilador rápido”, a paciente irá apresentar indu- ção da enzima 3A4 do P450. C. Se for um “acetilador lento”, a Sra. B. irá desenvolver con- centrações supraterapêuticas de saquinavir. D. Se for um “acetilador lento”, a Sra. B. corre risco de toxicidade farmacológica associada à isoniazida. E. Se for um “acetilador lento”, a Sra. B. será incapaz de absorver a isoniazida pelo trato gastrintestinal. 4. Alguns fármacos são absorvidos pelo trato gastrintestinal e trans- portados pelo sistema porta hepático, onde são metabolizados. Sua biodisponibilidade subseqüente pode ser reduzida. Esse processo é denominado: A. conjugação/hidrólise B. efeito de primeira passagem C. hipertensão porta D. xenobiose E. indução das enzimas P450 5. As reações de oxidação/redução ocorrem primariamente: A. na membrana plasmática do hepatócito B. no epitélio gastrintestinal C. no retículo endoplasmático D. no citosol E. no núcleo dos hepatócitos !! CASO 2 Bessie B., uma mulher de 78 anos de idade, é levada pela filha a seu médico de família, o Dr. Joy, para avaliação de sono excessivo. Sua família observou que estava progressivamente mais confusa e “lenta” na última semana, adormecendo durante o jantar nesses últimos dois dias. Essa manhã, não acordou na hora habitual para o desjejum, e o marido chamou a filha para ajudar. O marido e a filha da Sra. B. tiveram muita dificuldade em acordá-la e vesti-la para ir ao médico. Dormiu no carro durante o trajeto. A Sra. B. não tem nenhuma queixa. Confessa que realmente vem se sentindo muito cansada, mas ela atribui esse cansaço a ter plantado este ano tomates no jardim, limpa- do os canteiros de flores e, posteriormente, ter-se resfriado e apresentar tosse nessa última semana. Não há nenhum histórico de traumatismo ou depressão. A história clínica da Sra. B. é notável pela hipertensão, coronariopatia estável, história de taquicardia supraventricular e ansiedade. É alérgica às penicilinas e, recentemente, começou a tomar um antibiótico para a bronquite. No exame físico, os sinais vitais incluem temperatura de 37oC, freqüência cardíaca de 54 bpm, freqüência respiratória de 17 respirações/min e pres- são arterial de 142/87 mm Hg. Está bem nutrida, mas parece estar um tanto cansada. O exame é normal, exceto pelo seu estado mental. Parece estar ligeiramente sedada, porém abre os olhos em resposta às vozes e responde com fala ligeiramente arrastada. Quando o Dr. Joy e a sua família não interagem diretamente com ela, ela cochila. O Dr. Joy faz uma revisão das medicações da Sra. B., que incluem aspirina, alprazolam (um benzodiazepínico), diltiazem (um bloqueador dos canais de cálcio), hidroclorotiazida (um diurético tiazídico), lovasta- tina (um inibidor da HMG-CoA redutase) e claritromicina (um antibiótico macrolídio). QUESTÕES 1. Qual das medicações da Sra. B. poderia ser responsável pela sua sonolência? A. aspirina B. alprazolam C. diltiazem D. lovastatina E. claritromicina 2. O Dr. Joy receia que a Sra. B. possa estar tendo uma interação medicamentosa, que está causando alteração do metabolismo e toxicidade clínica subseqüente (sonolência). Ao rever a lista de medicamentos, observa o acréscimo recente da claritromicina para tratamento da bronquite. A claritromicina é um antibiótico macrolídio. De que maneira os macrolídios afetam o metabo- lismo normal de outros fármacos? A. Os antibióticos macrolídios ligam-se competitivamente aos metabólitos ativos de pró-fármacos. B. Os antibióticos macrolídios ligam-se irreversivelmente a enzi- mas de conjugação. C. Os antibióticos macrolídios induzem certas enzimas do P450. D. Os antibióticos macrolídios promovem a função do transpor- tador MDR1. E. Os antibióticos macrolídios inibem certas enzimas do P450. 3. O Dr. Joy também considera a idade avançada da Sra. B. e sugere a necessidade de fazer algumas modificações no esquema de medicações. Qual das seguintes afirmações é correta no que concerne ao metabolismo dos fármacos e à idade? A. Os recém-nascidos metabolizam os fármacos utilizando enzi- mas maternas que atravessam a placenta antes do nasci- mento. B. Os recém-nascidos apresentam aumento da função enzimá- tica na produção de bilirrubina. C. Os pacientes idosos têm maior sensibilidade aos efeitos metabólicos do suco de toronja. D. Os pacientes idosos apresentam aumento de tamanho do fígado, porém redução do fluxo sangüíneo para zonas enzi- máticas de metabolismo dos fármacos. E. Os pacientes idosos apresentam diminuição da atividade das enzimas hepáticas envolvidas no metabolismo dos fár- macos. 4. Um exemplo de como o metabolismo dos fármacos é afetado por fatores raciais ou étnicos é: A. Os afro-americanos exibem maior capacidade de metabolizar os antagonistas dos β-receptores. 16 Capítulo Quatro B. Os indivíduos brancos têm uma capacidade enzimática insu- ficiente de metabolizar os antidepressivos tricíclicos. C. Mais de 90% dos asiáticos são “acetiladores rápidos” no metabolismo da rifampicina. D. Os afro-americanos exibem uma atividade enzimática redu- zida para conversão da codeína em morfina. E. Os asiático-americanos exibem um aumento da atividade enzimática no metabolismo da varfarina. 5. A síndrome do bebê cinzento é uma síndrome clínica de choque, palidez e cianose que ocorre em lactentes. O fármaco associado ao desenvolvimento da síndrome do bebê cinzento é: A. cloranfenicol B. varfarina C. anticoncepcionais orais (utilizados pela mãe) D. psoraleno E. isoniazida 5 Toxicidade dos Fármacos OBJETIVOS ! Compreender vários mecanismos de toxicidade das substâncias. !! CASO 1 A Sra. G., uma professora de piano de 80 anos de idade, vem sentindo uma dor progressivamente intensa na perna direita, cuja duração se estende por um período de 5 a 10 anos. Apesar da dor e da fadiga crescentes, continuou dando aulas em seu estúdio. Os estudos de imagemrevelam osteoartrite grave no quadril direito. A Sra. G. deve ser submetida a uma substituição eletiva do quadril direito, com prótese articular. A substituição total do quadril é efetuada sem complicações imediatas. Nos primeiros dias após a cirurgia a Sra. G. recebe heparina de baixo peso molecular e varfarina como profilaxia contra a trombose venosa profunda. Seis dias após a operação, aparece uma dor excruciante na área da cirurgia. O exame físico revela edema da parte lateral do quadril direito e nádega. O hemograma completo demonstra uma perda significativa de sangue (queda do hematócrito de 35% para 25%), e a Sra. G. é novamente levada ao centro cirúrgico para evacuação de um grande hematoma que se formou ao redor da prótese articu- lar. Embora o hematoma não pareça estar macroscopicamente infectado, as culturas de amostras do hematoma são positivas para Staphylococcus aureus. Fármaco ou metabólitos Complexos proteína–fármaco Destoxificação/ excreção Reação com o DNA Mutagênese Reparo do DNA Carcinogênese Reação com pequenas moléculas (por exemplo, GSH) NecroseFibrose Apoptose Resposta protetora(por exemplo, reparo) Efeitos específicos nos receptores (direcionados ou não para o alvo) Defesas oxidativas Deflagração de respostas reguladoras Fig. 5.1 Mecanismo de Toxicidade dos Fármacos. Um fármaco e seus metabólitos ou ambos interagem com receptores específicos, mediando efeitos adversos direcionados ou não para o alvo. Além disso, os metabólitos podem ser destoxificados ou excretados, ou podem reagir com uma variedade de macromoléculas, incluindo DNA, antioxidantes pequenos, como a glutationa (GSH), ou proteínas celulares ou plasmáticas. A formação de complexos de DNA sem reparo ou de reparo inadequado é freqüentemente mutagênica e pode levar a câncer. O comprometimento das defesas oxidativas pode resultar em inflamação e morte celular (apoptose ou necrose). A formação de complexos fármaco–proteína pode deflagrar respostas imunes, que podem causar lesão de células e tecidos. Independentemente do mecanismo de lesão, pode ocorrer uma graduação de respostas agudas, desde protetoras até a apoptose (morte celular programada) e necrose, dependendo da extensão da lesão e das relações temporais e de dose. A inflamação crônica e o reparo também podem levar à fibrose tecidual. 18 Capítulo Cinco QUESTÕES 1. Qual o fundamento para a co-administração de heparina de baixo peso molecular e de varfarina no período pós-operatório imediato? A. A heparina de baixo peso molecular e a varfarina são enan- tiômeros moleculares, que equilibram seus efeitos anticoa- gulantes quando co-administrados. B. A heparina de baixo peso molecular compete com a varfa- rina pelos sítios de metabolismo hepático e retarda o seu metabolismo para intensificar seu efeito terapêutico. C. A heparina de baixo peso molecular é administrada para obter uma anticoagulação até que as concentrações plasmáticas de varfarina alcancem um nível anticoagulante terapêutico. D. A heparina de baixo peso molecular é administrada no hos- pital, enquanto a varfarina pode ser administrada em casa. E. A co-administração desses fármacos produz um efeito anti- coagulante em doses mais baixas de ambos os fármacos e, ao mesmo tempo, minimiza a toxicidade associada a cada um dos agentes. 2. Como anticoagulantes, a heparina de baixo peso molecular cata- lisa a inativação do fator Xa pela antitrombina III e a varfarina inibe a formação dos fatores da coagulação II, VII, IX e X. A anti- coagulação supraterapêutica e a ocorrência de hemorragia em conseqüência da co-administração desses fármacos fornecem um exemplo de: A. reação de hipersensibilidade ao agente terapêutico B. overdose de agentes terapêuticos C. interação medicamentosa farmacocinética D. interação medicamentosa farmacodinâmica E. efeito colateral “não-planejado” de um agente terapêutico 3. Como é difícil tratar com sucesso as infecções de próteses articu- lares sem a sua remoção, a Sra. G. recebe um ciclo agressivo de 12 semanas de antibióticos combinados, com administração de vancomicina intravenosa e rifampicina oral durante 2 semanas, seguidas de ciprofloxacin e rifampicina orais durante 10 sema- nas. A paciente tolera as primeiras 2 semanas de antibióticos sem qualquer complicação. Qual foi o principal fundamento para a administração de vancomicina e de rifampicina seguidas de ciprofloxacin e rifampicina para o tratamento da infecção pelo S. aureus? A. Uma mudança nos antibióticos irá impedir o desenvolvimen- to de resistência bacteriana aos fármacos. B. Um fármaco de maior custo (vancomicina) seria substituído por um fármaco mais barato (ciprofloxacin). C. Uma combinação de antibióticos seria substituída por outra combinação com efeitos antimicrobianos sinérgicos mais pronunciados. D. Uma combinação de antibióticos mais potencialmente aler- gênicos seria substituída por uma combinação de menor potencial alergênico. E. Uma formulação intravenosa menos conveniente (vancomi- cina) seria substituída por uma formulação oral mais conve- niente (ciprofloxacin). Trinta e seis horas após a substituição da vancomicina pelo cipro- floxacin, a Sra. G. desenvolve febre alta de 39,4oC e fraqueza extrema. A aspiração do quadril revela apenas uma quantidade escassa de líquido cor de palha (isto é, não-purulento). Por con- seguinte, a Sra. G. é internada para observação rigorosa. Doze horas após a sua internação, surge um exantema maculo- papular extenso no tórax, nas costas e nos membros. O ciproflo- xacin e a rifampicina são suspensos, e reinicia-se a vancomicina. Gradualmente, no decorrer das 72 horas seguintes, a tempera- tura cai para o normal, e o exantema começa a desaparecer. A cultura do aspirado do quadril direito é negativa. A Sra. G. continua recebendo vancomicina como monoterapia nas 4 semanas seguintes sem qualquer incidente; a rifampicina tam- bém é reiniciada, sem qualquer incidente; e, por fim, o ciclo de antibióticos de 12 semanas é completado com uma associação de sulfametoxazol-trimetoprim e rifampicina. 4. Dentro de várias horas após a substituição da vancomicina pelo ciprofloxacin, a Sra. G. desenvolveu febre alta, fraqueza e exan- tema. Esses sintomas mais provavelmente representaram: A. uma infecção por uma bactéria resistente ao ciprofloxacin B. uma reação de hipersensibilidade imediata ao ciprofloxacin C. uma reação de hipersensibilidade de tipo tardio ao ciproflo- xacin D. uma reação de hipersensibilidade de tipo tardio à rifam picina E. uma síndrome de toxicidade da rifampicina sem oposição Quatro meses após a cirurgia do quadril, a Sra. G. volta a dar suas aulas de piano e está fazendo um progresso lento porém contínuo no seu programa de reabilitação. 5. Se a Sra. G. fosse desenvolver uma infecção do trato urinário no ano seguinte, qual dos seguintes fármacos estaria contra- indicado para tratamento? A. vancomicina B. levofloxacin C. rifampicina D. sulfametoxazol-trimetoprim E. acetaminofen !! CASO 2 Sexta-feira, 21 horas: Jenna B. é uma jovem de 17 anos de idade. Tem um histórico de convulsões desde a infância, para as quais toma fenitoína, um agente antiepiléptico. Essa tarde, fez um teste de gravidez em casa, cujo resultado foi positivo. Jenna B. está apavorada em dar a notícia aos pais. Recentemen- te, ganhou uma bolsa de estudos para uma renomada escola de arte, e os pais estão muito animados com os futuros planos aca- dêmicos da filha. Desesperada, Jenna B. ingere os comprimidos de um frasco de acetaminofen em uma overdose. Escreve um bilhete sobre o suicídio aos pais e vai para a cama. QUESTÕES 1. Como o acetaminofen provoca toxicidade em overdose? A. O acetaminofen liga-se a sítios receptores alternativos não- planejados no fígado. B. O acetaminofen é metabolizado pelo fígado a ummetabólito tóxico. Toxicidade dos Fármacos 19 C. O acetaminofen atua como hapteno e induz hepatite auto- imune. D. Os metabólitos do acetaminofen induzem o depósito de colágeno no fígado. E. O metabolismo do acetaminofen bloqueia competitivamente o metabolismo normal de componentes biliares, resultando em colestase. Sábado, 10 horas: Jenna B. acorda sentindo-se muito mal. Está com muita náusea e vomita várias vezes no banheiro. A mãe descobre o vômito bilioso líquido no banheiro, e a filha cai em pranto e fala da gravidez e da ingestão do medicamento na noite anterior. A mãe chama o pediatra e leva a filha imediatamente ao departamento de emergência no Children’s Hospital. 2. Por que houve um intervalo de tempo entre a ingestão de acetaminofen por Jenna B. e o início dos sintomas clínicos de toxicidade do acetaminofen? A. Os sintomas clínicos só aparecem quando ocorre depleção das reservas de glutationa e o metabólito tóxico começa a ligar-se e provocar lesão dos hepatócitos. B. Ocorre atraso no aparecimento dos sintomas clínicos quan- do outro fármaco (fenitoína) compete com o acetaminofen pelos sítios metabólicos no fígado. C. Os sintomas clínicos aparecem de modo tardio porque a gravidez diminui a intensidade do metabolismo hepático dos fármacos. D. Os sintomas clínicos só aparecem quando o acetaminofen é capaz de formar ligações covalentes com as enzimas hepáti- cas envolvidas no metabolismo. E. Os sintomas clínicos aparecem de modo tardio quando o estômago está repleto de comprimidos, que não podem ser rapidamente absorvidos pelo trato gastrintestinal. 3. A paciente toma fenitoína, um agente antiepiléptico, que é meta- bolizado pelo fígado e induz a atividade das enzimas P450 hepá- ticas. Qual poderia ser o impacto do uso crônico de fenitoína na overdose de acetaminofen? A. O fígado de Jenna B. será mais eficiente no metabolismo do acetaminofen a seu metabólito tóxico, com conseqüente risco aumentado de hepatotoxicidade. B. O fígado de Jenna B. será mais eficiente na conjugação do metabólito tóxico com glicuronídio, protegendo-a contra a hepatotoxicidade. C. O fígado de Jenna B. será mais eficiente na conjugação do metabólito tóxico com a glutationa, protegendo-a contra a hepatotoxicidade. D. O fígado de Jenna B. será incapaz de metabolizar eficiente- mente o acetaminofen na presença de fenitoína, protegendo-a contra a hepatotoxicidade. E. O fígado de Jenna B. será incapaz de metabolizar eficiente- mente o acetaminofen na presença de fenitoína, com con- seqüente risco aumentado de hepatotoxicidade. Sábado, 11 horas: Ao chegar ao Children’s Hospital, Jenna B. está ainda com ânsia de vômito e queixa-se de desconforto “dolorido” na parte superior do abdome. O pediatra de plantão observa os seguintes achados ao exame: temperatura, 37,3oC; pulso, 132 bpm; freqüência respiratória, 24 respirações/min e pressão arterial, 92/50 mm Hg. A paciente está pálida e parece cansada. As mucosas estão secas. Apresenta hipersensibilidade abdominal moderada à palpação do quadrante superior direi- to. Efetua-se um acesso intravenoso, e embora os resultados dos exames de laboratório (incluindo hemograma completo, eletrólitos, uréia sangüínea, creatinina, provas de lesão e de função hepáticas, concentração sérica de acetaminofen e teste de gravidez) ainda estejam sendo aguardados, inicia-se uma infusão intravenosa de N-acetilcisteína em dose de ataque e infusão de manutenção. 4. O efeito do uso crônico da fenitoína sobre o metabolismo do acetaminofen no fígado fornece um exemplo de: A. uma reação de hipersensibilidade a um agente terapêutico B. uma overdose de agente terapêutico C. uma interação medicamentosa farmacocinética D. uma interação medicamentosa farmacodinâmica E. um efeito colateral “não-pretendido” de um agente terapêu- tico Domingo, 17 horas: Jenna B. está terminando a infusão de N-acetilcisteína. A dor abdominal e a náusea desapareceram. Embora as determinações iniciais de lesão hepática estives- sem elevadas, esses testes estão se normalizando. Ela e os pais encontram-se com o psiquiatra infantil e a assistente social. 5. O acetaminofen atravessa a placenta. Qual o impacto potencial da overdose de Jenna B. sobre a gravidez? A. Se o acetaminofen for conjugado por glicuronidação e sulfa- tação, será retido nos rins fetais. B. Se o acetaminofen alcançar a circulação hepática fetal, será conjugado com glutationa. C. Se o fígado fetal estiver se desenvolvendo durante esse perío- do, ocorrerão efeitos teratogênicos do acetaminofen. D. Se o fígado fetal não estiver se desenvolvendo durante esse período, não haverá nenhum efeito carcinogênico do aceta- minofen. E. Se as enzimas P450 hepáticas do feto estiverem funcionan- do, o fígado fetal irá elaborar o metabólito tóxico e causar hepatotoxicidade fetal. 20 Capítulo Cinco RESPOSTAS DO CAPÍTULO 1 CASO 1 1. A resposta é E. Normalmente, as tirosinoquinases do recep- tor fosforilam resíduos de tirosina na cauda citoplasmática do receptor, bem como em moléculas de sinalização citosólicas. O cromossomo Filadélfia mutante codifica uma proteína tirosi- noquinase de receptor constitutivamente ativa, BCR-Abl. Essa quinase fosforila proteínas citosólicas, levando a uma desregulação do crescimento celular e ao desenvolvimen- to de leucemia mielóide crônica. Essa mutação é um exemplo de uma mutação de “ganho-de-função”, que permite uma ati- vidade independente de ligante e, nesse caso, o crescimento celular descontrolado. 2. A resposta é E. O imatinibe inibe a capacidade da BCR- Abl de fosforilar substratos. Liga-se ao sítio de ligação do ATP da tirosinoquinase BCR-Abl e induz a proteína a assumir uma conformação enzimaticamente inativa, que inibe a sua atividade de quinase. Isso limita os sinais intracelulares para o crescimento de células mielóides. 3. A resposta é A. Os tratamentos mais antigos têm como alvo todas as células mielóides e exercem efeitos sobre os diversos processos celulares. Isso resulta em efeitos adver- sos tóxicos significativos em muitas células ou tecidos, que são afetados pelo mecanismo de ação do agente quimioterápico. 4. A resposta é A. O imatinibe liga-se seletivamente à proteína BCR-Abl nas células hematopoiéticas de cres- cimento anormal. Trata-se de um agente quimioterápico, cuja ação é restrita a uma distribuição celular específica de um receptor. Isso explica a sua especificidade e a baixa incidência de efeitos adversos em pacientes tratados com imatinibe. Ao contrário das tirosinoquinases receptoras, os receptores associa- dos à tirosinoquinase não possuem atividade enzimática inata, porém induzem outras proteínas citosólicas a fosforilar resíduos de tirosina. 5. A resposta é C. A amplificação de sinal refere-se à capa- cidade de uma célula de amplificar os efeitos da ligação dos receptores. Por exemplo, quando um ligante liga-se a um recep- tor acoplado à proteína G, a molécula de proteína G pode ligar-se a muitas moléculas efetoras e ativá-las, amplificando a resposta celular de segundos mensageiros à ligação do ligante. Ocorre taquifilaxia quando os fármacos passam a exercer efeitos que diminuem com o decorrer do tempo. A dessensibilização do receptor e da célula pode ser homóloga (apenas um tipo de receptor exibe uma resposta diminuída ao agonista) ou hete- róloga (dois ou mais tipos de receptores exibem uma resposta coordenadamente diminuída). CASO 2 1. A resposta é B. O sítio de ligação dos inseticidas organofosfo- rados é uma enzima extracelular, a acetilcolinesterase. Essas substâncias químicas ligam-se ao sítio ativo da acetilcolinesterase e formam uma ligação oxigênio–fósforo no complexo enzimáti- co, que impede a degradação da acetilcolina no interior da fenda sináptica. Como os organofosforados ligam-se de modo não-seletivo à acetilcolinesterase nos sítios tanto nicotínicos quanto muscarínicos, podem causar aumento da neurotransmissão colinérgica em ambas as sinapses colinérgicas. Isso resulta em bloqueio neuromuscular despolarizante, bem como na ocorrên- cia de sintomas muscarínicos, como sudorese profusa, pupilas mióticas e secreções orais e brônquicas copiosas. Os receptores de adesão de superfície celular medeiam as interações e a comunicação entre células. 2. A resposta é E. Os inseticidas organofosforados seriam con- siderados agonistas indiretos nas sinapses colinérgicas. Não se ligam diretamente ao receptor de acetilcolina, como os ago- nistas diretos, mas aumentam a concentração de acetilcolina no interior da sinapse. Dessa maneira, facilitam o efeito agonista da acetilcolina em seu receptor, ao qual a acetilcolina se liga e induz uma alteração de conformação no canal iônico associado ao receptor, aumentando a permeabilidade da membrana a cátions. Os agonistas inversos fazem com que os alvos recep- tores constitutivamente ativos adotem uma conformação inativa do receptor. Os antagonistas inibem a capacidade dos alvos receptores de serem ativados por agonistas endógenos. 3. A resposta é D. A ligação oxigênio–fósforo “envelhecida” é uma ligação covalente essencialmente irreversível. A enzima afetada é destruída, e a função de acetilcolinesterase subseqüen- te depende da regeneração de nova enzima. O antídoto para o envenenamento por organofosforado, a pralidoxima, reverte a ligação oxigênio–fósforo, porém deve ser administrado antes que ocorra envelhecimento e antes que a ligação se torne cova- lente. A ligação iônica é observada entre átomos de cargas opos- tas. As forças de van der Waals resultam da polaridade induzida em moléculas em conseqüência da mudança de densidade de RESPOSTAS DA SEÇÃO I !! Respostas da Seção I 21 seus elétrons e proporcionam uma força fraca de atração entre substâncias químicas e seus receptores. A ligação de hidrogênio é mediada pela interação entre átomos de polarização positiva e de polarização negativa. 4. A resposta é A. O receptor nicotínico de acetilcolina é um exemplo de canal iônico regulado por ligante. Quando duas moléculas de acetilcolina ligam-se ao receptor pós-sináp- tico, ocorre uma alteração de conformação no canal transmem- brana, permitindo a condutância de íons através do canal. Os canais iônicos regulados por voltagem modificam o seu estado e a sua conformação com base em alterações no potencial da membrana celular. 5. A resposta é B. A região intracelular é ligada a uma pro- teína G, o que afeta as moléculas de sinalização após a ligação do ligante ao domínio extracelular do receptor. A proteína G difunde-se a partir do domínio intracelular do receptor e atua em diversas moléculas efetoras, incluindo adenilil ciclase, fosfolipase C e canais iônicos. Os sinais mediados pelas prote- ínas G são habitualmente interrompidos pela hidrólise do GTP a GDP. A região transmembrana consiste em uma única cadeia polipeptídica, que atravessa sete vezes a membrana, conectando o sítio de ligação de ligante extracelular à ligação da proteína G intracelular. Não se trata de um canal iônico. Os receptores acoplados à proteína G constituem a classe mais abundante de receptores no corpo humano. RESPOSTAS DO CAPÍTULO 2 CASO 1 1. A resposta é D. A potência (CE50) de um fármaco refere-se à concentração à qual o fármaco produz 50% de sua resposta máxima. Os fármacos altamente potentes podem produzir 50% de sua resposta máxima em concentrações mais baixas (ou apresentam uma CE50 pequena). A presença de um anta- gonista competitivo desvia a curva dose–resposta do agonista para a direita e diminui a sua potência. Essa é a razão pela qual a ligação de um antagonista competitivo altera o equilíbrio para a ligação do agonista a seu receptor e aumenta a sua Kd aparente. Os agonistas com baixa potência exibem uma curva dose–resposta situada à direita daquela de fármacos semelhantes, porém mais potentes. Quanto maior a potência de um fármaco, mais baixa a sua constante de disso- ciação fármaco–receptor, Kd. 2. A resposta é B. A eficácia máxima de um agonista é a condição em que a sinalização do fármaco media- da pelo receptor é máxima. A Emáx é a resposta máxima produzida pelo agonista, em que qualquer quantidade adicio- nal do fármaco não irá produzir nenhuma resposta adicional. Esse estado ocorre habitualmente quando todos os receptores estão ocupados pelo fármaco, à exceção das condições em que existem “receptores de reserva”. A presença de um antagonis- ta não-competitivo reduz a resposta máxima possível à ligação fármaco–receptor e, por conseguinte, diminui a eficácia do fár- maco. Essa é a razão pela qual os antagonistas não-competitivos exercem seu efeito ao impedir a ativação do receptor, indepen- dentemente da presença ou ligação do fármaco agonista. Os fármacos mais potentes medeiam seus efeitos na presença de uma menor proporção de ligação ao receptor. A DE50 refere- se à dose efetiva mediana de um fármaco que produz uma resposta em 50% da população. A DL50 refere-se à dose letal mediana de um fármaco, causando um efeito letal em 50% da população. 3. A resposta é E. A aspirina apresenta um índice tera- pêutico maior, enquanto a heparina exibe um índice terapêutico pequeno. Assim, a aspirina produz uma resposta terapêutica ao longo de uma maior faixa de doses, sem efeitos adversos inaceitáveis. Em contrapartida, a heparina apresenta um índice terapêutico de menos de 2; pode causar toxicida- de e hemorragia em doses de menos de duas vezes a dose terapêutica. Por conseguinte, o seu efeito anticoagulante deve ser rigorosamente monitorado. As relações dose–resposta gra- duadas descrevem o efeito de várias doses do fármaco em um indivíduo. As relações dose–resposta quantais descrevem as respostas de uma população a determinado fármaco, em uma determinada dose. 4. A resposta é D. Os fármacos com baixo índice tera- pêutico não exercem efeitos terapêuticos até que a dose administrada se aproxime da dose tóxica. O índice terapêutico é definido por DT50/DE50, em que DT50 é a dose de um fármaco que produz uma resposta tóxica em 50% da população, e DE50 é a dose de um fármaco que produz um efeito terapêutico em 50% da população. O índice terapêutico quantifica a margem de segurança relativa de um fármaco. Um fármaco com baixo índice terapêutico tem maior potencial de toxicidade quando se aumenta a dose administrada. 5. A resposta é C. O conceito de “receptores de reserva” refere-se à ocorrência de uma resposta agonista máxima com uma ocupação de menos de 100% dos receptores. Nesse caso, a eficácia máxima de um fármaco é obtida em uma dose mais baixa do fármaco agonista, apesar de os receptores não estarem saturados. Isso é graficamente representado como uma CE50 que é menor do que a Kd para a interação fármaco–receptor. A presença de receptores de reserva permite que a eficácia de um fármaco seja mantida mesmo na presença de baixas concentra- ções de antagonistas. Em contrapartida, a potência é reduzida, visto que uma maior proporção de receptores disponíveis deve ser ocupada pelo agonista para atingir uma resposta de 50%. CASO 2 1. A resposta é C. O 3-metil fentanil é o mais potente dos três agonistas opióides relacionados nesta questão. Teria o menor valor de CE50 e a curva dose–resposta situada mais à esquerda. A morfina teria a maior CE50 e a curva localizada mais à direita, enquanto o fentanil estaria no meio. A naloxona e a naltrexona não são agonistas opióides, mas antagonistas. 2. A resposta é B. A naloxona produz um efeito farmacoló- gico de antagonista competitivo reversível. A naloxona compete com os opióides pela sua ligação ao receptor opióide µ. 22 Capítulo Cinco Ao impedir a ação dos opióidesno sítio ativo, a naloxona reverte os efeitos sedativos e depressores dos opióides. Entretanto, a sua meia-vida é de aproximadamente 1 hora, e pode ocorrer ressedação por meio da ação opióide nos receptores opióides µ que não estão mais ocupados pela naloxona. 3. A resposta é E. A DL50 para o 3-metil fentanil é de 25 mg. Essa é a dose da droga em que 50% dos usuários morrem. 4. A resposta é D. A afinidade do 3-metil fentanil pelo receptor opióide ! é alta. O fentanil e os análogos ilícitos são agonistas opióides altamente potentes. O abuso dessas drogas é potencialmente letal. 5. A resposta é B. Os anticorpos específicos contra a digoxina ligam-se à digoxina e impedem a sua ação na bomba de sódio–potássio cardíaca. Trata-se de um exemplo de antagonista químico: o efeito agonista da digo- xina é impedido pelo “seqüestro” do fármaco por anticorpos específicos, que se ligam à digoxina e a removem de seu sítio de ligação no miócito cardíaco. A ligação de antagonistas dos receptores β-adrenérgicos a receptor β1-adrenérgico, diminuin- do a taquicardia no contexto do hipertireoidismo, fornece um exemplo de ação antagonista fisiológica. RESPOSTAS DO CAPÍTULO 3 CASO 1 1. A resposta é D. O paciente começa a tomar outro medi- camento, que inibe o metabolismo hepático do medi- camento de uso crônico. Essa mudança no metabolismo de fármacos irá alterar as concentrações plasmáticas em equilíbrio dinâmico do medicamento de uso crônico, podendo resultar em sintomas de toxicidade clínica. Em contrapartida, algumas alterações podem levar a uma diminuição na disponibilidade e nos efeitos terapêuticos de um fármaco de uso crônico. Por exemplo, o fato de tomar o medicamento de uso crônico com alimentos pode reduzir a sua absorção gastrintestinal. Tomar outro medicamento que tem a capacidade de intensificar o metabolismo hepático de primeira passagem pode reduzir a quantidade do fármaco ativo disponível na circulação sistêmica após absorção. O aumento da massa muscular pode alterar o volume de distribuição do medicamento de uso crônico e reduzir a quantidade de fármaco livre disponível para atuar em seus sítios receptores. 2. A resposta é A. O sulfametoxazol-trimetoprim inibiu o metabolismo hepático e a depuração da varfarina. Esse efeito aumentou a concentração no estado de equilíbrio dinâ- mico da varfarina e foi responsável pela ocorrência de concen- trações supraterapêuticas desse fármaco. Além disso, o etanol também inibiu o metabolismo da varfarina. Esses fatores levaram a níveis excessivos de varfarina e ocorrência de sangramento. 3. A resposta é C. A dose de varfarina deveria ter sido reduzida enquanto o paciente estava tomando sulfame- toxazol-trimetoprim. Além disso, deve-se evitar o consumo excessivo de etanol quando o seu metabolismo compete com as vias metabólicas normais de medicamentos de uso crônico. O tratamento crônico com varfarina não deve ser interrompido de modo abrupto. 4. A resposta é B. Os fármacos que apresentam um grande volume de distribuição tendem a distribuir-se em todos os compartimentos após a sua administração. O volume de distribuição representa o volume de líquido que seria neces- sário para conter a quantidade total do fármaco absorvido se esti- vesse presente em uma concentração uniforme por todo esse volume. A distribuição de um fármaco ocorre através do sistema circulatório. Os fármacos que exibem alta ligação às proteínas plasmáticas tendem a permanecer no compartimento vascular e apresentam um pequeno volume de distribuição. O compar- timento rico em vasos é o primeiro compartimento extravascular onde a concentração do fármaco aumenta. Entretanto, devido à alta vascularidade desse compartimento, a redistribuição do fármaco a partir dele também ocorre rapidamente. Embora o compartimento do tecido adiposo tenha a maior capacidade de captação de fármacos, é o menos vascular. Por conseguinte, a captação e a redistribuição de fármacos pelo compartimento do tecido adiposo ocorrem numa taxa mais lenta. 5. A resposta é A. Os fármacos não-polares, os fármacos lipofílicos e os fármacos de pequeno tamanho molecular ten- dem a atravessar facilmente as membranas biológicas. Os fár- macos polares e ionizados e aqueles com pequeno gradiente de difusão não atravessam tão facilmente as membranas e podem necessitar da presença de transportadores protéicos transmem- brana para facilitar o seu transporte através das membranas biológicas. CASO 2 1. A resposta é B. O atenolol liga-se menos altamente às proteínas, de modo que terá menos probabilidade de interferir na ligação do diurético tiazídico às proteínas plasmáticas. Em contrapartida, o propranolol, que exibe alta ligação às proteínas, desloca o diurético tiazídico de seus sítios de ligação às proteínas plasmáticas, aumentando a concentração de tiazídico livre e seu efeito diurético. Os fármacos que exibem ligação mais alta às proteínas plasmáticas possuem menor volu- me de distribuição, porém podem necessitar da administração de doses maiores para atingir as concentrações do fármaco livre necessárias para exercer o seu efeito terapêutico. 2. A resposta é E. O propranolol é mais altamente metabo- lizado pelo fígado, e pode ser necessário reduzir a dose para evitar o acúmulo e os efeitos adversos do fármaco. Alternativamente, a freqüência de doses de propranolol pode ser reduzida para limitar o acúmulo e os efeitos adversos do fármaco. Em contraste, 85% do atenolol é excretado pelos rins na sua forma inalterada, e não se espera que o comprometi- mento da função hepática possa alterar a sua dose. Entretanto, a presença de insuficiência renal pode resultar em acúmulo do atenolol. Respostas da Seção I 23 3. A resposta é D. O propranolol possui maior volume de distribuição e terá maior probabilidade de causar efeitos adversos no SNC, incluindo sonolência, letargia, coma e convul- sões em níveis tóxicos. Em virtude de sua natureza lipofílica e do grande volume de distribuição, o propranolol também distribui- se no compartimento do tecido adiposo, que pode atuar como reservatório de depósito para uma redistribuição lenta e contínua do fármaco para outros compartimentos. Por outro lado, o atenolol é mais hidrofílico e possui menor volume de distribuição. Tem pouca probabilidade de causar efeitos adversos no SNC. 4. A resposta é E. O propranolol é não-seletivo para os "-receptores e pode contribuir para o broncoespasmo em pacientes com doença reativa das vias respirató- rias. Como o relaxamento do músculo liso brônquico é media- do por β2-receptores, o uso de um antagonista não-seletivo dos β-receptores pode contribuir para o broncoespasmo no Sr. S. 5. A resposta é C. A cinética de primeira ordem refere-se a uma taxa de metabolismo e de excreção de um fármaco que é diretamente proporcional à concentração deste fármaco na circulação sistêmica. À medida que a concentração de um fármaco aumenta, a sua taxa de metabolismo também aumenta proporcionalmente. Em outras palavras, seus mecanismos de depuração não se tornam saturados em circunstâncias tera- pêuticas normais. Em contraste, alguns fármacos demonstram uma cinética de saturação, de tal modo que os mecanismos de depuração tornam-se saturados na concentração terapêutica do fármaco ou próximo a ela. À medida que a concentração do fármaco aumenta, a taxa de depuração não aumenta, mas permanece constante. Trata-se de uma característica da cinéti- ca de ordem zero. Nesse caso, o aumento nas concentrações do fármaco pode resultar em efeitos tóxicos. Os órgãos com elevada relação de extração contribuem significativamente para a depuração de um fármaco do plasma. A meia-vida de elimi- nação refere-se ao tempo durante o qual a concentração de um fármaco no plasma diminui metade de sua concentração original. RESPOSTAS DO CAPÍTULO 4CASO 1 1. A resposta é C. O metabolismo do saquinavir será inten- sificado pela administração de agentes antituberculo- se, que induzem a atividade das enzimas P450 responsáveis pelo metabolismo do saquinavir. A proteína de resistência a múl- tiplos fármacos 1 (MDR1), que é um transportador, transporta ativamente os fármacos de volta à luz intestinal e pode limitar a biodisponibilidade de diversos fármacos, incluindo inibidores da protease do HIV e digoxina. O metabolismo do saquinavir pode ser reduzido pela ingestão de suco de toronja. O suco de toronja contém derivados do psoraleno, que inibem as enzimas 3A4 do P450 (bem como o transportador MDR1 no intestino delgado). 2. A resposta é A. A rifampicina induz a atividade da 3A4 do P450 (bem como a 2C19 do P450, a 2C9 do P450 e a 1A2 do P450), provavelmente através de um aumento na expressão da proteína enzimática, que é responsável pelo metabolismo de numerosos fármacos, incluindo os inibidores da protease. A administração concomitante de rifampicina com saquinavir deve intensificar o metabolismo deste. Isso limitaria a biodisponibi- lidade e a eficácia terapêutica subseqüente do inibidor da pro- tease. Os antibióticos macrolídios, como a eritromicina, inibem a atividade do transportador MDR1. 3. A resposta é D. Se for uma “acetiladora lenta”, a Sra. B. corre risco de toxicidade farmacológica associada à isoniazida. O metabolismo da isoniazida ocorre por con- jugação, que é mediada pela N-acetiltransferase, uma enzima cuja expressão é geneticamente variável. Nos Estados Unidos (e em alguns países da Europa Setentrional), 45% dos brancos e negros sintetizam essa enzima numa taxa diminuída. Isso resul- ta em acetilação “lenta” de certos fármacos, particularmente a isoniazida. A conseqüência é a redução da taxa de metabolismo da isoniazida, concentrações séricas mais altas do fármaco livre, que inibe as enzimas do P450 e faz com que a paciente corra risco de interações medicamentosas e toxicidade. O saquinavir é metabolizado por oxidação, e não por conjugação. 4. A resposta é B. O efeito de primeira passagem é o fenô- meno no qual os fármacos administrados por via oral são absor- vidos e transportados diretamente até o fígado, onde sofrem metabolismo antes de alcançarem a circulação sistêmica e de atingirem seus órgãos-alvo. Se o metabolismo hepático for extenso, a quantidade de fármaco ativo que alcança a circulação sistêmica pode ser insuficiente, exigindo métodos alternativos de administração, incluindo administração parenteral ou trans- dérmica. 5. A resposta é C. As reações de oxidação/redução ocorrem prin- cipalmente no retículo endoplasmático dos hepatócitos e de algumas outras células teciduais. As reações de conjugação e de hidrólise ocorrem no citosol e no retículo endoplasmático. CASO 2 1. A resposta é B. O alprazolam, um benzodiazepínico, pode causar sedação. 2. A resposta é E. Os antibióticos macrolídios inibem cer- tas enzimas do P450. São metabolizados pela enzima, e o produto forma subseqüentemente um complexo com o sítio ativo da enzima. Esse efeito retarda o metabolismo de muitos outros fármacos, incluindo alprazolam (causando sedação exces- siva), diltiazem (causando bradicardia) e lovastatina (fazendo com que o paciente corra risco de degradação muscular asso- ciada às estatinas). Os antibióticos macrolídios também inibem a função transportadora da MDR1, contribuindo para a absorção gastrintestinal aumentada de alguns fármacos, incluindo a digo- xina. 3. A resposta é E. Os pacientes idosos apresentam dimi- nuição da atividade das enzimas hepáticas envolvidas 24 Capítulo Cinco no metabolismo dos fármacos, massa hepática menor e redução do fluxo sangüíneo hepático. Todos esses fatores contribuem para uma redução da capacidade de metabolismo dos fármacos no idoso. Como os pacientes idosos tendem a tomar múltiplas medicações, é necessário verificar a ocorrência de interações medicamentosas e ajustar apropriadamente as doses dos fármacos. Os recém-nascidos têm a capacidade de efetuar a maioria das reações oxidativas. Seus sistemas enzimáti- cos envolvidos no metabolismo dos fármacos amadurecem nas primeiras 2 semanas de vida. A icterícia neonatal é causada pela deficiência da enzima de conjugação da bilirrubina, a UDP-GT. O suco de toronja contém derivados do psoraleno, que inibem a atividade da 3A4 do P450 e da MDR1. 4. A resposta é D. Alguns aspectos genéticos da raça ou etnici- dade podem afetar o metabolismo dos fármacos. Essa influência pode estar baseada em diferenças na atividade de certas enzi- mas ou em polimorfismos nos genes que codificam determina- das enzimas. Por exemplo, os afro-americanos exibem uma redução da capacidade de conversão da codeína em morfina. Isso se deve a uma maior porcentagem (em compa- ração com pessoas caucasianas e asiáticas) de enzimas 2D6 do P450 funcionalmente inativas, que são responsáveis por essa conversão, bem como pelo metabolismo dos antagonistas dos β-receptores e antidepressivos tricíclicos. Os asiático-americanos tendem a exibir uma redução do metabolismo da varfarina. Isso se deve a uma variação genética na expressão das enzimas hepáticas envolvidas no metabolismo dos fármacos. Mais de 90% dos asiáticos são “acetiladores rápidos” no metabolismo da isoniazida. 5. A resposta é A. O cloranfenicol é um antibiótico que anti- gamente era prescrito no tratamento da infecção por Haemo- philus influenzae em lactentes. O seu metabólito de oxidação é tóxico, e, se não for conjugado apropriadamente para a sua eliminação, seus níveis podem aumentar no plasma. As con- centrações tóxicas desse metabólito provocam a síndrome do bebê cinzento. RESPOSTAS DO CAPÍTULO 5 CASO 1 1. A resposta é C. A heparina de baixo peso molecular é administrada para obter uma anticoagulação até que as concentrações plasmáticas da varfarina alcancem um nível anticoagulante terapêutico. O efeito terapêutico da varfarina depende da inibição da síntese hepática dos fatores da coagulação. Esse efeito não é totalmente alcançado por um período de vários dias após a instituição da terapia com varfarina. A heparina de baixo peso molecular provoca uma anticoagulação mais rápida e, com freqüência, é administrada como “ponte” para a anticoagulação completa obtida com a varfarina. A hepa- rina de baixo peso molecular deve ser suspensa após atingir os níveis terapêuticos da varfarina. 2. A resposta é D. A anticoagulação supraterapêutica e a ocor- rência de sangramento em conseqüência da co-administração desses fármacos fornecem um exemplo de interação medi- camentosa farmacodinâmica. Ocorrem interações medi- camentosas farmacodinâmicas tóxicas quando dois fármacos ativam vias complementares, resultando em efeito biológico exagerado. Nesse caso, tanto a heparina de baixo peso molecu- lar quanto a varfarina causaram anticoagulação excessiva através de diferentes mecanismos, resultando em hemorragia. Ocorrem interações medicamentosas farmacocinéticas quando um fárma- co altera a absorção, a distribuição, o metabolismo ou a excreção de outro fármaco, alterando, assim, a concentração do fármaco disponível para produzir seu efeito biológico. Ocorrem efeitos colaterais “não-planejados” de um agente terapêutico quando o fármaco liga-se a um alvo ou receptor não-planejado. 3. A resposta é E. Uma formulação intravenosa menos conveniente (vancomicina) seria substituída por uma formulação oral mais conveniente (ciprofloxacin). O ciprofloxacin, que é uma fluoroquinolona, é geralmente bem tolerado e tem menos probabilidade de causar reações de hiper- sensibilidade ou toxicidade do que a vancomicina. Infelizmente, a Sra. G. desenvolveu uma reação de hipersensibilidade a esse fármaco. Ambas as combinações de antibióticos devem ser sinérgicas nos seus efeitos. A vancomicina é de maiorcusto do que o ciprofloxacin oral, porém isso não seria a razão principal pela escolha dos esquemas farmacológicos. 4. A resposta é C. Os sintomas da Sra. G. representam uma reação de hipersensibilidade de tipo tardio ao ciproflo- xacin. Essa resposta imune mediada por células T ocorre com reexposição a um antígeno estranho, que deflagra a liberação de citocinas, resultando em febre, exantema e hipotensão. As reações de hipersensibilidade imediata de tipo I resultam da desgranulação dos mastócitos mediada por IgE em conseqüên- cia de reexposição a um antígeno sensibilizante. A liberação de histamina e de mediadores da inflamação resulta em urticária, broncoespasmo, vasodilatação e hipotensão. 5. A resposta é B. O levofloxacin, uma fluoroquinolona, esta- ria contra-indicado, devido à reação de hipersensibilidade da paciente ao ciprofloxacin. CASO 2 1. A resposta é B. O acetaminofen é metabolizado pelo fígado a um metabólito tóxico. Em condições de doses nor- mais, o acetaminofen é principalmente metabolizado por con- jugação (> 90%). A via metabólica através das enzimas P450 representa um componente mínimo do metabolismo do aceta- minofen (5% a 7%). O intermediário reativo que é produzido é imediatamente conjugado com a glutationa e excretado pelos rins. Em overdose, as vias normais de conjugação tornam-se saturadas, e uma maior quantidade de acetaminofen fica dispo- nível para metabolismo a esse metabólito reativo pelas enzimas P450. Quando ocorre depleção das reservas de glutationa, o metabólito tóxico fica livre para reagir com os hepatócitos, cau- sando hepatite tóxica e morte hepatocelular. Ocorre um efeito “não-planejado” quando um fármaco provoca toxicidade através de sua ligação a sítios receptores alternativos não-planejados. Respostas da Seção I 25 2. A resposta é A. Os sintomas clínicos só aparecem quando ocorre depleção das reservas de glutationa e o metabólito tóxico começa a ligar-se e a provocar lesão dos hepatócitos. Depois de uma única overdose, o início da toxicidade clínica pode levar até 12 a 18 horas. 3. A resposta é A. As enzimas hepáticas de Jenna B. serão mais eficientes no metabolismo do acetaminofen a seu metabólito tóxico, com conseqüente risco aumentado de hepatotoxicidade. A fenitoína induz a atividade das enzi- mas P450, enquanto a conjugação não é afetada. Em conse- qüência, qualquer acetaminofen disponível para metabolismo oxidativo pelas enzimas P450 será metabolizado mais eficiente- mente ao intermediário tóxico reativo. Em conseqüência, haverá aumento no risco de hepatotoxicidade. 4. A resposta é C. O efeito do uso crônico da fenitoína sobre o metabolismo do acetaminofen no fígado fornece um exemplo de uma interação medicamentosa farmacocinética. O uso de fenitoína induz o metabolismo oxidativo do acetaminofen pelo sistema enzimático P450. 5. A resposta é E. Se as enzimas P450 hepáticas do feto estiverem funcionando, o fígado fetal irá elaborar o metabólito tóxico, resultando em hepatotoxicidade fetal. A função das enzimas hepáticas no feto começa entre 16 e 20 semanas de gestação. Depois desse período, qualquer excesso de acetaminofen que atravessa a placenta e penetra no fígado fetal pode ser metabolizado ao metabólito tóxico. O tratamento tardio de pacientes grávidas com overdose de acetaminofen está associado à morte fetal. Os teratógenos são substâncias que induzem defeitos no feto. Os carcinógenos são substâncias que provocam mutações do DNA, que, com o decorrer do tempo, podem resultar em transformação neo- plásica de células. O acetaminofen não é um teratógeno nem um carcinógeno. Normalmente, a maior parte do acetaminofen é conjugada por glicuronidação e sulfatação e excretada pelos rins. PrincPrincíípios depios de NeurofarmacologiaNeurofarmacologia IIII 6 Princípios de Excitabilidade Celular e Transmissão Eletroquímica OBJETIVOS ! Compreender a fisiologia da excitabilidade celular e transmissão eletroquímica. !! CASO 1 Karl B. é um homem de 47 anos de idade que trabalha para o governo do estado da Virgínia. Está viajando para o Japão para encontrar-se com vários executivos para discutir a abertura de suas filiais em Roanoke. Durante a sua visita a Yamaguchi, seus anfitriões o levam a um jantar em um restaurante de alto nível, cuja especialidade é o peixe fugu. O Sr. B. fica impres- sionado porque ouviu falar que esse prato especial não existe nos Estados Unidos e que se trata de uma iguaria apreciada e cara no Japão. Antes de terminar o jantar, o Sr. B. percebe uma sensação estranha e agradável de formigamento e dormência na boca e ao redor dos lábios. Seus anfitriões ficam satisfeitos que ele esteja experimentando o efeito desejado da ingestão do peixe fugu. QUESTÕES 1. O baiacu japonês da espécie Fugu rubripes contém uma neuro- toxina, a tetrodotoxina, que se concentra no fígado, nas gônadas e na pele. A tetrodotoxina liga-se ao canal de sódio, bloqueando-o. Qual das seguintes afirmações é correta no que concerne ao fluxo de sódio através da membrana celular? A. A permeabilidade da membrana celular neuronal em repou- so é maior para íons de sódio. B. O potencial de membrana em repouso aproxima-se mais es treitamente do potencial de Nernst para íons sódio (+61 mV). Fig. 6.1 O Potencial de Ação. A. No exemplo ilustrado, uma célula em repouso possui um potencial de membrana de cerca de –80 mV. Se for aplicado um pequeno estímulo despolarizante à célula (por exemplo, um estímulo que abre alguns canais de Ca2+ regulados por voltagem), a membrana despolariza-se lentamente em resposta ao influxo de íons Ca2+. Após o término do estímulo e o fechamento dos canais de Ca2+, a membrana retorna a seu potencial de repouso. A fase temporal da mudança de voltagem é determinada pela capacitância da membrana. B. Se for aplicado um estímulo despolarizante maior à célula, de modo que o potencial de membrana exceda a sua voltagem “limiar”, a membrana despolariza-se rapidamente para cerca de +50 mV e, a seguir, retorna a seu potencial de repouso. Esse evento é conhecido como potencial de ação; a sua magnitude, fase temporal e forma são determinadas pelos canais de Na+ e de K+ regulados por voltagem, que se abrem em resposta à despolarização da membrana. C. Em comparação, a aplicação de um estímulo hiperpolarizante a uma célula não gera um potencial de ação, independentemente da magnitude da hiperpolarização. Pequeno estímulo despolarizante Voltagem limiar Voltagem limiar Grande estímulo despolarizante Grande estímulo hiperpolarizante –.50 0 –.90 –.50 0 –.90 – 50 0 – 90 Tempo A B C Vo lta ge m (m V) Vo lta ge m (m V) Vo lta ge m (m V) Voltagem limiar 28 Capítulo Seis C. A troca de três íons de sódio por dois íons de potássio através da membrana celular é um processo dependente de energia. D. Quando ocorre abertura dos canais de sódio para permitir um fluxo de sódio através da membrana celular, o potencial de membrana atinge o seu pico em 0 mV. E. A concentração intracelular de sódio é maior do que a sua concentração extracelular. 2. De que maneira a ação da tetrodotoxina altera o potencial de membrana em repouso? A. O potencial de membrana torna-se mais positivo. B. O potencial de membrana torna-se mais negativo. C. O potencial de membrana aproxima-se do potencial de Nernst para o sódio. D. O potencial de membrana não é afetado pelo bloqueio dos canais de sódio. E. O potencial de membrana aproxima-se do potencial de Nernst para o cálcio. 3. Qual será o efeito do bloqueio dos canais de sódio sobre o potencial de ação celular? A. O potencial de ação será encurtado. B. O potencial de ação será atenuado. C. O potencial de ação será inibido. D. O potencial de ação terá a suaduração prolongada. E. O potencial de ação será de maior magnitude. O Sr. B. fica fascinado e ao mesmo tempo um tanto receoso diante dos efeitos tóxicos potenciais da tetrodotoxina, como foram descritos pelos seus anfitriões cientes dessa característi- ca. Entretanto, os japoneses lhe asseguram de que o sushi chef desse restaurante de categoria está totalmente licenciado para preparar o peixe fugu e certificado pelo governo japonês. Mes- mo assim, de volta ao hotel, os pensamentos do jantar fazem com que ele se sinta um tanto nauseado. 4. Qual seria o efeito clínico do envenenamento pela tetrodotoxina na junção neuromuscular? A. paralisia muscular flácida B. contração muscular tetânica C. inflamação e degradação das células musculares D. contração muscular seguida de relaxamento prolongado E. fasciculações musculares descontroladas O Sr. B. sente-se aliviado ao acordar no dia seguinte, perceben- do que está bem e com energia. Faz um teste com seus músculos e comprova que estão fortes como sempre! Entretanto, decide que irá educadamente declinar qualquer tipo de fruto do mar até o final de sua viagem e, no lugar, irá pedir um Kobe beef. 5. Por que a repolarização celular é um processo mais lento do que a despolarização? A. A despolarização é rápida devido a rápida abertura e fecha- mento dos canais de potássio. Fig. 6.2 Etapas na Transmissão Sináptica. A transmissão sináptica pode ser dividida em uma série de etapas que acoplam a despolarização elé- trica do neurônio pré-sináptico com a sinalização química entre as célu- las pré e pós-sinápticas. 1. O neurônio sintetiza um neurotransmissor a partir de um precursor e o armazena em vesículas. 2. Um potencial de ação que se propaga pelo neurônio despolariza a terminação nervosa pré-sináptica. 3. A despolarização na membrana ativa os canais de Ca2+ dependentes de voltagem, permitindo a entrada de Ca2+ na terminação nervosa pré-sináptica. 4. O aumento do Ca2+ citosólico permite a fusão da vesícula com a membrana plasmática do neurônio pré-sináptico, com liberação subseqüente do neurotransmissor na fenda sináptica. 5. O neu- rotransmissor difunde-se através da fenda sináptica e liga-se a um de dois tipos de receptores pós-sinápticos. 5a. A ligação do neurotransmissor a receptores ionotrópicos provoca a abertura dos canais e mudanças na permeabilidade da membrana pós-sináptica a íons. Isso também pode resultar em mudança no potencial de membrana pós-sináptica. 5b. A ligação do neurotransmissor a receptores metabotrópicos sobre a célu- la pós-sináptica ativa cascatas de sinalização intracelulares; o exemplo mostra a ativação da proteína G, levando à formação de monofosfato de 3′,5′-adenosina (cAMP) pela adenilil ciclase. Por sua vez, essas cascatas de sinalização podem ativar outros canais iônicos seletivos. 6. A termi- nação do sinal é efetuada através da remoção do transmissor da fenda sináptica. 6a. O transmissor pode ser degradado por enzimas (E) na fenda sináptica. 6b. Alternativamente, o transmissor pode ser reciclado na célula pré-sináptica por transportadores de recaptação. 7. A terminação do sinal 6a 3 4 Potencial de ação Neurotransmissor Transportador do neurotransmissor Neurônio pré-sináptico Fenda sináptica Célula pós-sináptica Adenilil ciclase ATP cAMP 1 7 5a 5b 6b 2 Na+ Na+ Na+ K+ Precursor Ca2+ Ca2+ Fosfodiesterase AMP GDP β γα GTP α E 6a também pode ser efetuada por enzimas (por exemplo, fosfodiesterase), que degradam as moléculas de sinalização intracelulares pós-sinápticas (por exemplo, cAMP). Princípios de Excitabilidade Celular e Transmissão Eletroquímica 29 B. A despolarização é rápida devido a rápida abertura e fecha- mento da bomba de sódio/potássio dependente de ATP. C. A repolarização é prolongada devido à inativação dos canais de potássio retificadores tardios. D. A repolarização é prolongada devido à taxa lenta de fecha- mento dos canais de cálcio. E. A repolarização é prolongada devido a abertura e fechamento mais lentos dos canais de potássio retificadores tardios. !! CASO 2 James M., um homem de 33 anos de idade até o momento em boa saúde, vive em um apartamento de subsolo no oeste da Filadélfia. Uma noite, enquanto dormia em sua cama, sente uma dor súbita semelhante a uma alfinetada no lado direito da nuca. A dor o desperta e ele passa rapidamente as mãos atrás do pescoço. Percebe que acabou de esmagar algum tipo de inseto preto, talvez uma aranha. Volta a dormir. Duas horas mais tarde, o Sr. M. acorda novamente, desta vez com dor de intensidade gradualmente crescente e com sensação de aperto no pescoço. Depois de 30 minutos, a sensação de aperto pro- gressivo no tórax propaga-se pelo abdome, e o Sr. M. sente uma forte dor abdominal difusa, que se irradia pelos flancos. Está também todo suado e com calor e sente uma dor de cabeça generalizada e rigidez do pescoço. Ao chegar ao departamento de emergência local, o Sr. M. está inquieto, com mal-estar evidente e queixa-se de ondas de calor. Os sinais vitais revelam uma temperatura de 37,8oC, pul- so de 139 bpm, freqüência respiratória de 22 respirações/min e pressão arterial de 189/103 mm Hg. O médico que examina o Sr. M. verifica que o paciente está diaforético e parece ter rigidez muscular difusa. Observa também hiperemia da con- juntiva. Existe uma pequena área vermelha na nuca. O abdome está difusamente hipersensível e rígido à palpação. Quando o Sr. M. relata a história da dor no pescoço e do “inseto preto”, o médico considera a possibilidade de que o Sr. M. tenha sido picado por uma aranha viúva-negra. QUESTÕES 1. A fêmea da aranha viúva-negra, Latrodectus mactans, elabora um veneno neurotóxico, composto por vários componentes ati- vos. A alfa-latrotoxina liga-se aos receptores pré-sinápticos. Pro- voca a abertura persistente dos canais de cátions pré-sinápticos e o fluxo de cálcio através da membrana plasmática neuronal. Qual das seguintes afirmações é correta no que concerne aos canais de cálcio? A. A membrana plasmática neuronal é mais permeável aos íons cálcio. B. Nas células cardíacas, os canais de cálcio regulados por volta- gem estão envolvidos na fase de despolarização do potencial de ação. C. Os canais de extravasamento permitem a entrada passiva de íons cálcio no interior da célula. D. O trocador de sódio/cálcio transporta o cálcio e o sódio intracelulares para fora da célula. E. Quando os canais de cálcio estão no estado inativado, o neurônio não pode ser estimulado a sofrer despolarização e produzir um potencial de ação. 2. Qual o papel do cálcio na função da membrana celular? A. O influxo de cálcio impede que a membrana plasmática torne-se permanentemente despolarizada. B. O cálcio é necessário para manter o seqüestro de neuro- transmissores no interior das vesículas pré-sinápticas. C. O influxo de cálcio deflagra o potencial de ação neuronal rápido e a sua propagação. D. O influxo de cálcio deflagra a exocitose das vesículas sináp- ticas contendo neurotransmissores. E. A extrusão de cálcio das células pré-sinápticas facilita a cap- tação de neurotransmissor. 3. De que maneira o efeito do veneno de Latrodectus sobre os canais de cálcio neuronais pré-sinápticos pode ter contribuído para o quadro clínico do Sr. M? A. A ligação aos canais de cálcio inibiu a ativação celular nor- mal. B. O influxo de cálcio causou a liberação maciça de neurotrans- missores. C. O influxo de cálcio hiperpolarizou a membrana celular. D. A ligação aos canais de cálcio destruiu o canal e causou apoptose das células neuronais. E. A ligação aos canais de cálcio limitou a exocitose das vesí- culas. O Sr. M. é tratado com benzodiazepínicos por via intravenosa e analgésicos opióides, obtendo algum alívio. Entretanto, con- tinuaapresentando rigidez muscular, taquicardia e hipertensão. Vinte e quatro horas após a sua internação, é tratado com um frasco de antiveneno de Latrodectus, com alívio dos sintomas dentro de algumas horas. Três dias depois, recebe alta para a casa, porém o Sr. M. declara que irá dormir em seu carro por algum tempo! 4. Qual dos seguintes fatores contribui para a manutenção do potencial de repouso da membrana celular? A. Uma membrana com dupla camada lipídica, que é altamente permeável a ânions. B. Os cátions são extracelulares e os ânions são intracelulares em células biológicas. C. Os canais iônicos transmembrana, que se abrem muito tran- sitoriamente para permitir a passagem de íons. D. Bombas de íons transmembrana, que mantêm gradientes iônicos. E. Vesículas intracelulares, que seqüestram íons em excesso. 5. Qual dos seguintes pares (canal iônico: função) é correto? A. canais de sódio regulados por voltagem: produzem exocitose das vesículas B. canais de sódio regulados por voltagem: responsáveis pela repolarização C. canais de potássio regulados por voltagem: responsáveis pela repolarização D. canais de potássio independentes de voltagem: responsáveis pela repolarização E. canais de cálcio regulados por voltagem: abertos durante a rápida fase de despolarização 30 Capítulo Sete 7 Princípios de Fisiologia e Farmacologia do Sistema Nervoso OBJETIVOS ! Compreender de que maneira a função anormal dos neurotransmissores contribui para a doença. ! Compreender de que maneira as intervenções farma- cológicas podem tratar algumas doenças do sistema nervoso. !! CASO 1 Martha P. é uma mulher de 66 anos de idade, com história de 4 anos de doença de Parkinson, que vem se agravando. A doença de Parkinson é um distúrbio neurológico que resulta da degeneração progressiva dos neurônios nigroestriatais que utilizam a dopamina como neurotransmissor. QUESTÕES 1. Qual das seguintes funções é controlada pelos neurônios dopa- minérgicos do trato nigroestriatal? A. reatividade e estado de alerta B. iniciação do movimento C. fome e sede D. regulação da temperatura E. emoções 2. Qual poderia ser um efeito clínico da degradação dos neurônios dopaminérgicos na doença de Parkinson? A. incapacidade de movimentar um lado do corpo B. incapacidade de tolerar temperaturas frias C. incapacidade de se levantar de uma poltrona profunda D. labilidade emocional e riso e choro inapropriados E. comportamento de busca da droga Durante a consulta com o seu médico, a Sra. P. registra uma queixa incomum: “Parece que o Sinemet não funciona muito bem quando o tomo durante as refeições”. A Sra. P. explica que, recentemente, começou uma nova dieta “pobre em carboi- dratos”, aumentando a ingestão de proteínas em lugar dos ali- mentos ricos em carboidratos. Preocupada, a Sra. P. pergunta: “Essa dieta poderia estar relacionada com isso?” 3. Por que o consumo de proteína interfere na ação da levodopa? A. Os componentes protéicos ligam-se ao transportador de ami- noácidos neutros grandes e revertem o transporte normal da levodopa no sistema nervoso central. B. As proteínas ligam-se à levodopa na circulação e impedem a sua difusão no sistema nervoso central. C. As proteínas intensificam a função da dopamina descarboxi- lase e a conversão periférica da levodopa em dopamina. D. Os componentes protéicos competem com a levodopa pelo seu transporte através da barreira hematoencefálica. E. A proteína impede a absorção gastrintestinal normal da levo- dopa. O médico da Sra. P. explica que a levodopa, um componente do Sinemet, ajuda a repor uma substância química no cérebro, que é produzida em quantidades insuficientes, devido à perda de certos neurônios no cérebro. 4. A levodopa é utilizada no tratamento da doença de Parkinson. Qual a relação desse composto com a dopamina? A. A levodopa é um análogo da dopamina, que supra-regula os receptores de dopamina. B. A levodopa é metabolizada pela dopamina β-hidroxilase a dopamina no sistema nervoso central. C. A levodopa é um análogo da dopamina que é preferencial- mente ligada pelo anticorpo do receptor de dopamina. D. A levodopa é um inibidor da monoamina oxidase, que dimi- nui a degradação da dopamina no sistema nervoso central. E. A levodopa é a L-dopa, que é metabolizada pela dopamina descarboxilase a dopamina no sistema nervoso central. Embora muitos fatores possam levar a uma diminuição da efi- ciência de sua medicação, o médico da Sra. P. confirma a sua suspeita de que a dieta rica em proteínas pode interferir na capacidade do medicamento de alcançar o cérebro. Ele reco- menda que ela reduza a ingestão de proteínas e, se necessário, Princípios de Fisiologia e Farmacologia do Sistema Nervoso 31 tome uma dose mais alta de Sinemet após uma refeição rica em proteína. Em sua visita de acompanhamento, a Sra. P. está feliz ao anunciar que a sua medicação está mais eficaz, pois está agora ingerindo menos proteína. 5. Qual dos seguintes itens poderia ser um efeito clínico do uso de uma dose muito alta de levodopa? A. sonolência e letargia B. íleo gastrintestinal C. inibição do centro do vômito D. perda do equilíbrio e sensação de rodopio E. psicose !! CASO 2 Em 2001, o New England Journal of Medicine relatou o caso de um jovem cambojano de 16 anos de idade internado no Massachusetts General Hospital com confusão e trejeito facial após ter tomado um chá tradicional de erva para alívio dos sintomas respiratórios superiores e diarréia. Durante a sua avaliação no hospital, o paciente apresentou episódios de agi- tação e fasciculações musculares. O eletroencefalograma não demonstrou nenhuma evidência de atividade convulsiva. No segundo dia de internação, houve contração da mandíbula, e o paciente tornou-se rígido e não reativo durante 10 minutos. A freqüência do pulso foi de 180 bpm, a freqüência respiratória de 60 respirações/min, e a pressão arterial, de 160/90 mm Hg. Foi administrado um antídoto por via intravenosa, com resolução dos sintomas dentro de poucos minutos. A análise toxicológica da urina do paciente através de cromatografia líquida de alto desempenho e cromatografia gasosa–espectrometria de massa revelou a presença de estricnina. A estricnina é um pó cristalino amargo, branco e inodoro, que tem sido historicamente utilizado como rodenticida des- de o século 16. A estricnina também tem sido utilizada como adulterante venenoso de drogas ilícitas, como a heroína e a cocaína. O envenenamento por estricnina tem sido relatado após a ingestão de noz strychnos ou “Slang Nut”, um remédio cambojano tradicional derivado da fruta da árvore Strychnos nux vomica. QUESTÕES 1. O envenenamento por estricnina manifesta-se tipicamente na forma de espasmos musculares intermitentes e rigidez, que podem assemelhar-se a uma atividade convulsiva. Todavia, ao contrário das convulsões cerebrais generalizadas, o paciente envenenado por estricnina habitualmente apresenta um esta- do mental consciente entre os episódios de atividade muscular. Considerando-se essa apresentação, qual dos seguintes efeitos neurotransmissores resulta do envenenamento pela estricnina? A. inibição da atividade da glicina na medula espinal B. intensificação da atividade do GABA nos hemisférios cere- brais C. intensificação da atividade do glutamato nos músculos peri- féricos D. inibição da atividade da acetilcolina nos neurônios pós-gan- glionares parassimpáticos E. inibição da atividade da histamina nos hemisférios cere- brais 2. Foi administrado ao paciente um antídoto intravenoso, que reverteu a rigidez muscular. Considerando-se o mecanismo de ação da estricnina, qual dos seguintes tratamentos poderia ser o mais terapêutico neste caso? A. levodopa B. um inibidor da monoamina oxidase C. um benzodiazepínico D. fenitoínaE. um anti-histamínico Fig. 7.1 Características dos Capilares no Sistema Nervoso Central em Comparação com a Vasculatura Periférica. Na periferia, as célu- las endoteliais capilares possuem lacunas (denominadas fenestrações) entre elas e utilizam vesículas pinocitóticas intracelulares para facilitar o transporte transcapilar de líquido e moléculas solúveis. Em contraste, os vasos do SNC são selados por tight junctions existentes entre as células endoteliais. As células apresentam menos vesículas pinocitóticas e são circundadas por pericitos e processos da astróglia. Além disso, as células endoteliais dos capilares no SNC apresentam mais mitocôndrias do que aquelas nos vasos sistêmicos; essas mitocôndrias podem refletir as neces- sidades energéticas das células endoteliais do SNC para o transporte de certas moléculas no SNC e de outras moléculas fora do SNC. Capilar periférico Vesículas pinocitóticas Célula endotelial Fenestração Capilar cerebral Mitocôndria Tight junction Pericito Membrana basal Processo da astróglia 32 Capítulo Sete 3. O glutamato é um neurotransmissor de aminoácido excitatório. Exerce seu efeito primariamente ao: A. impedir a síntese de dopamina B. promover a liberação de encefalinas C. inibir os receptores de adenosina D. abrir os canais iônicos regulados por ligantes E. impedir a recaptação de catecolaminas 4. O donepezil é um agente terapêutico utilizado para aumentar o estado de alerta em pacientes com demência. Atua ao inten- sificar a atividade, no sistema nervoso central, de: A. dopamina B. acetilcolina C. cafeína D. escopolamina E. serotonina 5. Muitas substâncias exercem seus efeitos no sistema nervoso central ao atravessar a barreira hematoencefálica. Os agentes que atravessam mais facilmente a barreira hematoencefálica tendem a ser: A. de alto peso molecular B. altamente polarizados C. hidrofílicos D. lipofílicos E. ácidos 8 Farmacologia Colinérgica Fig. 8.1 Vias de Síntese, Armazenamento, Li beração e Degradação da Acetilcolina e Agentes Farmacológicos que Atuam sobre essas Vias. A colina é transportada até a termi- nação nervosa colinérgica pré-sináptica por um co-transportador de Na+-colina de alta afinida- de. Esse transportador é inibido pelo hemicolí- nio. A enzima citosólica colina acetiltransferase catalisa a formação da acetilcolina (ACh) a partir da acetil coenzima A (AcCoA) e colina. A ACh recém-sintetizada é acondicionada (juntamente com trifosfato de adenosina [ATP] e proteoglica- nos) em vesículas para o seu armazenamento. O transporte da ACh na vesícula é mediado por um contratransportador de H+-ACh, que é ini- bido pelo vesamicol. As vesículas contendo ACh fundem-se com a membrana plasmática quando os níveis intracelulares de cálcio aumentam em resposta a um potencial de ação pré-sináptico, liberando o neurotransmissor na fenda sináptica. A síndrome miastênica de Lambert-Eaton (SMLE) resulta da produção de um auto-anticorpo que bloqueia o canal de Ca2+ pré-sináptico. A toxi- na botulínica impede a exocitose das vesículas pré-sinápticas, bloqueando, assim, a liberação de ACh. A ACh difunde-se na fenda sináptica e liga-se a receptores pós e pré-sinápticos. Os receptores da ACh são divididos em receptores nicotínicos e muscarínicos. Os receptores nicotínicos são canais iônicos regulados por ligantes, que são permeá- veis a cátions, enquanto os receptores muscarí- nicos são receptores acoplados à proteína G, que alteram vias de sinalização da célula, incluindo a ativação da fosfolipase C (PLC) e a abertura dos canais de K+. Enquanto os receptores nicotínicos pós-sinápticos e os receptores muscarínicos M1, Canal de cálcio Receptor muscarínico de ACh M1, M3, M5 M2, M4 Gq Gi P L C AC, canal de K+ Abertura do canal de Na+/K+ Excitatório Excitatório Inibitório Receptor nicotínico de ACh Receptor nicotínico de ACh Acetilcolinesterase Hemicolínio Colina + acetato AcCoA + Colina Toxina botulínica Inibidores da AChE Colina acetiltransferase Na+ H+ Colina Ca2+ AChE ACh ACh ACh Neurônio colinérgico Canal de cálcio Receptor muscarínico de ACh (M2, M4) SMLE (auto-anticorpo) Vesamicol Célula pós-sináptica Ca2+ Fenda sináptica ACh M3 e M5 são excitatórios, os receptores muscarínicos M2 e M4 pós-sinápticos são inibitórios. Os receptores nicotínicos pré-sinápticos aumentam a entrada de Ca2+ no neurônio pré-sináptico, aumentando, assim, a fusão das vesículas e a liberação de ACh; os receptores muscarínicos M2 e M4 pré-sinápticos inibem a entrada de Ca2+ no neurônio pré-sináptico, diminuindo, assim, a fusão das vesículas e a liberação de ACh. A ACh na fenda sináptica é degradada pela acetilcolinesterase (AChE) ligada à membrana em colina e acetato. Existem numerosos inibidores da AChE; os anticoli- nesterásicos clinicamente relevantes são, em sua maioria, inibidores competitivos da enzima. 34 Capítulo Oito OBJETIVOS ! Compreender a fisiologia da acetilcolina, incluindo sua síntese, liberação, metabolismo e efeitos nos recepto- res muscarínicos e nicotínicos. ! Compreender de que maneira os agentes farmaco- lógicos podem modificar a função da acetilcolina, resultando em efeitos tanto terapêuticos quanto potencialmente tóxicos. !! CASO 1 Esse fato aconteceu em 1744. Os colonos da Virgínia cap- turam Opechancanough, chefe guerreiro dos Powhatans e tio de Pocahontas. Opechancanough é considerado um mestre estrategista e tem a reputação de ser um guerreiro impiedoso. Entretanto, um correspondente da colônia fornece um retrato bem diferente do chefe capturado: “Uma excessiva fadiga que tomou conta dele debilitou o seu organismo; seus músculos tornaram-se flácidos; os tendões perderam o seu tônus e a sua elasticidade, e suas pálpebras estavam tão pesadas que ele não conseguia enxergar, a não ser que fossem levantadas pelos seus companheiros... era incapaz de andar; porém o seu espírito, erguendo-se acima de seu corpo destroçado, ainda comandava seus companheiros da maca em que era por eles transportado.” Enquanto Opechancanough ainda se encontrava numa pri- são em Jamestown, descobre-se que, depois de um período de inatividade, ele consegue levantar sozinho do chão para uma posição sentada. Acredita-se que a história de Opechancanough fornece a primeira descrição registrada da miastenia grave, uma doença neuromuscular decorrente da produção auto-imune de anticorpos dirigidos contra os receptores colinérgicos na junção neuromus- cular. Em 1934, quase dois séculos depois, a médica inglesa Mary Broadfoot Walker trata de vários pacientes com sintomas semelhantes de fraqueza muscular, que a fazem lembrar dos sin- tomas de pacientes com envenenamento por tubocurare. QUESTÕES 1. Por que o envenenamento por tubocurare e a miastenia grave produzem sintomas semelhantes? A. Ambas as condições caracterizam-se por fraqueza devida à deficiência de colina. B. Ambas as condições caracterizam-se por fraqueza devida à ausência de liberação pré-sináptica de acetilcolina (ACh). C. Ambas as condições caracterizam-se por paralisia associada à destruição da ACh mediada por anticorpos. D. Ambas as condições caracterizam-se por fraqueza devida a um número diminuído de receptores NM pós-sinápticos dis- poníveis. E. Ambas as condições estão associadas a fraqueza devida à degradação aumentada de ACh. Com base em seus achados, a Dra. Walker administra um antí- doto, a fisostigmina, a seus pacientes imobilizados. Os resulta- dos são surpreendentes: Em poucos minutos, os pacientes são capazes de levantar-se e de andar pelo quarto. A Dra. Walker descobre, assim, a primeira medicação verdadeiramente efi- caz para a miastenia grave. Apesar da importância dessa sua descoberta, ela é ridicularizada pelamaior parte da comuni- dade científica, porque o tratamento melhora os sintomas da miastenia grave com demasiada rapidez e efetividade para ser acreditável. Somente muitos anos depois é que a comunidade científica aceita os seus achados. 2. Como a fisostigmina melhora os sintomas da miastenia grave? A. A fisostigmina aumenta a liberação da ACh pré-sináptica. B. A fisostigmina impede a degradação da ACh. C. A fisostigmina prolonga a duração da ligação da ACh no receptor NM. D. A fisostigmina impede a recaptação de ACh. E. A fisostigmina promove a rápida recuperação e disponibili- dade dos receptores NM. 3. Em que condições é potencialmente perigoso administrar fisos- tigmina a pacientes que apresentam fraqueza muscular? A. envenenamento por toxina botulínica B. envenenamento por tubocurare C. envenenamento por organofosforados D. ingestão de betanecol E. alergia à succinilcolina 4. Qual dos seguintes casos representa outro uso terapêutico potencial da fisostigmina? A. envenenamento pela escopolamina B. envenenamento pela muscarina C. envenenamento pela pralidoxima D. envenenamento pela pilocarpina E. envenenamento pela nicotina 5. Qual dos seguintes itens é um sinal de agonismo da ACh em seu receptor muscarínico pós-sináptico? A. retenção urinária B. fasciculações musculares C. bradicardia D. taquicardia E. membranas mucosas secas !! CASO 2 Em 2004, um médico não licenciado da Flórida, Bach McComb, injetou uma preparação não-aprovada de toxina botulínica em si próprio e em três pacientes como tratamento anti-ruga. Em pou- cas horas, chegou a um hospital com fraqueza muscular difusa e dificuldade respiratória. Subseqüentemente, ficou paralisado e necessitou de ventilação mecânica prolongada para sustentar a respiração. Os outros pacientes apresentaram efeitos adversos semelhantes. Em 2005, McComb confessou-se culpado perante a acusação federal de administrar fármacos não-aprovados. Farmacologia Colinérgica 35 QUESTÕES 1. Como a toxina botulínica provoca fraqueza muscular e paralisia prolongada? A. A toxina botulínica impede a entrada da ACh nas vesículas de armazenamento pré-sinápticas. B. A toxina botulínica degrada a ACh no interior das vesículas de armazenamento pré-sinápticas. C. A toxina botulínica bloqueia os canais de cálcio e a exocitose mediada pelo cálcio das vesículas de armazenamento pré- sinápticas. D. A toxina botulínica liga-se irreversivelmente às proteínas SNARE e bloqueia a fusão das vesículas de armazenamento pré- sinápticas com a membrana celular. E. A toxina botulínica degrada a sinaptobrevina e impede a fusão das vesículas de armazenamento pré-sinápticas com a membrana celular. 2. Tendo em vista o mecanismo de ação da toxina botulínica, se a fisostigmina for administrada a pacientes envenenados pela toxina botulínica, como no caso do chefe Opechancanough, qual dos seguintes itens pode constituir um efeito clínico resultan- te? A. melhora da força muscular B. coma C. sudorese e diarréia D. fasciculações musculares seguidas de paralisia E. dilatação pupilar 3. Se a fisostigmina fosse administrada a um paciente envenenado pela toxina botulínica, com os efeitos anteriormente citados, qual seria a terapia apropriada? A. atropina B. mais fisostigmina C. succinilcolina D. metacolina E. pralidoxima 4. Os efeitos da fisostigmina no paciente envenenado pela toxina botulínica são mediados por qual dos seguintes receptores? A. M1 B. M2 C. M3 D. M4 E. NM 5. A neurotransmissão através dos gânglios autônomos é com- plexa. A resposta ganglionar pós-sináptica primária é mediada pela rápida despolarização dos receptores nicotínicos de ACh, porém é modulada pelo receptor muscarínico M1 de ACh, pela transmissão dopaminérgica, α-adrenérgica e peptidérgica. Em conseqüência, o efeito do bloqueio ganglionar depende, em grande parte, do predomínio relativo do tônus simpático e parassimpático no órgão-alvo. Qual das seguintes declarações é correta no que concerne ao efeito do bloqueio ganglionar sobre a função do órgão-alvo? A. O bloqueio ganglionar autônomo causa vasoconstrição e hipertensão. B. O bloqueio ganglionar autônomo causa vasodilatação e hipo- tensão. C. O bloqueio ganglionar autônomo causa incontinência uri- nária. D. O bloqueio ganglionar autônomo causa bradicardia. E. O bloqueio ganglionar autônomo causa vômitos e diarréia. 36 Capítulo Nove 9 Farmacologia Adrenérgica OBJETIVOS ! Compreender a fisiologia das catecolaminas, incluin- do sua síntese, liberação, metabolismo e efeitos. ! Compreender de que maneira os agentes farmaco- lógicos podem modificar a função das catecolami- nas, resultando em efeitos tanto terapêuticos quanto potencialmente tóxicos. !! CASO 1 Ano de 1960. A Sra. S. vem se sentindo deprimida há vários anos. Fez uso de vários medicamentos diferentes na tentativa de aliviar seus sentimentos de inutilidade e falta de motivação, porém nada parece ajudar. Recentemente, entretanto, seu médi- co prescreveu iproniazida, um novo medicamento que, segundo os relatos, mostra-se benéfico em muitos casos de depressão. Explicou para ela que os pesquisadores acreditam que o fárma- co atua ao inibir uma enzima existente no cérebro, denominada MAO (a MAO é uma das enzimas responsáveis pela degrada- ção das catecolaminas). Por ser um fármaco novo, seus efeitos adversos potenciais ainda não estão bem definidos, de modo que o médico aconselha a Sra. S. a comunicar qualquer efeito diferente que possa surgir em decorrência do medicamento. Esperançosa, mas sem esperar a ocorrência de mudanças significativas, a Sra. S. começa a tomar a medicação. Dentro de algumas semanas, começa a sentir-se motivada e torna-se ativa pela primeira vez em 20 anos. Exultante diante dessa nova sensação de energia, a Sra. S. recupera a sua vida passada como debutante e socialite e resolve oferecer uma recepção com queijos e vinhos em grande estilo. Convida os melho- res e mais ilustres da cidade, e a festa parece estar sendo um sucesso. À medida que se levanta para agradecer a presença de seus convidados, a Sra. S. celebra com um grande gole de seu favorito Chianti 1954. No final da festa, sente uma forte dor de cabeça e náusea. Lembrando da recomendação de seu médico, pede a um amigo que a leve imediatamente até o hospital mais próximo. Na sala de emergência, o médico de plantão registra uma pressão arterial de 230/160 mm Hg. QUESTÕES 1. Qual a explicação em termos de mecanismo para a interação dos inibidores da MAO com vinho tinto e queijo envelhecido? A. O queijo envelhecido contém pequenas quantidades de anfetamina, que não pode ser metabolizada na presença de IMAO e que desloca a norepinefrina (NE) vesicular. B. O vinho tinto e o queijo envelhecido bloqueiam diretamente a ação inibitória dos inibidores da MAO (IMAO). C. O vinho tinto e o queijo envelhecido contêm tiramina, que não pode ser metabolizada na presença de IMAO e desloca a NE vesicular. D. O etanol no vinho tinto impede a recaptação de catecola- minas, que não podem ser metabolizadas na presença de IMAO. E. O vinho tinto e o queijo envelhecido contêm tiramina, que atua diretamente sobre os receptores adrenérgicos pós-sináp- ticos e não pode ser metabolizada na presença de IMAO. Constatando que a Sra. S. está apresentando uma emergência hipertensiva, o médico imediatamente administra fentolamina. A pressão arterial da Sra. S. normaliza-se rapidamente, e, na investigação clínica subseqüente, o médico identifica uma nova e atualmente famosa interação fármaco–alimento envolvendo os IMAO. 2. Qual o mecanismo de ação da fentolamina e qual o seu efeito clínico nessa circunstância? A. Antagonista α-adrenérgico não-seletivo; bloqueia a vaso- constrição induzida por catecolaminas e diminui a pressão arterial. B. Antagonista α-adrenérgiconão-seletivo; impede o desloca- mento da NE induzido pela tiramina e diminui a ansiedade. C. Antagonista α-adrenérgico não-seletivo; facilita o metabolis- mo das catecolaminas mediado pela catecol-O-metiltransfe- rase (COMT) e diminui a pressão arterial. D. Agonista α-adrenérgico não-seletivo; provoca vasodilatação e sedação. E. Agonista α-adrenérgico não-seletivo; compete com as cate- colaminas para reduzir a vasoconstrição e diminui a pressão arterial. Thaís Pithan Zorzo Thaís Pithan Zorzo Thaís Pithan Zorzo Thaís Pithan Zorzo Farmacologia Adrenérgica 37 3. Por que o médico não utilizou um antagonista dos receptores β-adrenérgicos para tratar a hipertensão da Sra. S.? A. Os antagonistas dos receptores β-adrenérgicos poderiam bloquear os efeitos das catecolaminas no SNC e agravar a depressão da Sra. S. B. Os antagonistas dos receptores β-adrenérgicos poderiam bloquear a recaptação de catecolaminas pelo transportador de NE e causar psicose. C. Os antagonistas dos receptores β-adrenérgicos poderiam bloquear a estimulação das catecolaminas no coração, mas permitir a vasoconstrição persistente induzida pelas cateco- laminas nos receptores α-adrenérgicos. D. Os antagonistas dos receptores β-adrenérgicos poderiam retardar o metabolismo normal da tiramina. E. Os antagonistas dos receptores β-adrenérgicos poderiam blo- quear a estimulação das catecolaminas no coração e causar assistolia. 4. A crise hipertensiva da Sra. S. foi causada pela interação tirami- na–IMAO. Qual das seguintes ações fisiológicas poderia impedir essa interação? A. Inibição do transportador de monoaminas vesicular B. Inibição do transportador de acetilcolina vesicular C. Indução do transportador de L-aminoácidos aromáticos D. Inibição da tirosina hidroxilase E. Indução do transportador de NE 5. O hexametônio é um bloqueador ganglionar simpático. Blo- queia: A. o receptor β-adrenérgico pós-sináptico B. a liberação de acetilcolina pré-sináptica C. o receptor de acetilcolina ganglionar pós-sináptico D. o receptor de acetilcolina do músculo esquelético E. o receptor α-adrenérgico pré-sináptico !! CASO 2 Um homem de 25 anos de idade é levado ao departamento de emergência pela polícia quando curiosos ligaram para a emergência dando parte de um homem confuso e agressivo esmurrando as prateleiras de uma loja de conveniência local. O paciente está furiosamente agitado e tenta agredir os policiais e os cuidadores ao chegar ao hospital. O exame é notável por uma temperatura de 40,5oC, freqüência cardíaca de 162 bpm e pressão arterial de 207/134 mm Hg. As pupilas estão dilatadas e a pele, diaforética. Quando tiram a roupa do paciente, vários frascos de crack caem dos bolsos da calça. QUESTÕES 1. Qual o mecanismo de ação da cocaína que produziu os sinto- mas desse paciente? A. A cocaína é um agonista direto nos receptores tanto α quanto β-adrenérgicos. B. A cocaína inibe o transportador de NE e impede a recapta- ção das catecolaminas sinápticas, que, dessa maneira, estão disponíveis para atuar nos receptores tanto α quanto β-adre- nérgicos. Fig. 9.1 Vias de Síntese, Armazenamento, Liberação e Recaptação de Catecolaminas. As catecolaminas endógenas, a dopamina, a nore- pinefrina (NE) e a epinefrina são todas sintetizadas a partir da tirosina. A etapa que limita a velocidade no processo de síntese das catecolami- nas, a oxidação da tirosina citoplasmática a diidroxifenilalanina (L-DOPA), é catalisada pela enzima tirosina hidroxilase. A seguir, a descarboxila- se de L-aminoácidos aromáticos converte a L-DOPA em dopamina. O transportador de monoaminas vesicular (VMAT) transloca a dopamina (e outras monoaminas) no interior de vesículas sinápticas. Nos neu- rônios adrenérgicos, a dopamina-β–hidroxilase intravesicular converte a dopamina em NE. A seguir, a NE é armazenada na vesícula até a sua liberação. Nas células da medula supra-renal, a NE retorna ao citosol, onde a feniletanolamina N-metiltransferase (PNMT) converte a NE em epinefrina. A seguir, a epinefrina é transportada de volta à vesícula para armazenamento (não indicado na figura). A α-metiltirosina inibe a tirosina hidroxilase, a enzima que limita a velocidade no processo de síntese das catecolaminas (não indicada na figura). A NE liberada pode estimular os receptores α1, β1 ou β2-adrenérgicos pós-sinápticos ou os receptores α2-adrenérgicos pré-sinápticos. A NE liberada também pode ser captada em terminações pré-sinápticas pelo transportador seletivo de NE. A NE no citoplasma do neurônio pré-sináptico pode ser ainda captada em vesículas sinápticas pelo VMAT (não indicado na figura) ou degradada a 3,4-diidroxifenilglicoaldeído (DOPGAL) pela monoamina oxidase (MAO) associada à mitocôndria. Diidroxifenilalanina (L-DOPA) Dopamina Tirosina hidroxilase Descarboxilase de L-aminoácidos aromáticos Na+ Tirosina Ca2+ Transportador de NEVMAT Transportador de L-aminoácidos aromáticos Receptores adrenérgicos pós-sinápticos α1 β1 β2 NE NE NE DOPGAL MAO NE Na+ Tirosina Potencial de ação Neurônio adrenérgico Fenda sináptica Receptor α2-adrenérgico(auto-receptor) H+ Dopamina Dopamina β−hidroxilase Célula pós-sináptica 38 Capítulo Nove C. A cocaína é captada nas vesículas sinápticas dos neurônios simpáticos pelo transportador de monoaminas vesicular (VMAT) e desloca a NE que, a seguir, pode atuar nos recep- tores tanto α quanto β-adrenérgicos. D. A cocaína inibe a MAO e impede o metabolismo das cate- colaminas, que são capazes de atuar nos receptores tanto α quanto β-adrenérgicos. E. A cocaína causa supra-regulação e aumento da sensibilidade dos receptores tanto α quanto β-adrenérgicos. O paciente é colocado em monitor cardíaco, e um acesso intra- venoso é estabelecido. O monitor cardíaco mostra a presença de taquicardia sinusal numa taxa de 162 bpm. São iniciados métodos de resfriamento agressivo, e o médico de plantão pro- cura evidências de traumatismo coexistente. O enfermeiro per- gunta se é necessário administrar metoprolol, um antagonista dos receptores β-adrenérgicos, para controlar a taquicardia do paciente. 2. Se for administrado um antagonista dos receptores β-adrenér- gicos a esse paciente, qual dos seguintes efeitos clínicos pode ser produzido? A. Hiperglicemia B. Broncodilatação se o paciente tiver uma história de asma C. Elevação da pressão arterial D. Taquicardia E. Hipotermia 3. Qual dos seguintes agentes irá atuar diretamente diminuindo a pressão arterial elevada desse paciente? A. metilfenidato, um análogo da anfetamina B. fenilefrina, um agonista dos receptores α1-adrenérgicos C. fentolamina, um antagonista não-seletivo dos receptores α-adrenérgicos D. ioimbina, um antagonista dos receptores α2-adrenérgicos E. terbutalina, um agonista dos receptores β2-adrenérgicos 4. A clonidina tem sido utilizada como agente anti-hipertensivo. Qual o mecanismo de sua ação na redução da pressão arterial? A. A clonidina é um agonista direto dos receptores β2-adrenér- gicos, que intensifica a vasodilatação. B. A clonidina é um antagonista direto dos receptores α2-adrenér- gicos, que diminui a liberação de NE e o tônus simpático. C. A clonidina é um agonista direto dos receptores α2-adrenér- gicos que diminui a liberação de NE e o tônus simpático. D. A clonidina é um antagonista direto dos receptores α1-adre- nérgicos que diminui a vasoconstrição. E. A clonidina é um antagonista direto dos receptores β1-adre- nérgicos que diminui o débito cardíaco. 5. A síndrome de serotonina é uma síndrome clínica, caracterizada por inquietação, tremor e convulsões. É causada pela concen- tração excessiva de serotonina em seus receptores. A síndrome da serotonina pode ser precipitada pelo uso concomitante de fármacos que aumentam as concentrações sinápticasde sero- tonina. Qual das seguintes combinações de fármacos poderia causar a síndrome da serotonina? A. clonidina e cocaína B. fenelzina e fenilefrina C. amitriptilina e fenilefrina D. duloxetina e iproniazida E. imipramina e metaproterenol 10 Farmacologia dos Anestésicos Locais OBJETIVOS ! Compreender o mecanismo de ação pelo qual os anestésicos locais diminuem a transmissão de impul- sos sensoriais, motores e autônomos. ! Compreender a fisiologia da transmissão da dor e de que maneira vários anestésicos locais são administra- dos para reduzir a percepção da dor. ! Reconhecer as categorias de anestésicos locais, sua farmacologia, usos terapêuticos e toxicidades poten- ciais. !! CASO 1 E.M., de 24 anos de idade, é um estudante de pós-graduação em química orgânica. Uma tarde, enquanto está trabalhando no laboratório, ele derrama um béquer de ácido fluorídrico (HF) na capela. Apesar do reflexo de retirar imediatamente a mão, algum líquido atinge as pontas dos dedos de sua mão esquerda. Alguns minutos depois, E.M. começa a sentir dor em ardência, que aumenta de intensidade e que é seguida de dor em quei- mação e latejante. Conhecendo a natureza corrosiva do ácido, E.M. começa a lavar as mãos com água e com uma solução de sulfato de magnésio (o magnésio atua como quelante para os íons fluoreto tóxicos). Liga também para a emergência e é transportado ao departamento de emergência. A médica residente verifica que o ácido penetrou nos leitos ungueais dos dedos afetados e que E.M. está sentindo uma intensa dor. Ela o elogia pela sua conduta apropriada e no momento oportuno e decide tratá-lo com gliconato de cálcio (outro agente quelante do fluoreto) para neutralizar o HF rema- nescente, juntamente com um bloqueio nervoso digital para reduzir a dor. Injeta lidocaína sem epinefrina nos dedos, segui- da de gliconato de cálcio. A princípio, E.M. percebe um alívio da ardência, embora a dor leve mais tempo para diminuir. Uma vez efetuados os curativos das feridas, E.M. já não sente nenhu- ma sensação nos dedos das mãos. No decorrer das próximas 2 semanas, as feridas cicatrizam-se espontaneamente, e a dor, que agora está bem controlada com ibuprofeno, desaparece. E.M. consegue voltar a dedicar-se a seu trabalho no laborató- rio, porém esse contratempo com grave lesão o afeta de uma maneira imprevista: começa a planejar fazer medicina. QUESTÕES 1. Qual dos seguintes mecanismos de ação é responsável pelo efeito de alívio da dor da lidocaína? A. A lidocaína liga-se a um sítio intracelular no canal de sódio regulado por voltagem, inibe a sua ativação e bloqueia a propagação de potenciais de ação nas fibras motoras. B. A lidocaína liga-se a um sítio intracelular no canal de cálcio regulado por voltagem, inibe a sua abertura e bloqueia a pro- pagação de potenciais de ação nas fibras C nociceptivas. C. A lidocaína liga-se a um sítio intracelular no canal de sódio regulado por voltagem, inibe a sua ativação e bloqueia a propa- gação de potenciais de ação nas fibras A e C nociceptivas. D. A lidocaína liga-se ao poro extracelular do canal de sódio, bloqueia a entrada de sódio e inibe a ativação das fibras A e C nociceptivas. E. A lidocaína liga-se a um sítio extracelular no canal de sódio, bloqueia a entrada de sódio e inibe a ativação das fibras nociceptivas, sensoriais, motoras e autônomas. 2. Por que E.M. apresentou inicialmente uma “dor em ardência” antes da sensação de uma “dor indistinta”, e por que a “dor em ardência” cede mais rapidamente do que a “dor indistinta” após a administração de lidocaína? A. A “dor em ardência” correlaciona-se com a sensação da primeira dor altamente localizada, que é transmitida rapida- mente por fibras Aδ mielinizadas, e que é menos sensível aos efeitos inibitórios dos anestésicos locais. B. A “dor em ardência” correlaciona-se com a sensação da segunda dor localizada difusamente, que é transmitida lenta- mente por fibras C não-mielinizadas, e que é menos sensível aos efeitos inibitórios dos anestésicos locais. C. A “dor em ardência” correlaciona-se com os impulsos iniciais altamente localizados das fibras Aδ mielinizadas, que tornam- se subseqüentemente dessensibilizadas e, a seguir, transmi- tem uma “dor indistinta” tardia, que é altamente sensível aos efeitos dos anestésicos locais. D. A “dor em ardência” correlaciona-se com a sensação da primeira dor altamente localizada, que é transmitida rapida- 40 Capítulo Dez mente por fibras Aδ mielinizadas, e é altamente sensível aos efeitos inibitórios dos anestésicos locais. E. A “dor em ardência” correlaciona-se com a sensação da primeira dor difusamente localizada, que é transmitida rapi- damente pelas fibras C não-mielinizadas, e que é menos sensível aos efeitos inibitórios dos anestésicos locais. 3. A lidocaína é um anestésico local comumente utilizado da classe com ligação amida. Possui rápido início de ação e duração média de ação. Qual das seguintes características explica seus efeitos farmacocinéticos? A. A baixa hidrofobicidade impede que a lidocaína seja “retida” no interior da membrana celular neuronal; uma ligação amida impede a sua degradação por esterases. B. O baixo valor de pKa permite que uma maior fração do fármaco esteja na forma neutra e seja capaz de penetrar na membrana neuronal; uma ligação amida mantém um baixo valor de pKa próximo à área de administração. C. A hidrofobicidade muito alta permite à lidocaína penetrar facil- mente na membrana celular neuronal; uma ligação amida permite uma ligação mais firme ao sítio de ligação no canal de sódio. D. O alto valor de pKa permite que uma maior fração do fár- maco esteja em uma forma neutra e seja capaz de penetrar na membrana neuronal; uma ligação amida impede a sua degradação por esterases. E. A hidrofobicidade moderada permite à lidocaína penetrar na membrana celular neuronal e permanecer próximo à área de administração; uma ligação amida impede a sua degradação por esterases. 4. A epinefrina é algumas vezes administrada com lidocaína. De que maneira a co-administração de epinefrina afeta o efeito anestésico local da lidocaína? A. A vasoconstrição induzida pela epinefrina mantém um baixo valor de pH na área de administração da lidocaína, facilitando a sua penetração na célula neuronal. B. A vasoconstrição induzida pela epinefrina ajuda a manter a concentração de lidocaína na área de administração ao diminuir a sua taxa de remoção. C. A epinefrina impede a liberação da lidocaína de seu sítio intracelular no canal de sódio. D. A epinefrina inativa as esterases teciduais para impedir a degradação da lidocaína. E. A epinefrina torna os canais de sódio locais mais sensíveis aos efeitos da lidocaína. 5. Os anestésicos locais com ligação amida são primariamente metabolizados por: A. pseudocolinesterases B. enzimas microssomais hepáticas do citocromo P450 C. dipeptidases renais D. esterases teciduais E. conjugação hepática com glutationa !! CASO 2 Sally S. leva a sua filha de 3 anos de idade, Jessica, a seu médico de família para avaliação após a filha ter tropeçado no playground e ter cortado a testa. O médico observa uma laceração linear de 3,5 cm na testa de Jessica e recomenda a sutura da ferida para obter o melhor efeito estético. Jessica tem pavor de agulha, e o médico pede à sua enfermeira que aplique à ferida um gel tópico de LET (lidocaína/epinefrina/tetracaína) para anestesia. Fig. 10.1 Hidrofobicidade, Difusão e Ligação dos Anestésicos Locais. Os anestésicos locais (AL) atuam através de sua ligação ao lado citoplas- mático (intracelular) do canal de Na+ regulado por voltagem. A hidrofobi- cidade de um anestésico local é que determina a eficiência de sua difusão através das membranas lipídicas e a intensidade de sua ligação ao canal de Na+, governando,assim, a sua potência. A. Os AL pouco hidrofóbicos são incapazes de atravessar eficientemente a dupla camada lipídica: 1. O AL neutro não pode sofrer adsorção ou penetrar na membrana celular neuronal, visto que o AL é muito estável na solução extracelular e possui uma energia de ativação muito alta para penetrar na membrana hidrofó- bica. B. Os AL moderadamente hidrofóbicos são os agentes mais efetivos: 1. o AL neutro sofre adsorção sobre o lado extracelular da membrana celular neuronal; 2. o AL difunde-se através da membrana celular para o lado citoplasmático; 3. o AL difunde-se e liga-se a seu sítio de ligação sobre o canal de sódio regulado por voltagem; 4. uma vez ligado, o AL pode passar de sua forma neutra para a protonada através de ligação e liberação de prótons. C. Os AL extremamente hidrofóbicos são retidos na dupla camada lipídica: 1. o AL neutro sofre adsorção sobre a membrana celular neuronal, (2) onde fica tão estabilizado que não consegue se dissociar da membrana ou atravessá-la. 1 2 1 AL AL AL 2 1 4 3 AL AL AL Canal de Na+ regulado por voltagem Extracelular Sítio de ligação do anestésico local Intracelular C Anestésico local extremamente hidrofóbico A Anestésico local pouco hidrofóbico H+ Região de ligação B Anestésico local moderadamente hidrofóbico AL Farmacologia dos Anestésicos Locais 41 QUESTÕES 1. Tanto a lidocaína quanto a tetracaína são anestésicos locais. A epinefrina é um constritor do músculo liso. Qual das seguintes afirmações sobre esses agentes poderia explicar a sua eficiência como formulação de anestésicos tópicos de combinação? A. A tetracaína é um anestésico com ligação éster, de modo que o uso da lidocaína com ligação amida impede a sua degra- dação pelas esterases teciduais locais e prolonga a duração de ação dessa formulação. B. A lidocaína contrabalança o efeito vasoconstritor da epine- frina, limitando a isquemia tecidual local causada por essa formulação. C. A lidocaína é moderadamente hidrofóbica, de modo que ela compete com a tetracaína pela sua penetração na membrana celular neuronal e diminui o tempo de início de ação dessa formulação. D. A tetracaína é mais hidrofóbica do que a lidocaína e, por con- seguinte, prolonga a duração de ação e aumenta a potência dessa formulação. E. A tetracaína é mais hidrofóbica do que a lidocaína e é incapaz de se difundir a partir da membrana celular neuronal, e a inibição dos canais de cálcio potencializa a inibição do canal de sódio exercida pela lidocaína. A Sra. S. está preocupada com o fato de que esses fármacos possam causar alguma toxicidade, como perda da função moto- ra (que ocorreu com ela após ter recebido bloqueio nervoso central durante o trabalho de parto por ocasião do nascimento de Jessica). Ela também ouviu dizer que os anestésicos tópicos podem causar arritmias cardíacas e convulsões. 2. Foi administrado à Sra. S. um anestésico local espinal/epidural combinado para diminuir a dor do trabalho de parto. Ela obteve algum alívio das contrações dolorosas; entretanto, 20 minutos depois, apresentou entorpecimento e paralisia das pernas. Qual das seguintes afirmações poderia explicar a sua paralisia? A. O anestésico local injetado no líquido cefalorraquidiano penetrou na medula espinal, inibindo a transmissão normal de impulsos motores, causando paralisia dos membros infe- riores. B. O anestésico local injetado no líquido cefalorraquidiano ini- biu a transmissão normal do glutamato na medula espinal, causando paralisia dos membros inferiores. C. O anestésico local injetado no líquido cefalorraquidiano difun- diu-se proximalmente e causou parada respiratória. D. O anestésico local injetado no espaço epidural inibiu pre- ferencialmente a transmissão normal de impulsos motores, causando paralisia dos membros inferiores. E. O anestésico local injetado no líquido cefalorraquidiano inibiu a produção normal da substância P, causando paralisia dos membros inferiores. 3. A toxicidade dos anestésicos locais pode acometer os sistemas cardiovascular, pulmonar, dérmico, imunológico e nervoso cen- tral. Qual das seguintes combinações (efeito adverso: mecanis- mo relacionado) é correta? A. hipersensibilidade: metabólitos de ligação amida com pro- priedades alergênicas B. bloqueio da condução cardíaca: bloqueio dos canais de sódio no sistema de condução cardíaca C. convulsões: bloqueio excessivo dos receptores de glutamato D. redução da contratilidade cardíaca: liberação aumentada de sódio do retículo sarcoplasmático E. hipersensibilidade: inibição dos canais de cálcio na membra- na plasmática 4. A Sra. S. deseja saber por que Jessica precisa aguardar 30 minu- tos após a aplicação do gel de LET para que a pele da testa seja anestesiada o suficiente e o médico de família possa suturar a ferida. Qual a principal barreira à penetração de um anestésico local tópico no seu local de ação? A. estrato córneo B. estrato basal C. epineuro D. perineuro E. endoneuro 5. A lesão tecidual dolorosa faz com que a descarga dos nocicepto- res na área da lesão ocorra com alta freqüência. Essa rápida des- carga de impulsos permite que a administração de anestésico local na área de lesão bloqueie preferencialmente a ativação dos nociceptores em maior grau do que outros impulsos sensoriais ou motores. Este fenômeno é denominado: A. ativação epineural B. hipersensibilidade C. hidrofobicidade D. inibição fásica E. inibição tônica 42 Capítulo Onze 11 Farmacologia da Neurotransmissão GABAérgica e Glutamatérgica Fig. 11.1 Representação Esquemática do Receptor GABAA. A. Estru- tura pentamérica do receptor GABAA. Cada receptor é constituído por cinco subunidades, e cada uma destas pertence a um de três subtipos predominantes: α, β ou γ. A ativação exige a ligação de duas moléculas de GABA ao receptor, uma a cada uma das duas subunidades α. Cada subunidade do receptor GABAA possui quatro regiões que atravessam a membrana e uma alça de cisteína no domínio N-terminal extracelular (indicado pela linha tracejada). B. Principais sítios de ligação no receptor GABAA. Embora haja evidências indiretas sobre a localização de muitos dos sítios de ligação de fármacos que estão esquematicamente indicados nesse diagrama, a localização definitiva desses sítios ainda precisa ser estabelecida. Fig. 11.2 Representação Esquemática dos Receptores Ionotrópicos de Glutamato. A. Todos os três receptores ionotrópicos de glutamato consistem em complexos tetraméricos compostos pelas mesmas subuni- dades (denominados homoméricos) ou subunidades diferentes (denomi- nados heteroméricos). A estrutura à direita mostra uma subunidade do receptor ionotrópico de glutamato, que atravessa três vezes a membrana e que apresenta uma curva em grampo que, quando justaposta a cur- vas homólogas das outras três subunidades, forma o revestimento do poro do canal iônico. B. São mostrados os principais sítios de ligação dos receptores ionotrópicos de glutamato das classes ácido propiônico α-amino-3-hidroxi-5-metil-4-isoxazol (AMPA)/cainato e ácido N-metil-D- aspártico (NMDA). Embora haja evidências indiretas sobre a localização de muitos dos sítios de ligação de fármacos esquematicamente indica- dos nesse diagrama, a localização definitiva desses sítios ainda não foi estabelecida. A B N C Receptor GABAA 1 subunidade Benzodiazepínicos GABA e antagonistas Penicilina Barbitúricos Glicocorticóides Picrotoxina Furosemida Flumazenil N C Zn2+ Mg2+ Ca2+Na+ K+ K+ A Estrutura tetramérica 1 subunidade Glutamato/NMDA Glicina Fenciclidina Receptor NMDA Glutamato/AMPA/CainatoÁlcoois, anestésicos voláteis? Barbitúrico Receptor AMPA/Cainato B Farmacologia da Neurotransmissão GABAérgica e Glutamatérgica43 OBJETIVOS ! Compreender a fisiologia das neurotransmissões GABAérgica e glutamatérgica. ! Compreender como os agentes farmacológicos podem modificar a atividade do ácido gama-amino- butírico (GABA), resultando em efeitos terapêuticos e potencialmente tóxicos. ! Compreender como os agentes farmacológicos que afetam a atividade do glutamato podem constituir terapias eficazes para algumas doenças neurológicas. !! CASO 1 S.B., um homem de 70 anos de idade, está apresentando pro- blemas para dormir. Lembra então que a sua irmã está toman- do fenobarbital sob prescrição médica, um barbitúrico para controlar suas crises epilépticas, e que os barbitúricos também são algumas vezes prescritos como soníferos. Decide tomar apenas “alguns comprimidos” com uma pequena quantidade de álcool para ajudá-lo a dormir. Pouco depois, o Sr. B. é leva- do às pressas ao departamento de emergência quando a irmã percebe que ele praticamente não apresenta nenhuma reação. Ao ser examinado, observa-se uma dificuldade em despertar o paciente, que também apresenta disartria, com marcha instável e redução da atenção e da memória. A freqüência respiratória é de cerca de 6 respirações superficiais por minuto. O paciente é subseqüentemente intubado para protegê-lo de uma aspiração do conteúdo gástrico. QUESTÕES 1. Os barbitúricos atuam para controlar as crises epilépticas e indu- zir o sono. Qual o seu mecanismo de ação na produção desses efeitos? A. Os barbitúricos aumentam a freqüência de abertura dos canais de cloreto no receptor GABAA. B. Os barbitúricos aumentam a duração de abertura dos canais de cloreto no receptor GABAA. C. Os barbitúricos diminuem a ativação do receptor de cainato pelo glutamato. D. Os barbitúricos aumentam a duração de abertura dos canais de cloreto no receptor GABAA. E. Os barbitúricos aumentam a ativação do receptor de ácido N-metil-D-aspártico (NMDA) pelo glutamato. 2. Esse paciente ingeriu um barbitúrico com etanol e desenvolveu profunda depressão do sistema nervoso central (SNC) e res- piratória. Qual a interação dos barbitúricos com o etanol para produzir esse efeito? A. Ambos os agentes intensificam o influxo de cloreto mediado pelo GABAA e inibem os efeitos excitatórios do glutamato em seus receptores. B. Ambos os agentes inibem a síntese de norepinefrina (NE) em todo o SNC. C. Os barbitúricos intensificam o influxo de cloreto mediado pelo GABAA, enquanto o etanol inibe os efeitos excitatórios do glutamato no receptor de ácido α-amino-3-hidroxi-5-meti- lisoxazol-4-propiônico (AMPA). D. Ambos os agentes aumentam a síntese e a liberação de GABA. E. Ambos os agentes intensificam a afinidade do GABA pelo receptor GABAA e inibem os efeitos excitatórios da glicina em seus receptores. Administra-se carvão ativado através de uma sonda nasogás- trica para limitar qualquer absorção adicional do fenobarbi- tal. O paciente também recebe bicarbonato de sódio por via intravenosa para alcalinizar a urina até um pH de 7,5, com o objetivo de facilitar a excreção renal do fármaco. Três dias depois, o Sr. B. está suficientemente recuperado para retornar à sua casa. 3. A idade mais avançada desse paciente pode ter contribuído para o grau de depressão do SNC induzida pelo fenobarbital apre- sentada. Como a idade do paciente afeta o grau de depressão do SNC causada pelos barbitúricos? A. Os pacientes idosos apresentam uma maior relação entre gordura corporal e músculo e são incapazes de acumular fármacos lipofílicos. B. Os pacientes idosos exibem uma redução da depuração hepática dos barbitúricos. C. Os pacientes idosos exibem uma redução da depuração renal do fenobarbital. D. Os pacientes idosos que ingerem uma overdose de sedativos exibem cinética de um compartimento de distribuição dos fármacos. E. Os pacientes idosos apresentam absorção gastrintestinal aumentada de barbitúricos. 4. Qual dos seguintes itens é um sinal de intoxicação por barbitú- ricos? A. derivação pulmonar B. taquipnéia C. amnésia para eventos recentes D. epilepsia de ausência E. supressão da liberação de glicocorticóides supra-renais 5. De que maneira a farmacocinética e o metabolismo dos barbi- túricos modulam seus efeitos clínicos? A. Os barbitúricos altamente lipofílicos atravessam rapidamente a barreira hematoencefálica, resultando em efeito rápido e sustentado no SNC. B. Os barbitúricos de administração oral sofrem metabolismo hepático de primeira passagem, com formação de metabó- litos ativos de ação longa e mais potentes. C. Os barbitúricos induzem as enzimas CYP hepáticas P450 responsáveis pelo seu metabolismo, intensificando a sua eficácia em doses mais baixas. D. O efeito clínico dos barbitúricos no SNC termina pela redis- tri buição do fármaco para outros órgãos altamente perfun- didos. 44 Capítulo Onze E. Os barbitúricos com pKa ácido, como o fenobarbital, não podem ser administrados por via oral, devido ao risco de irritação da mucosa gástrica. !! CASO 2 O agárico-das-moscas (Amanita muscaria) pertence à classe dos fungos que contêm ácido ibotênico e muscimol. Essas espécies de cogumelos têm sido utilizadas durante séculos por várias culturas como componente de cerimônias religiosas e rituais. A ingestão de grandes quantidades desse cogumelo pode cau- sar sintomas mistos de neurotoxicidade, incluindo contrações espasmódicas, convulsões e alucinações leves, bem como into- xicação semelhante ao do etanol e sedação leve. QUESTÕES 1. O ácido ibotênico é a substância química no A. muscaria res- ponsável pelas contrações espasmódicas e convulsões. Qual dos seguintes locais de ação poderia explicar os efeitos do ácido ibotênico? A. Bloqueio dos canais de cálcio neuronais pré-sinápticos B. Bloqueio dos canais de sódio neuronais pré-sinápticos C. Ativação do receptor GABAB D. Ativação do sítio de ligação dos benzodiazepínicos no com- plexo receptor GABAA E. Ativação do receptor NMDA 2. O ácido ibotênico é descarboxilado a muscimol, que é a subs- tância química em A. muscaria responsável pela intoxicação e sedação. Qual dos seguintes locais de ação poderia explicar os efeitos do muscimol? A. Antagonismo do sítio de ligação dos benzodiazepínicos no complexo do receptor GABAA B. Ativação dos canais de sódio neuronais pré-sinápticos C. Ativação do receptor AMPA D. Ativação do receptor GABAA E. Bloqueio do receptor GABAB 3. Por que alguns agonistas do GABA são eficazes como sedativos enquanto outros são utilizados como agentes antiepilépticos e outros ainda são considerados anestésicos gerais? A. Os agonistas do GABA com diferentes efeitos clínicos têm como alvo apenas os receptores GABAA no SNC, e não os receptores GABAB. B. Os agonistas do GABA exercem efeitos clínicos diferentes com base na magnitude da dose administrada. C. Os sedativos e antiepilépticos agonistas do GABA são admi- nistrados por via oral, enquanto os anestésicos gerais são administrados por via intravenosa. D. Os agonistas do GABA com efeitos clínicos mais específicos exibem eficácia variável na abertura dos canais de cloreto. E. Os agonistas do GABA com efeitos clínicos mais específicos exibem maior seletividade na sua ligação aos receptores de GABA, com composições de subunidades específicas. 4. Qual dos seguintes itens constitui um efeito da ativação do receptor ionotrópico de glutamato? A. Ocorre abertura dos canais de potássio, e o fluxo de potássio é aumentado. B. Ocorre abertura dos canais de sódio e de cálcio, e o influxo de sódio e de cálcio é aumentado. C. Ocorre abertura dos canais de magnésio, e o influxo de mag- nésio é aumentado. D. A fosfolipase C é ativada, e o influxo de neuroesteróides é aumentado. E. Ocorre abertura dos canais de cloreto, e o influxo de cloreto é aumentado. 5. Os antagonistas do glutamato podemser eficazes no tratamento e/ou na prevenção de: A. transecção da medula espinal B. seqüelas de acidente vascular cerebral isquêmico C. demência D. esquizofrenia E. atrofia muscular 12 Farmacologia da Neurotransmissão Dopaminérgica OBJETIVOS ! Compreender a fisiologia da dopamina, incluindo sua síntese, liberação, metabolismo e efeitos. ! Compreender de que maneira os agentes farmaco- ló gicos podem modificar a função da dopamina, resultando em efeitos tanto terapêuticos quanto po tencialmente tóxicos. !! CASO 1 Mark S., um homem de 55 anos de idade, procura o seu médico depois de perceber um tremor na mão direita que apareceu gradu- almente nesses últimos meses. Constatou que ele consegue man- ter a mão imóvel enquanto se concentra nela, mas que o tremor reaparece rapidamente se ele se distrai. Sua caligrafia tornou-se pequena e difícil de ler, e ele está tendo dificuldade em usar o mouse do computador. A esposa queixa-se de que ele deixou de sorrir e seu rosto tornou-se inexpressivo. Declara também que o marido está andando mais lentamente e que tem dificuldade em acompanhar o ritmo dela. Ao vê-lo entrar no consultório, o médico do Sr. S. percebe que está andando curvado, com marcha curta e desajeitada. Ao exame físico, o médico constata que o Sr. S. apresenta aumento do tônus e rigidez em roda dentada nos membros superiores, particularmente do lado direito; além disso, é significativamente mais lento do que o normal na execução de movimentos alternados rápidos. O médico conclui que os sinais e os sintomas do Sr. S. mais provavelmente representam os estágios iniciais da doença de Parkinson e prescreve então uma prova terapêutica de levodopa. QUESTÕES 1. De que maneira a perda seletiva de neurônios dopaminérgicos resulta em sintomas como aqueles observados no Sr. S.? A. A perda dos neurônios dopaminérgicos nos órgãos circun- ventriculares contribui para a inibição do controle cortical do movimento. B. A perda dos neurônios dopaminérgicos na via tuberoinfun- dibular provoca a liberação de ácido gama-aminobutírico (GABA) e inibição do movimento. C. A perda dos neurônios dopaminérgicos no estriado causa a liberação de GABA e inibição do movimento. D. A perda dos neurônios dopaminérgicos na substância negra contribui para a atividade reduzida da via direta e a inibição do movimento. E. A perda dos neurônios dopaminérgicos na substância negra contribui para a atividade reduzida da via indireta e inibição do movimento. 2. Qual será o efeito da levodopa sobre a evolução da doença do Sr. S.? A. A levodopa irá impedir a evolução dos sintomas atuais do Sr. S., mas não irá revertê-los. B. A levodopa/carbidopa irão restaurar os neurônios dopami- nérgicos lesados e reverter a doença do Sr. S. C. A levodopa/carbidopa irão melhorar notavelmente os sinto- mas do Sr. S. D. A levodopa irá promover a síntese de dopamina no sistema nervoso central (SNC) e retardar a evolução da doença do Sr. S. E. A levodopa/carbidopa irão promover o desenvolvimento de vias alternativas para o controle do movimento e estabilizar os sintomas do Sr. S. 3. Como a resposta do Sr. S. à levodopa irá mudar com o decorrer do tempo? A. O paciente irá desenvolver sensibilização à levodopa e neces- sitar de doses menos freqüentes. B. O paciente irá desenvolver tolerância à levodopa e necessitar de doses crescentes. C. O paciente irá desenvolver períodos “ligados” e “desligados” intermitentes, exigindo uma interrupção temporária da levo- dopa. D. Com a regeneração dos neurônios dopaminérgicos, o pacien- te irá necessitar de administração menos freqüente de levo- dopa. 46 Capítulo Doze E. O paciente irá desenvolver tolerância à levodopa e necessitar de infusões contínuas do fármaco. 4. A eficácia e os efeitos adversos a longo prazo associados aos tratamentos farmacológicos para doença de Parkinson influen- ciam a escolha da terapia nos diferentes estágios da doença. Qual das seguintes declarações é correta em relação à escolha da terapia para a doença de Parkinson? A. Em virtude de sua eficácia, o tratamento com levodopa deve ser iniciado o mais cedo possível uma vez confirmado o diagnóstico de doença de Parkinson. B. Em virtude de seus efeitos adversos, a terapia com levodopa deve ser adiada até que tenham sido esgotadas todas as outras opções terapêuticas possíveis. C. A terapia com agonistas da dopamina deve ser adiada até que o paciente tenha desenvolvido tolerância aos efeitos da levodopa. D. Os inibidores do metabolismo da dopamina devem ser administrados o mais cedo possível uma vez confirmado o diagnóstico de doença de Parkinson. E. A terapia com agonistas da dopamina constitui um tratamen- to inicial eficaz para a doença de Parkinson em pacientes jovens. 5. A benztropina e o triexifenidil não afetam diretamente as con- centrações de dopamina ou a ativação dos receptores dopami- nérgicos. Como esses fármacos exercem um efeito benéfico nos pacientes com doença de Parkinson? A. Esses agentes bloqueiam a ativação colinérgica das células musculares discinéticas. B. Esses agentes bloqueiam os receptores excitatórios de ácido N-metil-D-aspártico (NMDA) no estriado. C. Esses agentes modificam os interneurônios colinérgicos estriatais, que regulam as vias direta e indireta. D. Esses agentes intensificam os receptores NMDA excitatórios, que estimulam a via direta. E. Esses agentes bloqueiam a inibição colinérgica da via indi- reta. Fig. 12.2 Vias Centrais de Dopamina. Os neurônios dopaminérgicos originam-se de certo número de núcleos específicos no cérebro. Os neu- rônios que se originam no hipotálamo e projetam-se para a hipófise (seta) são tonicamente ativos e inibem a secreção de prolactina. Os neurônios que se projetam da substância negra para o estriado regu- lam o movimento (setas em pontilhado). Acredita-se que os neurônios dopaminérgicos que se projetam da área tegmental ventral para o siste- ma límbico e córtex pré-frontal desempenham papéis na regulação do humor e do comportamento (setas). A área postrema contém uma alta densidade de receptores de dopamina, e a estimulação desses receptores ativa os centros do vômito no cérebro. Fig. 12.1 Neurotransmissão Dopaminérgica. A dopamina (DA) é sin- tetizada no citoplasma e transportada em vesículas secretoras pela ação de um antiportador não-seletivo de prótons-monoaminas (transportador de monoaminas vesicular [VMAT]), que é impulsionado pelo gradiente eletroquímico criado por uma ATPase de prótons. Com a estimulação da célula nervosa, a DA é liberada na fenda sináptica, onde o neurotrans- missor pode estimular receptores dopamínicos pós-sinápticos e auto- receptores dopamínicos pré-sinápticos. A DA é transportada para fora da fenda sináptica pelo transportador de dopamina (DAT) seletivo acoplado ao Na+. A DA citoplasmática é retransportada para dentro das vesículas secretoras pelo VMAT ou degradada pela enzima monoamina oxidase (MAO). ADP = difosfato de adenosina; ATP = trifosfato de adenosina; DOPAC = ácido diidroxifenilacético; L-DOPA = levodopa. Área postrema Substância negraÁrea tegmental ventral Hipotálamo Farmacologia da Neurotransmissão Dopaminérgica 47 !! CASO 2 Uma mulher de 23 anos de idade é transportada de ambulância até o departamento de emergência após amigas terem percebi- do que estava agindo de modo estranhamente paranóide numa festa. A paciente está confusa e é incapaz de relatar qualquer história. Ela está rangendo repetidamente os dentes e morden- do o lábio inferior, movimentos conhecidos como bruxismo. O exame é notável por uma freqüência cardíaca de 123 bpm e pressão arterial de 150/95 mm Hg. A pele está úmida e as pupilas, dilatadas. Está acordada, porém delirante e modera- damente agitada. As amigas relatam que ela disse ter ingeridoum “hit” de ecstasy, uma anfetamina sintética. QUESTÕES 1. De que maneira o mecanismo de ação das anfetaminas rela- ciona-se com os sintomas clínicos dessa paciente? A. As anfetaminas deslocam a dopamina das vesículas pré- sinápticas e causam estimulação do SNC. B. As anfetaminas bloqueiam a ação da dopamina no sistema mesocortical e causam embotamento do afeto. C. As anfetaminas exercem um efeito agonista direto sobre os neurônios dopaminérgicos na área postrema e causam alu- cinações. D. As anfetaminas impedem a liberação da dopamina nos neurônios pré-sinápticos no sistema mesolímbico e causam sintomas esquizofreniformes paranóides. E. As anfetaminas possuem atividade inibitória da monoamina oxidase (MAO), causando aumento da concentração de tiro- sina, que resulta em delírios paranóides. 2. Os usuários de anfetamina freqüentemente exibem movimentos motores repetitivos, semelhante ao bruxismo dessa paciente. Qual pode ser a etiologia dessas anormalidades do movimento? A. Excesso de dopamina no sistema mesolímbico B. Excesso de dopamina na área tegmental ventral C. Excesso de dopamina no estriado D. Depleção de dopamina no sistema mesolímbico E. Depleção de dopamina no estriado 3. As amigas da paciente relatam que ela tem um histórico de depressão e está fazendo uso de um antidepressivo com pres- crição médica, a tranilcipromina, um inibidor da MAO. Conside- rando o uso terapêutico da tranilcipromina nessa paciente, quais os efeitos adversos potenciais que ela pode apresentar com o uso concomitante do ecstasy? A. Bradicardia B. Rigidez muscular e sintomas parkinsonianos subseqüentes C. Perda do tônus vascular periférico D. Insuficiência hepática E. Convulsões 4. São utilizados agentes antipsicóticos para o tratamento dos sintomas da esquizofrenia. A sua potência de bloqueio dos receptores dopaminérgicos D2 também está associada a seus efeitos adversos, notavelmente efeitos extrapiramidais. Qual dos seguintes itens é um exemplo de efeito extrapiramidal? A. marcha arrastada B. hipotensão ortostática C. sedação D. galactorréia E. síndrome maligna neuroléptica 5. A síndrome maligna neuroléptica é o efeito adverso mais grave associado ao antagonismo dos receptores D2 dos agentes anti- psicóticos. Qual dos seguintes agentes tem mais probabilidade de causar essa síndrome rara, porém potencialmente fatal? A. clozapina B. haloperidol C. amantadina D. quetiapina E. clorpromazina !! CASO 3 Robin L., uma mulher de 34 anos de idade grávida de 11 sema- nas, apresenta náusea e vômitos intensos relacionados com a gravidez. Faz uma consulta com seu obstetra e começa a tomar proclorperazina, um antiemético, para controlar seus sintomas. QUESTÕES 1. A proclorperazina é uma fenotiazina. De que maneira suas ações controlam os sintomas de náusea? A. Bloqueio dos receptores D3 no sistema mesocortical. B. Bloqueio dos receptores D2 no sistema mesolímbico. C. Bloqueio dos receptores D2 na área postrema. D. Bloqueio dos receptores muscarínicos no trato GI. E. Estimulação dos receptores D2 no sistema nigroestriatal. 2. Doze horas após a Sra. L. tomar a segunda dose da medicação, surgem sintomas assustadores de sensação de aperto na face e no pescoço. Tem dificuldade em abrir a boca e sente o pescoço “puxando” a cabeça para a direita. O seu esposo a leva de carro até o departamento de emergência, onde o médico de plantão diagnostica que está apresentando uma reação distônica aguda, um efeito adverso do uso das fenotiazinas. De que maneira os sintomas da Sra. L. estão relacionados com o mecanismo de ação das fenotiazinas? A. O bloqueio dos receptores D2 na hipófise provoca secreção de prolactina e teste de gravidez falso-positivo. B. O bloqueio dos receptores D2 no sistema mesocortical pro- voca sintomas esquizofreniformes positivos de histeria. C. O bloqueio dos receptores D2 no sistema mesolímbico pro- voca afeto embotado e alogia. D. O bloqueio dos receptores D2 no sistema nigroestriatal pro- voca alteração do tônus muscular. E. O bloqueio dos receptores α-adrenérgicos periféricos provo- ca hipotensão e acidente vascular cerebral O médico administra difenidramina e benztropina, fármacos com atividade anti-histamínica e antimuscarínica. Passados 30 minutos, a Sra. L. percebe que a sensação de aperto muscular é menor e que ela já consegue abrir a boca e virar a cabeça com mais facilidade. Recebe alta com prescrição de um agente antiemético não-antipsicótico para o controle da náusea, bem como prescrição de difenidramina e benztropina para os próxi- mos dias, a fim de evitar a recidiva desse efeito adverso. 48 Capítulo Treze 13 Farmacologia da Neurotransmissão Serotoninérgica e Adrenérgica Central OBJETIVOS ! Compreender a bioquímica e a fisiologia das neu- rotransmissões adrenérgica central e serotoninérgica relacionadas com transtornos afetivos. ! Compreender a farmacologia, as indicações e os efei- tos adversos dos agentes utilizados no tratamento de pacientes com vários transtornos afetivos. !! CASO 1 Mary R., de 27 anos de idade, é uma funcionária que procura o seu médico de atendimento primário, o Dr. Lee, devido a uma perda de peso de 8 kg ocorrida nos últimos 2 meses. A Sra. R. lamenta-se de que vem sendo atormentada por sentimentos quase constantes de tristeza e por uma sensação de desamparo e inadequação no trabalho. Sente-se tão mal que não consegue ter uma boa noite de sono há mais de 1 mês. Não sente mais prazer na vida e, recentemente, ficou assustada quando sua mente foi invadida por pensamentos suicidas. A Sra. R. confessa ao Dr. Lee que ela já se sentiu assim há algum tempo, mas passou. O Dr. Lee interroga a Sra. R. sobre o seu padrão de sono, apeti- te, capacidade de concentração, nível de energia, humor, nível de interesse e sentimentos de culpa. Faz perguntas específicas sobre os pensamentos suicidas, em particular se ela arquitetou algum plano específico e se já alguma vez tentou suicídio. O Dr. Lee explica à Sra. R. que ela tem transtorno depressivo maior, provavelmente causado por um desequilíbrio químico no cérebro, e prescreve o antidepressivo fluoxetina. QUESTÕES 1. Em qual dos seguintes sintomas baseia-se o diagnóstico de transtorno depressivo maior da Sra. R.? A. tentativa prévia de suicídio B. sensação de cansaço e sonolência o dia inteiro C. pensamentos paranóides de que o seu patrão critica o seu trabalho D. medo de que ela irá morrer E. sintomas de 2 meses de duração 2. Qual o mecanismo de ação da fluoxetina no alívio dos sintomas da depressão? A. A fluoxetina impede o metabolismo da serotonina. B. A fluoxetina impede a recaptação de serotonina. C. A fluoxetina é um agonista nos receptores de serotonina pós-sinápticos. D. A fluoxetina aumenta a liberação de serotonina das vesículas pré-sinápticas. E. A fluoxetina aumenta a síntese de serotonina a partir do triptofano. Duas semanas depois, a Sra. R. telefona para dizer que o medi- camento não está surtindo efeito. O Dr. Lee a incentiva a con- tinuar tomando o remédio, e, depois de mais 2 semanas, a Sra. R. começa a sentir-se melhor. 3. Por que existe uma demora no início do efeito terapêutico da fluoxetina? A. São necessárias várias semanas para que a fluoxetina supra- regule a sensibilidade dos receptores de serotonina pós- sinápticos. B. São necessárias várias semanas para que a fluoxetina aumen- te a síntese de serotonina. C. São necessárias várias semanas para que as concentrações de fluoxetina no sistema nervoso central se tornem terapêu- ticas. D. São necessárias várias semanas para que os auto-recepto- res se tornem dessensibilizados às concentrações sinápticas elevadas de serotonina produzidas pela fluoxetina. E. São necessárias várias semanas para que as vesículas pré- sinápticas armazenem e liberem as concentraçõesaumen- tadas de serotonina promovidas pelo tratamento com fluoxetina. A Sra. R. não se sente mais triste nem abatida; os sentimentos de desamparo e de inadequação que antes a atormentavam dimi nuí- ram. De fato, ao retornar ao médico 6 semanas depois, declara Farmacologia da Neurotransmissão Serotoninérgica e Adrenérgica Central 49 estar se sentindo muito melhor. Não sente mais a necessidade de tanto sono e está sempre com muita energia. Agora, está convencida de que ela é a pessoa mais inteligente da sua empre- sa. Acrescenta orgulhosamente a seu médico que ela há pouco tempo comprou um novo carro esporte e fez muitas compras. O Dr. Lee explica à Sra. R. que ela pode estar tendo um episódio maníaco e, após consultar um psiquiatra, prescreve lítio e dimi- nui gradualmente a dose de fluoxetina. A Sra. R. hesita em tomar a nova medicação, argumentando que está se sentindo muito bem e que está preocupada com os efeitos colaterais do lítio. 4. O que causou a hipomania da Sra. R.? A. hipersensibilidade à fluoxetina B. cura da depressão C. tolerância à fluoxetina D. overdose de fluoxetina E. uso de fluoxetina 5. Após o episódio de hipomania, a Sra. R. continua tomando lítio como estabilizador do humor. Qual dos seguintes itens repre- senta um efeito adverso potencial da terapia com lítio? A. psicose B. bócio da tireóide C. disfunção sexual D. hipotensão ortostática E. enxaqueca !! CASO 2 Jeanne K. é uma mulher de 43 anos de idade, desemprega- da, com história de depressão. Essa tarde, bebeu muito com o namorado, Jack N. Depois de quase uma caixa de cerveja, tiveram uma briga, e o Sr. N. saiu enfurecido da casa. A Sra. K. ficou muito abatida diante do ocorrido e tomou todo o frasco de antidepressivo com o resto da cerveja. Quando o Sr. N. retorna 20 minutos depois, a Sra. K. está embriagada e sonolenta no sofá, e ele vai dormir. Uma hora depois, quando acorda para urinar, o Sr. N. tenta fazer as pazes com a Sra. K., porém a encontra inerte no sofá e, então, telefona para a emergência pedindo ajuda. Ao chegar no departamento de emergência, a Sra. K. está apenas ligeiramente mais reativa e geme quando o enfermeiro insere um cateter intravenoso periférico e a coloca no monitor cardíaco. Confessa que tomou uma overdose de pílulas porque estava “furiosa com o Jack”. Os sinais vitais da paciente reve- lam temperatura de 37,2oC, freqüência cardíaca de 122 bpm, freqüência respiratória de 14 respirações/min e pressão arterial de 96/58 mm Hg. Quando o médico residente examina a Sra. K., percebe que as pupilas estão dilatadas em 6 mm, os lábios e as mucosas estão muito secos, e a pele está seca e ruborizada. O ECG de 12 derivações revela taquicardia sinusal, com intervalo QT prolongado e intervalo QRS alargado. QUESTÕES 1. Qual o antidepressivo que pode causar sintomas anticolinérgicos e anormalidades da condução cardíaca como manifestações de sua toxicidade? Fig. 13.1 Locais e Mecanismos de Ação dos Fármacos Antidepressi- vos. Os locais de ação dos agentes antidepressivos e da reserpina (que pode induzir depressão) estão indicados nos neurônios noradrenérgicos (A) e nos neurônios serotoninérgicos (B). Os inibidores da monoami- na oxidase (IMAO) inibem a enzima mitocondrial monoamina oxidase (MAO); o aumento resultante das monoaminas citosólicas leva a uma captação vesicular aumentada de neurotransmissor e a um aumento de sua liberação durante a exocitose. Os antidepressivos tricíclicos (ATC) e os antidepressivos heterocíclicos inibem tanto o transportador de nore- pinefrina (NET) quanto o transportador de serotonina (5HT) (SERT), resultando em níveis elevados de norepinefrina (NE) e de 5-HT na fen- da sináptica. Os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) inibem especificamente a recaptação de 5-HT mediada pelo SERT. Os ATC, os antidepressivos heterocíclicos e os ISRS aumentam a duração de ação dos neurotransmissores na fenda sináptica, resultando em aumento da sinalização distal. A reserpina, que tem a capacidade de induzir depressão em seres humanos e em modelos animais, bloqueia a captação mediada pelo VMAT (transportador de monoaminas vesicular) de monoaminas nas vesículas sinápticas, destruindo, em última análise, as vesículas. DOPGAL = 3,4-diidroxifenilglicoaldeído. A B Na+ 5HT 5HT 5HT 5HT 5HT 5HT 5HT 5HT Na+ DOPGAL DA DA H+ H+ NE NE NE NE VMAT VMAT Dopamina Reserpina ATC IMAO Receptor α2-adrenérgico (auto-receptor) Serotonina Reserpina ATC ISRS IMAO 5-Hidroxiindol acetaldeído Receptor de 5HT1D (auto-receptor) 5HT 50 Capítulo Treze A. selegilina B. paroxetina C. amitriptilina D. bupropiona E. sumatriptana O residente interpreta corretamente o ECG de 12 derivações como presença de anormalidades de condução semelhantes às da quinidina e institui urgentemente um tratamento para estabi- lizar a Sra. K. Além disso, intuba oralmente a paciente para pro- teger as vias respiratórias e minimizar o risco de aspiração. 2. O antidepressivo que a Sra. K. ingeriu pode causar atrasos da condução cardíaca, que podem deteriorar em taquicardia ventri- cular e fibrilação potencialmente fatais. Em que local esse agente está atuando para produzir esses efeitos? A. canais de sódio cardíacos B. receptores α1-adrenérgicos C. auto-receptores pré-sinápticos D. receptores de anfetaminas E. canais de potássio cardíacos A Sra. K. sobrevive a um período instável de 24 horas na uni- dade de terapia intensiva e é extubada dois dias após a sua internação. Durante a sua recuperação, um psiquiatra é con- sultado para recomendar a melhor forma de tratar a depressão e o uso de álcool dessa paciente. Após discutir muito o atual estado de desemprego e a situação doméstica com o Sr. N., a Sra. K. decide entrar nos alcoólicos anônimos e concorda em tentar outra medicação antidepressiva. O psiquiatra sugere um novo antidepressivo atípico. 3. Qual dos seguintes agentes é considerado um antidepressivo atípico? A. dexfenfluramina B. imipramina C. tiramina D. ondansetron E. mirtazapina 4. O lítio é um estabilizador do humor utilizado no tratamento do transtorno afetivo bipolar. Trata-se de um cátion monovalente com propriedades eletroquímicas semelhantes às do sódio e do potássio. Pode ocorrer toxicidade do lítio em pacientes que apresentam: A. insuficiência hepática B. insuficiência renal C. doença cerebrovascular D. hipotireoidismo E. doença pulmonar obstrutiva crônica 5. A etapa enzimática que limita a velocidade no processo de síntese da serotonina é: A. tiramina hidroxilase B. triptofano hidroxilase C. descarboxilase de L-aminoácidos aromáticos D. serotonina transportase E. catecol-O-metiltransferase 14 Farmacologia da Neurotransmissão Elétrica Anormal no Sistema Nervoso Central OBJETIVOS ! Compreender os mecanismos moleculares da neuro- transmissão elétrica anormal responsável pela ativida- de convulsiva clínica. ! Compreender a farmacologia, as indicações e os efei- tos adversos dos agentes utilizados no tratamento de pacientes com vários distúrbios convulsivos. !! CASO 1 Jon chega ao departamento de emergência com o seu irmão Rob às 21:12 horas. Como o seu irmão ainda está muito letár- gico para falar, Jon é quem relata a maior parte do ocorrido ao médico assistente. Os dois estavam assistindo à televisão quando Jon percebeu que o irmão de 40 anos parecia estar devaneando. Sem nunca perder uma oportunidade para caçoar dele, Jon começou a ralhar com o irmão por estar “no mundo da lua”. Mas, em lugar da ruidosa gargalhada à qual estava acostumado, Jon só recebeu do irmão um olhar fixo e confuso, quase receoso. Jon lembra que a mão direita do irmão começou a dobrar-se quase repentinamente em uma posição desajeitada. A seguir, a rigidez propagou-separa o braço direito, para o membro inferior direito e, por fim, para o corpo inteiro, quase como se estivesse tentando contrair toda a musculatura do corpo. Essa contração sustentada durou cerca de 15 segundos e foi seguida de movimentos clônicos de todos os quatro membros, que duraram outros 30 segundos ou mais. A freqüência dessas contrações rítmicas foi diminuindo depois de vários minutos, e Rob ficou então com o corpo flácido, começou a respirar com dificuldade e continuou incapaz de reagir. Rob recuperou a consciência a caminho da emergência. QUESTÕES 1. Qual o significado da seqüência de propagação da convulsão da mão para o braço e, a seguir, para a perna? A. Essa seqüência de propagação é compatível com uma aura. B. Essa seqüência de propagação é compatível com a propa- gação da atividade sincrônica através do homúnculo motor. C. Essa seqüência de propagação é compatível com a presença de lesão expansiva no cérebro. D. Essa seqüência de propagação é compatível com a propa- gação da atividade sincrônica para o sistema de ativação reticular. E. Essa seqüência de propagação é compatível com a partici- pação tálamo-cortical da atividade sincrônica. 2. A convulsão generalizada incluiu uma fase tônica (rigidez) segui- da de uma fase clônica (contrações involuntárias). Qual a base dessas duas fases da atividade convulsiva em nível molecular? A. A abertura assincrônica dos canais de sódio provoca desequi- líbrio entre a atividade do ácido gama-aminobutírico (GABA) e do glutamato, resultando em atividade tônico-clônica. B. A ausência de excitação do glutamato resulta em atividade tônica, e os surtos esporádicos de inibição do GABA resultam em atividade clônica interveniente. C. A perda do influxo de GABA resulta em atividade tônica, e uma oscilação entre os impulsos inibitórios do GABA e os impulsos excitatórios do glutamato resulta em atividade clônica. D. Os impulsos inibitórios excessivos do GABA são superados por impulsos excitatórios oscilantes do glutamato, resultando em atividade tônico-clônica. E. O influxo excessivo de cálcio intracelular mantém os canais de glutamato no estado ativo, resultando em atividade tônica, e a extrusão periódica do cálcio intracelular restabelece a atividade normal do glutamato nos surtos oscilantes. No hospital, uma imagem de ressonância magnética revela uma pequena neoplasia no lobo temporal esquerdo de Rob. Como a neoplasia é de aparência benigna, Rob, seguindo o conselho de seu médico, decide não se submeter a uma cirurgia. 3. Com base nos conhecimentos atuais dos mecanismos mole- culares envolvidos nas convulsões, através de que mecanismos uma neoplasia focal poderia resultar em convulsão? 52 Capítulo Quatorze A. Uma neoplasia focal poderia alterar o ambiente neuronal local e comprometer os mecanismos normalmente proteto- res que impedem uma descarga sincrônica anormal. B. Uma neoplasia focal sempre secreta potássio, que compro- mete a função normal dos canais iônicos e promove uma descarga sincrônica anormal. C. Uma neoplasia focal secreta fatores de glutamato tumorais, que inibem a função inibitória normal do GABA e permitem a ocorrência de descarga sincrônica anormal. D. Uma neoplasia focal comprime os canais de sódio normais e facilita a transmissão de uma descarga sincrônica anormal através do corpo caloso. E. Uma neoplasia focal tem a capacidade de gerar descargas sincrônicas anormais no interior de seus tecidos. São discutidos os benefícios e os riscos potenciais de vários agentes anticonvulsivantes, incluindo a fenitoína, a carbama- zepina, o ácido valpróico e a lamotrigina, e fica decidido que Fig. 14.1 Mecanismos de Farmacoterapia para as Convulsões. A. A convulsão parcial (1) resulta da rápida descarga neuronal descontrolada e de uma perda da inibição circundante (2). Os agentes antiepilépticos atuam em quatro alvos moleculares para intensificar a inibição e impedir a propagação da atividade sincrônica (3): Os barbitúricos e os benzodiazepínicos impedem a propagação da convulsão através de sua ação sobre o receptor de GABAA, potencializando a inibição mediada pelo GABA. Os inibidores dos canais de Na+, como a fenitoína, a carbamazepina e a lamotrigina, impedem a descarga neuronal rápida ao prolongar seletivamente a inativação dos canais de Na+ nos neurônios de descarga rápida. O felbamato suprime a atividade convulsiva ao inibir o receptor de ácido N-metil-D-aspártico (NMDA) e, portanto, ao diminuir a excitação mediada pelo glutamato. A gabapentina diminui a liberação do neurotransmissor excitatório através da inibição do canal de cálcio ativado por alta voltagem (HVA). B. A crise de ausência (1) é causada por um ciclo auto-sustentador de atividade gerada entre as células talâmicas e corticais (2). Os agentes antie- pilépticos impedem esse ciclo talamocortical sincrônico (3) através de sua ação sobre dois alvos moleculares: o clonazepam, um benzodiazepínico, potencializa os canais de GABAA no núcleo talâmico reticular, diminuindo, assim, a ativação dos neurônios reticulares inibitórios, e a hiperpolarização dos neurônios retransmissores talâmicos. Os inibidores dos canais de cálcio do tipo T, como a etossuximida e o ácido valpróico, impedem a atividade em rajada dos neurônios retransmissores talâmicos, que é necessária para a ativação sincrônica das células corticais. 1 2 3 1 2 3 Cl- Cl- B A Foco de convulsão Perda da inibição circundante Canal de Na+ regulado por voltagem (inativado) Tálamo (foco de convulsão) Benzodiazepínico (clonazepam) Canal de GABAA (aberto) Etossuximida ou ácido valpróico Canal de Ca2+ do tipo T (bloqueado) Tratamento farmacológico Potenciais de ação (inibição da transmissão) Felbamato NMDA-R (fechado) Gabapentina Canal de HVA Ca2+ (fechado) Barbitúrico ou benzodiazepínico Canal de GABAA (aberto) Fenitoína, carbamazepina ou lamotrigina Farmacologia da Neurotransmissão Elétrica Anormal no Sistema Nervoso Central 53 Rob irá iniciar um esquema com carbamazepina para evitar a ocorrência posterior de convulsões. 4. Qual o mecanismo de ação comum da fenitoína, da carbama- zepina, do ácido valpróico e da lamotrigina na prevenção das convulsões? A. Todos esses agentes inibem os canais de cálcio. B. Todos esses agentes intensificam o efluxo de potássio dos neurônios. C. Todos esses agentes limitam a ligação do glutamato a seus receptores. D. Todos esses agentes intensificam o tônus inibitório do GABA. E. Todos esses agentes possuem efeitos de bloqueio dos canais de sódio. 5. Com base nas circunstâncias clínicas de Rob, por que foi esco- lhida a carbamazepina como agente antiepiléptico? A. A carbamazepina tem menos efeitos adversos e interações medicamentosas potenciais do que a fenitoína. B. A carbamazepina é mais eficaz no tratamento das crises de ausência. C. A carbamazepina intensifica o seu próprio metabolismo, de modo que os pacientes podem reduzir gradualmente a dose inicial. D. A carbamazepina possui um metabólito inativo, que diminui o risco de toxicidade associada a esse fármaco. E. A carbamazepina é um fármaco injetável, administrada uma vez ao dia. !! CASO 2 Jessie é uma menina de 10 anos de idade com paralisia cere- bral discinética diagnosticada aos 3 anos de idade. A paralisia cerebral manifesta-se na forma de movimentos coreoatetóides contorcidos das mãos e dos pés, que dificultam a menina a sentar-se ou a ficar em pé. Ela utiliza órteses especialmente ajustadas nos pés e nas pernas e uma cadeira de rodas para percorrer os corredores da escola. Quando Jessie tinha 5 anos, sofreu a primeira convulsão, que foi do subtipo tônico-clôni- co generalizado. Foi mantida com fenitoína e conseguiu um controle bastante satisfatório das convulsões nos últimos anos.As convulsões tendem a ocorrer apenas em relação a doenças infecciosas ou fadiga excessiva. Nessa última semana, enquanto a família estava viajando para visitar parentes na Flórida, Jessie começou a apresentar tosse e febre baixa. Foi estabelecido o diagnóstico de pneu- monia no atendimento de urgência de uma clínica, e a menina começou a tomar eritromicina para os sintomas pulmonares. Passados 4 dias, a febre cedeu, e houve melhora da tosse. Toda- via, ontem, os pais observaram que estava muito sonolenta, o que atribuíram à sua recente viagem de volta para casa. Hoje, na escola, o fisioterapeuta percebeu que Jessie tinha menos coordenação do que o normal. Jessie teve dificuldade em manter a parte superior do corpo imóvel na cadeira de rodas e parecia estar instável enquanto estava sentada. A menina tam- bém se queixou de tontura durante a fisioterapia de rotina. A mãe de Jessie marcou uma consulta urgente com o seu neuro- logista, o Dr. Black. Ele observou que Jessie tinha nistagmo e ataxia de tronco, além de apresentar acentuada diminuição da coordenação dos membros. Foi solicitada a determinação dos níveis séricos de fenitoína, cujo resultado demonstrou níveis elevados de 34 µg/mL (normal, 10-20 µg/mL). QUESTÕES 1. A fenitoína é um agente antiepiléptico de primeira linha para o tratamento das convulsões parciais e generalizadas. Entretanto, possui um perfil de efeitos adversos extensos. Além dos sinto- mas de tontura, sonolência, nistagmo e ataxia de Jessie, qual dos seguintes itens também constitui um efeito adverso potencial da terapia com fenitoína? A. pancreatite B. anemia aplásica C. hiperplasia gengival D. crises de ausência E. sangramento anormal 2. A dose de fenitoína de Jessie não foi modificada; contudo, apresentou concentrações séricas tóxicas e sintomas clínicos de toxicidade. Qual foi a causa mais provável disso? A. A eritromicina inibiu o metabolismo P450 hepático da feni- toína. B. A eritromicina alterou a flora gastrintestinal normal e intensi- ficou a absorção da fenitoína. C. A eritromicina deslocou a fenitoína da albumina plasmática, permitindo a entrada de uma maior concentração do fármaco livre no sistema nervoso central. D. A eritromicina alterou a barreira hematoencefálica, facilitando a entrada da fenitoína no sistema nervoso central. E. A eritromicina impediu a eliminação renal da fenitoína. 3. A fenitoína é um bloqueador dos canais de sódio, que prolonga o período de inativação dos canais de sódio neuronais. Atua de maneira dependente do uso. O que isso significa em relação a seus efeitos terapêuticos? A. A fenitoína bloqueia os canais de cálcio do tipo T apenas durante períodos de vigília e impede as crises de ausência. B. A fenitoína bloqueia os canais de sódio apenas no estado ativado e impede as convulsões parciais. C. A fenitoína bloqueia os canais de sódio em ciclos de ondas lentas e impede as convulsões generalizadas. D. A fenitoína bloqueia os canais de sódio nos neurônios de descarga rápida e impede as convulsões parciais e generali- zadas secundárias. E. A fenitoína bloqueia os canais de sódio nos neurônios de descarga lenta e impede as crises de ausência. 4. Qual das seguintes afirmações é correta no que concerne ao tratamento das crises de ausência? A. A carbamazepina inibe a abertura dos canais de cálcio do tipo T nas células talamocorticais. B. A gabapentina inibe o metabolismo do GABA e intensifica a ini- bição mediada pelo GABA da atividade da crise de ausência. C. A etossuximida prolonga a inativação dos canais de sódio nas células talamocorticais. 54 Capítulo Quatorze D. O ácido valpróico limita a ativação dos canais de cálcio do tipo T e intensifica a inibição mediada pelo GABA das crises de ausência. E. A etossuximida inibe a abertura dos canais de cálcio ativados por alta voltagem nas células talamocorticais. 5. Quais as semelhanças e as diferenças entre os benzodiazepíni- cos e os barbitúricos como agentes antiepilépticos? A. Tanto os benzodiazepínicos quanto os barbitúricos impedem o metabolismo do GABA, porém apenas os barbitúricos estão associados à anemia aplásica. B. Tanto os benzodiazepínicos quanto os barbitúricos ligam-se ao complexo receptor de GABA, porém apenas os barbitú- ricos são capazes de ligar-se a ambos os canais de sódio e de cálcio do tipo T. C. Tanto os benzodiazepínicos quanto os barbitúricos intensifi- cam a inibição mediada pelo GABA, porém apenas os bar- bitúricos são capazes de aumentar a atividade do receptor de GABA na ausência deste. D. Tanto os benzodiazepínicos quanto os barbitúricos produzem sedação como efeito adverso, porém apenas os barbitúricos provocam sintomas de abstinência aguda com a retirada do fár maco. E. Tanto os benzodiazepínicos quanto os barbitúricos inten- sificam a inibição mediada pelo GABA, porém apenas os benzodiazepínicos podem exacerbar as crises de ausência. 15 Farmacologia dos Anestésicos Gerais OBJETIVOS ! Compreender os princípios farmacodinâmicos e far- macocinéticos dos anestésicos inalatórios. ! Compreender a farmacologia, os usos terapêuticos e os efeitos adversos dos anestésicos gerais. !! CASO 1 Matthew é um menino de 7 anos de idade, 20 kg, que vem sendo submetido a poliquimioterapia para tratamento de um osteossarcoma agressivo no fêmur direito. Chegou o momento da ressecção cirúrgica. • 20 h (véspera da cirurgia): O Dr. Snow, o anestesiologis- ta, tranqüiliza o paciente e recorda a importância do jejum depois da meia-noite para evitar a aspiração do conteúdo gástrico durante a anestesia geral. • 6:30 h: Matthew agarra-se à mãe e está ansioso, debilitado e com um pouco de dor. Os sinais vitais são estáveis, com pulso elevado de 120 bpm e pressão arterial de 110/75 mm Hg. Administra-se uma dose oral de midazolam (um benzo- diazepínico; ver Cap. 11) para aliviar a ansiedade e permitir que Matthew se separe dos pais. • 7:00 h: O Dr. Snow injeta uma pequena quantidade de lido- caína por via subcutânea (um anestésico local; ver Cap. 10) antes de inserir um cateter intravenoso (que ele esconde cui- dadosamente de Matthew até o último momento). Através do cateter, o Dr. Snow administra uma infusão de sulfato de morfina (um opióide; ver Cap. 16) para produzir analgesia. • 7:30 h: O Dr. Snow induz rapidamente a anestesia com uma administração intravenosa direta de 60 mg (3 mg/kg) de tio- pental (um barbitúrico; ver Cap. 11). Em 45 segundos, Mat- thew encontra-se em estado de anestesia profunda. O médico acrescenta uma dose intravenosa de succinilcolina (um rela- xante muscular despolarizante; ver Cap. 8) para facilitar a intubação endotraqueal, e inicia-se a respiração artificial. • 7:32 h: Uma mistura de anestésicos gerais inalatórios, con- sistindo em isoflurano a 2%, óxido nitroso a 50% e oxigênio a 48%, é administrada por meio do respirador para manter o estado de anestesia. QUESTÕES 1. O Dr. Snow utilizou uma mistura de isoflurano e óxido nitroso inalatórios. Qual a vantagem em utilizar uma mistura de dois anestésicos? A. O isoflurano minimiza a hipotensão potencial induzida pelo óxido nitroso. B. O isoflurano facilita uma indução mais rápida, enquanto o óxido nitroso facilita uma recuperação mais rápida. C. O isoflurano permite uma anestesia mais potente, enquanto o óxido nitroso minimiza a hepatotoxicidade potencial indu- zida pelo isoflurano. Fig. 15.1 A Regra de Meyer-Overton. As moléculas com um maior coeficiente de partição óleo/gás (λ(óleo/gás)) são anestésicos gerais mais potentes. Esse gráfico log-log mostra a correlação muito estreita entre lipossolubilidade (λ(óleo/gás)) e a potência do anestésico em cinco ordens de magnitude. Observe que até mesmo gases como o xenônio e o nitrogênio podem atuar como anestésicos gerais quando respirados em pressõesparciais suficientemente altas. A equação que descreve a linha é: Potência = λ(óleo/gás)/1,3. Lembre-se de que Potência = 1/CAM. Xenônio Ciclopropano Éter dietílico Isoflurano Halotano Metoxiflurano Tiometoxiflurano Óxido nitroso Nitrogênio 10.000 1.000 100 10 1 0,1 0,01 10 100 1.000 10.00010,10,01 Coeficiente de partição óleo/gás Po tê nc ia (1 /a tm ) Enflurano 56 Capítulo Quinze D. O isoflurano facilita uma indução e recuperação mais rápi- das, enquanto o óxido nitroso permite uma anestesia mais potente. E. O isoflurano permite uma anestesia mais potente, enquan- to o óxido nitroso facilita uma indução e recuperação mais rápidas. • 7:50 h: Matthew não responde, nem através de movimento nem através de aumento do tônus simpático (por exemplo, aumento da freqüência cardíaca, aumento da pressão arte- rial) à primeira incisão cirúrgica. • 8:20 h: O Dr. Snow percebe assustado que o pulso de Mat- thew caiu para 55 bpm e a pressão arterial para 85/45 mm Hg. Repreendendo-se por ter esquecido de diminuir a pres- são parcial inspirada do anestésico quando a sua pressão parcial no sangue venoso misto aumentou, ele reduz o nível de isoflurano inspirado para 0,8%, enquanto mantém o nível de óxido nitroso em 50%. Dentro de 15 minutos, o pulso e a pressão arterial de Matthew voltam ao normal. 2. O Dr. Snow esqueceu de diminuir a pressão parcial inspirada do anestésico quando a sua pressão parcial no sangue venoso misto aumentou. Por que é necessário reduzir a pressão parcial inspira- da de isoflurano pouco depois de uma indução bem-sucedida? A. À medida que a pressão parcial alveolar equilibra-se com a pressão parcial inspirada do anestésico, este irá difundir-se da corrente sangüínea para o ar exalado. B. À medida que a pressão parcial no SNC equilibra-se com a pressão parcial alveolar, pode não ocorrer nenhuma captação adicional de anestésico inspirado no sangue. C. À medida que a pressão parcial no músculo cardíaco equili- bra-se com a pressão parcial inspirada mais alta do anesté- sico, podem ocorrer arritmias. D. À medida que a pressão parcial no SNC equilibra-se com a pressão parcial inspirada mais alta do anestésico, pode ocorrer depressão cardiopulmonar. E. À medida que a pressão parcial no SNC equilibra-se com a pressão parcial inspirada mais alta do anestésico, pode ocorrer hepatotoxicidade. • 12:35 h: Depois de uma longa cirurgia, o Dr. Snow inter- rompe a administração de isoflurano e de óxido nitroso e passa a administrar oxigênio puro durante alguns minutos. 3. Por que o Dr. Snow administrou oxigênio puro durante alguns minutos após interromper a administração do anestésico? A. O isoflurano possui longa duração de ação, causando hipo- ventilação persistente e diminuição da captação de oxigênio dos alvéolos. B. O óxido nitroso difunde-se rapidamente do sangue, substi- tuindo o ar inspirado e diminuindo a pressão parcial alveolar (e arterial subseqüente) de oxigênio. C. O óxido nitroso difunde-se rapidamente do sangue para os alvéolos, causando irritação local dos bronquíolos e tosse, que são evitadas pela mistura com o oxigênio puro. D. O isoflurano difunde-se rapidamente do sangue, substituindo o ar inspirado e diminuindo a pressão parcial de nitrogênio alveolar a favor do oxigênio. E. O óxido nitroso difunde-se rapidamente do SNC para o tecido muscular cardíaco, precipitando depressão cardiopulmonar, que é aliviada pela mistura com uma alta pressão parcial arterial de oxigênio. • 12:45 h: Em menos de 10 minutos, Matthew está respiran- do espontaneamente e já é capaz de responder a perguntas, embora ainda esteja um pouco atordoado. Os pais de Mat- thew estão aliviados por vê-lo desperto e alerta depois de mais de 5 horas de anestesia. 4. De que maneira a velocidade de indução da anestesia difere entre crianças e adultos? A. As crianças apresentam uma maior taxa de ventilação alveo- lar, pulmões menores e menor capacidade dos tecidos para anestésicos; isso reduz o tempo para o equilíbrio entre a pressão parcial inspirada e alveolar e entre a pressão parcial alveolar e tecidual. B. As crianças apresentam uma maior taxa de ventilação alveolar e área de superfície corporal menor; isso reduz o tempo para o equilíbrio entre os três compartimentos teciduais e a pressão parcial inspirada. C. As crianças apresentam uma maior taxa de ventilação alveo- lar, porém uma taxa mais rápida de metabolismo hepático dos anestésicos, de modo que elas necessitam de uma pres- são parcial inspirada mais alta. D. As crianças apresentam um débito cardíaco proporcional- mente maior; isso diminui o tempo de equilíbrio entre as pressões parcial alveolar e tecidual. E. As crianças apresentam uma maior taxa de ventilação alveolar e pulmões menores; isso aumenta o tempo para a difusão do anestésico inspirado no sangue. 5. A potência de um anestésico aumenta à medida que: A. a sua solubilidade aumenta no tecido muscular cardíaco B. a sua solubilidade aumenta no sangue C. a sua solubilidade aumenta no óleo D. a sua CAM aumenta E. o seu índice terapêutico aumenta !! CASO 2 Em 31 de agosto de 1999, um jovem de 22 anos de idade, no penúltimo ano de especialização em física no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, foi encontrado morto em um dormitório da universidade após ter inalado, segundo boatos, óxido nitroso na tentativa de ficar na “onda”. Foi encontrado com um saco de plástico sobre a cabeça e declarado morto no local do acontecimento. Dois estudantes do MIT foram acusa- dos de estarem carregando a droga com intenção de distribuí-la. O cartucho de óxido nitroso encontrado no local havia sido furtado de um laboratório da universidade. QUESTÕES 1. Qual das seguintes propriedades do óxido nitroso predispõe à asfixia? Farmacologia dos Anestésicos Gerais 57 A. O óxido nitroso possui um coeficiente de partição sangue/gás baixo. B. O óxido nitroso apresenta uma CAM baixa. C. O óxido nitroso tem um alto índice analgésico. D. O óxido nitroso é metabolizado pelo fígado. E. O óxido nitroso apresenta um coeficiente de partição cére- bro/sangue pequeno. 2. O óxido nitroso é um “anestésico limitado pela perfusão”. Isso significa que: A. A constante de tempo para o equilíbrio entre as pressões parcial alveolar e inspirada é mais longa do que a constante de tempo para o equilíbrio entre as pressões tecidual e parcial arterial. B. Possui um coeficiente de partição sangue/gás alto. C. Apresenta uma alta taxa de captação dos alvéolos para a corrente sangüínea. D. A constante de tempo para o equilíbrio entre as pressões parcial alveolar e inspirada assemelha-se à constante de tempo para o equilíbrio entre as pressões parcial arterial e tecidual. E. O tempo de indução é lento. 3. O cérebro é considerado como grupo ricamente vascularizado. Isso significa que ele apresenta: A. baixa capacidade para anestésicos e baixo fluxo sangüíneo para o compartimento B. capacidade muito alta para anestésicos, porém baixo fluxo sangüíneo para o compartimento C. baixa capacidade para anestésicos, porém alto fluxo sangüí- neo para o compartimento D. alta capacidade para anestésicos e fluxo sangüíneo alto para o compartimento E. alta capacidade para anestésicos, porém fluxo sangüíneo moderado para o compartimento 4. A maioria dos anestésicos gerais pode causar depressão car- diopulmonar. Qual dos seguintes anestésicos aumenta o débito cardíaco? A. isoflurano B. propofol C. cetamina D. tiopental E. éter dietílico 5. A hipertermia maligna é um efeito adverso raro, porém poten- cialmente letal da administração de halotano. Os sintomas de hipertermia maligna são causados por: A. influxo descontrolado de potássio através da bomba de sódio B. seqüestro descontrolado de cálciopelo retículo sarcoplasmá- tico C. efluxo descontrolado de potássio através do sarcolema D. influxo descontrolado de cálcio através do sarcolema E. efluxo descontrolado de cálcio do retículo sarcoplasmático 58 Capítulo Dezesseis 16 Farmacologia da Analgesia OBJETIVOS ! Compreender os mecanismos pelos quais estímulos nocivos levam a uma percepção da dor fisiológica, inflamatória, neuropática e disfuncional. ! Compreender a farmacologia e os usos dos analgé- sicos opióides e não-opióides no tratamento da dor aguda. ! Compreender a fisiopatologia e os tratamentos far- macológicos potenciais das síndromes de dor disfun- cional. !! CASO 1 J.D., um adolescente de 15 anos de idade, sofre graves quei- maduras ao tentar escapar de um incêndio em um prédio. As queimaduras extensas são de primeiro e de segundo graus e atingiram grande parte do corpo, incluindo uma queimadu- ra local de terceiro grau no antebraço direito. J.D. chega ao departamento de emergência com dor intensa e é tratado com morfina intravenosa em doses crescentes, até relatar o desapa- recimento da dor. A dose de morfina é então mantida. No dia seguinte, o paciente é submetido a enxerto de pele na região da queimadura de terceiro grau. Durante a operação, o anestesista administra uma infusão intravenosa contínua de remifentanil, com uma dose de morfina por injeção intravenosa direta 15 minutos antes do término da operação. No final da cirurgia e nos 4 dias seguintes, J.D. recebe morfina intravenosa através de um dispositivo de analgesia controlado pelo paciente. À medida que as queimaduras vão cicatrizando, a dose de morfina é reduzida de modo gradativo e, por fim, substituída por um comprimido contendo a associação codeína/acetaminofen. QUESTÕES 1. A percepção de dor resulta do processamento neuronal e da transmissão de estimulação sensorial nociva, que ocorre na peri- feria, mas que é percebida no sistema nervoso central. Quando J.D. foi queimado, qual das seguintes vias foi responsável pela transmissão seqüencial e modulação dessa estimulação sen- sorial? A. Receptores de ATP estimulados por calor intenso; a lesão tecidual causada pela queimadura estimulou a produção de ativadores químicos, incluindo o glutamato; e os canais de cálcio regulados por voltagem nas fibras Aδ e C foram ativa- dos e transmitiram sinais ao corno dorsal da medula espinal, onde sinais transmitidos foram modulados por receptores TRPV. B. Canais de sódio regulados por voltagem estimulados por calor intenso nas fibras Aδ; a lesão tecidual causada pela queimadura estimulou a produção de ativadores químicos, incluindo bradicinina e glicina; e os canais de sódio regulados por voltagem nas fibras Aδ e C foram ativados e transmitiram sinais ao corno dorsal da medula espinal, onde neurotrans- missores inibitórios estimularam a liberação de opióides. C. Receptores TRPV termossensíveis estimulados pelo calor intenso; a lesão tecidual causada pela queimadura estimu- lou a produção de ativadores químicos, incluindo prótons e cininas; e os canais de sódio regulados por voltagem nas fibras Aδ e C foram ativados e transmitiram sinais ao corno dorsal da medula espinal, onde canais de cálcio regulados por voltagem do tipo N controlaram a liberação de neuro- transmissores nos neurônios de projeção secundários. D. Os receptores de ATP termossensíveis estimulados pelo calor intenso e a lesão tecidual causada pela queimadura estimu- laram a ativação dos canais de cálcio regulados por voltagem nas fibras C e transmitiram sinais ao corno dorsal da medula espinal, onde canais de sódio do tipo N controlaram a libe- ração de morfina. E. Os receptores TRPV termossensíveis estimulados pelo calor intenso; a lesão tecidual causada pela queimadura inibiu os canais TRPM, permitindo a ativação dos canais de sódio regu- lados por voltagem nas fibras Aδ e C, que transmitiram sinais ao corno dorsal da medula espinal, onde canais de cálcio regulados por voltagem do tipo N controlaram a liberação de neurotransmissores nos neurônios de projeção secundários. 2. J.D. foi tratado com opióides, morfina e remifentanil por via intravenosa na sua apresentação inicial e no perioperatório. Qual é o mecanismo de ação através do qual esses medicamentos aliviam a dor? A. Esses agonistas dos receptores µ inibem a recaptação de cálcio nos neurônios aferentes secundários pós-sinápticos. Farmacologia da Analgesia 59 B. Os antagonistas dos receptores κ estimulam a liberação de vesículas dos aferentes primários e hiperpolarizam os aferen- tes primários. C. Esses agonistas dos receptores µ bloqueiam a recaptação de serotonina e hiperpolarizam os interneurônios inibitórios. D. Esses agonistas dos receptores µ inibem a liberação de vesí- culas sinápticas dos aferentes primários e hiperpolarizam os neurônios pós-sinápticos. E. Esses antagonistas dos receptores adrenérgicos estimulam a liberação de cálcio dos aferentes primários e despolarizam os neurônios pós-sinápticos. 3. À medida que as queimaduras foram cicatrizando, a dose de morfina de J.D. foi reduzida de modo gradativo, e foi administrado um comprimido contendo a associação codeína/acetaminofen para controle da dor. Qual é o fundamento lógico para o uso desse medicamento de combinação para o tratamento da dor? A. Os analgésicos de associação de opióide–acetaminofen atu- am através de diferentes mecanismos para reduzir a sensa- ção dolorosa e são sinérgicos nos seus efeitos. B. Os analgésicos de associação de opióide–acetaminofen inten- sificam o metabolismo um do outro a metabólitos ativos e apresentam duração de ação mais longa. C. Os analgésicos de associação de opióide–acetaminofen impe- dem o desconforto gástrico induzido por AINE. D. Os analgésicos de associação de opióide–acetaminofen ini- bem o metabolismo um do outro e apresentam duração de ação mais longa. Fig. 16.1 Mecanismo de Ação dos Agonistas dos Receptores m na Medula Espinal. A ativação dos receptores opióides µ tanto pré quanto pós-sinápticos por neurônios inibitórios de circuito local e descendentes inibe a transmissão central de estímulos nociceptivos. Na terminação pré-sináptica, a ativação do receptor opióide µ diminui o influxo de Ca2+ em resposta a um potencial de ação. A ativação dos receptores opióides µ pós-sinápticos aumenta a condutância do K+ e, portanto, diminui a resposta pós-sináptica à neurotransmissão excitatória. CGRP = peptídio relacionado ao gene da calcitonina. Fig. 16.2 Mecanismo de Ação Analgésica dos Inibidores da Cicloo- xigenase (COX). Os estados inflamatórios estão freqüentemente asso- ciados à produção de prostaglandinas, que são importantes mediadores da sensibilização à dor tanto periférica (à esquerda) quanto central (à direita). Na periferia, as prostaglandinas produzidas por células inflama- tórias sensibilizam os receptores de prostaglandinas (EP) das termina- ções nervosas periféricas, tornando-os mais responsivos a um estímulo doloroso. Nas vias centrais da dor, as citocinas liberadas em resposta à inflamação induzem a produção de prostaglandinas no corno dorsal da medula espinal. Essas prostaglandinas sensibilizam os neurônios nocicep- tivos secundários e, portanto, aumentam a percepção da dor. Os agentes antiinflamatórios não-esteróides (AINE) bloqueiam a sensibilização tanto periférica quanto central mediada por prostanóides liberados na presença de inflamação; os AINE também reduzem a extensão da inflamação. PGE2 = prostaglandina E2. K+ K+ Glu Glu Glu Canal de K+ Ca2+ Potencial de ação Na+ Na+ Influxo de cálcio Neurônio de transmissão secundário (membrana pós-sináptica) Terminação central do neurônio sensorial primário Agonista m Liberação da vesícula sináptica Modulação descendente ou fármaco exógeno NeuropeptídiosCGRP Substância P Agonista m (opióide, encefalina, endorfina) Receptor de opióide m AMPA-R Condutância do K+ Hiperpolarização pós-sináptica Canais de Na+ regulados por voltagem alcançando o limiar Geração do potencial de ação Inflamação periférica Supra-regulação da COX-2 nas células inflamatórias Acetaminofen Celecoxib AINE Produção de prostaglandinas Ação sobre os receptores de PGE2 das terminações periféricas Sensibilização periférica Liberação central de citocinas Supra-regulação da COX-2 nos neurônios do corno dorsal e células de sustentação Produção de prostaglandinas COX-1 constitutiva Ação sobre os receptores de PGE2 nos neurônios do corno dorsal Aumento da despolarização dos neurônios sensoriais secundários 60 Capítulo Dezesseis E. As associações de opióide–acetaminofen não causam tole- rância nem adicção. Três meses depois, J.D. queixa-se de acentuada perda da sensa- ção ao toque na área do enxerto cutâneo. Descreve também uma sensação de formigamento persistente nessa área, com surtos ocasionais de dor aguda em punhalada. Após encaminhamento a uma clínica especializada em dor, J.D. recebe gabapentina oral, que reduz parcialmente os sintomas. Entretanto, retorna à clínica 2 meses depois, sentindo ainda uma dor intensa. Nessa ocasião, acrescenta-se a amitriptilina à gabapentina, e a dor é ainda mais aliviada. Três anos depois, a dor remanescente de J.D. desapareceu, e ele não necessita mais de medicação; entretanto, a falta de sensibilidade no antebraço persiste. 4. Meses após ter sofrido a queimadura, J.D. tem uma sensação de formigamento persistente na área do enxerto cutâneo, com episódios ocasionais de dor aguda intensa. É tratado com ami- triptilina. Que tipo de medicamento é a amitriptilina, e como ela controla a dor neuropática? A. Trata-se de um inibidor específico da recaptação de seroto- nina, que bloqueia a recaptação de serotonina na periferia e limita a sensibilização periférica. B. Trata-se de um antidepressivo que bloqueia os canais de sódio, aumenta a atividade dos canabinóides, limita a sen- sibilização periférica e alivia a depressão associada a dor disfuncional. C. Trata-se de um antidepressivo que bloqueia os canais de sódio, aumenta as atividades noradrenérgica e serotoninér- gica na medula espinal, limita a neurotransmissão anormal e reduz a sensibilização central. D. Trata-se de um agonista dos receptores de canabinóides que bloqueia os canais de sódio, aumenta a atividade dos canabinóides e noradrenérgica na medula espinal e limita a neurotransmissão anormal. E. Trata-se de um antidepressivo que bloqueia os canais de cál- cio na medula espinal, limita a liberação anormal de vesículas pelos aferentes primários e limita a sensibilização central. 5. Qual das seguintes medicações é um analgésico antiinflama- tório? A. remifentanil B. indometacina C. acetaminofen D. carbamazepina E. misoprostol !! CASO 2 Jayne S., uma mulher de 51 anos de idade, é examinada pelo seu médico em sua quarta visita no período de 2 meses, devido a uma dor recorrente, porém progressiva, no rosto. Há 3 meses, começou a sentir dores agudas e em pontada no lado direito da mandíbula. Ao ser examinada, o médico nada encontrou de anormal e sugeriu que ela poderia estar tendo uma inflamação da articulação temporomandibular. Prescreveu uma dose alta de naproxen, um AINE, para controlar a inflamação e a dor. A Sra. S. tomou o naproxen como foi prescrito e, algumas vezes, passou a tomar uma dose adicional à noite na tentativa de con- trolar os episódios dolorosos. Entretanto, depois de 4 semanas, verificou que a dor não estava sendo bem controlada e estava começando a sentir algum desconforto gástrico e azia. QUESTÕES 1. De que maneira o naproxen poderia controlar a dor de uma articulação temporomandibular inflamada? A. O naproxen inibe a ativação dos canais de sódio e impede a transmissão anormal de sinais neuronais. B. O naproxen inibe de modo não-seletivo a COX e impede a formação de prostaglandinas. C. O naproxen é um agonista do receptor µ e inibe a liberação de neurotransmissores na medula espinal. D. O naproxen é um agonista dos receptores de canabinóides na medula espinal. E. O naproxen possui efeitos monoaminérgicos e opióides no sistema nervoso central. Há um mês, em sua visita de acompanhamento, a Sra. S. quei- xou-se de que a dor estava ocorrendo com mais freqüência e era insuportável. Descreveu uma intensa dor em pontada, com sensação de “choques elétricos” na bochecha e no nariz toda vez que escovava os dentes ou mastigava. O médico prescreveu oxicodona para dor de dente. A Sra. S. tomou o medicamento a cada 4 horas, conforme prescrito, e, no início, percebeu que a dor estava sendo bem controlada, com episódios menos fre- qüentes e intensidade ligeiramente menor. Entretanto, depois de 1 semana, a dor tornou-se mais intensa, apesar do uso da oxicodona. A Sra. S. achou que precisava aumentar a freqüên- cia com que estava tomando a oxicodona a cada 1 a 2 horas para controlar os episódios dolorosos. Telefonou ao médico, que renovou a prescrição do medicamento e a encaminhou a um especialista em dor miofascial. Uma noite, aborrecida com essa situação, a Sra. S. decidiu suspender o uso da oxicodona porque tinha absoluta certeza de que a medicação não estava mais agindo para controlar a dor. Despejou todos os comprimi- dos do frasco no vaso sanitário. Depois de 24 horas, percebeu que a dor estava piorando e, o que mais a preocupou, sentiu náusea e dores musculares difusas, com cólica abdominal. Não conseguiu dormir. 2. Qual a explicação para a necessidade da Sra. S. de aumentar a dose de oxicodona a fim de controlar a dor, assim como para os sintomas subseqüentes que apresentou quando interrompeu o uso do medicamento? A. sensibilização central e abstinência B. deficiência de COX e rebote das prostaglandinas C. indução do metabolismo dos opióides e concentração sub- terapêutica do fármaco D. tolerância aos opióides e abstinência E. adicção e sensibilização central aos opióides Finalmente, a Sra. S. consultou o especialista em dor há 1 se mana. O médico diagnosticou neuralgia do trigêmeo (tic douloureux), um distúrbio doloroso do quinto nervo craniano, caracteriza- do pela transmissão anormal de impulsos. Prescreveu outra Farmacologia da Analgesia 61 medicação, que acredita seja bem-sucedida no controle dessa “sensibilidade” nervosa e síndrome de dor. 3. Tendo em vista a fisiopatologia da neuralgia do trigêmeo (tic douloureux), qual das seguintes medicações tem mais proba- bilidade de ser efetiva no tratamento dessa condição? A. gabapentina B. anandamida C. diclofenaco D. dinorfinas E. naloxona A Sra. S. está agora tomando a sua nova medicação durante 1 semana. Ela acredita que os episódios de dor aguda com sensação elétrica estejam menos freqüentes, porém ainda muito dolorosos. Entretanto, queixa-se a seu médico primário que está apresentando efeitos adversos desagradáveis, de modo que está tendo dificuldade em dirigir e trabalhar. 4. Quais os efeitos adversos comuns que limitam o uso terapêutico de anticonvulsivantes no tratamento da dor neuropática? A. toxicidade cardiovascular associada a inibidores da COX-2 B. reação alérgica ao acetaminofen C. rubor e náusea D. tontura, confusão e marcha instável E. hipotensão postural 5. Qual dos seguintes pares (analgésico: mecanismo de ação) é correto? A. celecoxib: bloqueia os canais de cálcio B. gabapentina: liga-se aos canais de cálcio dependentes de voltagem C. ibuprofen: bloqueia os canais de sódio regulados por vol- tagem D. dextrometorfan: inibidor da COX-2 E. naltrexona: agonista dos receptores µ 62 Capítulo Dezessete 17 Farmacologia da Dependência e Abuso de DrogasOBJETIVOS ! Compreender a neurofarmacologia associada a depen- dência e adicção a drogas. ! Compreender como os mecanismos de ação de subs- tâncias prescritas e não-prescritas estão associados ao desenvolvimento de tolerância e de dependência potencial de drogas. ! Compreender as ações farmacológicas dos agentes utilizados no tratamento da dependência e adicção de drogas. !! CASO 1 O Sr. B., um homem de 25 anos de idade com histórico de uso pesado de heroína, é levado ao departamento de emergência de um hospital na periferia de Phoenix com quadro progressivo de náusea, vômitos, diarréia, dor muscular e ansiedade há 8 horas. O Sr. B. explica que está tentando “deixar o vício” e que a sua última “pancada” foi há cerca de 24 horas. Mostra um desejo intenso de consumir heroína e está extremamente agitado e desconfortável. O exame físico revela temperatura de 39,5oC, pupilas aumentadas, pressão arterial de 170/95 mm Hg e freqüência cardíaca de 108 bpm. Apresenta irritabilidade e extrema sensibilidade ao toque, e as respostas a estímulos dolo- rosos, como a espetada com um alfinete, são desproporcionais à intensidade do estímulo. O Sr. B. é medicado com 20 mg de metadona, um opióide de ação longa. Sente-se um pouco mais confortável e recebe uma segunda dose de 20 mg, que o deixa bem mais tranqüilo e que alivia os sintomas. A seguir, o Sr. B. é internado em um centro de desintoxicação, onde é submetido a um programa de tratamento de 28 dias de duração. QUESTÕES 1. Qual foi a causa dos sintomas de náusea e vômitos e dos sinais de febre, hipertensão e pupilas aumentadas do Sr. B. quando procurou o departamento de emergência? A. O Sr. B. apresenta sintomas de abstinência de opióides. B. O Sr. B. recebeu uma “pancada” de heroína adulterada (enve- nenada). C. O Sr. B. desenvolveu sintomas de tolerância inversa. D. O Sr. B. apresenta sintomas de adicção. E. O Sr. B. desenvolveu sintomas de evitação de droga. 2. Por que a abstinência de heroína do Sr. B. foi tratada com metadona, outro opióide? A. A metadona acelera o metabolismo hepático da heroína, acelerando a sua remoção do organismo. B. A metadona tem duração de ação mais longa do que a heroína, e a sua dose pode ser reduzida gradativamente para evitar os sintomas físicos da abstinência aguda. C. A metadona é um fármaco administrado por via oral, que reverte os mecanismos celulares de tolerância aos opióides. D. As doses de metadona podem ser medidas em miligramas para determinar precisamente a quantidade de fármaco necessária para ligar-se aos receptores opióides µ. E. A metadona é uma alternativa legal e barata da heroína. Durante a semana subseqüente, a dose de metadona é reduzi- da em cerca de 20% ao dia. O Sr. B. é inscrito no programa de Narcóticos Anônimos (NA), onde conta a sua história de adicção. 3. Como programas como os NA podem ajudar no tratamento da adicção? A. Esses programas ensinam a adictos sobre a fisiopatologia da adicção. B. Esses programas apresentam unidades de desintoxicação, às quais os usuários de drogas podem retornar quando sofrem recaída. C. Esses programas oferecem apoio comunitário e mentores para a recuperação de adictos. D. Esses programas oferecem apoio financeiro para o custo da manutenção com metadona. E. Esses programas ensinam aos adictos em recuperação como administrar a moderação da droga. Farmacologia da Dependência e Abuso de Drogas 63 Segundo o seu relato, começou lentamente, com apenas algu- mas “pancadas” de heroína a cada mês, “em ocasiões espe- ciais”. Entretanto, com o decorrer do tempo, ele constatou que a onda produzida pela droga não era tão intensa quanto no início e, assim, ele próprio passou a administrar (por injeção intrave- nosa) quantidades maiores de heroína, e com mais freqüência. Por fim, ele estava injetando a droga duas vezes ao dia e sentia como se estivesse “aprisionado” por ela. 4. Por que o Sr. B. notou que, com o decorrer do tempo, o efeito da heroína tornou-se menos intenso do que no início? A. O Sr. B. estava reutilizando as agulhas, o que limitava a quan- tidade da droga injetada. B. O Sr. B. estava adaptando conscientemente o seu compor- tamento à tolerância condicionada. C. O Sr. B. tinha tolerância inata aos efeitos da heroína. D. O Sr. B. tinha tolerância adquirida aos efeitos da heroína. E. O Sr. B. estava utilizando heroína adulterada menos potente. Fig. 17.1 Indução de Tolerância à Morfina. A. O receptor opióide µ é acoplado a uma proteína G, que ativa os canais de potássio e inibe a adenilil ciclase (AC), resultando em hiperpolarização da membrana e diminuição da produção de monofosfato de adenosina cíclico (cAMP). Como o cAMP ativa a proteína cinase A (PKA), que, por sua vez, regula o limiar do canal de sódio regulado por voltagem, os níveis diminuídos de cAMP causam uma redução indireta da condutância dos canais de sódio. O cAMP diminuído também reduz a ativação do fator de trans- crição, a proteína de ligação ao elemento de resposta ao cAMP (CREB), que regula o nível de expressão da AC. B. A administração crônica de morfina supra-regula a proteína CREB, o que estimula a transcrição de adenilil ciclase, que, por sua vez, restaura a produção de cAMP para níveis normais. O aumento do cAMP estimula a PKA, que fosforila (e, portanto, ativa) a proteína CREB e o canal de sódio regulado por volta- gem. Por conseguinte, a supra-regulação da via do cAMP neutraliza os efeitos agudos da droga, resultando em tolerância. GDP = difosfato de guanosina; GTP = trifosfato de guanosina. Fig. 17.2 O Papel dos Opióides na Via de Recompensa Cerebral. A. Os neurônios GABAérgicos provocam inibição tônica dos neurônios dopaminérgicos que têm a sua origem na área tegmental ventral e são responsáveis pela recompensa. Esses neurônios GABAérgicos podem ser inibidos por encefalinas endógenas, que produzem modulação local da liberação de neurotransmissor na terminação nervosa GABAérgica. B. A administração de opióides exógenos resulta em liberação diminuída de GABA e desinibição dos neurônios de recompensa dopaminérgicos. O aumento da liberação de dopamina no núcleo accumbens sinaliza uma forte recompensa. PKA PKA P GTP GTP GTP GTP GDP GDP P cAMP cAMP K+ Na+ Na+K+ K+ K+ A A administração aguda de morfina diminui a atividade celular A administração crônica de morfina induz tolerância Morfina AC B ATP AC CREB CREB ATP transcrição de AC Canal de Na+ (fechado) Área tegmental ventral Neurônio inibitório Encefalinas endógenas GABA Neurônio dopaminérgico Liberação tônica de dopamina RECOMPENSA Núcleo accumbensÁrea tegmental ventral Neurônio inibitório Opióides exógenos ou Encefalinas endógenas GABA Neurônio dopaminérgico Aumento da liberação de dopamina RECOMPENSA Núcleo accumbens 64 Capítulo Dezessete Embora o Sr. B. considere as seções dos NA úteis, a sua pre- sença é esporádica. Durante as semanas subseqüentes, sofre alterações cíclicas do peso, períodos alternados de insônia e ansiedade e fissura por heroína, apesar dos exames de urina negativos para opióides. Dois meses depois, tem uma recaída e volta a injetar heroína duas vezes ao dia. 5. Por que o Sr. B. apresenta uma intensa fissura pela heroína após cessarem os sintomas fisiológicos? A. A fissura e a recaída estão mais comumente associadas à abstinência de heroína. B. A fissura e a recaída podem ocorrer em conseqüência de adaptações moleculares e celulares de longa duração no cérebro, em decorrência do abuso de drogas. C. A fissura pode ocorrer em conseqüência da destruição dos neurônios do centro de recompensa do cérebro induzida pela droga. D. A fissura pode ocorrer em conseqüência de discussão fre- qüente no grupo acerca do abuso de drogas.E. A fissura ocorre mais comumente nos homens do que nas mulheres. !! CASO 2 Sam W., um homem de 52 anos de idade, chama a emergência sábado à noite devido a queixas de palpitações, dor torácica e tonteira. Quando os paramédicos chegam a seu apartamento, ele conta que está doente e com forte resfriado há uma semana, com congestão nasal, espirros, tosse e febre. Apesar de ter toma- do vários “goles” de um remédio para resfriado de venda sem receita essa tarde, ele está se sentindo muito pior! Pouco depois de ingerir o remédio, começou a sentir calor, rubor e fraqueza, com palpitações, dor torácica, tonteira, náusea e vômitos. Os paramédicos aplicam um monitor cardíaco ao Sr. W. e notam uma taquicardia sinusal com freqüência de 127 bpm, freqüência respiratória de 22 respirações/min e pressão arte- rial de 100/65 mm Hg. O Sr. W. está ansioso e com angústia moderada. A pele está quente e ruborizada. Enquanto os para- médicos estão inserindo um cateter intravenoso periférico, o Sr. W. relata uma história de tabagismo inveterado e uso de álcool e declara: “Mas estou deixando de beber! Meu médico me deu esse remédio que fez com que eu parasse de beber, e nem sequer tomei uma gota de álcool nessas 2 semanas”. QUESTÕES 1. Qual a medicação prescrita pelo médico do Sr. W. que o ajuda a evitar o consumo de álcool? A. topiramato B. naltrexona C. dissulfiram D. rimonabanto E. buprenorfina 2. Várias terapias farmacológicas têm sido utilizadas para ajudar pacientes a abster-se da droga de abuso. Qual das seguintes afirmações é correta no que concerne ao papel dos agentes farmacológicos no tratamento da adicção? A. Quando se administra buprenorfina em preparação sublin- gual com naloxona, os efeitos agonistas parciais da bupre- norfina se manifestam. B. Quando a heroína é injetada em pacientes tratados com metadona, a combinação de opióides pode causar overdose de heroína potencialmente fatal. C. A naltrexona é eficaz no tratamento da adicção a opióides, mas pode causar sintomas de abstinência quando o seu uso é interrompido. D. O acamprosato modula os receptores de GABA e está sendo estudado no tratamento da dependência do álcool. E. Os antidepressivos como a desipramina são eficazes na pre- venção do uso da cocaína, com base na sua capacidade de bloquear a recaptação de norepinefrina. 3. De que maneira as drogas de abuso afetam a função do sistema de recompensa cerebral no desenvolvimento da dependência psicológica e adicção potencial? A. Em contraste com a dependência psicológica, ocorre dependência física quando uma droga afeta o sistema de recompensa encefálico, resultando em sensações agradáveis associadas ao uso da droga. B. Os opióides intensificam a atividade da dopamina na área tegmental ventral do cérebro através de seus efeitos excita- tórios sobre os interneurônios de GABA. C. A cocaína e as anfetaminas diminuem as concentrações de dopamina na sinapse dos neurônios dopaminérgicos, atuan- do no núcleo accumbens. D. As drogas capazes de causar dependência psicológica des- troem os neurônios na área tegmental ventral do cérebro. E. As drogas capazes de causar dependência psicológica inten- sificam a atividade da dopamina no núcleo accumbens. 4. As características farmacocinéticas de uma droga contribuem para o seu potencial de adicção. Qual das seguintes situações de uso de drogas levaria um indivíduo a correr maior risco de adicção? A. Um homem de 18 anos de idade injeta uma droga bastante hidrofílica. B. Um homem de 18 anos de idade ingere um opióide de ação longa por via oral. C. Um homem de 18 anos de idade aplica um emplastro trans- dérmico de opióide. D. Um homem de 18 anos de idade fuma uma droga bastante lipofílica. E. Um homem de 18 anos de idade ingere uma droga de ação curta por via oral com extenso metabolismo de primeira passagem. 5. Qual das seguintes características contribui para risco aumentado de abuso ou uso indevido de drogas por uma pessoa e adicção potencial? A. Utilizar uma droga em condições desagradáveis e assusta- doras. B. Ter uma alta sensibilidade aos efeitos de uma droga. C. Ter uma alta taxa de metabolismo do etanol a acetaldeído. D. Ter uma tolerância inata elevada aos efeitos de uma droga. E. Utilizar uma droga de modo escondido no trabalho ou na escola. Farmacologia da Dependência e Abuso de Drogas 65 RESPOSTAS DO CAPÍTULO 6 CASO 1 1. A resposta é C. A troca de três íons de sódio por dois íons de potássio através da membrana celular é um processo dependente de energia. Esse processo ocorre através da bomba de sódio/potássio dependente de ATP, que desempenha um importante papel na manutenção dos gradien- tes de íons. A concentração extracelular de íons de sódio é maior que a concentração intracelular de íons de sódio. Isso contribui para um gradiente químico para a entrada de sódio na célula. Quando ocorre abertura dos canais de sódio para permitir o fluxo de sódio através da membrana celular, o potencial de membra- na torna-se mais positivo. A permeabilidade da membrana da célula neuronal é maior para íons de potássio. Por conseguinte, o potencial de membrana em repouso da célula aproxima-se mais estreitamente do potencial de Nernst para íons potássio (cerca de –90 mV). 2. A resposta é D. O potencial de membrana não é afetado pelo bloqueio dos canais de sódio, visto que, em repouso, não há canais de sódio abertos. Entretanto, a despolarização da membrana será difícil ou até impossível em um neurônio com bloqueio dos canais de sódio. 3. A resposta é C. O potencial de ação será inibido pelo bloqueio dos canais de sódio. O potencial de ação é regulado pelo equilíbrio entre os canais de sódio e de potássio regula- dos por voltagem. Os canais de sódio regulados por voltagem conduzem uma corrente para dentro, que despolariza a célula no início do potencial de ação. 4. A resposta é A. A paralisia muscular flácida em um padrão ascendente resulta do bloqueio dos canais de sódio induzido pela tetrodotoxina na junção neuromuscular. A morte resulta habitualmente de paralisia dos músculos respiratórios e insuficiência respiratória. É interessante assinalar que, embora os peixes Fugu acumulem uma tetrodotoxina, eles possuem mutações pontuais adaptadas em seus próprios canais de sódio que os tornam imunes aos efeitos da tetrodotoxina. 5. A resposta é E. A repolarização é prolongada devido à abertura e ao fechamento mais lentos dos canais de potássio retificadores tardios. Esses canais abrem-se em resposta à despolarização e contribuem para a repolarização rápida inicial; entretanto, como eles abrem-se e fecham-se mais lentamente do que os canais de sódio rápidos, dominam a fase de repolarização tardia do potencial de ação. A despolarização é causada pela rápida abertura dos canais de sódio regulados por voltagem. CASO 2 1. A resposta é B. Nas células cardíacas, os canais de cál- cio regulados por voltagem estão envolvidos na fase de despolarização do potencial de ação. Isso ocorre espe- cialmente nas células nodais, que carecem de canais de sódio regulados por voltagem. Nas células musculares ventriculares, o fluxo de cálcio para dentro contribui para a fase de platô da despolarização. A membrana plasmática é menos permeável aos íons cálcio, que podem ser trocados com íons sódio intra- celulares através do trocador de íons sódio/cálcio. Os canais de extravasamento permitem a saída passiva de íons potássio da célula, contribuindo para o potencial de membrana em repouso. Quando os canais de sódio estão no estado inativado, a célula não pode ser estimulada a sofrer despolarização e produzir o potencial de ação. Isso contribui para o estado refratário da célula. 2. A resposta é D. O influxo de cálcio deflagra a exocitose das vesículas sinápticas contendo neurotransmissores.Em contrapartida, o bloqueio dos canais de cálcio deprime e inibe a neurotransmissão e a excitação celular. O bloqueio far- macológico dos canais de cálcio tem sido utilizado no tratamento de pacientes com hipertensão e com taquidisritmias cardíacas. O influxo de cálcio produz uma corrente positiva para dentro e contribui para a fase de platô da despolarização nas células cardíacas. O seqüestro de neurotransmissores no interior das vesículas pré-sinápticas é um processo dependente de ATP. 3. A resposta é B. O influxo de cálcio causou a libera- ção maciça de neurotransmissores, incluindo acetilcolina e norepinefrina. Os neurotransmissores ativaram seus receptores pós-sinápticos, produzindo os sintomas clínicos de contração muscular e estimulação autônoma no Sr. M. 4. A resposta é D. O potencial de membrana em repouso resulta de três fatores, incluindo bombas iônicas transmembrana, que mantém gradientes iônicos. Essas bombas podem necessitar de energia, como a bomba de sódio/potássio, ou ser passivas, como o trocador de sódio/cálcio. Essas bombas contribuem para uma distribuição desigual de cargas positivas e RESPOSTAS DA SEÇÃO II !! 66 Respostas da Seção I negativas em cada lado da membrana plasmática. A membrana com dupla camada lipídica é altamente impermeável a íons. Por conseguinte, uma diferença na permeabilidade da membrana a vários cátions e ânions através de canais iônicos seletivos também contribui para o potencial de membrana em repouso. Canais iônicos específicos abrem-se ou fecham-se com base na diferença de voltagem através da membrana. 5. A resposta é C. Os canais de potássio (retificadores tardios) regulados por voltagem são responsáveis pela fase de repolarização do potencial de ação. Os canais de potássio (de extravasamento) independentes de voltagem con- tribuem para o potencial de membrana em repouso. Os canais de sódio regulados por voltagem são responsáveis pela fase rápida de despolarização. Quando abertos, os canais de cálcio regulados por voltagem iniciam o processo de exocitose das vesículas. RESPOSTAS DO CAPÍTULO 7 CASO 1 1. A resposta é B. A iniciação do movimento é controlada por neurônios dopaminérgicos do trato nigroestriatal. O trato nigroestriatal contém uma via dopaminérgica, que começa na substância negra e termina no estriado, especificamente o núcleo caudado e o putâmen dos núcleos da base. Esses núcleos ajudam a iniciar e a controlar o movimento voluntário e inibem movimentos irrelevantes. A degeneração desses neu- rônios impede que os núcleos da base iniciem adequadamen- te a atividade motora. A reatividade e o estado de alerta são primariamente controlados pelo sistema de ativação reticular e núcleo tuberomamilar. O hipotálamo controla comportamentos relacionados com a fome, a sede e a regulação da temperatura. As emoções são controladas, em grande parte, pelo sistema límbico. 2. A resposta é C. A incapacidade de levantar-se de uma poltrona profunda é um efeito clínico que poderia ocorrer em conseqüência da degeneração dos neurônios de dopami- na. Como os neurônios dopaminérgicos controlam a iniciação do movimento normal, a sua degeneração faz com que os pacientes tenham dificuldade em iniciar movimentos. Outros sinais e sintomas clínicos incluem rigidez muscular, tremor não- intencional, propulsão descontrolada para a frente na marcha, instabilidade postural e afeto facial embotado. A combinação de rigidez muscular e tremor pode resultar na presença de roda dentada, que é uma sensação de “enrijecimento” percebida pelo examinador ao testar os movimentos das articulações do paciente. A incapacidade de movimentar um dos lados do cor- po (hemiparesia) resulta da lesão do giro pré-central do córtex frontal no lado contralateral. A lesão hipotalâmica afetaria adver- samente a regulação da temperatura. A labilidade emocional resultaria de lesões em porções do sistema límbico. O núcleo accumbens está envolvido no controle da via de recompensa do cérebro, que pode estar afetado em conseqüência do uso de drogas ilícitas. 3. A resposta é D. A levodopa é transportada através da barreira hematoencefálica pelo grande transportador de aminoácidos. Após o consumo de refeições ricas em proteínas, os com- ponentes protéicos competem com a levodopa pelo seu transporte através da barreira hematoencefálica, o transportador pode ficar saturado, de modo que o transporte de levodopa torna-se ineficaz. 4. A resposta é E. A levodopa é a L-dopa, que é metabo- lizada pela dopamina descarboxilase a dopamina no sistema nervoso central. Como a levodopa também pode ser metabolizada pela dopamina descarboxilase na periferia, é utilizada em combinação com a carbidopa. A carbidopa impede o metabolismo periférico da levodopa a dopamina, permitindo que a levodopa atravesse a barreira hematoencefálica. No SNC, é metabolizada a dopamina para exercer seu efeito agonista sobre os receptores de dopamina. A dopamina β-hidroxilase converte a dopamina em norepinefrina. 5. A resposta é E. A psicose poderia resultar de uma estimu- lação dopaminérgica excessiva. Os antagonistas dos receptores de dopamina têm sido utilizados no controle dos sintomas psi- cóticos da esquizofrenia, bem como dos vômitos (através do antagonismo da dopamina no centro do vômito). CASO 2 1. A resposta é A. Os sintomas clínicos do envenenamento pela estricnina são causados pela inibição competitiva da ativi- dade da glicina na medula espinal. A estricnina inibe a ligação da glicina a seu receptor na medula espinal. A glicina é um neurotransmissor de aminoácido inibitório. A sua inibição pela estricnina leva a uma estimulação excessiva dos impulsos nervosos motores aferentes, causando espasmo muscular e espasmo extensor (opistótono) e um espasmo facial clássico (riso sardônico). Tipicamente, o paciente apresenta um estado mental consciente entre os episódios de espasmo muscular. A insuficiência respiratória constitui a causa de morte desse enve- nenamento raro. A atividade intensificada do GABA e a inibição da atividade da histamina causam depressão do sistema nervoso central e sonolência. O glutamato é um neurotransmissor de aminoácido excitatório no sistema nervoso central, e não nas células musculares periféricas. A inibição da atividade da acetil- colina nos neurônios pós-ganglionares parassimpáticos produz efeitos antimuscarínicos e bloqueio neuromuscular. 2. A resposta é C. Os benzodiazepínicos intensificam os efei- tos dos neurônios GABA inibitórios no córtex cerebral. A ativida- de intensificada do GABA diminui toda estimulação do sistema nervoso central e teria um efeito inibitório sobre a excitabilidade muscular excessiva causada pela estricnina. A levodopa é um agonista da dopamina utilizada no tratamento da doença de Parkinson. Os IMAO inibem o metabolismo das catecolaminas. A fenitoína é um bloqueador dos canais de sódio utilizada no tratamento das convulsões cerebrais e nas síndromes de dor neuropática. 3. A resposta é D. O glutamato exerce seu efeito excitatório ao abrir os canais iônicos regulados por ligantes e ao atuar Farmacologia da Dependência e Abuso de Drogas 67 nos receptores metabotrópicos (acoplados à proteína G) de glutamato. A atividade excessiva do glutamato está associada à morte das células neuronais no contexto da isquemia. As ence- falinas são opióides. A cafeína inibe os receptores de adenosina, causando um estado de alerta ao intensificar a liberação de norepinefrina dos neurônios pré-sinápticos. Os antidepressivos tricíclicos e os inibidores seletivos da recaptação de serotonina impedem a recaptação de aminas biogênicas (catecolaminas e indolaminas). 4. A resposta é B. O donepezil exerce seu efeito terapêutico ao intensificar a atividade da acetilcolina. A acetilcolina é um neurotransmissor difuso do sistemanervoso central que regula o sono e o estado de vigília. O donepezil é um inibidor reversível da acetilcolinesterase, que impede a degradação da acetilcolina no cérebro. Isso permite um aumento da concentração e efeito da acetilcolina nos seus receptores. A escopolamina é um agente anticolinérgico, que causa efeitos antimuscarínicos, tais como sonolência e alteração do sono. A cafeína é um antagonista dos receptores de adenosina. A serotonina é um neurotransmissor de indolamina associada à regulação das emoções. 5. A resposta é D. As substâncias lipofílicas com altos coefi- cientes de partição óleo/água em geral podem difundir-se mais facilmente através da barreira hematoencefálica. As substâncias lipossolúveis hidrofílicas com baixos coeficientes de partição óleo/água são excluídas. As substâncias de alto peso molecu- lar ou de alta polaridade não atravessam facilmente a barreira hematoencefálica e podem necessitar de transporte facilitado para penetrar no sistema nervoso central. RESPOSTAS DO CAPÍTULO 8 CASO 1 1. A resposta é D. Ambas as condições caracterizam-se por fraqueza, devido a um número diminuído de recep- tores NM pós-sinápticos disponíveis. O tubocurare provoca bloqueio competitivo e direto dos receptores NM, enquanto os auto-anticorpos destroem o receptor NM e promovem a sua internalização na miastenia grave. Em ambos os casos, ocorre redução no número de receptores disponíveis para a ligação da ACh, impedindo a despolarização e resultando em fraqueza mus- cular. A síndrome de Eaton-Lambert caracteriza-se por fraqueza causada pela ausência de liberação pré-sináptica de ACh, em conseqüência da produção de auto-anticorpos dirigidos contra os canais de cálcio pré-sinápticos. O hemicolínio bloqueia a captação pré-sináptica de colina, inibindo a síntese de ACh. O vesamicol impede o transporte da ACh nas vesículas de arma- zenamento pré-sinápticas. 2. A resposta é B. A fisostigmina impede a degradação da ACh. A fisostigmina, um éster do ácido carbâmico, forma uma ligação covalente lábil com a AChE, impedindo a sua degra- dação. Isso propicia uma concentração aumentada de ACh de liberação endógena na fenda sináptica, que passa a ser dis- ponível para atuar no sítio receptor NM pós-sináptico. A ACh não sofre recaptação no neurônio pré-sináptico. Com efeito, a ACh é degradada na fenda sináptica, e a colina é reciclada no neurônio pré-sináptico. 3. A resposta é C. O envenenamento por organofosfora- dos pode causar fraqueza muscular e paralisia, devido a uma despolarização sustentada nos receptores NM da junção neuro- muscular (bloqueio despolarizante). Os organofosforados, como o diisopropil fluorofosfato, fosforilam e envenenam a AChE e impedem a degradação da ACh. A despolarização excessiva da célula muscular e a fraqueza induzidas pelo envenenamento por organofosforados seriam agravadas pela administração de fisostigmina, outro inibidor da AChE. A succinilcolina provoca despolarização sustentada da célula muscular e bloqueio neuro- muscular. A fisostigmina também iria agravar a fraqueza muscular causada pela succinilcolina. Com efeito, todos os inibidores da AChE são ineficazes na reversão da fraqueza muscular quando esta é causada pela despolarização sustentada do receptor NM. A administração de fisostigmina deve melhorar a fraqueza mus- cular causada pelo tubocurare e não deve ter nenhum efeito significativo sobre a fraqueza muscular causada pelo botulismo. O betanecol é um agonista dos receptores muscarínicos com seletividade quase completa pelos receptores muscarínicos. Pode-se esperar que o betanecol produza sinais muscarínicos, que seriam agravados pela administração de fisostigmina, porém com pouco efeito sobre a força muscular. 4. A resposta é A. O envenenamento pela escopolamina é revertido pela administração de fisostigmina. A escopolamina é um antagonista direto, principalmente dos receptores mus- carínicos, que é capaz de atravessar a barreira hematoencefá- lica e causar efeitos significativos no sistema nervoso central (SNC). A fisostigmina, uma amina terciária, é lipofílica e tem a capacidade de penetrar no SNC, revertendo os efeitos anti- colinérgicos da escopolamina. A muscarina e a pilocarpina são agonistas diretos dos receptores muscarínicos. A pralidoxima é um nucleófilo potente, que reverte a ligação oxigênio–fósforo formada pelos organofosforados com a AChE. A nicotina é um agonista nAChR. 5. A resposta é C. A bradicardia seria um sinal de agonismo da ACh no receptor muscarínico M2 no sistema de condução cardía- ca. O antagonismo dessa inervação parassimpática do coração provoca taquicardia relativa. O antagonismo dos efeitos da ACh na bexiga e nas glândulas salivares causa retenção urinária e membranas mucosas secas, respectivamente. As fasciculações musculares resultam do agonismo da ACh nos receptores nico- tínicos NM. CASO 2 1. A resposta é E. A toxina botulínica degrada a sinap- tobrevina e impede a fusão das vesículas de armaze- namento pré-sinápticas com a membrana celular. (A sinaptobrevina é uma das proteínas SNARE que interage com a sintaxina, produzindo exocitose das vesículas de ACh.) Em conseqüência, não ocorre liberação de ACh na fenda sináptica para atuar nos receptores NM, resultando em fraqueza muscular e paralisia. O vesamicol impede o transporte da ACh nas vesí- culas de armazenamento pré-sinápticas. 68 Respostas da Seção I 2. A resposta é C. A sudorese e a diarréia podem resultar da administração de fisostigmina, devido à concentração aumenta- da e a efeitos da ACh nos receptores muscarínicos. A dilatação pupilar resulta do antagonismo da ACh nos receptores musca- rínicos da íris. O envenenamento pela toxina botulínica impede qualquer efeito da fisostigmina na função neuromuscular. 3. A resposta é A. A atropina, um alcalóide de ocorrência natu- ral, é um antídoto para os sintomas muscarínicos, tais como sudorese excessiva e diarréia. A atropina é um antagonista direto dos receptores muscarínicos. Bloqueia competitivamente a liga- ção da ACh nos receptores muscarínicos e resseca as secreções, reverte a sudorese e limita a motilidade gastrintestinal excessiva através de seus efeitos parassimpaticolíticos. A metacolina é um agonista dos receptores muscarínicos que iria agravar esses efei- tos. A administração de mais fisostigmina também iria agravar os sintomas através do aumento da concentração de ACh nos receptores muscarínicos. A pralidoxima é um antídoto específico do envenenamento da AChE pós-sináptica por organofosfora- dos. A succinilcolina provoca bloqueio despolarizante na junção neuromuscular. 4. A resposta é C. Os receptores muscarínicos M3 de ACh medeiam o tônus parassimpático nos tecidos glandulares e no músculo liso, contribuindo para a sudorese e a diarréia quando a ACh liga-se a esse subtipo de receptor. O receptor M1 é expresso no SNC e nos gânglios autônomos, os receptores M4 e M5, no SNC, e o receptor M2, no músculo cardíaco. NM é o receptor nicotínico na junção neuromuscular. 5. A resposta é B. O bloqueio ganglionar autônomo causa vasodilatação e hipotensão, visto que o tônus adrenérgico simpático normalmente predomina tanto nas arteríolas quanto nas veias. Em contrapartida, o tônus colinérgico parassimpá- tico predomina na bexiga, no coração e no músculo liso do trato gastrintestinal. Em conseqüência, o bloqueio autônomo causaria retenção urinária, taquicardia e constipação, respecti- vamente. RESPOSTAS DO CAPÍTULO 9 CASO 1 1. A resposta é C. O vinho tinto e o queijo envelhecido contêm tiramina, que não pode ser metabolizada na presença de IMAO e desloca a NE vesicular. A tiramina, uma amina dietética, é o protótipo do composto simpaticomimé- tico indireto. É normalmente metabolizada no trato gastrintestinal e no fígado pela MAO. Em pacientes que fazem uso de IMAO,a tiramina não é metabolizada no intestino e pode circular até os neurônios simpáticos, onde é captada e transportada pelo VMAT até as vesículas sinápticas. Dessa maneira, a tiramina desloca a NE das vesículas e provoca liberação maciça de NE através de reversão do transportador de NE da membrana celular. A tiramina não atua diretamente nos receptores adrenérgicos pós- sinápticos. O etanol não interage diretamente com a MAO ou com o transportador de NE. 2. A resposta é A. A fentolamina é um antagonista !-adre- nérgico não-seletivo, que bloqueia a vasoconstrição induzida pelas catecolaminas e diminui a pressão arte- rial. Sua administração facilita a vasodilatação, diminui a resis- tência vascular periférica e reduz a pressão arterial. A liberação da NE vesicular induzida pela tiramina ocorre através de reversão do transportador de NE e não está associada aos receptores α-adrenérgicos. A fentolamina não interage com a COMT. 3. A resposta é C. Os antagonistas dos receptores "-adre- nérgicos poderiam bloquear a estimulação das cate- colaminas no coração, mas permitir a vasoconstrição persistente induzida pelas catecolaminas nos recepto- res α1-adrenérgicos. As catecolaminas podem atuar como agonistas nos receptores tanto α quanto β-adrenérgicos. O blo- queio de seu efeito nos receptores β-adrenérgicos pode diminuir a freqüência e a contratilidade cardíacas, mas não impede o seu efeito no receptor α-adrenérgico vascular periférico. Nes- sas circunstâncias, a pressão arterial pode, na verdade, aumen- tar. Embora alguns antagonistas dos receptores β-adrenérgicos sejam lipofílicos e possam penetrar no SNC, causando sedação, eles não interagem como transportador de NE e não iriam con- tribuir para o agravamento da depressão ou psicose. Os antago- nistas dos receptores β-adrenérgicos não estão envolvidos no metabolismo da tiramina. 4. A resposta é A. A interação tiramina–IMAO poderia ter sido impedida pela inibição do transportador de monoami- nas vesicular. Isso teria impedido o transporte da tiramina nas vesículas pré-sinápticas e o deslocamento e a liberação subseqüentes da NE. A inibição de qualquer uma das etapas na absorção da tiramina, transporte em neurônios simpáticos e vesículas sinápticas ou reversão da função do receptor de NE poderia impedir a liberação não-vesicular da NE induzida pela tiramina. A indução do transportador de L-aminoácidos aromá- ticos poderia intensificar a captação de tiramina nos neurônios. A tirosina hidroxilase é a primeira etapa na síntese de dopamina a partir da tirosina. A indução do transportador de NE poderia intensificar a liberação de NE. O transportador de acetilcolina vesicular é expresso nos neurônios colinérgicos. 5. A resposta é C. O hexametônio e a mecamilamina são blo- queadores ganglionares que bloqueiam o receptor de acetil- colina pós-sináptico. CASO 2 1. A resposta é B. A cocaína inibe o transportador de NE e impede a recaptação das catecolaminas sinápticas, que, dessa maneira, estão disponíveis para atuar nos receptores tanto ! quanto "-adrenérgicos. Em nível cen- tral, a cocaína provoca agitação e psicose. Perifericamente, causa elevação da freqüência cardíaca e taquidisritmias, bem como constrição vascular periférica e elevação da pressão arterial. A intoxicação aguda pela cocaína pode resultar em convulsões, hemorragia intracerebral, hipertermia, taquicardia ventricular e fibrilação e infarto agudo do miocárdio. A cocaína não interage diretamente com os receptores adrenérgicos ou com a MAO. O Thaís Pithan Zorzo Thaís Pithan Zorzo Thaís Pithan Zorzo Farmacologia da Dependência e Abuso de Drogas 69 uso crônico de cocaína pode causar infra-regulação dos recep- tores adrenérgicos. 2. A resposta é C. Pode ocorrer elevação da pressão arterial se for administrado um antagonista dos receptores β-adrenérgi- cos na presença de intoxicação aguda pela cocaína. A adminis- tração de um antagonista dos receptores β-adrenérgicos propicia efeitos agonistas contínuos das catecolaminas nos receptores α1-adrenérgicos periféricos, contribuindo para a vasoconstrição periférica. Esse processo é comumente designado como “efeito agonista α sem oposição”. O bloqueio dos receptores β-adrenér- gicos pode mascarar os sintomas de hipoglicemia. O bloqueio dos receptores β2-adrenérgicos pode precipitar constrição do músculo liso pulmonar e broncoespasmo, particularmente em pacientes asmáticos. O bloqueio dos receptores β1-adrenérgicos pode causar bradicardia e diminuição do débito cardíaco. 3. A resposta é C. A fentolamina é um antagonista !-adre- nérgico não-seletivo de ação direta que provoca vasodi- latação arterial e diminui tanto a resistência vascular sistêmica quanto a pressão arterial. Esse agente reduziria a elevação da pressão arterial do paciente induzida pela cocaína ao bloquear os efeitos simpáticos excessivos das catecolaminas. O metilfe- nidato é um análogo da anfetamina que pode elevar a pressão arterial. A fenilefrina é um agonista α1-adrenérgico direto que causa vasoconstrição arterial e elevação da pressão arterial. A ioimbina é um antagonista α2-adrenérgico seletivo que inten- sifica a liberação de NE e pode causar taquicardia e elevação da pressão arterial. A terbutalina é um agonista dos receptores β2-adrenérgicos que causa relaxamento do músculo liso e bron- codilatação. Embora os receptores tanto β2 quanto α1 estejam presentes nos vasos arteriais, os efeitos α1 predominam no controle do tônus do músculo liso vascular arterial, resistência vascular e pressão arterial. 4. A resposta é C. A clonidina é um agonista direto dos receptores !2-adrenérgicos de ação central, que dimi- nui a liberação de NE e o tônus simpático. Os efeitos adversos clínicos consistem em bradicardia e sedação. Esses efeitos adversos limitam a sua utilidade como agente anti-hiper- tensivo. O guanabenz e a guanfacina, que também são agonistas dos receptores α2-adrenérgicos centrais, possuem efeitos seme- lhantes. 5. A resposta é D. Quando utilizadas concomitantemente, a duloxetina e a iproniazida podem causar uma síndrome de serotonina clínica em virtude de sua capacidade de aumentar a concentração sináptica de serotonina disponível para atuar no receptor 5-HT1A. Os sintomas da síndrome de serotonina consis- tem em alteração do estado mental com agitação, instabilidade autônoma, freqüentemente com hipertermia e anormalidades neuromusculares, incluindo tremor, mioclônus e hiper-reflexia. A síndrome ocorre mais comumente quando se utiliza mais de um agente em combinação, aumentando as concentrações de sero- tonina. Os agentes implicados no desenvolvimento da síndrome de serotonina incluem precursores da serotonina (triptofano, die- tilamida do ácido lisérgico [LSD]), agentes que intensificam a sua liberação pré-sináptica (anfetaminas), substâncias que impedem a recaptação de serotonina (meperidina, dextrometorfan, coca- ína, antidepressivos cíclicos, tais como imipramina, amitriptilina, duloxetina e inibidores seletivos da recaptação de serotonina) e fármacos que inibem o metabolismo da serotonina (IMAO). As complicações da síndrome de serotonina incluem hipertemia, rabdomiólise, mioglobinúria, disfunção renal e hepática aguda e produção de ácido láctico. RESPOSTAS DO CAPÍTULO 10 CASO 1 1. A resposta é C. A lidocaína liga-se a um sítio intrace- lular no canal de sódio regulado por voltagem, inibe a sua ativação e bloqueia a propagação de potenciais de ação nas fibras A e C nociceptivas. A exemplo de todos os anestésicos locais, a lidocaína é um inibidor inespecífico das vias sensoriais periféricas, motoras e autônomas; seu efeito está relacionado com a dose, a área de administração e a susceti- bilidade intrínseca de diferentes fibras nervosas ao bloqueio no nervo periférico (os neurônios motores são menos suscetíveis doque as fibras de dor na mesma dose). 2. A resposta é D. A percepção de dor “em ardência” ou de natureza aguda, altamente localizada, é caracterís- tica da primeira dor. As percepções da primeira dor são transmitidas rapidamente (5–25 m/s) por fibras A# mielinizadas sensíveis, que estão concentradas em deter- minadas áreas, como nas pontas dos dedos das mãos, na face e nos lábios. Esse tipo de dor contrasta com a dor indistinta, difusa e menos bem localizada característica da segunda dor. As percepções da segunda dor são transmitidas por fibras C não-mielinizadas. A transmissão de impulsos das fibras C é mais lenta (aproximadamente 1 m/s). Por conseguinte, a percepção da segunda dor indistinta é freqüentemente tardia após a lesão tecidual inicial. Quando se administra anestesia local na área ao redor de um nervo periférico, diferentes fibras no interior do nervo são suscetíveis ao efeito do anestésico em diferentes velocidades. Esse fenômeno é denominado bloqueio funcio- nal diferencial. Em geral, a primeira dor é a primeira a ser bloqueada, seguida da segunda dor, temperatura, tato, proprio- cepção, tônus da musculatura esquelética e tensão voluntária. 3. A resposta é E. A hidrofobicidade moderada permite à lidocaína penetrar na membrana celular neuronal e permanecer próxima à área de administração; uma ligação amida impede a sua degradação por esterases. Os grupos estruturais dos anestésicos locais (grupo aromático, grupo amina, ligação éster ou amida) determinam o início, a duração de ação e a potência de cada anestésico. O grupo aro- mático hidrofóbico da lidocaína permite ao anestésico penetrar na membrana celular neuronal e ter acesso ao lado citoplas- mático da membrana, onde pode ligar-se ao sítio hidrofóbico do canal de sódio regulado por voltagem. Isso explica o seu rápido início de ação e potência. Essa hidrofobicidade também permite ao fármaco permanecer próximo à área de administra- ção, enquanto a ligação amida impede a sua degradação pelas esterases teciduais locais. Esses fatores são responsáveis pela duração média de ação da lidocaína (cerca de 1 a 2 horas). Os 70 Respostas da Seção I anestésicos locais com baixa hidrofobicidade são incapazes de penetrar facilmente na camada lipídica da membrana neuronal; aqueles com alta hidrofobicidade penetram bem, porém são incapazes de dissociar-se da membrana no lado citoplasmático e são essencialmente “retidos” no interior da membrana. Os anestésicos locais com valor relativamente baixo de pKa estão primariamente em uma forma neutra no pH fisiológico e difun- dem-se mais facilmente através das membranas celulares. 4. A resposta é B. A vasoconstrição induzida pela epi- nefrina ajuda a manter a concentração de lidocaína na área de administração ao diminuir a sua taxa de remoção da área. O fluxo sangüíneo localmente diminuído na área de administração mantém uma concentração terapêutica do anestésico próximo ao nervo e impede que uma grande concentração do anestésico alcance a circulação sistêmica. 5. A resposta é B. Os anestésicos locais com ligação ami- da são primariamente metabolizados pelas enzimas microssomais hepáticas do citocromo P450. São produ- zidos metabólitos por hidroxilação aromática, N-desalquilação e hidrólise amida do fármaco original. A seguir, os metabólitos sofrem excreção renal. Os anestésicos locais com ligação éster são metabolizados por esterases teciduais e plasmáticas (pseu- docolinesterases) a metabólitos hidrossolúveis, que também são excretados pelos rins. CASO 2 1. A resposta é D. A tetracaína é mais hidrofóbica do que a lidocaína e, por conseguinte, prolonga a duração de ação e aumenta a potência da formulação anestésica tópica. A tetracaína é um anestésico com ligação éster, que possui um grupo butil ligado a seu grupo aromático, tornando- a altamente hidrofóbica. Permanece na área que circunda o nervo por um período de tempo prolongado; após atravessar a membrana neuronal, possui uma interação prolongada com o sítio de ligação hidrofóbico no lado intracelular do canal de sódio regulado por voltagem. Ambas as propriedades contribuem para a potência e a duração de ação da LET. A lidocaína é moderada- mente hidrofóbica e atravessa facilmente a membrana neuronal, porém dissocia-se mais rapidamente de seu sítio de ligação. Embora a tetracaína possa ser degradada por esterases teciduais locais, ela é liberada lentamente de seu sítio de ação, prolon- gando a sua duração de ação. A lidocaína é um anestésico com ligação amida que é metabolizado por enzimas hepáticas. 2. A resposta é A. O anestésico local injetado no líquido cefalorraquidiano penetrou na medula espinal, inibin- do a transmissão normal de impulsos motores. Tanto a anestesia epidural quanto a espinal são tipos de bloqueio nervoso central em que se administra o anestésico local próxi- mo à medula espinal, inibindo a transmissão normal nas raízes espinais sensitivas. Como os anestésicos locais podem causar bloqueio inespecífico de impulsos sensoriais, motores e autô- nomos, a perda da função motora e a hipotensão induzida por vasodilatação constituem complicações potenciais do bloqueio nervoso central. O anestésico local também pode difundir-se proximalmente e causar comprometimento respiratório. Outros transmissores centrais envolvidos na transmissão de estímulos nociceptivos incluem o peptídio, a substância P, a bradicinina e o aminoácido, glutamato. Os receptores desses transmissores também podem ser inibidos pelos anestésicos locais. 3. A resposta é B. Os anestésicos locais podem causar car- diotoxicidade ao inibir a ativação dos canais de sódio no sistema de condução cardíaca. Isso pode causar atra- sos e bloqueios da condução. Além disso, podem contribuir para a redução da contratilidade cardíaca ao diminuir as reservas intracelulares de cálcio. A estimulação do sistema nervoso cen- tral e as convulsões podem estar relacionadas com o bloqueio excessivo e seletivo das vias inibitórias no córtex cerebral. Foi aventada a hipótese de que a depressão e o coma ocorrem através da inibição de vias tanto estimuladoras quanto inibitórias no cérebro por grandes concentrações de anestésicos locais. As reações de hipersensibilidade estão principalmente associadas a anestésicos locais de ligação éster, como a procaína. 4. A resposta é A. O estrato córneo é a barreira limitante à absorção de anestésicos locais tópicos. 5. A resposta é D. A inibição fásica, ou inibição dependente do uso, é o fenômeno pelo qual a condução de potenciais de ação é cada vez mais inibida em freqüências mais altas de impulsos. Os potenciais de ação que chegam rapidamente, transmitidos por nociceptores com alta freqüência de descarga nas áreas de lesão, não permitem que os canais de sódio retor- nem ao estado de repouso entre os potenciais de ação. Ocorre bloqueio de um número progressivamente maior de canais pelo anestésico local, que não tem tempo suficiente para se dissociar totalmente entre os potenciais de ação. O resultado da inibição fásica é que a administração de anestésico local em áreas de lesão tecidual (e de rápida descarga dos nociceptores) irá inibir mais a transmissão da dor do que outros estímulos sensoriais ou motores. RESPOSTAS DO CAPÍTULO 11 CASO 1 1. A resposta é D. Os barbitúricos aumentam a duração de abertura dos canais de cloreto no receptor GABAA, permitindo um influxo muito maior de íons cloreto e produzindo hiperpolarização do neurônio. Em contrapartida, os benzodia- zepínicos aumentam a freqüência de abertura dos canais de cloreto no receptor GABAA. Ambos os agentes intensificam o efeito do GABA, o principal neurotransmissor inibitório no SNC. Alguns barbitúricos anestésicos, como o pentobarbital, também ativam direta e independentemente o receptor GABAA. Os bar- bitúricos também inibem os impulsosexcitatórios no receptor AMPA, di minuindo a ativação do glutamato nesse receptor. Por fim, em concentrações anestésicas, alguns barbitúricos diminuem a abertura dos canais de sódio regulados por voltagem e inibem a descarga neuronal. Devido a esses vários mecanismos de ação e à sua propensão a causar profunda depressão do SNC e coma em grandes doses, os barbitúricos foram substituídos, em grande parte, por sedativos e agentes antiepilépticos mais seguros. Farmacologia da Dependência e Abuso de Drogas 71 2. A resposta é A. Ambos os agentes intensificam o influxo de cloreto mediado pelo GABAA e inibem os efeitos excitatórios do glutamato em seus receptores. Os bar- bitúricos inibem a ativação do glutamato no receptor AMPA. O etanol inibe a ativação do glutamato no receptor NMDA. Sua atividade sinérgica pode causar depressão do SNC e respiratória potencialmente fatal. Os benzodiazepínicos são moduladores alostéricos positivos do receptor, aumentando a afinidade e a ligação do GABA ao receptor. 3. A resposta é B. Os pacientes idosos exibem uma redu- ção da depuração hepática dos barbitúricos devido a uma diminuição da função metabólica hepática relacionada com a idade. Setenta e cinco por cento do fenobarbital é metabolizado pelo fígado. O restante sofre excreção renal em sua forma inalte- rada. Com freqüência, os pacientes idosos apresentam redução da função renal e podem acumular fármacos que dependem principalmente da excreção renal. A relação entre gordura cor- poral e músculo apresenta-se aumentada em pacientes idosos, o que pode permitir o acúmulo de fármacos lipofílicos nesses pacientes. 4. A resposta é C. Em virtude de seus efeitos inibitórios não-se letivos em todo o SNC, os barbitúricos podem causar amnésia para eventos recentes, sedação, relaxamento muscular, supressão dos reflexos, hipnose, coma, depressão respiratória e morte. Essa inibição geral da neurotransmissão excitatória contribui para a eficácia terapêutica do fenobarbital no tratamento das convul- sões parciais e tônico-clônicas. O etomidato, um agonista GABA e agente de indução de anestesia, inibe a síntese de cortisol e de aldosterona. A derivação elétrica (não pulmonar) constitui a base molecular para os efeitos inibitórios do GABA, que é mediado pelos canais de cloreto abertos que atenuam o potencial de membrana despolarizante causado por correntes excitatórias. 5. A resposta é D. O efeito clínico dos barbitúricos no SNC termina pela redistribuição do fármaco para outros órgãos altamente perfundidos. Os barbitúricos altamente lipofílicos atravessam rapidamente a barreira hematoencefálica, resultando em rápido início de ação no SNC; todavia, em virtude de sua lipofilicidade, eles também se redistribuem rapidamente para a circulação esplâncnica, o músculo e o tecido adiposo. Por conseguinte, sua duração de ação é mais curta que a dos bar- bitúricos menos lipofílicos. Os barbitúricos administrados por via oral podem sofrer metabolismo hepático de primeira passagem, o que limita a sua biodisponibilidade e seus efeitos clínicos. Os barbitúricos induzem as enzimas CYP hepáticas do P450 res- ponsáveis pelo seu metabolismo e, por fim, intensificam o seu próprio metabolismo. Isso contribui para o desenvolvimento de tolerância e redução da eficácia com a mesma dose. A eliminação renal dos barbitúricos com pKa ácido, como o fenobarbital, pode ser intensificada pela alcalinização da urina com bicarbonato. CASO 2 1. A resposta é E. O ácido ibotênico exerce o seu efeito através da ativação direta do receptor NMDA, causando neuro- transmissão excitatória semelhante àquela produzida pelo glu- tamato. O ácido ibotênico também pode ativar em certo grau os receptores metabotrópicos de glutamato. O resultado dessa toxicidade consiste em contrações espasmódicas mioclônicas e convulsões, observadas mais freqüentemente em crianças que ingerem Amanita muscaria. 2. A resposta é D. O muscimol exerce seus efeitos através da ativação direta do receptor GABAA. Seus efeitos depressores no SNC estão relacionados com a sua capacidade de intensificar a abertura dos canais de cloreto mediada pelo GABA, aumentan- do o influxo de cloreto e causando hiperpolarização das células neuronais. 3. A resposta é E. Os agonistas do GABA com efeitos clí- nicos mais específicos exibem maior seletividade na sua ligação aos receptores de GABA com composições de subunidades específicas. Por exemplo, o sedativo zol- pidem atua seletivamente nos receptores GABAA que contêm subunidades α1. De modo semelhante, o etomidato e o pro- pofol atuam seletivamente nos receptores GABAA que contêm subunidades β2 e β3. A ativação não-seletiva dos receptores GABAA contribui para os numerosos efeitos adversos de muitos benzodiazepínicos e barbitúricos. O baclofen é o único agonista clínico do receptor GABAB. 4. A resposta é B. Ocorre abertura dos canais de sódio e de cálcio, e o influxo de sódio e de cálcio é aumentado quando os receptores ionotrópicos de glutamato são ativados. O influxo de sódio ou de cálcio e o efluxo de potássio contribuem para potenciais de membrana despolarizante e levam à ativação celular. Os receptores ionotrópicos de glutamato medeiam a ati- vidade sináptica excitatória rápida. Os íons magnésio bloqueiam o receptor de glutamato NMDA na membrana em repouso, e é necessária a despolarização da membrana concomitantemente com a ligação do agonista para reverter o bloqueio dos canais de íons pelo magnésio. Os receptores metabotrópicos de glu- tamato estão acoplados às proteínas G e sistemas de segundos mensageiros que utilizam a fosfolipase C ou a adenilil ciclase. A ativação dos receptores de GABA abre os canais de cloreto e aumenta o influxo de cloreto. 5. A resposta é C. A ativação e a excitação excessivas mediadas pelo glutamato podem levar a um aumento do cálcio intrace- lular e lesão celular. O antagonismo do glutamato pode ser benéfico para limitar a evolução da demência e de outras doenças neurodegenerativas. Não foi constatado ser o antago- nismo do glutamato benéfico na prevenção das seqüelas do acidente vascular cerebral isquêmico ou hemorrágico; de fato, esses tratamentos podem causar efeitos semelhantes aos da esquizofrenia. O antagonismo do glutamato também pode ser benéfico no tratamento da hiperalgesia e da sensibilização cen- tral, bem como no tratamento antiepiléptico. RESPOSTAS DO CAPÍTULO 12 CASO 1 1. A resposta é D. A perda dos neurônios dopaminérgicos na substância negra contribui para a atividade reduzi- 72 Respostas da Seção I da da via direta e a inibição do movimento. Em contrapar- tida, a perda da inibição dopaminérgica provoca hiperatividade da via indireta, resultando também em movimento reduzido. Normalmente, a dopamina estimula os neurônios da via direta e inibe os da via indireta, resultando em movimento intencional. Quando ocorre perda desses neurônios dopaminérgicos, obser- va-se uma falta generalizada de movimento ou hipocinesia. Os neurônios espinhosos médios do estriado liberam GABA, que modula a atividade e o equilíbrio das vias direta e indireta e o movimento subseqüente. A via tuberoinfundibular consiste em neurônios dopaminérgicos que se projetam no hipotálamo. Esses neurônios inibem tonicamente a liberação de prolactina. A área postrema é um dos órgãos circunventriculares que atuam como quimiorreceptores sangüíneos e permitem uma comuni- cação entre o sangue e o SNC. 2. A resposta é C. A levodopa/carbidopa irão melhorar notavelmente os sintomas do Sr. S. Entretanto, a levodo- pa não irá impedir a perda progressiva dos neurônios dopa- minérgicos nem a evolução da doença. A levodopa/carbidopa não restauram a função normal dos neurônios dopaminérgicos nigroestriatais lesados. 3. A resposta é B. O paciente irá desenvolver tolerância à levodopa e necessitarde doses crescentes com o decorrer do tempo para obter a mesma melhora clinicamente signifi- cativa dos sintomas. Irá também desenvolver sensibilização à levodopa, manifestada por períodos de movimento discinético pouco depois da administração de levodopa. Esses períodos “ligados” podem ser controlados pelo uso de doses menores de levodopa, mas não pela interrupção temporária do fármaco. Todavia, com o decorrer do tempo, a levodopa perde a sua eficácia no controle dos sintomas da doença de Parkinson. O desenvolvimento de tolerância e de sensibilização contribui para um estreitamento do índice terapêutico do fármaco. 4. A resposta é E. A terapia com agonistas da dopamina constitui um tratamento inicial efetivo para doença de Parkinson em pacientes jovens. A monoterapia com pra- mipexol ou com ropinirol retarda o início dos períodos “desliga- dos” e das discinesias, embora esses fármacos tenham maior incidência de efeitos adversos em comparação com a levodopa. A terapia com levodopa é bastante eficaz no tratamento inicial dos sintomas de Parkinson. Entretanto, como a resposta a seus efeitos declina com o tempo e está associada ao desenvolvimen- to de períodos “ligados” e “desligados”, a terapia com levodopa deve ser instituída quando outros tratamentos não conseguem mais controlar os sintomas parkinsonianos. Qualquer atraso adi- cional na instituição da terapia com levodopa está associado a redução da eficácia do fármaco e aumento da mortalidade. Os inibidores do metabolismo da dopamina, como a selegilina, a rasagilina e a entacapona, aumentam a eficácia da levodopa. 5. A resposta é C. Esses agentes modificam os interneurô- nios colinérgicos estriatais, que regulam as vias direta e indireta. Ambos são antagonistas dos receptores muscarí- nicos, que reduzem o tônus colinérgico no SNC. A amantadina bloqueia os receptores NMDA excitatórios e é utilizada no tra- tamento das discinesias induzidas pela levodopa num estágio tardio da evolução da doença. CASO 2 1. A resposta é A. As anfetaminas deslocam a dopamina das vesículas pré-sinápticas e causam estimulação do SNC. As anfetaminas também atuam diretamente nos recepto- res dopaminérgicos pós-sinápticos e exercem ações inibitórias sobre a MAO. O efeito dessas múltiplas ações no sistema meso- límbico contribui para a estimulação do SNC e o comportamento paranóide e esquizofreniforme exibido por pacientes intoxicados com anfetaminas. Embora o ecstasy seja usado na tentativa de produzir uma “onda”, a overdose pode causar a liberação inespecífica de muitas aminas biogênicas, com conseqüentes hiperatividades adrenérgica e serotoninérgica. A estimulação dos neurônios dopaminérgicos na área postrema provoca náusea e vômitos, mas não alucinações. 2. A resposta é C. A dopamina em excesso no estriado aumenta a atividade da via direta e desinibe a atividade da via indireta, resultando em aumento do movimento motor. Os movimentos repetitivos, tais como os dentes nessa paciente, são característicos da intoxicação por anfetamina. A perturbação do tônus dopaminérgico na área tegmental ventral do mesencéfalo irá afetar projeções para áreas do sistema límbico. Essas vias podem estar envolvidas no desenvolvimento da esquizofrenia. 3. A resposta é E. Podem ocorrer convulsões em conseqüência do uso de ecstasy (ou de outros agentes simpaticomiméticos) quando o indivíduo está tomando tranilcipromina, um IMAO. As anfetaminas provocam a liberação de dopamina e de outras ami- nas biogênicas das vesículas de armazenamento. Essas aminas excitatórias são incapazes de ser metabolizadas na presença de IMAO, resultando em aumento das atividades dopaminérgica, adrenérgica e serotoninérgica. A estimulação excessiva desses sistemas pode levar à agitação do SNC, alucinações, convulsões, taquicardia e elevação da pressão arterial. 4. A resposta é A. A marcha arrastada constitui um efeito extrapiramidal associado a agentes antipsicóticos típicos. Esses efeitos são causados pelo bloqueio D2 no estriado, com sin- tomas parkinsonianos resultantes. A hipotensão ortostática e a sedação são causadas por antagonismo α-adrenérgico na periferia e no sistema de ativação reticular, respectivamente. A galactorréia e a amenorréia podem resultar da desinibição dos efeitos dopaminérgicos sobre a secreção de prolactina na hipófise. 5. A resposta é B. O haloperidol é um agente antipsicótico típico da butirofenona, com efeitos antagonistas D2 potentes. Foi formulada a hipótese de que suas ações nos receptores D2 no hipotálamo podem contribuir para a sua associação ao desenvolvimento da síndrome maligna neuroléptica. A clorpro- mazina, um agente antipsicótico típico fenotiazínico, é menos potente do que o haloperidol. A clozapina e a quetiapina são agentes antipsicóticos atípicos com afinidade ainda menor pelos receptores D2. A clozapina está associada a um pequeno risco de desenvolvimento de agranulocitose. Farmacologia da Dependência e Abuso de Drogas 73 CASO 3 1. A resposta é C. A proclorperazina atua ao bloquear os receptores D2 na área postrema próximo ao quarto ven- trículo. A inibição dos neurônios dopaminérgicos nessa região controla a náusea. A proclorperazina, por ser uma fenotiazina, também pode bloquear os receptores muscarínicos periféricos, causando boca seca, constipação e dificuldade na micção. As fenotiazinas também antagonizam os receptores α-adrenérgi- cos periféricos, causando hipotensão ortostática. O bloqueio dos receptores D2 no sistema mesolímbico está associado a uma redução dos sintomas positivos da esquizofrenia. Os tratamentos para doença de Parkinson incluem agentes que estimulam os receptores dopaminérgicos no sistema nigroestriatal. 2. A resposta é D. Os efeitos adversos das fenotiazinas incluem “efeitos extrapiramidais” causados pelo antagonismo dos recep- tores D2 fora dos sistemas mesolímbico e mesocortical. O blo- queio dos receptores no sistema nigroestriatal pode causar alteração do tônus muscular e reações distônicas agudas. Essas reações manifestam-se comumente como sen- sação de aperto muscular na face e na região do pescoço, com dificuldade em abrir a boca (trismo), desvio do olho e rotação do pescoço. Os sintomas parkinsonianos e a discinesia tardia são outros efeitos extrapiramidais associados ao uso a longo prazo de agentes antipsicóticos. Os sintomas parkinsonia- nos são causados pelo antagonismo dos receptores D2 na via indireta do sistema nigroestriatal, enquanto a discinesia tardia é provavelmente causada por adaptações dos receptores, que resultam em atividade dopaminérgica excessiva nesse trato. O bloqueio dos receptores D2 na hipófise pode causar secreção de prolactina, resultando em amenorréia, galactorréia e resultado falso-positivo do teste de gravidez. O afeto embotado e a alogia são considerados sintomas negativos da esquizofrenia, prova- velmente mediados pela alteração da atividade dopaminérgica no sistema mesocortical. Acredita-se que os sintomas positivos da esquizofrenia, incluindo delírios e fala e comportamento desorganizados, sejam mediados pela atividade dopaminérgica excessiva no sistema mesolímbico. RESPOSTAS DO CAPÍTULO 13 CASO 1 1. A resposta é E. O diagnóstico de transtorno depressivo maior para a Sra. R. baseia-se na presença de vários sintomas de 2 meses de duração, incluindo sentimento de tristeza, desam- paro e inadequação, perda do apetite e perda de peso e difi- culdade em dormir. A presença desses sintomas por mais de 2 semanas constitui um único episódio depressivo. A Sra. R. apresenta sintomas de depressão típica, o que contrasta com os sintomas da depressão atípica, que incluem aumento do apetite, hipersonia e sensibilidade à crítica. 2. A resposta é B. A fluoxetina impede a recaptação de serotonina pelo transportador de serotonina nos neurônios pré-sinápticos.Essa ação aumenta a concentração disponível de serotonina na sinapse, que atua em seu receptor. A fluoxetina é um inibidor seletivo da recaptação de serotonina (ISRS). Mos- tra-se eficaz no tratamento da depressão, da ansiedade e do transtorno obsessivo-compulsivo. Em virtude de sua seletividade, a fluoxetina (e os outros ISRS) possui menos efeitos adversos tóxicos do que os antidepressivos cíclicos. 3. A resposta é D. São necessárias várias semanas para que os auto-receptores se tornem dessensibilizados às concentrações sinápticas elevadas de serotonina produzidas pela fluoxetina. Após iniciar o tratamento, as concentrações sinápticas aumentadas de serotonina fazem com que os auto-receptores pré-sinápticos infra-regulem a síntese e a liberação de serotonina. O tratamento crônico leva eventual- mente à infra-regulação do auto-receptor e ao aumento da neu- rotransmissão. Esse processo leva várias semanas e constitui a provável explicação para a demora observada na eficácia clínica dos ISRS e dos inibidores da recaptação de norepinefrina. 4. A resposta é E. Os pacientes com transtorno afetivo bipolar podem sofrer uma rápida mudança de humor da depressão para a mania após iniciar o tratamento com antidepressivos, como a fluoxetina. Embora esses pacientes sintam-se “bem” e tenham um humor elevado e energia, necessitam de tratamento com estabilizadores do humor, visto que correm risco de desfechos adversos em conseqüência de seu comportamento maníaco. Além disso, os pacientes com episódios mistos de mania e depressão correm alto risco de suicídio. 5. A resposta é B. O lítio possui índice terapêutico estreito e pode causar numerosos efeitos adversos, incluindo hipotireoi- dismo e desenvolvimento de bócio da tireóide. Outros efeitos adversos do lítio incluem desenvolvimento de diabetes insípido nefrogênico, anormalidades da onda T no ECG e alterações no equilíbrio do potássio. A toxicidade aguda pode causar náusea, vômitos, confusão, tremores e convulsões. A psicose pode ser induzida pelos agentes semelhantes à anfetamina, que impe- dem o armazenamento vesicular de neurotransmissores. A dis- função sexual constitui um efeito adverso potencial dos ISRS. A hipotensão ortostática pode representar um efeito adverso dos antidepressivos tricíclicos. CASO 2 1. A resposta é C. A amitriptilina é um antidepressivo tricíclico, que exerce o seu efeito terapêutico ao impedir a recaptação de serotonina e de norepinefrina pelos seus respectivos transporta- dores. Além de inibir o efeito desses transportadores, os antide- pressivos tricíclicos atuam em vários outros receptores. Podem causar numerosos efeitos adversos, incluindo efeitos antimus- carínicos (anticolinérgicos), anti-histamínicos e antiadrenérgicos. A selegilina é um IMAO. A paroxetina é um inibidor seletivo da recaptação de serotonina (ISRS), que tem menos probabilidade de causar efeitos adversos anticolinérgicos ou cardiotoxicidade. A bupropiona é um antidepressivo atípico que pode provocar con- vulsões em overdose. A sumatriptana é um agonista dos recepto- res de serotonina que é utilizada no tratamento da enxaqueca. 2. A resposta é A. Além de seus efeitos antagonistas nos recep- tores muscarínicos, histamínicos e adrenérgicos, os antidepressi- 74 Respostas da Seção I vos cíclicos também ligam-se aos canais de sódio cardía- cos e inibem a sua atividade, causando despolarização tardia e bloqueio da condução. O tratamento do bloqueio dos canais de sódio cardíacos consiste na administração de injeção intra- venosa direta de bicarbonato de sódio para superar o bloqueio dos canais de sódio. A inibição dos receptores α1-adrenérgicos pelos antidepressivos cíclicos contribui para a hipotensão, que pode ser profunda no contexto da overdose. O lítio bloqueia os canais de potássio cardíacos, causando anormalidades da repolarização e ondas T anormais no ECG. 3. A resposta é E. A mirtazapina é um antidepressivo atípico que bloqueia os receptores 5HT2A, 5HT2C, e o auto-receptor α2-adrenérgico. A dexfenfluramina é um derivado halogenado da anfetamina, com efeitos semelhantes aos da anfetamina e efeitos serotoninérgicos modestos. A imipramina é um antide- pressivo cíclico. A tiramina é a unidade formadora na síntese de catecolaminas. O ondansetron é um antagonista da serotonina utilizado como antiemético. 4. A resposta é B. Pode ocorrer toxicidade por lítio em pacientes que apresentam insuficiência renal. Como cátion monova- lente, o lítio é secretado e reabsorvido nos túbulos renais. Quan- do ocorre desenvolvimento de insuficiência renal, a eliminação normal do lítio torna-se limitada, e as concentrações de lítio no soro e no sistema nervoso central podem tornar-se tóxicas. O hipotireoidismo constitui um efeito adverso potencial da terapia com lítio. 5. A resposta é B. A primeira etapa enzimática e que limita a velocidade no processo de síntese da serotonina é a triptofano hidroxilase. A tiramina hidroxilase é a primeira etapa que limita a velocidade na síntese de dopamina e norepinefrina. A descar- boxilase de L-aminoácidos aromáticos converte o 5-hidroxitripto- fano em serotonina. A catecol-O-metiltransferase metaboliza as monoaminas, primariamente no espaço extracelular do sistema nervoso periférico. RESPOSTAS DO CAPÍTULO 14 CASO 1 1. A resposta é B. Rob apresentou uma propagação da atividade convulsiva das mãos para o braço e, a seguir, para a perna. Essa seqüência de propagação é compatível com a propa- gação da atividade sincrônica através do homúnculo motor, também conhecida como marcha jacksoniana. Quando uma rajada local de atividade neuronal não pode ser contida pela inibição circundante, o disparo sincronizado de um foco convulsivo pode propagar-se para regiões adjacentes do córtex. Inicialmente, isso pode manifestar-se na forma de uma aura; no caso de Rob, manifestou-se na forma de olhar fixo, rece- oso e perplexo, seguido das manifestações clínicas do disparo sincronizado. As manifestações clínicas da atividade convulsiva dependem da área do cérebro envolvida. 2. A resposta é C. A perda do influxo de GABA resulta em atividade tônica, enquanto uma oscilação entre os impulsos inibitórios do GABA e os impulsos exci- tatórios do glutamato resulta em atividade clônica. A perda súbita inicial da inibição do GABA leva a uma longa sal- va de descargas neuronais, causando contração dos músculos agonistas e antagonistas (isto é, atividade tônica). Quando a inibição mediada pelo GABA é restaurada, uma oscilação entre os efeitos inibitórios do GABA e os efeitos excitatórios do gluta- mato mediados por AMPA e por NMDA provoca os movimentos clônicos (isto é, atividade clônica). 3. A resposta é A. Uma neoplasia focal poderia alterar o ambiente neuronal local e comprometer os meca- nismos normalmente protetores, que impedem uma descarga sincrônica anormal. Qualquer processo capaz de alterar o ambiente neuronal e de comprometer os mecanis- mos protetores normais, que impedem uma descarga sincrônica anormal, pode contribuir para a atividade convulsiva. Isso inclui anormalidades dos canais iônicos, toxinas, lesão cerebral prévia (por exemplo, acidente vascular cerebral, traumatismo), neo- plasia, infecção ou febre alta. O mecanismo exato pelo qual os tumores causam convulsões permanece desconhecido. 4. A resposta é E. Os agentes antiepilépticos atuam de modo pleiotrópico. Entretanto, a fenitoína, a carbamazepina, o ácido valpróico e a lamotrigina possuem, em comum, efeitos de bloqueio dos canais de sódio. Ao intensificar a inibição mediada pelos canais de sódio, esses fármacos prolongam o estado inativado desses canais. Essa ação impede a descarga neuronal repetitiva e a atividade convulsiva. 5. A resposta é A. A carbamazepina tem menos efeitos adversos e interações medicamentosas potenciais do que a fenitoínae constitui o fármaco de escolha para pacien- tes com convulsões parciais simples e complexas. O seu meta- bólito, a 10,11-epoxicarbamazepina, possui efeitos semelhantes de bloqueio dos canais de sódio. A carbamazepina intensifica o seu próprio metabolismo pela indução do sistema enzimático P450, de modo que a sua meia-vida diminui gradualmente com o tratamento crônico. CASO 2 1. A resposta é C. A hiperplasia gengival é um efeito adver- so potencial da terapia com fenitoína. Outros efeitos adversos incluem traços faciais grosseiros, hirsutismo, anemia megalo- blástica e dermatite. Os efeitos adversos relacionados com a dose estão primariamente relacionados com o sistema nervoso central e incluem sonolência, confusão, ataxia, incoordenação e nistagmo. A síndrome de hipersensibilidade à fenitoína consiste em exantema, que pode descamar, febre, eosinofilia e hepatite. A pancreatite de ocorrência rara, porém potencialmente fatal, tem sido observada em associação à terapia com ácido valprói- co. Foi relatada a ocorrência de anemia aplásica e de insuficiên- cia hepática em associação ao uso de felbamato. Apesar de não provocarem crises de ausência como efeito adverso potencial, os barbitúricos podem exacerbar esse tipo de convulsão. 2. A resposta é A. A eritromicina inibiu o metabolismo P450 hepático da fenitoína e causou uma elevação de suas Farmacologia da Dependência e Abuso de Drogas 75 concentrações plasmáticas, com toxicidade clínica subseqüen- te. Outros fármacos passíveis de inibir esse sistema enzimáti- co, como o cloranfenicol, a cimetidina e a isoniazida, também podem causar toxicidade da fenitoína quando administrados concomitantemente com fenitoína. Em contrapartida, os fárma- cos que induzem a atividade do P450, como a carbamazepina, podem contribuir para concentrações subterapêuticas de feni- toína. 3. A resposta é D. A fenitoína bloqueia os canais de sódio nos neurônios de descarga rápida e impede as convul- sões parciais e generalizadas secundárias. A fenitoína diminui a velocidade de recuperação dos canais de sódio do estado inativado. Seu efeito sobre os canais de sódio é maior nos neurônios de descarga rápida. Impede o desvio despola- rizante paroxístico que inicia as convulsões parciais e impede a propagação da atividade convulsiva associada a convulsões tônico-clônicas generalizadas secundárias. A fenitoína não tem nenhum efeito nas crises de ausência, nas quais a velocidade de abertura e de fechamento dos canais de sódio é demasiada- mente lenta para responder à inibição da inativação dos canais de sódio dependentes do uso. 4. A resposta é D. O ácido valpróico limita a ativação dos canais de cálcio do tipo T e intensifica a inibição media- da pelo GABA das crises de ausência. Além disso, diminui a velocidade de recuperação dos canais de sódio do estado inativado. Em virtude de seus numerosos efeitos na limitação da atividade convulsiva, o ácido valpróico é um dos agentes antiepilépticos mais eficazes no tratamento das síndromes de epilepsia com tipos mistos de convulsões. A etossuximida inibe a abertura dos canais de cálcio do tipo D e constitui o agente de primeira linha no tratamento de pacientes com crises de ausên- cia. Esse fármaco não afeta os canais de sódio. A gabapentina aumenta as concentrações de GABA nos neurônios, porém inibe a atividade convulsiva primariamente ao inibir a abertura dos canais de cálcio ativados por alta voltagem. A carbamazepina prolonga a inibição dos canais de sódio e é terapêutica para as convulsões parciais e generalizadas secundárias, mas não para as crises de ausência. 5. A resposta é C. Tanto os benzodiazepínicos quanto os barbitúricos intensificam a inibição mediada pelo GABA, porém apenas os barbitúricos são capazes de aumentar a atividade no receptor de GABA na ausên- cia deste. Ambos os tipos de fármacos ligam-se ao complexo receptor de GABA. Os benzodiazepínicos são intensificadores alostéricos da atividade do GABA endógeno, aumentando a afi- nidade do GABA pelo seu receptor. Em contrapartida, os barbi- túricos intensificam os efeitos do GABA, porém também atuam diretamente sobre os canais deste e, portanto, possuem ampla atividade inespecífica. A ação dos barbitúricos sobre a inibição do GABA nas células retransmissoras talâmicas intensifica as correntes dos canais de cálcio do tipo T, exacerbando a atividade da crise de ausência. Tanto os benzodiazepínicos quanto os barbitúricos produzem sedação como efeito adverso. Ambos os tipos de fármacos podem causar sintomas de abstinência aguda com a retirada do fármaco. RESPOSTAS DO CAPÍTULO 15 CASO 1 1. A resposta é E. O isoflurano permite uma anestesia mais potente, enquanto o óxido nitroso facilita uma indução e recuperação mais rápidas. Trata-se de um exem- plo de anestesia balanceada. Vários agentes anestésicos são utilizados em combinação para alcançar os objetivos de indu- ção e recuperação rápidas, bem como potência da anestesia, enquanto se limitam os efeitos adversos de qualquer agente individual. O isoflurano exibe maior tempo de indução; porém, é um anestésico potente e barato, com baixa incidência de efeitos adversos. O óxido nitroso exibe um tempo rápido de indução e de recuperação e tem um alto índice analgésico, porém menor potência. O óxido nitroso isoladamente é incapaz de produzir anestesia completa, mesmo com volume de 80%. 2. A resposta é D. À medida que a pressão parcial no SNC equilibra-se com a pressão parcial inspirada mais alta do anestésico, pode ocorrer depressão cardiopulmonar. Se a dose de um anestésico inalatório for semelhante a uma “dose de ataque” pela administração de uma pressão parcial inspirada mais alta, a pressão parcial no SNC será alcançada mais rapidamente. Se a pressão parcial no SNC continuar aumentan- do acima da pressão parcial do anestésico para a pressão parcial mais alta (de ataque) do anestésico inspirado, poderá ocorrer depressão cardiopulmonar. 3. A resposta é B. O óxido nitroso difunde-se rapidamente do sangue, substituindo o ar inspirado e diminuindo a pressão parcial alveolar (e arterial subseqüente) de oxi- gênio. Trata-se de um exemplo de hipóxia difusional. Durante a recuperação da anestesia com óxido nitroso, este difunde-se do sangue para os alvéolos com alta velocidade. O que distingue o óxido nitroso de outros anestésicos inalatórios é a pressão parcial alta no sangue venoso misto que retorna ao pulmão (uma conseqüência de sua baixa potência). Por conseguinte, no início do washout, a pressão alveolar de óxido nitroso estará elevada (> 0,5 atm). Se a pressão parcial remanescente for fornecida pelo ar, a PO2 pode ser aproximadamente metade nos alvéolos. Quando a pressão parcial de oxigênio diminui nos alvéolos, existe uma menor quantidade de oxigênio disponível para difusão no sangue, podendo resultar em hipóxia. 4. A resposta é A. As crianças apresentam uma maior taxa de ventilação alveolar, pulmões menores e menor capa- cidade dos tecidos para anestésicos; isso reduz o tempo para o equilíbrio entre as pressões parciais inspirada e alveolar e entre as pressões parciais alveolar e teci- dual. As maiores taxas de ventilação aceleram a indução. O débito cardíaco mais alto tende a reduzir a indução. As crianças apresentam maiores taxas de ventilação, um fluxo sangüíneo proporcionalmente maior para o grupo altamente vascularizado (cérebro) e menor capacidade dos tecidos para anestésicos. Esses fatores aceleram a velocidade de saturação dos tecidos com anestésico em crianças, e mais do que compensa o efeito do débito cardíaco ao retardar a taxa de elevação da pressão 76 Respostas da Seção I alveolar para a pressão parcial inspirada. O grau de aceleração do início da anestesia em comparação com um adulto irá aumentar com o coeficiente de partição sangue–gás do anestésico.Os anestésicos limitados pela ventilação exibem uma indução mais rápida em crianças. 5. A resposta é C. A potência de um anestésico aumenta à medida que a sua solubilidade aumenta em óleo. A regra de Meyer Overton prevê que a potência de um anestésico geral pode ser prevista a partir de seu coeficiente de partição óleo/gás. A potência de um anestésico está inversamente relacionada com a sua CAM. Todos os anestésicos gerais apresentam baixos índices terapêuticos. CASO 2 1. A resposta é A. O óxido nitroso possui um coeficiente de partição sangue–gás baixo. Equilibra-se muito rapida- mente, e a difusão do óxido nitroso do sangue para os alvéolos desloca o ar rico em oxigênio, resultando em hipóxia (hipóxia difusional). O óxido nitroso tornou-se uma droga inalada rela- tivamente comum de abuso, utilizada na tentativa de ter uma “onda”. Os usuários buscam os sintomas eufóricos de aturdimen- to, incoordenação, alucinações e delírios após a inalação do gás. Os sintomas de intoxicação são mais pronunciados quando o óxido nitroso é inalado em espaços fechados. O óxido nitroso é facilmente disponível em embalagens para creme chantili e é vendido na Internet. O óxido nitroso apresenta uma CAM muito alta, o que o torna um anestésico geral menos potente. Por esses motivos, é utilizado em combinação com outros anestésicos inalados, visto que a elevada pressão parcial inspirada de óxido nitroso necessária para obter uma anestesia plena com esse agente impediria uma oxigenação adequada. O óxido nitroso possui um alto índice analgésico e é um bom analgésico. O halotano é metabolizado pelo fígado. 2. A resposta é D. Os anestésicos limitados pela perfusão apre- sentam uma constante de tempo para o equilíbrio entre as pressões parciais alveolar e inspirada semelhante à constante de tempo para o equilíbrio entre as pressões parciais tecidual e arterial. Os tempos de indução e de recuperação são relativamente curtos quando comparados com aqueles dos anestésicos limitados pela ventilação. Os anesté- sicos limitados pela ventilação apresentam alto coeficiente de partição sangue–gás e taxa elevada de captação dos alvéolos para o sangue. Isso diminui a taxa com que a pressão parcial alveolar aumenta para a pressão parcial inspirada. A constante de tempo para o equilíbrio entre as pressões parciais tecidual e arterial é aproximadamente a mesma para ambos os grupos de anestésicos. 3. A resposta é C. Os órgãos do grupo ricamente vascularizado (cérebro e órgãos viscerais) exibem baixa capacidade para anestésicos, porém fluxo sangüíneo alto para o com- partimento. Os anestésicos gerais equilibram-se rapidamente com esse compartimento. O compartimento do grupo muscular apresenta alta capacidade para anestésicos e fluxo sangüíneo moderado, enquanto o compartimento do grupo adiposo tem uma capacidade muito alta para anestésicos, porém baixo fluxo sangüíneo. 4. A resposta é C. A cetamina é um anestésico dissociativo inco- mum que aumenta o tônus simpático e o débito cardíaco. 5. A resposta é E. A hipertermia maligna é causada pelo efluxo descontrolado de cálcio do retículo sarcoplasmático. Esse efeito adverso raro do halotano (e de outros anestési- cos halogenados) é causado por uma mutação herdada no receptor de rianodina do retículo sarcoplasmático, que causa a liberação de cálcio. Os sintomas consistem em contração muscular excessiva, tetania e produção de calor. O dantroleno, que é utilizado no tratamento da hipertermia maligna, é um relaxante muscular que bloqueia a liberação de cálcio pelo retículo sarcoplasmático. RESPOSTAS DO CAPÍTULO 16 CASO 1 1. A resposta é C. O estímulo inicial, isto é, o calor inten- so, estimulou os receptores TRPV termossensíveis nos neurônios sensitivos primários. A lesão tecidual causada pela queimadura estimulou a produção de ativadores químicos, incluindo prótons e cininas. (Outros ativadores quí- micos associados a lesão celular e inflamação incluem prótons, ATP, citocinas, fator de crescimento neural e bradicinina.) Os canais de sódio regulados por voltagem nas fibras A# e C foram ativados e transmitiram sinais ao corno dorsal da medula espinal, onde canais de cálcio regulados por voltagem do tipo N controlaram a liberação de neuro- transmissores nos neurônios de projeção secundários. Os receptores de ATP, P2X e P2Y, são estimulados pelo ATP extracelular, que é habitualmente liberado em decorrência de lesão celular. Os receptores TRPM são estimulados por tem- peraturas frias. Os peptídios opióides (dinorfinas, encefalinas e β-endorfinas), a norepinefrina, a serotonina, a glicina e o GABA são neurotransmissores inibitórios que modulam a transmissão na medula espinal e alteram a percepção de dor. Os receptores de glutamato na medula espinal são alterados e ativados no contexto de sensibilização central à dor. 2. A resposta é D. Os opióides, a morfina e o remifentanil são agonistas dos receptores $ que inibem a transmissão sináptica no cérebro, no tronco encefálico, na medula espinal e nos neurônios sensoriais periféricos. Inibem a liberação de vesículas pré-sinápticas dos aferentes primários ao diminuir a condutância pré-sináptica de cálcio. Hiperpolarizam os neurônios pós-sinápticos ao intensificar a condutância de potássio. Nesse caso, o remifentanil foi utilizado na forma de infusão contínua para manter o controle da dor durante a cirurgia. Como o remifentanil apresenta curta duração de ação, J.D. recebeu doses intravenosas diretas de morfina de ação mais longa para controlar a dor após a cirurgia. Os receptores κ opióides sofrem a ação das dinorfinas endógenas, ao contrá- rio das encefalinas e das β-endorfinas, que são agonistas nos receptores µ e δ. Farmacologia da Dependência e Abuso de Drogas 77 3. A resposta é A. Os analgésicos de associação de opi- óide–acetaminofen atuam por diferentes mecanismos para reduzir a sensação dolorosa e são sinérgicos em seu efeito. Os opióides atuam sobre os receptores µ para inibir a transmissão sináptica de impulsos no cérebro, no tronco ence- fálico, na medula espinal e na periferia. O acetaminofen inibe a síntese central de prostaglandinas; é um analgésico de ação central, mas não antiinflamatório. Os opióides e o acetaminofen não exercem nenhum efeito significativo sobre o metabolismo um do outro. Podem ocorrer tolerância e adicção a opióides não relacionadas com a presença de acetaminofen. 4. A resposta é C. A amitriptilina é um antidepressivo tricícli- co. Aumenta as projeções noradrenérgicas e serotoni- nérgicas moduladoras na medula espinal ao reduzir a recaptação dessas aminas. Seu efeito analgésico deve-se também ao bloqueio dos canais de sódio e à excitabilidade da membrana. Nos casos de dor neuropática, a amitriptilina limita a neurotransmissão anormal e reduz a sensibi- lização central. Os inibidores específicos da recaptação de serotonina não são particularmente eficazes no alívio da dor neuropática. 5. A resposta é B. A indometacina é um analgésico antiin- flamatório. Atua através da inibição não-seletiva de ambas as isoenzimas da COX, limitando a produção de prostaglandinas na presença de dor inflamatória. O acetaminofen também inibe a produção de prostaglandinas no sistema nervoso central, porém não é antiinflamatório. O remifentanil é um analgésico opióide. A carbamazepina é um anticonvulsivante utilizado no controle da dor neuropática, com base no bloqueio dos canais de sódio. O misoprostol é algumas vezes co-administrado com AINE para ajudar a repor a atividade das prostaglandinas na mucosa gástrica e limitar os efeitos adversos gastrintestinais relacionados dos AINE. CASO 2 1. A resposta é B. O naproxen é um AINE derivado do ácido propiônico que inibe de modo não-seletivo a COX e impede a formação de prostaglandinas. O naproxen inibe tanto a COX-1 quantoa COX-2 e pode causar efeitos adversos, incluindo desconforto gástrico, gastrite e sangramento gastrintestinal, ao limitar o efeito protetor das prostaglandinas na mucosa gástrica. 2. A resposta é D. A Sra. S. desenvolveu tolerância e absti- nência ao opióide. Ocorre tolerância quando doses repetida- mente mais altas de um fármaco são necessárias para obter o mesmo efeito terapêutico. A base molecular da tolerância está relacionada a alterações no receptor de opióides. A Sra. S. tam- bém desenvolveu dependência física, de modo que apresentou sintomas de abstinência como náusea, cólica abdominal e mial- gias com a interrupção abrupta da oxicodona. Essa dependência física deve ser diferenciada da adicção, que se caracteriza por um comportamento de busca da droga no contexto de dependência física. A sensibilização central é causada por uma alteração no processamento sensorial no corno dorsal da medula espinal, resultando em hipersensibilidade à dor e alodinia. 3. A resposta é A. A gabapentina, um agente anticonvulsivan- te, tem sido utilizada no tratamento da neuralgia do trigêmeo (tic douloureux). A gabapentina se liga aos canais de cálcio e reduz a transmissão neuronal quando os indivíduos apresen- tam dor neuropática. Os agentes anticonvulsivantes e antide- pressivos bloqueiam os canais de sódio e também limitam a transmissão anormal de impulsos neuronais. A anondomida é um ligante endógeno de receptor de canabinóide. O diclofena- co é um AINE (derivado pirrólico do ácido acético) que inibe a COX-1 e a COX-2. As dinorfinas são agonistas peptídicos endógenos de opióides que atuam nos receptores κ de opiói- des. A naloxona é um antagonista específico de receptores de opióides. 4. A resposta é D. Tonteira, confusão e marcha instável são efeitos adversos comuns que limitam a utilidade terapêutica dos anticonvulsivantes no tratamento da dor. Os inibidores da COX-2 têm sido associados a efeitos tóxicos cardiovasculares. A hipotensão postural é um efeito adverso da clonidina, um agonista de receptores α2-adrenérgicos. 5. A resposta é B. A gabapentina se liga à subunidade α2d dos canais de cálcio dependentes de voltagem e reduz a ati- vidade neuronal por um mecanismo ainda desconhecido que se presume ser a redução da liberação de transmissores. Já se mostrou eficaz no tratamento da neuropatia diabética doloro- sa, da neuralgia pós-herpética e da neuralgia do trigêmeo. O celecoxib é um inibidor específico da COX-2. O ibuprofen é um inibidor não-específico da COX. O dextrometorfan é um antagonista do receptor de NMDA que só consegue provocar analgesia em doses muito altas, o que limita sua utilidade clíni- ca como analgésico. A naltrexona é um antagonista específico de receptores de opióides usado no tratamento de adicção e abstinência de opióides. RESPOSTAS DO CAPÍTULO 17 CASO 1 1. A resposta é A. O Sr. B. apresenta sintomas de abs- tinência de opióides causados pela interrupção abrupta da heroína. Esses sinais e sintomas físicos adversos resultam da ausência da droga nos receptores opióides µ, compatíveis com um estado de dependência fisiológica. Os sintomas clínicos de irritabilidade e de hipersensibilidade a estímulos dolorosos são quase o inverso dos efeitos analgésicos sedativos induzidos pelo opióide. A tolerância inversa é outra designação para a sensibilização, que se refere ao mecanismo pelo qual a admi- nistração repetida de uma droga resulta em maior efeito de uma determinada dose em comparação com doses iniciais. A adicção resulta do uso prolongado de uma droga. Seu desenvol- vimento é influenciado por múltiplas variáveis, incluindo predis- posição genética, tipo de droga usado e fatores ambientais, que contribuem, em certo grau, para a dependência tanto fisiológica quanto psicológica da presença da droga em seu sítio efetor. O comportamento aditivo resulta da adaptação prolongada e da alteração da homeostasia do cérebro, dependente da presença da droga. 78 Respostas da Seção I 2. A resposta é B. A metadona apresenta duração de ação mais longa do que a heroína, e a sua dose pode ser reduzida de modo gradual para evitar os sintomas físicos de abstinência aguda. É administrada por via oral; tem início de ação mais lento e não provoca a “onda” súbita associada ao rápido movimento da heroína no sistema nervoso central. Possui meia-vida plasmática longa, e a sua dose pode ser reduzida gradual e lentamente para evitar a abstinência agu- da. Nos Estados Unidos, a metadona vem sendo utilizada em programas de tratamento da adicção à heroína desde o final da década de 1940, bem como para a manutenção no tratamen- to da adicção à heroína desde meados da década de 1960. Embora seja difícil suspendê-la em alguns pacientes, a meta- dona constitui o tratamento de manutenção mais amplamente utilizado e eficaz para a adicção à heroína. A metadona também é utilizada terapeuticamente no tratamento da dor intensa. 3. A resposta é C. Os programas em doze passos, como os Alcoólicos Anônimos e os Narcóticos Anônimos, ofe- recem apoio comunitário e mentores para a recupera- ção de adictos. Esses programas enfatizam passos positivos que propiciam a sobriedade, incluindo o reconhecimento pelo paciente de seu problema. Esses programas comunitários ofe- recem ajuda para reduzir o sentimento de solidão apresenta- do por usuários de drogas. A moderação é uma estratégia de administração do abuso de álcool, em que se ensina ao usuário estabelecer limites relacionados com o consumo de álcool. 4. A resposta é D. O Sr. B. tinha tolerância adquirida aos efeitos da heroína. Ocorre tolerância quando a administração repetida da droga causa menos efeitos com a mesma dose e são necessárias doses maiores da droga para produzir o mesmo efei- to clínico. Pode ocorrer tolerância adquirida em conseqüência de três mecanismos: 1) aumento na capacidade de metabolizar ou de excretar uma droga; 2) alteração na interação droga–recep- tor causada por uma afinidade alterada de ligação ao receptor, inativação dos receptores ou de suas vias de sinalização, ou em decorrência da regulação alterada da expressão gênica dos receptores da droga ou de suas proteínas de sinalização; ou 3) tolerância comportamental aprendida, em que a pessoa altera conscientemente o seu comportamento para ocultar os efeitos da droga. A tolerância condicionada é um tipo de tolerância comporta- mental aprendida, em que indícios ambientais associados ao uso da droga causam inconscientemente uma resposta con- dicionada no usuário. A tolerância inata refere-se a diferenças individuais na sensibilidade aos efeitos de uma droga antes que a primeira dose seja administrada. A tolerância inata é determi- nada por fatores tanto genéticos quanto ambientais. 5. A resposta é B. A fissura e a recidiva podem ocorrer em conseqüência de adaptações moleculares e celulares de longa duração no cérebro em decorrência do abuso de droga. Esses efeitos a longo prazo podem ser causados por adaptações celulares geneticamente modificadas à presença da droga. Essas adaptações podem alterar a liberação de hormô- nios neurotrópicos e causar alterações persistentes na função sináptica. CASO 2 1. A resposta é C. O dissulfiram, ou tetraetiltiuram, é um agente que contém enxofre e bloqueia a aldeído desidroge- nase, uma enzima da via do metabolismo do álcool. A aldeído desidrogenase é responsável pelo metabolismo do acetaldeído, um metabólito intermediário do álcool etílico. Na presença de dissulfiram, quando se ingere álcool (ou uma substância con- tendo álcool), o acetaldeído aumenta e acumula-se, causando rubor facial, náusea, vômitos, cefaléia e palpitações. O dissul- firam também inibe a atividade da dopamina beta-hidroxilase. Isso pode resultar em aumento da dopamina no cérebro e depleção relativa da síntese de norepinefrina, contribuindo paraa hipotensão ortostática. Muitos medicamentos de venda livre para resfriado contêm etanol como diluente, podendo causar a interação dissulfiram–etanol. O topiramato é um agente antiepi- léptico que inibe os receptores de glutamato AMPA/cainato. Esse fármaco está em fase de estudo para o tratamento do abuso de álcool. A naltrexona é um antagonista opióide de ação longa que bloqueia competitivamente a ligação de agonistas opióides ao receptor opióide µ e impede a “onda” associada ao uso de agonistas opióides. O rimonabanto é um antagonista do receptor de canabinóides CB1 que bloqueia os efeitos dos canabinóides exógenos. A buprenorfina é um agonista parcial dos opióides que alivia a fissura por opióides e os sintomas de abstinência dos opióides, enquanto antagoniza a “onda” associada ao uso de agonistas de opióides integrais. 2. A resposta é A. Quando se administra buprenorfina em preparação sublingual com naloxona, os efeitos agonistas parciais da buprenorfina tornam-se mani- festos, enquanto a naloxona é inativada. Essa associação, a suboxona, pretende reduzir o potencial de abuso da bupre- norfina. Se for administrada por via parenteral como droga de abuso, a naloxona antagoniza o efeito agonista opióide da buprenorfina. A metadona produz tolerância cruzada a outros opióides e atenua os efeitos agonistas opióides da heroína injetada em pacientes que tomam metadona. A naltrexona antagoniza a “onda” associada ao uso de opióides, mas pode não aliviar a fissura, e não produz efeitos de abstinência por si própria. O acamprosato modula os receptores de glutamato. Os antidepressivos, como a desipramina e a fluoxetina, reduzem a fissura pela cocaína, porém não foi demonstrado que previnem o uso de cocaína. 3. A resposta é E. As drogas capazes de causar dependên- cia psicológica intensificam a atividade da dopamina no núcleo accumbens. Normalmente, os interneurônios de GABA na área tegmental ventral do cérebro produzem inibição tônica dos neurônios dopaminérgicos que ativam a via de recompensa encefálica no núcleo accumbens. Os opióides intensificam a atividade da dopamina na área tegmental ven- tral através de seus efeitos inibitórios sobre os interneurônios de GABA. A cocaína e as anfetaminas aumentam a concentra- ção de dopamina na sinapse dos neurônios dopaminérgicos atuando no núcleo accumbens. Ocorre dependência psico- lógica quando uma droga afeta o sistema de recompensa encefálico, resultando em sensações agradáveis associadas ao seu uso. Farmacologia da Dependência e Abuso de Drogas 79 4. A resposta é D. Um homem de 18 anos de idade fuma uma droga bastante lipofílica. A farmacocinética desse método de uso de droga está associada a abuso e adicção potenciais. A rápida absorção e entrada no sistema nervoso central de drogas lipofílicas (ou hidrofóbicas) com rápido início clínico e curta duração de ação está associada a abuso e adicção potenciais. Em contrapartida, as drogas que apresentam taxa mais lenta de absorção e entrada também mais lenta no sistema nervoso central, com longa duração de ação, que desaparece lentamente, têm menos tendência a causar sintomas de absti- nência abruptos e abuso. 5. A resposta é D. Ter uma alta tolerância inata aos efeitos de uma droga faz com que a pessoa corra maior risco de abu- so e adicção. Essa insensibilidade relativa aos efeitos da droga faz com que uma pessoa tenha mais tendência a necessitar de maiores quantidades da droga para obter o efeito pretendido. Utilizar uma droga em circunstâncias desagradáveis também está associado ao seu uso repetido. A variabilidade genética no metabolismo de drogas também está associada a um risco relativo de dependência e abuso de drogas. Por exemplo, as variações genéticas no metabolismo do etanol estão associadas a um risco variável de abuso e adicção ao álcool. Princípios dePrincípios de Farmacologia Farmacologia CardiovascularCardiovascular IIIIII 18 Farmacologia do Ritmo Cardíaco OBJETIVOS ! Compreender a base molecular da fisiologia elétrica do sistema de condução cardíaca. ! Compreender a farmacologia, os usos terapêuticos e os efeitos adversos das várias classes de agentes antiarrítmicos na vigência de disfunção elétrica car- díaca. !! CASO 1 Em uma manhã de inverno, o Dr. J., um professor de 56 anos de idade, está fazendo uma preleção sobre o tratamento das mio- cardiopatias aos alunos de segundo ano de medicina. Sente seu coração bater irregularmente e começa a ter náuseas. Consegue terminar a sua exposição, mas continua sentindo muita falta de ar durante todo o restante da manhã. A persistência dos sinto- mas o leva a procurar o departamento de emergência local. O exame físico revela batimentos cardíacos irregulares de 120 a 140 bpm. A pressão arterial do Dr. J. é estável (132/76 mm Hg) e a saturação de oxigênio é de 100% no ar ambiente. O eletrocardiograma (ECG) confirma a presença de fibrilação atrial, sem qualquer evidência de isquemia. São administradas várias injeções intravenosas diretas de diltiazem, e a freqüência cardíaca do Dr. J. diminui para uma faixa de 80 a 100 bpm, porém permanece irregular. Outros exames laboratoriais e a radiografia de tórax não revelam uma causa subjacente para a fibrilação atrial do Dr. J. QUESTÕES 1. Por que o diltiazem diminuiu a freqüência cardíaca do Dr. J. sem afetar a sua arritmia cardíaca subjacente, fibrilação atrial? A. O diltiazem diminuiu a velocidade de condução do nó atrio- ventricular (AV), porém acelerou a condução do trato de derivação dos ventrículos para os átrios. B. O diltiazem diminuiu a velocidade de condução do impulso atrial, porém contribuiu para a irritabilidade atrial e a formação de impulsos ectópicos. C. O diltiazem diminuiu a despolarização nodal sinoatrial (SA), porém acelerou o circuito de reentrada atrial. D. O diltiazem diminuiu a velocidade de condução do nó AV, porém não teve nenhum efeito sobre o circuito de reentrada atrial. E. O diltiazem diminuiu a velocidade de condução das fibras de Purkinje, porém acelerou a despolarização do nó SA. Durante a observação das 12 horas seguintes, o Dr. J. continua apresentando fibrilação atrial e, embora a freqüência do pulso esteja sob melhor controle, continua tendo palpitações. Com a monitoração ECG contínua, o cardiologista administra uma infusão intravenosa de ibutilida. Vinte minutos após a infusão de ibutilida, o coração do Dr. J. volta a apresentar um ritmo sinusal normal. Com base na sua idade e saúde geralmente boa, o Dr. J. recebe alta com prescrição de aspirina. É orien- tado a chamar o seu médico caso apareçam mais sintomas de fibrilação atrial. 2. Qual o mecanismo de ação da ibutilida e por que ela provoca potencialmente um efeito clínico que exige que ela seja adminis- trada apenas em circunstâncias cuidadosamente monitoradas? A. A ibutilida inibe os canais de K+ retificadores tardios e pro- longa a repolarização, o que pode predispor a um prolonga- mento do intervalo QT e a torsades de pointes. B. A ibutilida inibe os canais de K+ retificadores tardios e retarda a despolarização de fase 0, o que pode predispor a bloqueio completo de condução. C. A ibutilida inibe os canais de K+ retificadores tardios de maneira dependente do uso, de modo que a repolarização será acentuadamente prolongada quando a velocidade de despolarização for rápida. D. A ibutilida inibe os canais de K+ retificadores tardios, bem como os canais de Na+ lentos para o interior da célula, dimi- nuindo a velocidade de condução e contribuindo para o bloqueio de condução. E. A ibutilida inibe os canais de Na+ rápidos para dentro da célula e prolonga a despolarização, podendo predispor a reentrada e taquiarritmias ventriculares. O Dr. J. sente-se bem a princípio, porém surgem palpitações recorrentes 3 semanas após o eventoinicial. Após discutir o problema com o seu cardiologista, decide começar a tomar amiodarona, numa dose de manutenção de 200 mg/dia, além 82 Capítulo Dezoito Fig. 18.1 Potencial de Ação no Nó Sinoatrial (SA) e Correntes Iôni- cas. A. As células do nó SA são lentamente despolarizadas pela corrente marca-passo (If) (fase 4), que consiste em um fluxo de íons sódio (prin- cipalmente) e íons cálcio para dentro da célula. A despolarização para o potencial limiar abre os canais de cálcio regulados por voltagem e altamente seletivos, que impulsionam o potencial de membrana para ECa (fase 0). Com o fechamento dos canais de cálcio e a abertura dos canais de potássio (fase 3), ocorre repolarização do potencial de membrana. B. O fluxo de cada espécie iônica correlaciona-se, aproximadamente, com cada fase do potencial de ação. As correntes positivas indicam um fluxo de íons para fora da célula, enquanto as correntes negativas são para dentro da célula. Adaptado de Ackerman M, Clapham DE. Normal cardiac electrophysiology. In: Chien KR, Breslow JL, Leiden JM, Rosenberg RD, Seidman CE, eds. Molecular Basis of Cardiovascular Disease: A Compan- ion to Braunwald’s Heart Disease, Figura 12.2, pág. 284. Philadelphia: WB Saunders, 1999. Com autorização da Elsevier. Fig. 18.2 Potencial de Ação Ventricular e Correntes Iônicas. A. No potencial de membrana em repouso (fase 4), as correntes para dentro e para fora da célula são iguais, e o potencial de membrana aproxima-se do potencial de equilíbrio do K+ (EK). Durante a fase de ascensão do potencial de ação (fase 0), ocorre um grande aumento transitório na condutância do Na+. Esse evento é seguido de um breve período de repolarização inicial (fase 1), que é mediado por uma corrente transitória de K+ para fora da célula. O platô do potencial de ação (fase 2) resulta da oposição de uma corrente de Ca2+ para dentro das células e de uma corrente de K+ para fora da célula. A membrana repolariza-se (fase 3) A Potencial de ação do nó SA Po te nc ia l d e m em br a n a (m V) 40 -60 -40 -20 0 20 Tempo (ms) Fases do Potencial de Ação do Nó SA Principais Correntes Fase 4 If = Corrente marca-passo, principalmente a corrente de Na+ para dentro da célula. IK1 = corrente de K+ retificadora para dentro da célula, para fora da célula Fase 0 ICa = Corrente de Ca2+ para dentro da célula 0 Fase 4 Fase 0 Fase 3 IK1 ICa IK If IK1 ICa IK1 IK1 IK If If If 150 0 150 Tempo (ms) Co rre nt es a tra vé s da m em br a n a (µA /µ F) 0 4 2 -2 -4 -6 Fase 3 IK = Corrente de K+ retificadora tardia para fora da célula K+ K+ Na+ Ca2+ (As correntes para fora da célula são +; as correntes para dentro da célula são –) B Correntes iônicas do potencial de ação do nó SA 60 -90 -60 -30 0 30 A Potencial de ação ventricular Po te nc ia l d e m em br a n a (m V) 0 300 Tempo (ms) Tempo (ms) Fases do Potencial de Ação Ventricular Principais Correntes Fase 4 IK1 = Corrente de K+ retificadora para dentro da célula, para fora da célula INa/Ca = Corrente de Na+ e de Ca2+ para dentro da célula Fase 0 INa = Corrente de Na+ para dentro da célula 0 Fase 4 Fase 0 Fase 2 Fase 1 Fase 3 IK1 INa ICa IK INa/Ca IK, IK1, Ito Ito IK1 INa/Ca ICa IK1 Ito IK1 IK INa/Ca INa/Ca INa 300 Co rre nt es a tra vé s da m em br a n a (µ A/ µF ) 0 2 -2 -4 -6 -380 4 Fase 3 IK = Corrente de K+ retificadora tardia para fora da célula Fase 2 ICa = Corrente de Ca2+ para dentro da célula IK = Corrente de K+ retificadora tardia, para fora da célula IK1 = Corrente de K+ retificadora para dentro da célula, para fora da célula Ito = Corrente de K+ transitória para fora da célula Fase 1 Ito = Corrente de K+ transitória para fora da célula K+ K+ K+ K+ Na+ Ca2+ Na+/Ca2+ Na+/Ca2+ B Correntes iônicas do potencial de ação ventricular (As correntes para fora da célula são +; as correntes para dentro da célula são –) Farmacologia do Ritmo Cardíaco 83 de continuar com a aspirina. O Dr. J. tolera bem a amioda- rona e não se queixa de nenhuma dificuldade na respiração. Permanece assintomático durante o restante de suas aulas de cardiologia. 3. Qual dos seguintes itens é um efeito adverso potencial da amio- darona quando utilizada em doses diárias altas? A. síndrome semelhante ao lúpus B. fibrose pulmonar C. insuficiência renal D. retenção urinária E. broncoespasmo e impotência 4. A quinidina é um protótipo dos agentes antiarrítmicos da classe IA que era freqüentemente usada no passado para tratamento do flutter atrial. Entretanto, seus efeitos adversos anticolinérgi- cos podem converter uma freqüência atrial:ventricular de 2:1 para 1:1, com descompensação cardíaca subseqüente. Qual o mecanismo responsável por esse efeito? A. O bloqueio dos canais de sódio reduz a velocidade de con- dução atrial, enquanto o bloqueio dos canais de potássio intensifica a condução ventricular. B. O bloqueio dos canais de sódio reduz a velocidade de con- dução atrial, enquanto os efeitos anticolinérgicos aumentam a velocidade de condução através do nó AV. C. O bloqueio dos canais de sódio reduz a velocidade de con- dução do nó AV, enquanto os efeitos anticolinérgicos per- mitem uma rápida velocidade de condução pelo trato de derivação. D. O bloqueio dos canais de sódio reduz a velocidade de con- dução atrial, enquanto os efeitos anticolinérgicos aumentam a freqüência de disparo do nó SA. E. O bloqueio dos canais de sódio é superado pela liberação anticolinérgica de sódio do retículo sarcoplasmático. 5. Os bloqueadores dos canais de cálcio diidropiridinas exercem um efeito preferencial sobre os canais de cálcio: A. no músculo esquelético B. no músculo liso vascular C. no nó AV D. no miócito E. nas fibras de Purkinje !! CASO 2 Um homem de 68 anos de idade, com história de coronariopatia e hipertensão, é levado por paramédicos até o departamento de emergência após sofrer uma convulsão em sua casa, com testemunha do episódio. Ao chegar, o paciente está letárgico. O exame é notável por uma freqüência cardíaca de 42 bpm e pressão arterial de 62/55 mm Hg. A temperatura e a freqüência respiratória estão normais. O paciente é colocado em monitor cardíaco, e administra-se oxigênio suplementar. Efetua-se um ECG, que revela uma freqüência de aproximadamente 40 bpm e complexo QRS estreito. Não há nenhuma onda P aparente no ECG. O nível de glicose obtido de punção digital do paciente é de 100 mg/dL. Apesar da administração intravenosa direta de líquido, a pressão arterial não melhora. O residente administra 1 mg de atropina (um agente antimuscarínico), com elevação apenas transitória da freqüência cardíaca, porém sem melhora da hipotensão. O estudante de medicina pergunta: “Você quer que eu verifique a sua lista de medicações?” QUESTÕES 1. Qual das seguintes medicações poderia ter causado a bradicar- dia desse paciente? A. nifedipina B. atropina C. propranolol D. nitroglicerina E. epinefrina 2. Qual o mecanismo de ação da atropina para aumentar transi- toriamente a freqüência cardíaca nesse caso? A. A atropina inibe os efeitos parassimpáticos do nervo vago, intensifica a entrada de cálcio nos miócitos ventriculares e aumenta o disparo dos marca-passos ventriculares ectó- picos. B. A atropina diminui a abertura dos canais de cálcio nas células marca-passo e aumenta a taxa de elevação da despolarização de fase 0. C. A atropina possui um efeito agonista direto nos receptores β1-adrenérgicos simpáticos do nó SA e aumenta a freqüência de disparo das célulasmarca-passo. D. A atropina intensifica a condutância de potássio dos miócitos ventriculares através dos canais de K+ retificadores tardios, reduz a repolarização e permite o disparo mais freqüente dos marca-passos ventriculares ectópicos. E. A atropina diminui o tônus parassimpático ao inibir a liberação de acetilcolina do nervo vago, intensifica a corrente marca- passo, facilita a despolarização e aumenta a freqüência de disparo das células marca-passo. Esse paciente está tomando propranolol. A família chega à emergência e relata que está deprimido desde a morte de sua esposa, que ocorreu no início do ano. Estão preocupados com o seu sentimento de desesperança e suspeitam de que pos- sa ter considerado uma tentativa de suicídio. Um frasco de propranolol vazio foi subseqüentemente encontrado na casa do paciente. No departamento de emergência, o paciente é submetido a intubação oral e ventilação mecânica. Uma sonda orogástrica é introduzida, e o paciente recebe carvão ativa- do na tentativa de impedir qualquer absorção gastrintestinal adicional de propranolol. Posteriormente, é internado na uni- Fig. 18.2 quando a corrente de Ca2+ para dentro da célula diminui e predomina a corrente de K+ para fora da célula. B. Os fluxos iônicos que dão origem ao potencial de ação ventricular consistem em um padrão complexo de mudanças de permeabilidades iônicas, separadas no tempo. Observe, em particular, que a corrente de Na+ na fase 0 é muito grande, porém extremamente breve. Adaptado de Ackerman M, Clapham DE. Normal cardiac electrophysiology. Em: Chien KR, Breslow JL, Leiden JM, Rosenberg RD, Seidman CE, eds. Molecular Basis of Cardiovascular Dis- ease: A Companion to Braunwald’s Heart Disease, Figure 12.1 and Figure 12.2, pp. 282 e 284. Philadelphia: WB Saunders, 1999. Com autorização de Elsevier. 84 Capítulo Dezoito dade de terapia cardíaca para tratamento da overdose com antídoto. 3. Qual o mecanismo de ação dos agentes antiarrítmicos de classe II, antagonistas dos receptores β-adrenérgicos? A. Os antagonistas dos receptores β-adrenérgicos diminuem a freqüência de despolarização da fase 0 e prolongam a repolarização. B. Os antagonistas dos receptores β-adrenérgicos aumentam a freqüência de repolarização da fase 3 e encurtam o tempo de condução. C. Os antagonistas dos receptores β-adrenérgicos diminuem a taxa de entrada de cálcio durante a fase 2 de platô e encur- tam o período refratário. D. Os antagonistas dos receptores β-adrenérgicos diminuem a freqüência de despolarização da fase 4 e prolongam a repolarização. E. Os antagonistas dos receptores β-adrenérgicos diminuem a freqüência de despolarização da fase 4 e reduzem a repo- larização. 4. Qual dos seguintes itens fornece um exemplo de bloqueio dos canais de íons “dependente do estado” que é útil no tratamento das arritmias? A. A amiodarona possui alta afinidade pelos canais de potássio quando a freqüência cardíaca está lenta. B. A lidocaína possui alta afinidade pelos canais de sódio inati- vados no tecido isquêmico. C. A lidocaína possui alta afinidade pelos canais de sódio fecha- dos durante o exercício intenso. D. A lidocaína bloqueia os canais de sódio independentemente da ação das freqüências de disparo potencial. E. A flecainida possui alta afinidade pelos canais de sódio no estado de repouso. 5. Para qual das seguintes arritmias a adenosina é utilizada como tratamento de primeira linha? A. taquicardias supraventriculares de complexo estreito B. fibrilação atrial C. bradicardia juncional após overdose de propranolol D. marca-passos ectópicos ventriculares E. fibrilação ventricular 19 Farmacologia da Contratilidade Cardíaca OBJETIVOS ! Compreender a base molecular da contração cardíaca. ! Compreender a farmacologia, os usos terapêuticos e os efeitos adversos dos vários agentes utilizados no tratamento da disfunção contrátil cardíaca. !! CASO 1 G.W., um homem de 68 anos de idade com disfunção sistólica e insuficiência cardíaca conhecidas, é internado com dispnéia e náusea. A história cardíaca do paciente é notável por dois infartos de miocárdio anteriores, dos quais o mais recente ocor- reu há cerca de 2 anos. Desde o segundo infarto, o paciente apresentou uma limitação significativa na sua capacidade de atividade física. Um ecocardiograma bidimensional revela uma fração de ejeção ventricular esquerda de 25% (normal: > 55%) e insuficiência mitral moderada. G.W. tem sido trata- do com aspirina, carvedilol (um antagonista dos β-receptores), captopril (um inibidor da enzima conversora de angiotensina), digoxina (um glicosídio cardíaco), furosemida (um diurético de alça) e espironolactona (um antagonista dos receptores de aldosterona). Foi também colocado um cardioversor-desfibri- lador interno automático (CDIA) para evitar arritmias ventri- culares sustentadas e morte cardíaca súbita. QUESTÕES 1. Por que G.W., um paciente com insuficiência cardíaca, está sendo tratado concomitantemente com um antagonista dos β-recepto- res e um agente inotrópico positivo (digoxina)? A. Essa combinação de agentes permite que ambos os fárma- cos sejam administrados numa dose dentro de uma faixa não tóxica. B. Essa combinação de agentes impede o infarto do miocárdio recorrente em pacientes com insuficiência cardíaca induzida por isquemia. C. Essa combinação de agentes reduz a mortalidade e melho- ra o estado funcional de pacientes com insuficiência car- díaca. Fig. 19.1 Regulação da Contratilidade Cardíaca por Receptores b- Adrenérgicos. Os receptores β-adrenérgicos aumentam a contratilidade dos miócitos cardíacos, mas também intensificam o relaxamento. A liga- ção de um agonista endógeno ou exógeno aos receptores β1-adrenérgi- cos na superfície dos miócitos cardíacos induz as proteínas Gα a ativar a adenilil ciclase que, por sua vez, catalisa a conversão do ATP em cAMP. O cAMP ativa múltiplas proteinocinases, incluindo a proteinocinase A (PKA). A PKA fosforila e ativa os canais de Ca2+ do sarcolema e, portanto, aumenta a contratilidade dos miócitos cardíacos. A PKA também fosforila o fosfolambam. A bomba de SERCA torna-se desinibida e bombeia o Ca2+ para o interior do retículo sarcoplasmático; a taxa aumentada de seqües- tro de Ca2+ intensifica o relaxamento dos miócitos cardíacos. O cAMP é convertido em AMP pela fosfodiesterase, com conseqüente término das ações mediadas pelos receptores β1-adrenérgicos. A fosfodiesterase é inibida pela anrinona, um fármaco que pode ser utilizado no tratamento da insuficiência cardíaca. GTP P P ATP inativaAMP Anrinona cAMP Ca2+ Ca2+ PKA PKA Ca2+ Ca2+ ATP ADP Miócito cardíaco Agonista b1 Receptor β1 Adenilil ciclase Fosfodiesterase ativa Fosfolambam Retículo sarcoplasmático 86 Capítulo Dezenove D. Essa combinação de agentes anula a necessidade de terapia diurética em pacientes com insuficiência cardíaca crônica. E. Essa combinação de agentes provoca remodelagem cardíaca e normalização da fração de ejeção ventricular esquerda, curando a insuficiência cardíaca. O exame físico no departamento de emergência é notável por uma pressão arterial de 90/50 mm Hg e freqüência cardíaca de 120 bpm. O eletrocardiograma indica que o ritmo cardíaco subjacente consiste em fibrilação atrial. Administra-se amio- darona (um antiarrítmico de classe III), e a freqüência cardíaca do paciente diminui para cerca de 80 bpm. Os exames de labo- ratório revelam Na+ sérico de 148 mEq/L (normal: 135-145), BUN de 56 mg/dL (normal: 7-19), K+ de 2,9 mEq/L (normal: 3,5-5,1) e creatinina de 4,8 mg/dL (normal: 0,6-1,2). O nível sérico de digoxina é de 3,2 ng/mL (a concentração terapêutica é tipicamente de ~1 ng/mL). 2. Qual o mecanismo de ação da digoxina? A. A digoxina inibe a bomba de sódio da membrana plasmáti-ca, resultando em aumento na concentração intracelular de cálcio. B. A digoxina estimula os receptores acoplados à proteína G, resultando em aumento da formação de monofosfato de adenosina cíclico (cAMP) e elevação na concentração intra- celular de cálcio. C. A digoxina liga-se a bombas de sódio neuronais, resultando em aumento da estimulação simpática dos miócitos. D. A digoxina inibe a recaptação de cálcio pela ATPase (SERCA) do retículo sarcoplasmático no retículo sarcoplasmático, man- tendo uma concentração uniforme de cálcio intracelular. E. A digoxina inibe a bomba de sódio da membrana plasmática, tornando os receptores β1-adrenérgicos mais sensíveis aos efeitos da epinefrina circulante. 3. A digoxina em níveis supraterapêuticos pode causar vários efei- tos adversos e toxicidades. Qual a principal manifestação clínica da toxicidade da digoxina em G.W.? A. hipercalemia B. fibrilação atrial C. insuficiência renal D. halos amarelo-esverdeados nos campos visuais E. desidratação 4. Qual dos seguintes fatores contribuiu para a toxicidade da digo- xina nesse paciente, e de que maneira? A. hipocalemia; altera o trocador de sódio–cálcio, de tal modo que ele troca preferencialmente o potássio B. hipocalemia; impede a excreção renal de digoxina C. hipernatremia; intensifica a função normal da bomba de sódio D. hipocalemia; torna a bomba de sódio mais sensível à digo- xina E. hipernatremia; faz com que a bomba de sódio troque pre- ferencialmente a digoxina por potássio Com base nesses achados, G.W. é admitido na unidade de terapia intensiva cardiológica. A dose de digoxina oral é sus- pensa, e administra-se K+ por via intravenosa para aumentar a concentração sérica de potássio. Com base na gravidade dessa descompensação clínica, coloca-se um cateter na artéria pulmo- nar (AP) para monitorar as pressões cardíacas. G.W. também recebe dobutamina, e o carvedilol é suspenso. Após iniciar a dobutamina por via intravenosa, o débito urinário aumenta, e o paciente começa a sentir uma melhora sintomática. G.W. é monitorado durante 7 dias, e o nível de digoxina diminui para a faixa terapêutica. 5. Qual o mecanismo de ação da dobutamina? A. A dobutamina é um agonista no receptor β2-adrenérgico, que aumenta o seqüestro de potássio intracelular no retículo sarcoplasmático. B. A dobutamina é um antagonista no receptor α1-adrenérgico, que diminui a pós-carga. C. A dobutamina é um agonista no receptor β1-adrenérgico, que aumenta a eficiência da digoxina na bomba de sódio. Fig. 19.2 Mecanismo Inotrópico Positivo da Digoxina. 1. A digoxina liga-se seletivamente à Na+/K+-ATPase, inibindo-a. A extrusão diminuída de Na+ (setas tracejadas) leva a um aumento na concentração de Na+ citosólico. 2. O aumento do Na+ intracelular diminui a força propulsora para o trocador de Na+/Ca2+ (setas tracejadas), resultando em extrusão diminuída de Ca2+ do miócito cardíaco para o espaço extracelular e em concentração citosólica aumentada de Ca2+. 3. A seguir, uma quantidade aumentada de Ca2+ é bombeada pela SERCA Ca2+- ATPase (seta grande) no retículo sarcoplasmático, criando um aumento efetivo de Ca2+, que é disponível para liberação durante as contrações subseqüentes. 4. Durante cada contração, a libera- ção aumentada de Ca2+ pelo retículo sarcoplasmático leva a um aumento da contração das miofibrilas e, portanto, a um aumento do inotropismo cardíaco. Contração das miofibrilas P extrusão de Na+ Trocador de Na+/Ca2+ Ca2+ armazenado Ca2+ liberado Digoxina Ca2+ Ca2+ ATP ADP Ca2+ 3Na+ Ca2+ 3Na+ Sarcolema 3 4 2 1 3Na+ 2K+ 3Na+ 2K+ Na+/K+ extrusão de Ca2+ Reservas de Ca2+ -ATPase Farmacologia da Contratilidade Cardíaca 87 D. A dobutamina é um agonista no receptor β1-adrenérgico, que aumenta o cAMP e o cálcio intracelulares. E. A dobutamina aumenta a liberação de norepinefrina pelas terminações nervosas simpáticas e intensifica o efeito de ago- nista da norepinefrina em todos os receptores adrenérgicos. !! CASO 2 Carola L., de 32 anos de idade, 2 semanas após ter dado à luz uma menina por parto vaginal espontâneo normal, a termo, pro- cura o seu obstetra para avaliação urgente de extrema fadiga e dificuldade respiratória. Queixa-se de muito cansaço e de estar sem energia nenhuma nesses últimos 10 dias. Atribui os sinto- mas à falta de sono; entretanto, nos últimos 5 dias, começou a sentir muita falta de ar. A princípio, percebeu uma certa difi- culdade em tomar fôlego para subir um lance de escada com a roupa para lavar, mas agora apresenta dispnéia com esforços mínimos (como levantar para amamentar e trocar a filha) e sente particularmente falta de ar quando deita na cama. Hoje sentiu uma ligeira constrição torácica subesternal associada à dispnéia, e observou a presença de edema maleolar, que aumen- tou desde o parto. Ela se questiona se não está anêmica. Ao exame físico, a Sra. L. aparenta estar em boas condições físicas, porém apresenta taquipnéia. Os sinais vitais são notá- veis por uma freqüência cardíaca de 127 bpm, freqüência res- piratória de 24 respirações/min e pressão arterial de 78/50 mm Hg. O médico examina os pulmões e ouve crepitações bilaterais e sibilos. Suspeita de que a Sra. L. possa ter tido embolia pul- monar e chama uma ambulância equipada com suporte cardíaco avançado para levá-la até o hospital para uma avaliação mais minuciosa. Os paramédicos colocam a Sra. L. em monitor car- díaco, estabelecem uma via intravenosa e administram solução salina normal na tentativa de aumentar a sua pressão arterial. No trajeto até o hospital, a Sra. L. queixa-se de estar se sentindo com muito mais falta de ar, e os paramédicos observam uma taquiarritmia supraventricular com complexo estreito. Admi- nistram uma pequena dose de diltiazem por via intravenosa, um bloqueador dos canais de cálcio, para converter esse ritmo. Infelizmente, a Sra. L. continua com hipotensão, e a dispnéia agrava-se. Ao chegar ao hospital, a freqüência cardíaca é de 116 bpm, a freqüência respiratória de 40 respirações/min, a pressão arterial sistólica de 60 mm Hg e a saturação de oxigênio de 86% com ar atmosférico. QUESTÕES 1. Qual a função do cálcio no ciclo de contração dos miócitos cardíacos? A. O cálcio intracelular liga-se à troponina C, que permite a sua ligação cruzada com a actina, encurtando o sarcômero. B. O cálcio intracelular liga-se à tropomiosina, que permite ao filamento de “deslizar”, encurtando o sarcômero. C. O cálcio intracelular liga-se à troponina C, que induz a libe- ração de troponina I, de tal modo que a miosina e a actina possam interagir para encurtar o sarcômero. D. O cálcio intracelular liga-se ao complexo de calmodulina– SERCA e força o seqüestro de mais cálcio no retículo sarco- plasmático. E. O cálcio intracelular facilita a formação de ATP, que se liga às pontes cruzadas de actina–miosina e induz a liberação de cálcio durante o relaxamento diastólico. No hospital, a Sra. L. é colocada no monitor cardíaco, e são administrados 10 L de oxigênio com máscara. O exame é notá- vel por estertores bilaterais em todos os campos pulmonares, taquicardia com freqüência cardíaca de 120 bpm e galope B3, pressão venosa jugular elevada para 14 cm acima do ângulo esternal e edema maleolar depressível bilateral. O ECG revela taquicardia sinusal com alterações inespecíficas. Efetua-se uma radiografia de tórax, que revela uma grande silhueta cardía- ca e edema pulmonar alveolar. Estabelece-se um diagnóstico presuntivo de miocardiopatia periparto, que é confirmado pela ecocardiografia de emergência, que revela dilatação do ven- trículo esquerdo com fração de ejeção estimada de 35% com função valvar normal. A Sra. L. é tratada com dobutamina para suporte inotrópico, dopamina para suporte da pressão arterial e furosemida(um diurético de alça) e é internada na unidade cardíaca stepdown. 2. A dopamina possui vários efeitos clínicos em doses diferentes. Qual das seguintes afirmações é correta no que concerne aos efeitos da dopamina? A. A dopamina administrada em taxas lentas atua principalmen- te como agonista nos receptores α1-adrenérgicos, diminuin- do a resistência vascular sistêmica. B. A dopamina administrada em taxas baixas atua como agonis- ta nos receptores tanto α1 quanto β1-adrenérgicos, aumen- tando a freqüência cardíaca e a pressão arterial. C. A dopamina administrada em taxas baixas atua principal- mente como antagonista nos receptores β1-adrenérgicos, diminuindo a freqüência cardíaca. D. A dopamina administrada em taxas altas atua principalmente como agonista nos receptores β2-adrenérgicos, aumentando o tônus do músculo liso brônquico. E. A dopamina administrada em taxas altas atua principalmente como agonista nos receptores α1-adrenérgicos, aumentando a resistência vascular periférica. A Sra. L. excreta uma grande quantidade de urina diluída duran- te as várias horas seguintes. A pressão arterial se estabiliza, e a paciente é desmamada da infusão de dopamina. Inicia-se um tratamento oral com digoxina e um inibidor da enzima conversora de angiotensina. No segundo dia de internação, é desmamada da infusão de dobutamina. No quarto dia de hos- pitalização, a paciente não necessita mais de suplementação de oxigênio, houve melhora do edema maleolar e ela consegue caminhar no corredor. Seis dias após a sua internação, a Sra. L. recebe alta com medicações orais. É aconselhada a evitar qualquer esforço pesado, e um ecocardiograma de acompanha- mento é marcado dentro de 2 meses. 3. Algumas vezes, são utilizados antagonistas dos β-receptores em pacientes com insuficiência cardíaca. Qual a desvantagem poten- cial do uso de um antagonista dos receptores β-adrenérgicos nessa paciente? A. Os antagonistas dos β-receptores podem limitar a ligação da digoxina à bomba de sódio. 88 Capítulo Dezenove B. Os antagonistas dos β-receptores podem limitar os efeitos benéficos do tônus simpático na manutenção do fluxo san- güíneo renal. C. Os antagonistas dos β-receptores podem diminuir ainda mais o débito cardíaco e causar edema pulmonar. D. Os antagonistas dos β-receptores podem deprimir a fre- qüência cardíaca e contribuir para a depressão pós-parto. E. Os antagonistas dos β-receptores podem impedir a remo- delagem do ventrículo esquerdo durante a recuperação da miocardiopatia periparto. 4. Qual dos seguintes agentes é um inibidor da fosfodiesterase? A. dopamina em baixa dose B. milrinona C. carvedilol D. isoproterenol E. digitoxina 5. Tanto os agonistas dos receptores β quanto os inibidores da fos- fodiesterase aumentam a contratilidade cardíaca, porém através de mecanismos diferentes. Qual o efeito final desses agentes responsável pelo seu efeito desejado? A. Ambos os agentes aumentam a contratilidade cardíaca atra- vés da elevação dos níveis intracelulares de cAMP. B. Ambos os agentes aumentam a contratilidade cardíaca atra- vés de aumento da sensibilidade dos receptores β1-adrenér- gicos. C. Ambos os agentes aumentam a contratilidade cardíaca atra- vés de aumento no número de pontes cruzadas de actina– miosina. D. Ambos os agentes aumentam a contratilidade cardíaca ao reduzir a resistência vascular periférica. E. Ambos os agentes aumentam a contratilidade cardíaca atra- vés de sua ligação a uma enzima, inibindo a sua ação. 20 Farmacologia da Regulação do Volume Fig. 20.1 Anatomia do Néfron e Locais de Ação dos Diuréticos. A filtração de líquido pelo néfron começa no glomérulo, onde um ultra- filtrado do plasma penetra no espaço epitelial renal (urinário). A seguir, esse ultrafiltrado flui através de quatro segmentos seqüenciais do néfron (1-4). 1. A partir do glomérulo, o ultrafiltrado dirige-se para o túbulo contornado proximal (TCP) e, a seguir, para (2) a alça de Henle, que inclui o ramo descendente delgado (RDD), o ramo ascendente espesso (RAE), o ramo ascendente espesso medular (RAEM) e o ramo ascendente espesso cortical (RAEC) da alça de Henle. 3. O túbulo contornado distal (TCD) inclui a mácula densa e o aparelho justaglomerular (JG). 4. O ducto coletor consiste no ducto coletor cortical (DCC), no ducto coletor medular externo (DCME) e no ducto coletor medular interno (DCMI). Os agentes farmacológicos inibem transportadores de solutos específicos no interior de cada segmento do néfron. Os inibidores da anidrase carbônica atuam no túbulo contornado proximal, os diuréticos de alça atuam nos ramos ascendentes espessos medular e cortical, os diuréticos tiazídicos inibem o transporte de solutos no túbulo contornado distal, e os diuréticos pou- padores de potássio inibem a reabsorção de Na+ no ducto coletor. Fig. 20.2 Efeitos dos Inibidores do Sistema de Renina-Angiotensina sobre a Pressão Arterial. Os inibidores da enzima conversora de angio- tensina (ECA) impedem a conversão da angiotensina I em angiotensina II (ambas nos pulmões e localmente nos vasos sangüíneos e tecidos) e inibem a inativação da bradicinina. Ambas as ações dos inibidores da ECA levam à vasodilatação. A inibição da conversão da angiotensina I diminui a vasoconstrição mediada por AT1 e reduz a secreção de aldosterona; ambos os efeitos atuam para diminuir a pressão arterial. A inibição da atividade da cininase II resulta em níveis mais elevados de bradicini- na, que promovem vasodilatação. A vasodilatação aumentada diminui a resistência vascular periférica, que reduz a pressão arterial. Em contraste, os antagonistas de AT1 (também conhecidos como bloqueadores dos receptores de angiotensina [BRA]) diminuem a síntese de aldosterona e interrompem a vasoconstrição mediada por AT1, porém não alteram os níveis de bradicinina. Observe que a tosse induzida pela bradicinina constitui um importante efeito colateral dos inibidores da ECA, mas não dos antagonistas de AT1. Adaptado, com autorização, de Katzung BG, ed. Basic & Clinical Pharmacology, 8th Ed. Figure 11-6, p. 173. New York: Lange Medical Books/The McGraw-Hill Companies, Inc., 2001. 1 3 4 2 Inibidores da anidrase carbônica TCPGloméruloJG Arteríola aferente Arteríola eferente TCD Diuréticos tiazídicos Diuréticos de alça RAEC RAEM RAE RDD DCMI Diuréticos poupadores de potássio DCME DCC Angiotensinogênio Renina Angiotensina I ECA Inibidor da ECA Angiotensina II Antagonistas dos receptores AT1 Secreção de aldosterona (mediada por receptores de AT1) Vasoconstrição (mediada por receptores de AT1) Aumento da reabsorção de Na+ e H2O Aumento da resistência vascular periférica Elevação da pressão arterial Cininogênio Calicreína Bradicinina Cininase II Inativa Vasodilatação Diminuição da resistência vascular periférica Redução da pressão arterial 90 Capítulo Vinte OBJETIVOS ! Compreender a fisiologia e a fisiopatologia da regu- lação do volume extracelular. ! Compreender a farmacologia, as indicações e os efei- tos adversos dos agentes que modificam os sinais neuro-hormonais, controlando a regulação do volu- me. ! Compreender a farmacologia, as indicações e os efei- tos adversos dos agentes que alteram a reabsorção renal de sódio e de água. !! CASO 1 O Sr. R., de 70 anos de idade, depois de ter acordado 1:00 hora da manhã com falta de ar pela quarta noite consecutiva, está sendo levado de ambulância ao departamento de emergência. Toda vez que sentia “um aperto do peito” e “não conseguia res- pirar”, esse desconforto era, de certo modo, aliviado ao sentar na cama. Ele também lembra episódios anteriores de dispnéia ao subir escadas. O exame físico revela taquicardia, hipertensão leve, edema podálico (edema dos pése da parte inferior das pernas) e ester- tores pulmonares bilaterais na inspiração. A química do soro não revela nenhuma elevação da troponina T (um marcador de lesão dos cardiomiócitos), porém uma ligeira elevação dos níveis de creatinina e do nitrogênio sangüíneo (BUN). O eletro- cardiograma mostra evidências de antigo infarto do miocárdio. A ecocardiografia revela uma diminuição da fração de ejeção ventricular esquerda (a fração de sangue no ventrículo ao final da diástole, que é ejetada quando o ventrículo se contrai) sem dilatação ventricular. Com base nos achados clínicos de redução do débito cardí- aco, congestão pulmonar e edema periférico, foi estabelecido o diagnóstico de insuficiência cardíaca aguda. O aumento da creatinina e do BUN do Sr. R. também indica um elemento de insuficiência renal. QUESTÕES 1. Que mecanismos levaram a congestão pulmonar e edema podálico no Sr. R.? A. A insuficiência renal aguda causou reabsorção de sódio e de água, sobrecarga de volume e congestão pulmonar aumen- tada e edema podálico. B. O infarto agudo do miocárdio diminuiu a função ventricular esquerda e causou congestão pulmonar aumentada e edema podálico. C. O comprometimento da função cardíaca causou reabsorção renal de sódio e de água, resultando em congestão pulmonar e edema podálico. D. A lesão pulmonar aguda causou transudação de líquido no interstício pulmonar e congestão pulmonar. E. O comprometimento da função cardíaca causou edema podá- lico, que evoluiu para congestão pulmonar, de acordo com o modelo por transbordamento da regulação de volume. A terapia farmacológica é instituída, incluindo um agente ino- trópico positivo, um vasodilatador coronariano, um inibidor da enzima conversora de angiotensina (ECA) anti-hipertensivo e um diurético de alça. Uma vez estabilizada a condição do Sr. R. no decorrer de 3 dias, a dose do diurético de alça é diminuída e, a seguir, suspensa. 2. Por que foi prescrito um diurético de alça ao paciente? A. Os diuréticos de alça inibem a reabsorção de sódio no túbulo contornado distal, enquanto produzem um efeito vasodilata- dor direto, que é benéfico para pacientes com insuficiência cardíaca. B. Os diuréticos de alça inibem a alta capacidade de reabsorção de sódio no ramo ascendente espesso da alça de Henle e produzem rápida diurese e redução do volume intravascular. C. Os diuréticos de alça inibem a reabsorção de sódio no ducto coletor, onde a concentração intraluminal mais elevada de sódio é liberada no contexto da insuficiência cardíaca. D. Os diuréticos de alça inibem a reabsorção de sódio, de cálcio e de potássio através do néfron, reduzindo o volume intravas- cular e intensificando a secreção de eletrólitos perigosamente elevados. E. Os diuréticos de alça inibem a reabsorção de sódio no ramo ascendente espesso da alça de Henle, enquanto revertem a disfunção contrátil cardíaca patológica associada à insuficiên- cia cardíaca. 3. Os diuréticos diminuem a reabsorção renal de sódio ao longo de quatro segmentos do néfron, regulando o volume e a com- posição da urina. Qual das seguintes afirmações é correta no que concerne aos agentes diuréticos? A. Os inibidores da anidrase carbônica podem precipitar glau- coma agudo. B. Os diuréticos tiazídicos podem exacerbar a nefrolitíase. C. Os diuréticos de alça reduzem rapidamente o volume intra- vascular cerebral no contexto do traumatismo cranioencefá- lico fechado. D. Os diuréticos poupadores de potássio inibem a ação da aldosterona no receptor de mineralocorticóides. E. O manitol está associado a ototoxicidade. A angiografia coronariana eletiva revela estenose significativa do ramo interventricular anterior da artéria coronária esquerda. O Sr. R. é submetido a angiografia com balão e colocação de stent e, após receber alta, permanece estável como paciente ambulatorial. A suspensão do esquema de fármacos é acompa- nhada por dieta com baixo teor de sal e de gordura. 4. De que maneira os inibidores da ECA melhoram a hemodinâ- mica cardiovascular? A. Os inibidores da ECA impedem a miocardiopatia associada à gravidez. B. Os inibidores da ECA aumentam os níveis de bradicinina para inibir as taquiarritmias. C. Os inibidores da ECA antagonizam os efeitos vasoconstritores da angiotensina nos seus receptores. D. Os inibidores da ECA inibem a síntese de hormônio antidiu- rético e reduzem a reabsorção de água e o volume intravas- cular. Farmacologia da Regulação do Volume 91 E. Os inibidores da ECA causam vasodilatação arterial e limitam o desenvolvimento de miocardiopatia após infarto do mio- cárdio. 5. A reabsorção de sódio é maior: A. no túbulo proximal B. nos sinusóides C. no ramo ascendente espesso da alça de Henle D. no túbulo contornado distal E. no ducto coletor !! CASO 2 Kathy M. é uma mulher de 42 anos de idade com longa his- tória de abuso de álcool, que consome quase 1 L de vodca diariamente, há 10-15 anos. Consultou pela última vez o seu principal médico, o Dr. Binney, há 5 anos numa visita de rotina. Ele a advertiu sobre o consumo de álcool e aconselhou que ela procurasse os Alcoólicos Anônimos. Alertou-a sobre o risco de numerosas complicações a longo prazo ao qual estava se expondo se não parasse de beber. Hoje, a Srta. M. retorna ao consultório do Dr. Binney com medo de que possa estar doente. Engordou aproximadamente 5,5 kg nas últimas 2 semanas e percebe que os pés e tornozelo estão inchados. Os tênis estão apertados, e as meias deixam uma marca nos tornozelos. Sente uma fadiga generalizada. Ao exame, o Dr. Binney verifica que a Srta. M. está bastante pálida, porém apresenta eritema palmar e angioma aracneifor- me disperso no tórax. O abdome está ligeiramente protuberante, e ele observa uma borda hepática nodular não-hipersensível que se estende 3 cm abaixo da borda costal direita. Percebe também uma macicez móvel à percussão do abdome quando ela passa de uma posição de decúbito dorsal para decúbito. Os tornozelos e os pés estão inchados, com edema depressível. Ele solicita uma ultra-sonografia, que revela um fígado nodular e pequeno, porém sem massas focais, compatível com cirrose. QUESTÕES 1. Qual a relação entre a cirrose hepática e o desenvolvimento de ascite e edema? A. A teoria do enchimento deficiente propõe que a elevação da pressão hidrostática intra-hepática provoca ascite, diminui o volume intravascular e promove a reabsorção renal de sódio. B. A função de síntese hepática encontra-se diminuída, incluindo a produção de hormônios peptídicos, que são responsáveis pela manutenção das junções firmes das células endoteliais vasculares. C. O modelo por transbordamento para ascite propõe que a insuficiência renal leva a retenção excessiva de sódio, sobre- carga de volume e elevação da pressão hidrostática intra- hepática. D. A lesão hepática permite à albumina atravessar os sinusóides hepáticos para os tecidos intersticiais, revertendo as pressões oncóticas e causando ascite e edema intersticial. E. A cirrose hepática obstrui o fluxo na veia porta, desviando o sangue para os membros inferiores. O Dr. Binney solicita exames de laboratório, incluindo hemo- grama completo com contagem de plaquetas; eletrólitos, incluindo potássio; e provas de função hepática de síntese e de função renal. Após receber os resultados, avisa à Srta. M. que ela apresenta lesão significativa do fígado, provavelmente causada pelo consumo crônico de álcool. Fornece instruções para uma restrição estrita de sódio e prescreve espironolac- tona, um diurético poupador de potássio. Ela deve se pesar diariamente até voltar para nova consulta dentro de 3 semanas. Finalmente, ele novamente a aconselha a procurar ajuda para abstinência de álcool. 2. Qual o papel da espironolactona no tratamento do edema indu- zido pela cirrose? A.A espironolactona retarda a evolução da cirrose hepática ao inibir a fibrose mediada por fatores de crescimento. B. A espironolactona é um potente diurético, que diminui rapi- damente a extensão da ascite e o edema periférico. C. A espironolactona promove a retenção de potássio, que é perdido do espaço intravascular através de transudação no líquido ascítico. D. A espironolactona inibe o receptor de androgênios e o desen- volvimento de ginecomastia no consumo crônico de álcool com cirrose. E. A espironolactona antagoniza os efeitos do hiperaldostero- nismo na cirrose com edema. A Srta. M. toma a espironolactona e restringe a ingestão de sódio. Ela perde aproximadamente 3,6 kg, e, embora os pés ainda estejam inchados no final do dia, os tênis estão menos apertados quando ela os calça pela manhã. Duas semanas após ter consultado o Dr. Binney, ela recebe um telefonema no meio da noite com a trágica notícia de que o seu filho acabou de morrer em um acidente de motocicleta por colisão. Abatida pelo sofrimento, ela esquece de tomar sua medicação e, dentro de uma semana, volta a beber diariamente. Ela esquece a sua visita de acompanhamento com o Dr. Binney, e, apesar de um telefonema e de vários lembretes por correio, ela não volta a seu principal médico. 3. Os efeitos adversos potenciais dos diuréticos poupadores de potássio incluem: A. alcalose metabólica hipocalêmica B. hirsutismo C. alcalose de contração hipercalêmica D. acidose metabólica hipercalêmica E. diabetes insípido Seis meses depois, o Dr. Binney recebe uma chamada de uma clínica de atendimento de urgência. A Srta. M. chegou à clí- nica queixando-se de dispnéia intensa e “sensação de aperto” abdominal. É transportada de ambulância até o departamen- to de emergência local, onde o Dr. Binney a encontra. Está despenteada e com angústia respiratória moderada. Os sinais vitais revelam temperatura normal, freqüência cardíaca de 132 bpm, freqüência respiratória de 24 respirações/min e pressão arterial de 96/52 mm Hg. Quando o Dr. Binney a examina, ele verifica a presença de icterícia da esclera, estertores pulmonares basilares bilaterais e abdome distendido e firme, com uma onda 92 Capítulo Vinte líquida, compatível com ascite grave de grau 3. Percebe tam- bém que a Srta. M. apresenta edema dos membros inferiores, que começa nos pés e atinge o ligamento inguinal. A paciente é internada. 4. Após o médico residente efetuar uma paracentese para remo- ver aproximadamente 5 L de líquido ascítico ralo e amarelado do abdome da Srta. M., o Dr. Binney pede ao enfermeiro que administre líquidos intravenosos. Quais dos seguintes agentes intravenosos irá atuar como expansor de volume através de aumento da pressão oncótica intravascular, promovendo o movimento de líquido intersticial de volta ao espaço intravas- cular? A. manitol B. potássio C. desmopressina D. albumina E. água 5. Qual das seguintes substâncias está elevada em resposta à sobrecarga de volume? A. cininase II B. renina C. peptídio natriurético de tipo B D. vasopressina E. albumina 21 Farmacologia do Tônus Vascular OBJETIVOS ! Compreender a base molecular do controle do tônus vascular. ! Compreender a farmacologia, os usos terapêuticos e os efeitos adversos das várias classes de vasodilata- dores. !! CASO 1 G.F., um homem de 63 anos de idade com história de hiperten- são, diabetes e hipercolesterolemia, começa a sofrer episódios de dor torácica ao fazer esforços. Uma semana depois do pri- meiro episódio, G.F. tem uma crise de dor torácica enquanto corta a grama. Vinte minutos depois de ter começado a sentir dor, G.F. toma dois comprimidos de nitroglicerina sublingual de sua esposa. Dentro de poucos minutos após tomar o medi- camento, sente-se muito melhor. QUESTÕES 1. Qual o mecanismo pelo qual a nitroglicerina sublingual atua tão rapidamente para aliviar a dor torácica? A. A nitroglicerina sublingual é rapidamente absorvida e meta- bolizada a óxido nítrico, que aumenta as concentrações intra- celulares de peroxinitrito e inibe a vasoconstrição associada à guanilil ciclase das artérias epicárdicas, aumentando o supri- mento de oxigênio do miocárdio. B. A nitroglicerina sublingual é rapidamente absorvida e ativa- da por um metabolismo de primeira passagem nas células epiteliais das artérias coronárias, inibindo a degradação do óxido nítrico e aumentando a dilatação arterial epicárdica associada ao óxido nítrico e o suprimento de oxigênio do miocárdio. C. A nitroglicerina sublingual é rapidamente absorvida e meta- bolizada a óxido nítrico, que dilata a vasculatura pulmonar, aliviando a hipertensão pulmonar e aumentando o suprimen- to de oxigênio do miocárdio. Fig. 21.1 Mecanismo de Contração e Relaxamento da Célula Muscular Lisa Vascular. A contração e o relaxa- mento da célula muscular lisa vascular são controlados pela ação coordenada de vários mediadores de sinalização intracelulares. A entrada de Ca2+ através dos canais de Ca2+ do tipo L regulados por voltagem (painel à esquerda) cons- titui o estímulo inicial para contração. A entrada de Ca2+ na célula ativa a calmodulina (CaM). O complexo Ca2+-CaM ativa a cinase das cadeias leves de miosina (MLCK) que fosforila a cadeia leve de miosina (Miosina-LC). A miosi- na-LC fosforilada interage com a actina, formando pontes cruzadas de actina–miosina, um processo que dá início à contração da célula muscular lisa vascular. O relaxamento (painel à direita) consiste em uma série coordenada de eta- pas, que atuam para desfosforilar (e, portanto, inativar) a miosina-LC. O óxido nítrico (NO) difunde-se para o interior da célula e ativa a guanilil ciclase. A guanilil ciclase ativa- da catalisa a conversão do trifosfato de guanosina (GTP) em 3´,5´-monofosfato de guanosina cílico (cGMP). O cGMP ativa a miosina-LC fosfatase, que desfosforila a cadeia leve de miosina, impedindo a formação de pontes cruzadas de actina–miosina. Em conseqüência, ocorre relaxamento da célula muscular lisa vascular. A forma ativa de cada enzima está indicada em itálico. P Ca2+ Ca2+-CaM Ca2+ + CaM Contração Relaxamento Canal de Ca2+ de tipo L regulado por voltagem Guanilil ciclase Guanilil ciclase cGMP MLCK GTP Miosina-LC fosfatase Miosina-LC fosfatase Miosina-LC MLCK Miosina-LC P Miosina-LC Pontes cruzadas de actina–miosina Célula muscular lisa vascular Contração Relaxamento NO 94 Capítulo Vinte e Um D. A nitroglicerina sublingual é rapidamente absorvida e meta- bolizada a óxido nítrico, que dilata as veias sistêmicas e as artérias epicárdicas, diminuindo a demanda de oxigênio do miocárdio e aumentando o suprimento de oxigênio do mio- cárdio. E. A nitroglicerina sublingual é rapidamente absorvida e meta- bolizada a óxido nítrico, que dilata as arteríolas sistêmicas, diminuindo a resistência vascular sistêmica e reduzindo a demanda de oxigênio do miocárdio. 2. Qual dos seguintes itens é um efeito adverso comum da admi- nistração de nitroglicerina? A. hepatite B. perda transitória da visão C. bradicardia D. náusea E. cefaléia G.F. sente-se tão bem que resolve tomar uma das pílulas de sildenafil (Viagra) que um amigo lhe havia oferecido ante- riormente. Alguns minutos depois de tomar sildenafil, G.F. apresenta rubor e dor de cabeça latejante e sente o coração disparado. Ao levantar-se, sente tonteira e desmaia. É imediata- mente levado ao departamento de emergência, onde descobrem que está com hipotensão grave. 3. De que maneira o sildenafil e os nitratos orgânicos interagem para precipitar hipotensão grave? A. Ambos os agentes promovem vasodilatação. B. Ambos os agentes reduzem a contratilidade do miocárdio. C. Ambos os agentes desviam o fluxo sangüíneo sistêmico para o corpo cavernoso. D. Ambos os agentes diminuem o tônussimpático normal da vasculatura sistêmica. E. Ambos os agentes promovem a transudação de líquido da vasculatura sistêmica e reduzem o volume intravascular cir- culante. G.F. é rapidamente colocado em decúbito dorsal com as pernas elevadas e monitorado até recuperar a consciência. O médi- co considera a administração de um agonista α-adrenérgico como a fenilefrina, mas a rápida melhora da hipotensão do paciente após ter sido colocado em decúbito dorsal sugere não haver necessidade de intervenção farmacológica. Após a recuperação de G.F., o médico discute com ele os perigos de tomar medicamentos sem prescrição e, especificamente, o risco da administração concomitante de nitratos orgânicos e sildenafil. 4. De que maneira a fenilefrina seria eficaz no tratamento da hipo- tensão de G.F.? Fig. 21.2 Locais de Ação dos Vasodilatadores. Os vasodilatadores atuam em diversos locais na célula muscular lisa vascular. Painel da esquerda: Os bloqueadores dos canais de Ca2+ e os ativadores dos canais de K+ inibem a entrada de Ca2+ nas células musculares lisas vasculares ao diminuir a ativação dos canais de Ca2+ do tipo L. Os inibidores da enzima de conversão da angiotensina (ECA), os antagonistas da angiotensina I (AT1), os α1-antagonistas e os antagonistas dos receptores de endotelina (ETA, ETB) diminuem a sinalização do Ca2+ intracelular. O Ca2+ citosólico diminuído resulta em menor contração da célula muscular lisa vascular e, portanto, em relaxamento. Painel da direita: Os inibidores da ECA inibem a cininase II (KII), resultando em aumento dos níveis de bradicinina. Os nitratos liberam NO. O sildenafil inibe a fosfodiesterase (PDE). Todos esses agentes provocam aumento do cGMP, um efeito que promove o relaxamento do músculo liso vascular. A forma ativa de cada enzima está indicada em itálico. α1 = receptor α1-adrenérgico; CaM = calmodulina; eNOS = óxido nítrico endotelial sintase; ET-1 = endotelina-1; MLCK = cinase das cadeias leves de miosina; Miosina-LC = cadeia leve de miosina; PDE = fosfodiesterase. Bloqueadores dos canais de Ca2+ Ativadores dos canais de K+ Canal de Ca2+ de tipo L Canal de KATP Antagonistas a1 Antagonistas ETA, ETB Inibidores da ECA Inativação KII Bradicinina Inibidores da PDE5 Arginina eNOS Receptor debradicinina cGMP Nitratos Miosina-LC fosfatase Miosina-LC fosfatase Miosina-LC RelaxamentoContração Célula muscular lisa vascular Miosina-LC Miosina-LC P MLCKMLCK Hiperpolarização Antagonistas da AT1 Inibidores da ECA ECA Ca2+ NE K+ AT-IIAT-I AT1 ETA, ETB Ca2+-CaM Ca2+ CaM NO ET-1 GMP PDE Farmacologia do Tônus Vascular 95 A. A estimulação dos receptores α1-adrenérgicos no músculo liso vascular iria promover vasoconstrição arterial, aumentan- do a resistência vascular sistêmica e a pressão arterial. B. A estimulação dos receptores α1-adrenérgicos no sistema de condução cardíaca iria aumentar a freqüência e a contratili- dade cardíacas, aumentando o débito cardíaco e a pressão arterial. C. A estimulação dos receptores α1-adrenérgicos no músculo liso vascular iria promover constrição venosa, diminuir a capa- citância venosa e aumentar a pré-carga, o débito cardíaco e a pressão arterial. D. A estimulação dos receptores α2-adrenérgicos no sistema nervoso central iria aumentar o tônus simpático geral e aumentar o débito cardíaco, a resistência vascular sistêmica e a pressão arterial. E. A estimulação dos receptores α2-adrenérgicos no músculo liso vascular iria promover uma retroalimentação negativa da liberação de norepinefrina e elevação da pressão arterial. 5. Qual o mecanismo de ação do minoxidil? A. O minoxidil abre os canais de potássio, hiperpolariza a célu- la e promove a liberação de cálcio do retículo sarcoplas- mático. B. O minoxidil abre os canais de potássio e impede a ligação de agonistas do receptor de endotelina. C. O minoxidil abre os canais de potássio e impede a despo- larização e o influxo de cálcio. D. O minoxidil abre os canais de cálcio e promove o influxo de cálcio. E. O minoxidil bloqueia os canais de cálcio e impede a despo- larização e o influxo de cálcio. !! CASO 2 Jack, um estudante de nível secundário de 15 anos de ida- de, tem um histórico de reação alérgica grave a picadas de abelha. Carrega consigo sempre um auto-injetor de epinefri- na (EpiPen®) para a possível eventualidade de ser picado por alguma abelha enquanto joga hóquei. Jack está mostrando aos colegas como o auto-injetor atua, quando um deles descarrega acidentalmente o aparelho e injeta na face palmar da base do dedo indicador esquerdo 0,3 mg de uma solução de epinefrina 1:1.000. Depois de vários minutos, o dedo indicador do colega esta pálido e frio. QUESTÕES 1. Em condições fisiológicas normais, qual o controle da epinefrina? A. A epinefrina é liberada nos receptores pré-ganglionares, que controlam subseqüentemente a liberação de norepinefrina nos receptores α e β-adrenérgicos pós-sinápticos. B. A epinefrina é liberada da glândula supra-renal na circulação sistêmica, onde proporciona um feedback negativo para a liberação pré-sináptica de norepinefrina. C. A epinefrina é liberada das terminações nervosas adrenér- gicas pré-sinápticas nos receptores α e β-adrenérgicos pós- sinápticos. D. A epinefrina é liberada da glândula supra-renal diretamente nos receptores α e β-adrenérgicos pós-ganglionares. E. A epinefrina é liberada da glândula supra-renal na circulação sistêmica, onde pode atuar nos receptores tanto α quanto β-adrenérgicos. O colega de Jack procura o enfermeiro da escola, que mergulha o seu dedo em água quente durante 30 minutos. Entretanto, não há nenhuma mudança na aparência do dedo. O treinador de hóquei o leva até o departamento de emergência mais próximo para avaliação. Ao chegar, o exame é notável por uma freqüên- cia cardíaca de 68 bpm e pressão arterial de 118/72 mm Hg. O dedo continua pálido e frio. O repreenchimento capilar quando a ponta do dedo é comprimida é tardio, de cerca de 5 segundos. O médico de plantão está preocupado com a possibilidade de isquemia da ponta do dedo e inicia um tratamento com pasta de nitroglicerina tópica. 2. Qual o mecanismo pelo qual a pasta de nitroglicerina tópica pode tratar o dedo desse paciente? A. A nitroglicerina tópica é absorvida por via transdérmica e inibe a vasodilatação causada pela fosfodiesterase tipo 3. B. A nitroglicerina tópica é absorvida por via transdérmica e inibe a vasodilatação causada pelo influxo de cálcio. C. A nitroglicerina tópica é absorvida por via transdérmica e estimula a vasodilatação produzida pelos receptores β2-adre- nérgicos. D. A nitroglicerina tópica é absorvida por via transdérmica e libera óxido nítrico para causar vasodilatação. E. A nitroglicerina tópica aquece localmente a pele para inten- sificar o metabolismo da epinefrina. Depois de 20 minutos, observa-se uma melhora mínima no dedo do paciente. O médico de plantão utiliza uma agulha de pequeno calibre para infiltrar localmente fentolamina ao redor do local da punção do auto-injetor. Depois de 5 minutos, a cor do dedo voltou ao normal. 3. De que maneira a fentolamina tratou o dedo pálido e frio desse paciente? A. A fentolamina estimulou o influxo de cálcio nas artérias di gitais. B. A fentolamina bloqueou a vasoconstrição α1-adrenérgica das artérias digitais. C. A fentolamina liberou NO das células endoteliais das artérias digitais. D. A fentolamina intensificou o metabolismo da epinefrina. E. A fentolamina aumentou a vasodilatação β2-adrenérgica das artérias digitais. 4. Qual das seguintes afirmações é correta no que concerne aos bloqueadores dos canais de cálcio? A. A nifedipina pode ser administrada uma vez ao dia para controlar as taquiarritmias. B. O diltiazem possui altabiodisponibilidade, em virtude de seu metabolismo hepático de primeira passagem. C. A nifedipina em overdose pode causar bloqueio do nó atrio- ventricular. 96 Capítulo Vinte e Um D. O verapamil pode causar taquicardia reflexa. E. A anlodipina tem um início de ação tardio, porém longa duração de ação. 5. O nitroprussiato de sódio libera não-enzimaticamente óxido nítrico para dilatar tanto as artérias quanto as veias. Que outro composto é liberado durante o metabolismo do nitroprussiato de sódio e qual a toxicidade resultante? A. endotelina: constrição da artéria pulmonar e hipertensão B. tiocianato: acidose metabólica, arritmias ventriculares C. cianeto: insuficiência renal aguda D. cianeto: acidose metabólica, arritmias ventriculares E. cianeto: cianose, edema periférico 22 Farmacologia da Hemostasia e Trombose OBJETIVOS ! Compreender a fisiologia da hemostasia e a patogenia da trombose. ! Compreender a farmacologia, as indicações e os efei- tos adversos dos agentes antiplaquetários, dos anticoa- gulantes e dos trombolíticos. !! CASO 1 O Sr. S., um homem de 55 anos de idade com história de hipertensão e tabagismo, acorda no meio da noite com sensa- ção de pressão no tórax de localização subesternal, sudorese e dispnéia. Liga para a emergência e é levado até o departamento de emergência. O eletrocardiograma revela inversões profundas da onda T nas derivações V2-V5. O painel de biomarcadores cardíacos mostra um nível de creatinocinase de 800 UI/L (nor- mal = 600-400 UI/L), com fração MB (a isoforma específica do coração) de 10%, sugerindo infarto do miocárdio. É tratado com nitroglicerina intravenosa, aspirina, heparina não-fracio- nada e eptifibatida, porém a dor torácica persiste. É levado ao laboratório de cateterismo cardíaco, onde descobrem que ele tem um trombo ocupando 90% do RIVA (ramo interventricular anterior) da artéria coronária esquerda, com fluxo distal lento. QUESTÕES 1. Qual dos seguintes fatores pode ter contribuído para o apareci- mento de um coágulo sangüíneo na artéria coronária do Sr. S.? A. uso de aspirina B. fluxo sangüíneo turbulento no átrio direito C. pressão arterial elevada D. asma E. neutropenia O Sr. S. submete-se a uma angioplastia e colocação de stent, que são bem-sucedidas. Por ocasião da colocação do stent, adminis- tra-se uma dose de ataque intravenosa de clopidogrel. A hepa- rina é interrompida, a eptifibatida é mantida por mais 18 horas e o paciente é transferido para a enfermaria de telemetria. 2. Se a heparina de baixo peso molecular tivesse sido utilizada em lugar da heparina não-fracionada, como o estado de coagulação do paciente poderia ter sido monitorado? A. O tempo de protrombina (TP) iria medir precisamente o efeito anticoagulante da heparina de baixo peso molecular. B. O tempo de tromboplastina parcial ativado (TTPa) iria medir precisamente o efeito anticoagulante da heparina de baixo peso molecular. C. A mensuração da atividade da antitrombina iria refletir o efeito anticoagulante da heparina de baixo peso molecular. D. A mensuração precisa do efeito anticoagulante da heparina de baixo peso molecular iria depender da medida da ativi- dade de antifator Xa. E. A mensuração do efeito anticoagulante da heparina de baixo peso molecular seria imprecisa se o Sr. S. tivesse insuficiência renal. Seis horas mais tarde, observam que o Sr. S. apresenta um hematoma (área de hemorragia localizada) em expansão na coxa direita, abaixo do local de acesso arterial. A eptifibatida é interrompida, e aplica-se pressão no local de acesso. O hema- toma tem a sua expansão interrompida. 3. O que explica a eficácia da eptifibatida na inibição da agregação plaquetária? A. A eptifibatida intensifica a produção, pelas células endoteliais, de prostaciclina, que inibem a agregação plaquetária. B. A eptifibatida é um antagonista do receptor de GPIIb–IIIa das plaquetas, que impede a ligação do fibrinogênio às plaque- tas. C. A eptifibatida é um anticorpo monoclonal murino–humano dirigido contra o tromboxano derivado das plaquetas, que impede a ativação da agregação plaquetária. D. A eptifibatida catalisa a degradação do fibrinogênio, impedin- do a sua ligação às plaquetas ativadas. E. A eptifibatida inibe a adenilil ciclase e reduz os níveis intra- celulares de monofosfato de adenosina cíclico (cAMP) e a ativação e agregação subseqüentes das plaquetas. 4. Quando o hematoma em expansão foi observado, alguma outra medida, além de interromper a eptifibatida, poderia ter sido utilizada para reverter o efeito desse agente? 98 Capítulo Vinte e Dois Fig. 22.1 Mecanismo de Ação dos Agentes Antiplaquetários. A. Os antiinflamatórios não-esteróides (AINE) e os antagonistas da glicoproteína IIB–IIIa (GPIIb–IIIa) inibem etapas na ativação das plaquetas mediadas pelo tromboxano A2 (TxA2). A aspirina inibe a ciclooxigenase através da acetilação covalente da enzima próximo a seu sítio ativo, resultando em diminuição da produção de TxA2. O efeito é profundo, visto que as plaque- tas carecem da capacidade de sintetizar novas moléculas de enzima. Os antagonistas da GPIIb–IIIa, como o anticorpo monoclonal abciximab e os antagonistas que consistem em pequenas moléculas, a eptifibatida e a tirofibana (não mostradas), inibem a agregação plaquetária, uma vez que impedem a ativação da GPIIb–IIIa (linha tracejada), resultando em diminuição da ligação cruzada das plaquetas pelo fibrinogênio. B. O clopidogrel, a ticlopidina e o dipiridamol inibem etapas na ativação das plaquetas mediada pelo difosfato de adenosina (ADP). O clopidogrel e a ticlopidina são antagonistas do receptor P2Y(ADP). O dipiridamol inibe a fosfodiesterase (PDE), impedindo, assim, a degradação do monofosfato de adenosina cíclico (cAMP) e aumentando a sua concentração citoplasmática. PKC PKC (ativa) PIP2 PLA2 IP3 DAG β γ GTP αq GDP αq GPIIb-IIIa β γ GDP αi αi β γ β γ GTP αq GDP αq GDP αq PKA GTP PLC Ca2+ Ca2+ TxA2 (liberado pelas plaquetas ativadas) AINE (aspirina, outros) Abciximab TXA2-R Ácido araquidônico Ciclooxigenase Fibrinogênio A Clopidogrel, ticlopidina Adenilil ciclase Receptor P2Y(ADP) Receptor de trombina Receptor P2Y1 Trombina AMP PLC ADP ADP Ativação das plaquetas Ativação das plaquetas ATP cAMP PDE Dipiridamol B Farmacologia da Hemostasia e Trombose 99 Fig. 22.2 Efeitos Diferenciais da Heparina Não-fracionada e da Heparina de Baixo Peso Molecular sobre a Inativação dos Fatores da Coa- gulação. Efeito sobre a trombina: Para catalisar a inativação da trombina, a heparina deve ligar-se tanto à antitrombina III, através de uma unidade de pentassacarídio de alta afinidade, quanto à trombina, através de uma unidade adicional de 13 sacarídios. A heparina de baixo peso molecular (LMWH) não contém um número suficiente de unidades de sacarídios para ligar-se à trombina, e, por conseguinte, é um catalisador precário para a inativação da trombina. Os inibidores seletivos Xa não inativam a trombina, enquanto os inibidores diretos da trombina a inativam seletivamente. Efeito sobre o fator Xa: A inativação do fator Xa exige apenas a ligação da antitrombina III à unidade de pentassacarídio de alta afinidade. Como a heparina não-fracionada, a heparina de baixo peso molecular e o fondaparinux contêm esse pentassacarídio, todos esses agentes são capazes de catalisar a inativação do fator Xa. Os inibidores diretos da trombina não exercem nenhum efeito sobre o fator Xa. ATIII ATIII LMWH LMWH ATIIIATIII Xa Xa ATIII Xa Classe de Anticoagulante Efeito sobre a Trombina Efeito sobre o Fator Xa Heparina não-fracionada (cerca de 45 unidades de sacarídio, PM ~ 13.500) Trombina Heparina Heparina Liga-se à antitrombina III(ATIII) e à trombina (inativa a trombina) Liga-se à antitrombina III (ATIII) através de pentassacarídio (suficiente para inativar o fator Xa) Heparinas de baixo peso molecular (LMW) (cerca de 15 unidades de sacarídios, PM ~ 4.500) Trombina Liga-se à antitrombina III (ATIII), mas não à trombina (inativa precariamente a trombina) Liga-se à antitrombina III (ATIII), através de pentassacarídio (suficiente para inativar o fator Xa) Inibidores seletivos do fator Xa Nenhum efeito sobre a trombina Fondaparinux Liga-se à antitrombina III (ATIII), através de pentassacarídio (suficiente para inativar o fator Xa) Inibidores diretos da trombina Trombina Trombina Lepirudina Argatroban Inativam seletivamente a trombina Nenhum efeito sobre o fator Xa 100 Capítulo Vinte e Dois A. Infundir vitamina K para reverter o efeito desse agente. B. Infundir plaquetas lavadas e irradiadas para reverter o efeito desse agente. C. Infundir protamina para reverter o efeito desse agente. D. Infundir plasma fresco congelado para reverter o efeito desse agente. E. Não existe nenhuma medida para reverter o efeito desse agente, a não ser interromper a eptifibatida. Dois dias depois, o Sr. S. recebe alta, com prescrição de clopi- dogrel e aspirina, que são administrados para evitar a trombose subaguda do stent. 5. A aspirina, a heparina, o clopidogrel e a eptifibatida possuem ações que limitam a formação de trombo. Qual das seguintes afirmações descreve corretamente como esses agentes irão tra- tar o coágulo sangüíneo do Sr. S. e impedir a formação recorrente de trombos? A. O clopidogrel modifica e inativa o receptor de ADP das pla- quetas e inibe a produção de cAMP pela adenilil ciclase, impedindo a agregação plaquetária. B. A heparina impede a geração de vitamina K reduzida, que é necessária à produção hepática dos fatores da coagulação ativados. C. A aspirina inibe a geração de tromboxano ativador das pla- quetas pelas COX-2 das células endoteliais. D. A eptifibatida intensifica a atividade normal da antitrombina III. E. O clopidogrel antagoniza a ligação do fibrinogênio ao receptor de ADP e inibe a agregação plaquetária. !! CASO 2 A Srta. Eliza S. é uma consultora de negócios de 32 anos de idade de uma nova firma de informática. Acabou de voltar de uma viagem de 5 dias a negócios em Tóquio. Apesar de viajar na classe comercial tanto na ida quanto na volta, ela percebe um certo desconforto na panturrilha esquerda durante a viagem de volta e não consegue ficar confortável. No dia seguinte, o desconforto é mais pronunciado e doloroso na parte espessa da panturrilha e atrás do joelho. Machuca quando ela anda, especialmente de salto alto. Ela marca uma consulta com a sua médica de família para um checkup. A médica da Srta. S. a examina e registra sinais vitais normais. O exame é normal, exceto por algum inchaço e hipersensibi- lidade na panturrilha esquerda. Quando mede a circunferência das panturrilhas da Srta. S. 8 cm abaixo da borda inferior da patela, a panturrilha esquerda mede 2 cm a mais do que a direita. A médica encaminha a Srta. S. ao laboratório de diag- nóstico vascular do hospital local para uma ultra-sonografia não-invasiva do membro inferior. O exame revela a ausência de compressibilidade na veia poplítea esquerda, compatível com trombose venosa profunda. QUESTÕES 1. Qual a principal causa da formação de trombo venoso? A. fluxo sangüíneo turbulento associado a valvas nas veias dos membros inferiores B. estase do fluxo sangüíneo C. tabagismo D. fibrilação atrial E. formação de aneurisma nas veias dos membros inferiores A médica explica à Srta. S. o diagnóstico. Após fazer per- guntas adicionais, descobre que a irmã mais velha da Srta. S. teve um “coágulo sangüíneo no pulmão” há vários anos. A médica da Srta. S. procura saber mais detalhes a respeito de sua história pessoal e familiar e analisa com ela a sua lista de medicações. 2. Qual dos seguintes itens constitui uma causa primária de hiper- coagulabilidade? A. uso de contraceptivos orais B. estado pós-parto C. síndrome do anticorpo antifosfolipídio D. viagens aéreas transcontinentais E. mutação do fator V de Leiden A médica da Srta. S. explica que ela deverá iniciar a tera- pia de anticoagulação enquanto começa a sua avaliação para hipercoagulabilidade. A Srta. S. recebe heparina de baixo peso molecular por via subcutânea e começa a terapia com varfarina oral. Deve retornar ao consultório dentro de 3 dias para a coleta de sangue para exames laboratoriais, a fim de medir o grau de anticoagulação obtido com a varfarina. 3. Por que a Srta. Smith precisa ser tratada com heparina de baixo peso molecular além da varfarina? A. São necessários vários dias para que a varfarina alcance uma concentração plasmática no estado de equilíbrio dinâmico. B. A degradação dos fatores da coagulação pela varfarina come- ça a afetar a coagulação depois de 3 a 4 meias-vidas do fármaco. C. O efeito farmacológico da varfarina sobre a inibição da ati- vação dos fatores da coagulação só se manifesta depois de 3 a 4 meias-vidas dos fatores da coagulação. D. A destruição da vitamina K reduzida pela varfarina leva vários dias para afetar a síntese dos fatores da coagulação ativados. E. São necessários vários dias para que a varfarina alcance níveis tóxicos no fígado. Três meses transcorreram, e a Srta. S. continua tomando varfa- rina, de acordo com o tempo de protrombina, que é monitorado intermitentemente. Quatro meses após iniciar o tratamento com varfarina, a Srta. S. e seu parceiro recebem a boa notícia de que ela está grávida! Ela telefona para a sua médica de família para marcar uma visita com o obstetra. A médica diz que ela precisa interromper a varfarina e marcar uma consulta para avaliação da gravidez e necessidade de anticoagulação adicional. 4. Qual o efeito adverso do tratamento com varfarina associado à gravidez? A. A varfarina pode induzir o sistema enzimático P450 e acelerar o metabolismo das vitaminas pré-natais. B. As vitaminas pré-natais podem intensificar a absorção gas- trintestinal da varfarina. Farmacologia da Hemostasia e Trombose 101 C. A varfarina pode causar malformações congênitas no feto. D. A varfarina pode causar tromboses microvasculares em con- seqüência de seus efeitos sobre a síntese das proteínas C e S ativadas. E. A varfarina pode inibir a formação de vitamina K, que é necessária para o desenvolvimento do coração do feto. 5. Qual das seguintes afirmações é correta no que concerne aos agentes trombolíticos? A. A administração de estreptoquinase pode induzir uma res- posta antigênica. B. A administração de orgatrobana pode induzir uma resposta antigênica. C. A tenecteplase possui meia-vida mais longa do que o ativador de plasminogênio tecidual (t-PA) e deve ser administrada na forma de infusão contínua e lenta. D. O ativador do plasminogênio tecidual (t-PA) recombinante ativa o plasminogênio apenas no local de trombos recém- formados. E. A aprotinina ativa a plasmina, porém o seu uso tem sido associado a insuficiência renal aguda pós-operatória. 102 Capítulo Vinte e Três 23 Farmacologia do Metabolismo do Colesterol e das Lipoproteínas OBJETIVOS ! Compreender a bioquímica e a fisiologia do metabo- lismo do colesterol e das lipoproteínas. ! Compreender a farmacologia, as indicações e os efei- tos adversos dos agentes utilizados na modificação do metabolismo dos lipídios. !! CASO 1 Em junho de 1998, Jake P., empregado na área de construção e com 29 anos de idade, marca uma consulta com o Dr. Cush. O Sr. P. queixa-se de tumefações duras e elevadas ao redor do ten- dão-de-aquiles, que parecem estar constantemente roçando em suas botas de trabalho. O Sr. P. havia hesitado em ver o médico (sua última consulta