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DIREITO PENAL CONSTITUCIONAL  CRIMES EM ESPÉCIE

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Logo, não será 
admissível, no caso de concurso de pessoas, a coautoria, mas, somente, a 
participação. 
 
Na segunda modalidade, aborto consentido, o legislador optou pelo 
rompimento com a teoria unitária do concurso de pessoas, sendo a conduta da 
gestante tipificada no Artigo 124, CP, e a do terceiro, no Artigo 126, CP. 
 
Conheça abaixo as questões controvertidas sobre cada situação: 
Questão controvertida: Validade do Consentimento e capacidade para 
consentir. A menor de 18 anos pode consentir para a prática do aborto e, 
portanto ser a conduta do terceiro que praticar o aborto tipificado no art. 126, 
Código Penal. Entretanto, se a gestante for menor de 14 anos, consoante o 
disposto no art. 126, parágrafo único, Código Penal, o terceiro será 
responsabilizado pelo delito de aborto provocado por terceiro sem o 
consentimento da gestante. 
 
Questão controvertida: No caso da conduta do auto aborto, com a 
participação de terceiro, no qual resulte lesões corporais graves ou a morte da 
gestante, qual será a responsabilização penal do partícipe? O melhor 
entendimento é no sentido de que o terceiro será responsabilizado pela 
participação na figura típica do art. 124, Código Penal em concurso formal 
perfeito com a modalidade culposa afeta aos resultados mais gravosos – 
art.121, §3º ou art. 129, §6º c.c art. 124 n.f art. 70, 1ª parte, todos do Código 
Penal, uma vez que o art. 127 do Código Penal é aplicável somente aos artigos 
125 e 126 do mesmo diploma legal. 
 
 
Questão controvertida: gestante que tente se suicidar sem, contudo, lograr 
êxito nesta empreitada. Neste caso, sua conduta será incursa na figura típica do 
delito de aborto na modalidade tentada ou consumada, haja vista a lesão ao 
bem jurídico vida intrauterina e, consequente reconhecimento de que o feto é o 
sujeito passivo do referido delito. 
 
Aborto provocado por terceiro com o consentimento da gestante – 
Artigo 126 do CP 
Como dito anteriormente, nessa figura típica, há o rompimento com a teoria 
unitária do concurso de pessoas no que concerne à conduta da gestante que 
consente com a prática do aborto, sendo sua conduta tipificada como incursa 
no Artigo 124, CP. Por configurar crime comum (pode ser praticado por 
qualquer pessoa), admite a ocorrência de concurso de pessoas em quaisquer 
de suas modalidades (coautoria ou participação). 
 
Cabe lembrar ainda que a gestante poderá desistir da conduta mesmo após o 
início dos atos executórios (durante a operação), desde que antes da 
interrupção da gravidez, caso em que será o terceiro responsabilizado, caso 
prossiga com a conduta, pelo crime do Artigo 125. 
 
Aborto provocado por terceiro sem o consentimento da gestante 
Nessa figura típica, a gestante e o produto da concepção (óvulo, embrião ou 
feto) são sujeitos passivos da conduta praticada por terceiro. Questão de suma 
importância é a compreensão acerca da ausência de consentimento da 
gestante, podendo ser o dissenso real (nos casos de emprego de fraude, grave 
ameaça ou violência contra a gestante) ou presumido (nos mesmos moldes da 
caracterização da “vulnerabilidade” da vítima prevista no Artigo 217-A do CP – 
se a gestante não é maior de quatorze anos). 
 
Caso terceiro mate a gestante ciente da gravidez, será juridicamente 
responsabilizado pelos dois resultados – homicídio e aborto sem o 
 
 
consentimento da gestante, em concurso formal imperfeito de crimes (Artigo 
121 c.c. Artigo 125 n.f Artigo 70, parte final, todos do Código Penal). 
 
Aborto qualificado pelo resultado lesão corporal de natureza grave ou 
morte 
A figura majorada prevista no Artigo 127, Código Penal, configura-se como 
figura preterdolosa e, somente, é aplicável às figuras típicas previstas nos 
Artigo 125 e 126, Código Penal, ou seja, ao terceiro que pratica o aborto e não 
à gestante, no caso de lesões corporais de natureza grave por questões de 
política criminal, haja vista o ordenamento jurídico não sancionar, em regra, a 
autolesão (princípio da alteridade). 
 
Se em virtude dos meios empregados para provocar o aborto não houver a 
morte do feto, embora ocorra a lesão de natureza grave ou a morte da 
gestante, o melhor entendimento é no sentido de aplicar-se a figura majorada 
consumada, pois por ser delito preterdoloso, não há que se falar em tentativa 
(PRADO, Luiz Regis. Op. cit, p 92). 
 
Abortos Necessário e Humanitário 
O Artigo 128, do Código Penal apresenta causas especiais de exclusão de 
ilicitude e compreende os denominados aborto necessário e aborto humanitário. 
Possui por fundamento o disposto no item n. 41, da Exposição de Motivos da 
Parte Especial do Código Penal. 
 
Aborto Legal 
Aborto Necessário ou terapêutico: Neste caso, face à ponderação de 
interesses, o melhor entendimento é no sentido de que não há a exigência do 
consentimento da gestante e tampouco a autorização judicial para a prática do 
aborto. Cabe salientar que é aplicável à junta médica, no caso de erro de 
diagnóstico a descriminante putativa prevista no Artigo 20,§1º, CP (CAPEZ, 
Fernando. Curso de Direito Penal. v.2. 10 ed. São Paulo: Saraiva, pp 159). 
 
 
 
São requisitos para a sua realização que o aborto seja praticado por médico, 
que haja perigo para a vida da gestante e que não seja possível a outro meio 
para salvá-la. 
 
 
Atenção 
 Necessidade de autorização judicial para sua realização. 
Acerca da discussão sobre cabe transcrever breve trecho de 
decisão proferida pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio 
Grande do Sul: 
 
Por outro lado, destaco que quando se trata de aborto 
necessário (Artigo 128, inc. I – “se não há outro meio de salvar a 
vida da gestante”), conforme leciona E. Magalhães Noronha 
(DIREITO PENAL, 2º vol., 9ª edição. fls. 61). “É ao médico que 
cabe a enorme responsabilidade de dizer se deve ou não 
sacrificar a spes personae. A ele incumbe pronunciar-se acerca 
da necessidade e do momento da intervenção.”. Resulta, daí, 
que se, no caso concreto, houver necessidade de intervenção 
imediata, deverá o médico responsável tomar tal decisão, sequer 
necessitando de autorização judicial. (Apelação Crime n. 
70026698019, Segunda Câmara Criminal, Tribunal de Justiça do 
RS, Relator: Marco Aurélio de Oliveira Canosa, Julgado em 
16/10/2008). 
 
Aborto Humanitário, ético ou sentimental: Esta norma permissiva tem por 
escopo o “reconhecimento claro do direito da mulher a uma maternidade 
consciente” (Jimenez de Asúa apud Luiz Regis Prado, op.cit., p 95). Ainda é 
possível falar-se no direito ao afeto, bem como “nada justifica que se obrigue a 
mulher a aceitar uma maternidade odiosa, que dê vida a um ser que lhe 
recordará, perpetuamente, o horrível episódio da violência sofrida” (HUNGRIA, 
Nelson apud CUNHA, Rogério Sanches, op. cit. p 43). 
 
 
 
Atenção 
 Neste caso é indispensável o consentimento da gestante ou de 
seu representante legal. Por outro lado, não é necessária a 
autorização judicial ou a existência de uma sentença 
condenatória pelo delito contra a dignidade sexual, cabendo ao 
médico, por questões de cautela, verificar a existência de 
certidões ou cópias de boletins de ocorrências policiais, 
testemunhos colhidos perante a autoridade policial ou, na 
ausência destes, de atestado médico ou prontuário de 
atendimento médico afeto às lesões decorrentes da conjunção 
carnal ou da prática de ato libidinoso forçada. 
 
Entre o aborto legal, há a questão do aborto de feto anencéfalo. 
 
Foi de fundamental importância a manifestação o STF no julgamento da APPF 
n.º 54 no sentido de autorizar a interrupção da gestação no caso de aborto de 
fetos anencéfalos,