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O Conceito de Direito

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também de mais quatro ordens para 
definir o Direito, a saber: é um problema de concepção sobre a relação entre a linguagem e a realidade; a palavra 
Adireito@ é ambígua, tendo a pior espécie de ambigüidade; a expressão Adireito@ é vaga; e a palavra Adireito@ tem carga 
emotiva. 
A adesão a uma certa concepção sobre a relação entre a linguagem e a realidade faz com que não se tenha uma idéia 
clara sobre os pressupostos, as técnicas e as conseqüências que se devem ter em conta quando se define uma expressão 
lingüística, no caso, Adireito@. No pensamento teórico, especialmente no jurídico, tem alguma vigência a concepção 
platónica a respeito da relação entre a linguagem e a realidade. Acredita-se que os conceitos refletem uma presuntiva 
essência das coisas e que as palavras são veículos dos conceitos.
Para essa espécie de concepção, a quem Kantorowicz12 atribuiu a denominação de Arealismo verbal@, existe somente 
uma definição válida para uma palavra, obtendo-se essa definição mediante intuição intelectual da natureza intrínseca 
dos fenômenos denotados pela expressão, de modo que a tarefa de definir um termo é, em conseqüência, descritiva de 
certos fatos. Quase toda a Jurisprudência (a Ciência do Direito) medieval e oriental, e inclusive a moderna, tem 
acreditado que entre o nome de uma coisa - objeto do pensamento - e a coisa nomeada existe um nexo metafísico que 
seria perigoso e sacrílego desconhecer. 
Ao realismo verbal se opõe a concepção Aconvencionalista@ da relação entre a linguagem e a realidade, defendida pela 
chamada Afilosofia analítica@. Os filósofos analíticos supõem que a relação entre a linguagem - que é um sinal de 
símbolos - e a realidade tem sido estabelecida arbitrariamente pelos homens e, ainda, que mesmo havendo um acordo 
consuetudinário ao nomear certas coisas com determinados símbolos, ninguém está constrangido, nem por razões 
lógicas, nem por fatores empíricos, a seguir os usos vigentes, podendo eleger qualquer símbolo para fazer referência a 
qualquer classe de coisas e podendo formar as classes de coisas que lhe resultem convenientes. Para a análise filosófica 
as coisas só têm propriedades essenciais na medida em que os homens façam delas condições necessárias para o uso de 
uma palavra; decisão que, naturalmente, pode variar. Assim, quando nos enfrentamos com uma palavra como, por 
exemplo, Adireito@, temos que lhe dar algum significado se pretendemos descrever os fenômenos denotados por ela, pois 
não é possível descrever, por exemplo, o direito argentino, sem saber o que Adireito@ significa.
Sobre a ambigüidade da palavra Adireito@, observa-se que ela tem vários significados relacionados estreitamente entre si, 
o que a torna de uma ambigüidade da pior espécie. Veja-se as seguintes frases: AO Direito brasileiro não prevê a pena de 
morte@; ATenho direito a dispor de meus bens@; e AO direito é uma disciplina complexa@. Na primeira frase, direito 
significa o que se chama Adireito objetivo@, ou seja, o ordenamento jurídico; na segunda, significa Adireito subjetivo@, o 
mesmo que faculdade; e na terceira frase, a palavra direito refere-se à investigação, ao estudo da realidade jurídica que, 
inclusive, tem como objeto o direito nos dois sentidos anteriores.
No que concerne à afirmação de que a expressão Adireito@ é vaga, para demonstrá-la basta dizer que não é possível 
enunciar, tendo em conta o uso ordinário, propriedades que devem estar presentes em todos os casos em que se usa essa 
palavra. Alguns pretendem que a coatividade é uma propriedade que na linguagem corrente se exige em todos os casos 
do uso de Adireito@, mas há setores da realidade jurídica que não consideram relevante essa propriedade; outros setores 
propõem como propriedade necessária do conceito de Direito que se trate de diretivas promulgadas por uma autoridade, 
mas, nesse caso, têm que se esquecer dos costumes, que não apresentam tal propriedade etc.
Por fim, quanto à carga emotiva, é de se ter em mente que as palavras, além de servirem para referir-se a coisas ou fatos 
e designar propriedades, também servem, às vezes, para expressar emoções e provocá-las nos demais. Há inclusive 
palavras que só têm esta última função, como, por exemplo, Aai@ (para expressar um sentimento de dor) ou Ahurra@ (para 
expressar um susto ou emoção); outras com significado tanto descritivo como emotivo (como Ademocracia@ e 
Abastardo@) e outras só com significado cognoscitivo (como Aquadrado@ e Acaneta@). Direito é uma palavra com 
significado emotivo favorável, pois, nomear com esta palavra uma ordem social implica condecorá-la com um rótulo 
honorífico e reunir ao redor dela as atitudes de adesão das pessoas. E quando a palavra tem carga emotiva, fica 
prejudicado o seu significado cognoscitivo, uma vez que as pessoas estendem ou restringem o uso do termo para 
abarcar com ele ou deixar de fora de sua denotação os fenômenos que apreciam ou rechaçam, segundo seja o 
significado emotivo favorável ou desfavorável. Para dar apenas um exemplo prático da imprecisão que isso provoca no 
campo de referência da expressão, basta citar a velha polêmica entre jusnaturalistas e positivistas em torno do conceito 
de direito.
Não é digna de aprovação, portanto, grande parte das polêmicas entre juristas empenhados em impor absolutamente sua 
visão do Direito, porque este, como visto, se trata de uma realidade que, sendo única, assume em sua plenitude uma 
pluralidade de dimensões.
 
7. O MODO DE CONCEBER O DIREITO EM DIVERSAS CORRENTES FILOSÓFICAS
Conforme já foi exposto, são inúmeros os fatores que contribuem para dificultar o alcance de um conceito universal do 
Direito, dentre eles a diversidade de perspectivas de enfoque a partir das quais se contempla o fenômeno jurídico. Pois 
bem, essas diferentes perspectivas de concepção do Direito deram ensejo ao estabelecimento, durante séculos, de 
polêmicas entre aqueles que, de forma unilateral e reducionista, pretendem oferecer uma concepção geral do Direito em 
função de algum de seus componentes.
Apesar de serem muitas as doutrinas que se ocuparam e ocupam do tema em exame, podem elas ser reduzidas nos três 
grupos seguintes:
7.1. Doutrinas de orientação sociologista ou realista
Estas doutrinas circunscrevem o Direito às ações humanas tendentes à sua criação ou aplicação. Dentre elas, pode-se 
citar: a) a Escola Histórica, que concebe Direito como o espírito popular (este é sua força criadora); b) a Jurisprudência 
de Interesses, que reduz o Direito aos interesses sociais que o inspiram a cuja garantia serve; c) a Escola do Direito 
Livre, o Realismo Americano e o Escandinavo etc., que pretendem ver como Direito apenas no caráter criador das 
sentenças judiciais. Todas essas concepções - sociologistas ou realistas - têm como elemento comum a circunstância de 
privilegiar a consideração do Direito eficaz, enquanto dotado de vigência social comprovada através de sua relevância 
nos comportamentos reais dos homens, que constituem o chamado ADireito Vivo@ (Ehrlich).13
7.2. Positivismo Jurídico
Para esta doutrina, o Direito se identifica com as normas ou sistemas normativos, enquanto regras postas por quem 
detenha o poder em uma determinada sociedade e trata de impô-las coativamente nesse âmbito. Por essa perspectiva, o 
traço caracterizador do Direito é a nota de sua validade. Uma norma é jurídica se, e somente se, cumpre os requisitos 
procedimentais previstos no próprio sistema normativo para a produção de normas.
Integram o Positivismo Jurídico, dentre outras, as Teorias do Cepticismo e do Realismo Empírico; o Positivismo 
Ideológico, o Formalismo Jurídico e o Positivismo Metodológico ou Conceitual.
Segundo o Cepticismo (já visto particularmente no item A4@, retro, dada sua íntima relação com o tema em exame), o 
Direito é comando arbitrário, inteiramente relativo, privado de autoridade intrínseca. Essa concepção está tratada aqui 
porque, para muitos