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ZOURABICHVILI, François. O Vocabulário de Deleuze

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Mesmo o artista, o arquiteto e o sociólogo que utilizam, em 
dado momento de seu trabalho, um aspecto do pensamento de Deleuze são 
levados, caso esse uso não seja decorativo, a fazerem por si sós a exposição (que 
essa meditação assuma uma forma escrita é uma outra questão). De fato, é 
somente assim que as coisas mudam, que um pensamento desconcerta por sua 
novidade e nos arrasta rumo a regiões para as quais não estávamos preparados - 
regiões que não são as do autor, mas efetivamente as nossas. Tanto isso é 
verdade que não expomos o pensamento de outrem sem fazer uma experiência que 
se refira propriamente à nossa, até o momento de descansar ou dar continuidade ao 
comentário em condições de assimilação e deformação que não se distinguem mais 
da fidelidade. 
Pois há um outro falso problema, o da abordagem "externa" ou "interna" de 
um autor. Ora o estudo de um pensamento por si mesmo é criticado por ser interno, 
voltado para o didatismo estéril e para o proselitismo; ora ele é suspeitado, ao 
contrário, de uma incurável exterioridade, do ponto de vista de uma familiaridade 
presumida, de uma afinidade eletiva com a pulsação íntima e inefável desse 
pensamento. Diríamos de bom grado que a exposição dos conceitos é a única 
garantia de um encontro com um pensamento. Não o agente desse encontro, mas a 
oportunidade de sua realização sob a dupla condição do simpático e do estranho, 
nos antípodas tanto do desconhecimento como da imersão, por assim dizer, 
congênita: como as dificuldades então despontam, a necessidade de recriar esse 
pensamento a partir de uma outra via, bem como a paciência de suportar o árido 
tornam-se infinitas. 0 fato de que o coração dispare à leitura dos textos é um 
preâmbulo necessário, ou melhor, uma afinidade requerida para compreender; mas 
isso não passa de uma metade da compreensão, a parte, como diz Deleuze, de 
"compreensão não filosófica" dos conceitos. É verdade que essa parte merece que 
insistamos nela, uma vez que a prática universitária da filosofia a exclui quase 
metodicamente, ao passo que o diletantismo, julgando cultivá-la, confunde-a com 
uma certa doxa do momento. Mas o fato de que um conceito não tenha nem sentido 
nem necessidade sem um "afeto" e um "percepto" correspondentes não impede que 
ele seja algo diferente deles: um condensado de movimentos lógicos que o espírito 
deve efetuar caso pretenda filosofar, sob pena de permanecer na fascinação inicial 
das palavras e frases, que então ele toma equivocadamente pela parte irredutível de 
compreensão intuitiva. Pois, como escreve Deleuze, "os três são necessários para 
fazer o movimento" (P, 224). Não precisaríamos de Deleuze se não 
pressentíssemos em sua obra algo a pensar que ainda não o foi, e sobre o qual 
ainda não avaliamos de fato como a filosofia poderia ser afetada - por ainda não nos 
deixarmos afetar por ela filosoficamente. 
 
3. Nada parece mais propício a Deleuze do que um léxico que soletre os conceitos 
um a um ao mesmo tempo em que destaque suas implicações recíprocas. Em 
primeiro lugar, o próprio Deleuze dedicou-se a atribuir ao conceito de conceito um 
peso e uma precisão que não raro lhe faltavam em filosofia (QPh, cap. 1). Um 
conceito não é nem um tema, nem uma opinião particular pronunciada sobre um 
tema. Cada conceito participa de um ato de pensar que desloca o campo da 
inteligibilidade, modifica as condições do problema por nós colocado; não deixa 
portanto designar seu lugar num espaço de compreensão comum dado previamen-
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te, mediante agradáveis ou agressivas discussões com seus concorrentes. Mas se 
só há temas genéricos ou eternos para a ilusão do senso comum, a história da 
filosofia não se reduziria a um alinhamento de homônimos? Ela atesta, antes, 
mutações de variáveis exploradas pelo "empirismo transcendental". 
Além disso, o próprio Deleuze praticou por três vezes o léxico: reportemo-nos 
ao "dicionário dos principais personagens de Nietzsche" (N, 43-8); ao "índice dos 
principais conceitos da Ética" (SPP, cap. IV); finalmente, à "conclusão" de Mil platôs. 
O eco entre esta última e a introdução do livro ("Introdução: rizoma") assinala que a 
arbitrariedade da ordem alfabética é o meio mais seguro de não sobrepor às 
relações de imbricações múltiplas dos conceitos uma ordem das razões factícia que 
desviaria do verdadeiro estatuto da necessidade em filosofia. 
Cada verbete começa com uma ou várias citações: na maioria dos casos, 
trata-se menos de uma definição que de um apanhado do problema ao qual se 
vincula o conceito, e de um prenúncio de sua atmosfera lexical. A frase, inicialmente 
obscura, é esclarecida e complementada ao longo do verbete, que propõe uma 
espécie de croqui traçado com palavras. Quanto à escolha das entradas, ela pode 
evidentemente ser em parte discutida: por que "complicação" e não "máquina 
abstrata", conceito entretanto essencial à problemática da literalidade? Por que 
"corte-fluxo" em lugar de "código e axiomática", "máquina de guerra" e não "bloco 
de infância"? Claro, não podíamos ser exaustivos; certos verbetes, como o "plano 
de imanência", nos pareciam merecer um exame aprofundado; mas também 
devíamos contar com o estado provisório, inacabado de nossa leitura de Deleuze 
(daí a mais evidente das lacunas - os conceitos do cinema). Propomos uma 
seqüência de "amostras", como Leibniz gostava de dizer, mas também como dizia 
Deleuze através de Whitman (CC, 76). 
 
 
 
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VERBETES 
 
ACONTECIMENTO [événement] 
 
"Então não se perguntará qual o sentido de um acontecimento: o 
acontecimento é o próprio sentido. O acontecimento pertence 
essencialmente à linguagem, mantém uma relação essencial com 
a linguagem; mas a linguagem é o que se diz das coisas." (LS, 
34) 
"Em todo acontecimento, há de fato o momento presente da 
efetuação, aquele em que o acontecimento se encarna em um 
estado de coisas, um indivíduo, uma pessoa, aquele que é 
designado quando se diz: pronto, chegou a hora; e o futuro e o 
passado do acontecimento só são julgados em função desse 
presente definitivo, do ponto de vista daquele que o encarna. Mas 
há, por outro lado, o futuro e o passado do acontecimento tomado 
em si mesmo, que esquiva todo presente porque está livre das 
limitações de um estado de coisas, sendo impessoal e pré-
individual, neutro, nem geral nem particular, eventum tantum...; 
ou antes que não tem outro presente senão o do instante móvel 
que o representa, sempre desdobrado em passado-futuro, 
formando o que convém chamar de contra-efetuação. Em um dos 
casos, é minha vida que me parece frágil demais para mim, que 
escapa num ponto tornado presente numa relação determinável 
comigo. No outro caso, sou eu que sou fraco demais para a vida, 
a vida é grande demais para mim, lançando por toda a parte suas 
singularidades, sem relação comigo nem com um momento 
determinável como presente, salvo com o instante impessoal que 
se desdobra em ainda-futuro e já-passado." (LS,177-8) 
 
**O conceito de acontecimento nasce de uma distinção de origem estóica: "não 
confundir o acontecimento com sua efetuação espaço-temporal num estado de 
coisas" (LS, 34). Dizer que "o punhal corta a carne" é exprimir uma transformação 
incorporal que difere em natureza da mistura de corpos correspondente (quando 
o punhal corta efetivamente, materialmente a carne) (MP, 109). A efetuação nos 
corpos (encarnação ou atualização do acontecimento) gera apenas a sucessão de 
dois estados de coisas, antes-depois, segundo o princípio de disjunção exclusiva, 
ao passo que a linguagem recolhe a diferença desses estados de coisas, o puro 
instante de sua disjunção (ver AION): ocorre-lhe realizar a síntese disjuntiva do 
acontecimento, e é essa diferença que faz sentido. 
Mas do fato de que o acontecimento encontre abrigo na linguagem não se 
deve concluir por sua natureza linguageira, como se ele não passasse do 
equivalente