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Terra-Patria

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TERRA-PÁTRIA (Edgar Morin e Anne Brigitte Kern – Sulina, 2006) 
 
 A crise universal do futuro 
A Europa havia espalhado a fé no progresso pelo planeta inteiro. As 
sociedades, arrancadas de suas tradições, iluminavam seu devir não mais seguindo 
a lição do passado, mas indo em direção a um futuro promissor e prometido. O 
tempo era um movimento ascensional. O progresso era identificado com a própria 
marcha da história humana e impulsionado pelos desenvolvimentos da ciência, da 
técnica, da razão. A perda da relação com o passado era substituída, compensada 
pelo ganho da marcha para o futuro. A fé moderna no desenvolvimento, no 
progresso, no futuro havia se espalhado pela Terra inteira. Essa fé constituía o 
fundamento comum à ideologia democrático-capitalista ocidental, na qual o 
progresso prometia bens e bem-estar terrestres, e à ideologia comunista, religião de 
salvação terrestre, que chegava a prometer o "paraíso socialista". O progresso 
esteve em crise por duas vezes na primeira metade do século, na manifestação 
bárbara das duas guerras mundiais que opuseram e fizeram regredir as nações mais 
avançadas. Mas a religião do progresso encontrou o antídoto que exaltou sua fé 
exatamente onde deveria ter desmoronado. Os horrores das duas guerras foram 
considerados como as reações de antigas barbáries, e até mesmo como anúncios 
apocalípticos de tempos bem-aventurados. Para os revolucionários, esses horrores 
provinham das convulsões do capitalismo e do imperialismo, e de modo nenhum 
colocavam em questão a promessa do progresso. Para os evolucionistas, essas 
guerras eram guinadas que não faziam senão suspender por algum tempo a marcha 
para a frente. Depois, quando o nazismo e o comunismo stalinista se impuseram, 
suas características bárbaras foram mascaradas por suas promessas "socialistas" 
de prosperidade e felicidade. 
O pós-guerra de 1945 assiste ao renovar das grandes esperanças 
progressistas. Um excelente porvir é restaurado, seja na idéia do futuro radioso 
prometido pelo comunismo, seja na idéia do futuro apaziguado e próspero prometido 
pela sociedade industrial. Em toda parte no terceiro mundo, a idéia de 
desenvolvimento parece dever trazer um futuro liberado dos piores entraves que 
pesam sobre a condição humana. 
Mas tudo oscila a partir dos anos 1970. 
O futuro radioso naufraga: a revolução socialista revela sua face dantesca na 
URSS, na China, no Vietnã, no Camboja e mesmo em Cuba, por muito tempo 
considerada como "paraíso socialista" de bolso. Posteriormente o sistema totalitário 
implode na URSS e por toda parte se desfaz a fé no futuro "socialista". No Oeste, a 
crise cultural de 1968 é seguida em 1973 pelo atolar das economias ocidentais 
numa fase depressiva de longa duração. Enfim, no terceiro mundo, os fracassos do 
desenvolvimento desembocam em regressões, estagnações, fomes, guerras 
civis/tribais/religiosas. As balizas rumo ao futuro desapareceram. Os futurólogos 
não predizem mais e alguns encerram suas atividades'. A nave Terra navega na 
noite e na neblina. 
Ao longo da mesma época, o próprio núcleo da fé no progresso - 
ciência/técnica/indústria - se vê cada vez mais profundamente corroído. A ciência 
revela uma ambivalência cada vez mais radical: o domínio da energia nuclear pelas 
ciências físicas resulta não apenas no progresso humano, mas também no 
aniquilamento humano; as bombas de Hiroshima e Nagasaki, seguidas pela corrida 
às armas nucleares das grandes e depois das médias potências, fazem pesar sua 
ameaça sobre o devir do planeta. A ambivalência chega à biologia nos anos 1980: o 
reconhecimento dos genes e dos processos biomoleculares leva às primeiras 
manipulações genéticas e promete manipulações cerebrais que controlariam e 
submeteriam os espíritos. 
Também ao longo da mesma época, verifica-se que os subprodutos de 
dejetos das indústrias, bem como a aplicação dos métodos industriais à agricultura, 
à pesca, à criação de gado, causam prejuízos e poluições cada vez mais maciços e 
generalizados que ameaçam a biosfera terrestre e inclusive a psicosfera. 
Assim, por toda parte, o desenvolvimento da tríade ciêncialtécnica/indústria 
perde seu caráter providencial. A idéia de modernidade permanece ainda 
conquistadora e cheia de promessas onde quer que se sonhe com bem-estar e 
meios técnicos libertadores. Mas ela começa a ser posta em questão no mundo do 
bem-estar adquirido. A modernidade era e continua sendo um complexo 
civilizacional animado por um dinamismo otimista. Ora, a problematização da tríade 
que anima esse dinamismo problematiza ela própria. A modernidade comportava 
em seu seio a emancipação individual, a secularização geral dos valores, a 
diferenciação do verdadeiro, do belo, do bem. Mas doravante o individualismo 
significa não mais apenas autonomia e emancipação, significa também atomização 
e anonimato. A secularização significa não mais apenas libertação em relação aos 
dogmas religiosos, mas também perda dos fundamentos, angústia, dúvida, nostalgia 
das grandes certezas. A diferenciação dos valores resulta não mais apenas na 
autonomia moral, na exaltação estética, na livre busca da verdade, mas também na 
desmoralização, no estetismo frívolo, no niilismo. (...) 
Por toda parte reina agora o sentimento, ora difuso, ora agudo, da perda do 
futuro. Por toda parte se instala a consciência de que não estamos na penúltima 
etapa da história que irá cumprir seu grande desabrochar. Por toda parte se sente 
que não nos dirigimos a um futuro radioso e nem mesmo a um futuro feliz. Mas falta 
ainda a consciência de que estamos na idade de ferro planetária, na pré-história do 
espírito humano. 
A doença do futuro se imiscui no presente e induz uma angústia psicológica, 
sobretudo quando o capital de fé de uma civilização foi investido no futuro. 
A vida cotidiana pode amortecer o sentimento dessa crise do futuro e fazer 
que, a despeito das incertezas, se continue a esperar individualmente, para si, que 
se continue a pôr filhos no mundo, a projetar o futuro deles. 
Mas, ao mesmo tempo, a crise do futuro determina um gigantesco refluxo em 
direção ao passado, tanto maior na medida em que o presente é miserável, 
angustiado, infeliz. O passado, que havia sido arruinado pelo futuro, ressuscita da 
ruína do futuro. Donde esse formidável e multiforme movimento de retorno às fontes 
e aos fundamentos étnicos, nacionais, religiosos, perdidos ou esquecidos, em que 
surgem os diversos "fundamentalismosl". 
Os efeitos dessas formidáveis oscilações e reviravoltas entre passado e futuro 
estão longe de estar esgotados e muitos serão imprevistos. 
De qualquer modo, o progresso não está assegurado automaticamente por 
nenhuma lei da história. O devir não é necessariamente desenvolvimento. O futuro 
chama-se doravante incerteza. 
 
 
A tragédia do "desenvolvimento" 
 
O desenvolvimento tem dois aspectos. De um lado, é um mito global no qual 
as sociedades industrializadas atingem o bem-estar, reduzem suas desigualdades 
extremas e dispensam aos indivíduos o máximo de felicidade que uma sociedade 
pode dispensar. De outro, é uma concepção redutora, em que o crescimento 
econômico e o motor necessário e suficiente de todos os desenvolvimentos sociais, 
psíquicos e morais. Essa concepção tecno-econômica ignora os problemas 
humanos da identidade, da comunidade, da solidariedade, da cultura. Assim, a 
noção de desenvolvimento se apresenta gravemente subdesenvolvida. A noção de 
subdesenvolvimento é um produto pobre e abstrato da noção pobre e abstrata de 
desenvolvimento. 
Ligada à fé cega no irresistível avanço do progresso, a fé cega no 
desenvolvimento permitiu, de um lado, eliminar as dúvidas e, de outro, ocultar as 
barbáries praticadas no desenvolvimento do desenvolvimento.O mito do 
desenvolvimento determinou a crença de que era preciso sacrificar

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