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DIREITO PENAL CONSTITUCIONAL  CRIMES EM ESPÉCIE

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pública passou a ser condicionada à 
representação da vítima ou de seu representante legal (Artigo 88, da Lei nº 
9.099/1995). 
 
No mesmo contexto, podemos também questionar a validade do consentimento 
do ofendido e, consequente, disponibilidade do bem jurídico em determinadas 
situações, tais como: lesões desportivas, intervenções cirúrgicas, dentre elas, 
por exemplo, o transplante de órgãos e tecidos, cirurgia transexual e 
esterilização cirúrgica. 
 
Entenda melhor os tipos de lesões: 
As lesões desportivas e as intervenções médico-cirúrgicas encontram-se dentre 
as causas excludentes de ilicitude decorrentes do exercício regular de direito, 
desde que consentidas pela vítima (art. 23, III, Código Penal). 
 
Fernando Capez defende o entendimento de que, sob a perspectiva da 
imputação objetiva do resultado, as lesões desportivas configuram condutas 
atípicas (CAPEZ, 2010, p. 167). No caso de intervenções médico-cirúrgicas, 
admitem-se, inclusive, suas realizações sem o consentimento da vítima quando 
configurar estado de necessidade (art. 24 e art. 146, § 3º, I, ambos do Código 
Penal). 
 
No que concerne ao transplante de órgãos e tecidos, o melhor entendimento 
direciona-se à compreensão do exercício regular de direito no caso de doador 
“juridicamente capaz”, haja vista a finalidade terapêutica do procedimento. 
 
 
Artigo 9 - É permitida à pessoa juridicamente capaz dispor gratuitamente de 
tecidos, órgãos ou partes do próprio corpo vivo para fins de transplante ou 
terapêuticos. 
 
§ 3º. Só é permitida a doação referida neste artigo quando se tratar de órgãos 
duplos, de partes de órgãos, tecidos ou partes do corpo cuja retirada não 
impeça o organismo do doador de continuar vivendo sem risco para a sua 
integridade e não represente grave comprometimento de suas aptidões vitais e 
saúde mental e não cause mutilação ou deformação inaceitável, e corresponda 
a uma necessidade terapêutica comprovadamente indispensável à pessoa 
receptora. 
 
Art. 226 - A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. 
§ 7º - Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade 
responsável, o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo ao 
Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse 
direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou 
privadas. 
 
O referido procedimento encontra-se previsto na Constituição da República – 
art. 199, § 4º e regulado na Lei nº 9.434/1997 – art. 9º. O mesmo 
entendimento é adotado em relação à esterilização cirúrgica, ou seja, tem sido 
considerada conduta atípica, haja vista fundar-se em princípios constitucionais 
– planejamento familiar e paternidade responsável, bem como pelo fato de 
estar expressamente regulada em lei – art. 10, da Lei nº 9.263/1996 e art. 226, 
§ 7º, CRFB. 
 
Em relação à cirurgia transexual (tratamento de transgenitalismo), configura, 
em tese, lesão corporal gravíssima prevista no art. 129, § 2º, IV, do Código 
Penal, face à mutilação de órgãos e perda da função reprodutora. Todavia, a 
partir do reconhecimento de que a referida cirurgia configura-se como 
 
 
tratamento, não há que se falar em tipicidade da conduta médica (NUCCI, s. d., 
p. 656). 
 
Ainda, sobre o tema, o Conselho Federal de Medicina, em seu Projeto de 
Diretrizes, bem como por meio da Resolução CFM nº 1.955/2010, estabeleceu 
regras para o denominado tratamento de transgenitalismo. 
 
Incidência do principio da insignificância 
Nos casos de perfuração do corpo para a colocação de adereços, faz-se 
necessária a flexibilização da indisponibilidade do bem jurídico tutelado face à 
adoção do princípio da adequação social, bem como do principio da 
insignificância, por serem pequenas lesões corporais consentidas pela vítima, 
juridicamente capaz. 
 
Conflito aparente de normas e concurso de crimes com demais 
figuras típicas 
É possível que, em alguns casos concretos, possamos nos deparar com 
situações nas quais tenhamos dúvidas acerca da correta tipificação da conduta 
de lesões corporais, quando essa “concorrer” com outras figuras típicas, seja 
por meio do conflito aparente de normas, seja por meio da incidência de 
concurso de crimes. Analisaremos, a seguir, algumas dessas hipóteses. 
 
Crime de lesão corporal leve e injúria real 
Nesse caso, o ponto distintivo resulta do animus do agente, ou seja, se “a 
violência exercida for ultrajante, havendo a intenção de humilhar, envergonhar 
a vítima, ofender a sua dignidade ou decoro” estará configurada a figura típica 
de injúria real. Por outro lado, caso haja significativa lesão corporal, consoante 
o disposto no § 2º, do Artigo 140, do Código Penal, será possível a aplicação 
concomitante de ambas as sanções por força da caracterização de concurso de 
crimes. 
 
 
 
Lesões corporais culposas no Código Penal e no Código de Trânsito 
Brasileiro (Lei nº 9.503/1997) 
Nesse caso, estamos diante de um conflito aparente de normas a ser 
solucionado pelo princípio da especialidade, segundo o qual a norma especial, a 
legislação de trânsito, ao exigir que o agente pratique a conduta na condução 
de veículo automotor, afasta a incidência da norma geral prevista no Código 
Penal. 
 
Distinção entre violência doméstica e violência de gênero 
discriminatório contra a mulher 
Questão a ser analisada com cuidado é o confronto entre as figuras típicas de 
lesões corporais qualificadas e majoradas mediante a caracterização da 
violência doméstica (Artigo 129, §§ 9°, 10 e 11 do Código Penal) e a 
violência doméstica e de gênero previstas na Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da 
Penha). 
 
Inicialmente, temos de observar que a Lei nº 11.340/2006 não tipificou 
condutas, mas, sim, estabeleceu critérios de política criminal a serem adotados 
nos casos de violência doméstica contra a mulher, conforme se depreende da 
interpretação do disposto no Artigo 5º, da Lei n° 11.340/2006, in verbis: 
 
 
Atenção 
 Artigo 5º da Lei nº 11.340/2006: para os efeitos dessa lei, 
configura violência doméstica e familiar contra a mulher 
qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause 
morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano 
moral ou patrimonial. 
 
 
 
Sendo assim, não há que se confundir violência doméstica com violência de 
gênero. Compreende-se por violência doméstica a praticada no âmbito da vida 
em família, independentemente da existência de parentesco. 
 
Violência de gênero 
Por outro lado, a violência de gênero, no caso da Lei nº 11.340/2006, possui 
caráter eminentemente discriminatório contra a mulher, tendo, a referida lei 
abarcado os dois conceitos. 
 
Sobre o tema assevera Luiz Regis Prado: 
“A violência de gênero se refere a atos de agressão ou de violência exercidos 
contra determinada pessoa por força de seu sexo feminino e a violência 
doméstica diz respeito à sua prática no âmbito doméstico ou intrafamiliar, ou a 
ele diretamente relacionado” (PRADO, 2010, p. 122). 
Código Penal 
Deve-se atentar que o disposto nos parágrafos 9º, 10 e 11 do Artigo 129 do 
Código Penal apresentam, como dito anteriormente, figuras qualificadas e 
majoradas a serem aplicadas nos casos de lesões corporais praticadas sob a 
caracterização de “violência domestica”, e não para casos exclusivos de 
“violência de gênero”, apesar de tais parágrafos terem sido inseridos no Código 
Penal pela Lei nº 11.340/2006. 
 
Conheça as contradições: 
 
Código Penal disposto nos parágrafos 9º, 10 e 11, do art. 129 
No caso de lesões corporais de natureza leve praticadas contra ascendente,

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