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LOUIS DUMONT - TEXTO: Ensaios sobre o Individualismo; Cap. 1

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pria no pIano do poder. Mas eis que Congar sustenta (p. 255-256) que Gela-
sio nao subordina 0 poder imperial ao «podem sacerdotal, mas apenas 0 
imperador aos bispos no que respeita às res divinae, e conclui que sc 0 impe-
rador como crente, estava dentro da Igreja, a prôpria Igreja estava dentro do 
império (sublinhado por Congar). Por mim, defendo que nào lem cabi-
mento introduzirmos aqui uma distinçao entre a funçao e 0 seu agentc, que 
de resto arruinaria a argumentaçao de Gelâsio, e que Carlyle reconhece a 
seu modo ser muitas vezes descurada nas nossas fontes (p. 169).:....~~L 
o Império cul~!!:<;..!!.<? i~p':rado~_~_l~~!!?-~3.~e compreender .Qehisio como 
aiZei1~se a 1 re'a est~!o ~~p~r~~~ as q~~~!_ô.~ _d.o I!'~.~~~' . 
o mper~~~!'tro~.œz)a_12ara a~ ~oisas diV~i!}-_",Em geral, os comen-
racfores parecem aplicar ~ uma proposlçao do an 500 m modo de pensa· 
mento mais tardio e completamente diferente. Re uzem 0 usa estrutural, 
rico, flexivel da oposiçao fundamental para a quaI Carlyle nos chamou a 
atençào a urna questào unidimensional de «ou/ou», a preto e branco. Ora, 
tais formas so apareceram, segundo Caspary, quando, «corn a rtxaçào das 
posiçôes politicas resultantes da controvérsia (das investiduras) e, mais 
ainda, por obra do lento crescirnento dos rnodos de pensameDlO cscohistico 
· ~e. juridico, ·a segunda metade do . ~~culo XII perdeu ess.a espécie de flcxibil!-
,-dade .. -.· e insistiu mais na clareza e nas distinçôes do que nas_ inter-relaçôe~») _ 
(p. 190). 
Estudâmos uma importante f6rmula ideologica. Nao devemos imaginar 
que 0 dizer de Gelâsio tenha resolvido todos os conDitos entre os dois prin-
cipais protagonistas. nem que tenha obtido 0 acordo de todos, duradoura-
mente ou nao. 0 proprio Ge!âsio fora levado à sua decJaraçào por urna crise 
aguda nascida da promulgaçao pelo imperador de uma formula, 0 Henolikoll, 
J Yves-M.-J. Congar, O.P., L'Ecclésiologie du haut Moyen Âge. Paris. Ed. du Cerf, 1%8. 
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ENSA/OS SOBRE 0 1.f\'/J/V/ DUALlSMO 
deSlinada a pacificar OS SCus sûbd' .. 
da J r" _ . nos monoflsltas. Em geral, os palriarcas 
g CJ3 orIentaI naD segUJam cegamente ',. d S-[udo 0 mais . . 0 VJgano e ao Pedro, e 3n1es de 
lOS 1 0 lrnperador tll1ha 0 seu proprio ponto de vista na matéria Cef-
raços mostram que cm Bizâ' b" . 
leza sacral helenist ica (cf. acim nCl~ su SlstlU sempre aIgu ma coisa da rea-
::;:::or e 110 !'alàcio imperiat'En~e~;" i:~~r:~r~: ~;:t:n~~r:~6;~:,~e~~ 
" ,;.~.\ . ct SU~S m~?s a sYRrel}13C}'3 ~~pirit ual 30 meSffio tempo que temp0ral 
[en ~-o POT vezes conseguido. Nao 56, antes de Gelas'o J '. ' 
depOls dele, no Ocidente, Carlos Magna e Otao 1 ct l , ustmlano, mas 
mira f - .. ' • ca a um a seu modo assu-
m as unçoes relJglosas supremas como parte integrante do seu reinado. 
d Seria difi:i~ imaginar contradiçâo mais flagrante da doutrina de Gelasio 
E: ~u5e3~7~~lltlca adoP[a~a_ pelo papado a parrir de meados do sécuJo VIII. 
, 0 papa Estevao Il, numa iniciativa sem precedentes abando ~ou Roma, atravessQu os Alpes e foi visitar 0 rei franco Pepino. C~nfirmou~ 
o na sua real~za e deu-lhe 0 titulo de «patricio dos romanos» e 0 papel de 
protector e ahado da Igreja Ro C" 
mana. mquenta anos mais tarde Leào III 
d
coroava ..ICarlos Magno imperador em Sao Pedro de Roma no di~ de Natal 
o ano ;Je 800. ' 
POdemos compreender a parrir da sua situaçào geral como foram os 
papas levados a adoptar uma linha de acçào tao radical D' . 
corn Carlyle, Ih' . . Ir-se-la quase, 
d' que esta. es fOI lm posta pelas circunstâncias. No pIano irne-
lato, podcmos resumlr cm dois POntos 0 que 
;!m a u.m~ si.tuaçào d~ h~milhaçâo. de opressâ~eePda:;e~~g~: ~;;:~:~:e;~: 
m~:o BlzanclO c SUbsUlumdo um protector longinqu~. civilizado mas inc6 
tal • _por um oUl.re mais pr6ximo. mais eficaz. menos civilizado e que PO; 
razao se podefJa esperar mais dôcil. Ao mesmo tempo " 
mudança . . d' • aproveltavam a 
para relvm Icarem a autoridade polftica soberana b 
m
dee Italida., O~ irn
d 
peradores ocidentais poderao mais tarde mo:~ra~~s~~a :e;;ote 
nos Ocels 0 que 0 d • • 
'. espera 0, e, para começar, Carlos Magno via rova velme.nt~ os ~1.r~!1'?s politicos que garantia 30 papa COrno cOnstituind~ ape~ 
nas .\J.ma especle ~~ autonomia sob a sua prôpria supremacia Ar" 
dever na ' ct :Y • Irmou a seu 
, o,so e proteger, mas de dirigir a Igreja. 
Pa ra nos, 0 essencial é 0 facto de os papas se 
Pol't" t' arrogarem uma funçao 1 Ica, COn larme se torna c1aro desde a . ,. S the ' lIllCIO. egundo 0 professor Sou-1 Il comentando 0 paclO P' 
" corn eplOo, «pela primeira vez na histôria 0 ~i:P~ agir~ como urna a~toridade polirica suprema autorizando a transferên-
e po cr para 0 remo franco, e sublinhara 0 seu papei polîtico coma 
su~es~or dos i~p~r~do~es ao dispor de terras imperiais em Itéilia», A a ro-
pnaçao de tcrrHonos Imperiais em Italia nâo " d "" p 
e, e comcço, lOtelramente 
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'" 
GENESE. 1 
explicita: a papa obrém de Pepino e mais tarde de Carlos 0 reconhecimemo 
dos ({direitos)) e territ 6rios da «republica dos romanos)), sem distinçào pre-
cisa entre direitos e poderes privados e publicos, mas incluindo no reconhe-
cimenlO em causa 0 Exarcado de Ravena. Nào podemos falar ainda de um 
Estado papal, embora exista uma entidade politica romana. Um faiso docu-
menta, taivez um pouco posterior. a chamada doaçào de Constantino, 
exprime c1a:ramente~ "a pretensao ~pal! Nesse texto, considera-se que ~pri­
meiro imperador crislào, cm 315, transmitiu ao bispo de Roma nâo sô 0 
«pal:kio» de Latrâo, terras patrimoniais extensas e 0 «principado» religioso 
sobre todos os outros bispos, mas também 0 poder imperial sobre a Italia 
romana e as insignias e privilégios imperiais '. 
Do nosso ponto de vista, 0 que aqui importa, cm primeiro lugar, é a 
transformaçào ideolégica que vernos assim iniciar-se e que plenamente se 
desenvolvera mais tarde, de modo por completo independente da sorte reser-
vada de facto à pretensâo papal. Corn a reivindicaçao de um direito inerente 
ao poder politico, é i~qd.!lziq~ uma l1!"l:Id3;~ça<_na~LeJâÇTo7ntre_o div~~. 
. a terreiiô:od~jnoï;;et;nde agora reinar sobre 0 mundo por intermédio da 
Igreja~grerâtôm'â-·~;;;~d~~-~~;n. s.~~~içio ~m q~e 'até entao 0 n?Q.~ra. 
··Os pâpas, por 'meio de lima ·~scolha historica, anularam a formulaçâo /ogica 
par Gelasio da relaçao entre a funçâo religiosa e a funçâo polilica e escolhe-
rarn uma outra relaçào. À diarquia hierarquica de Gelasio substitui-se uma 
monarquia de um tipo sem precedentes, uma monarquia espirituaL Os dois 
dominios ou funçôes sào reunidos e a sua distinçâo é relegada do nivel fun-
damental para um nivel secundario como se diferissem nào em natureza mas 
apenas em grau. É a distinçâ.o entre espiritual e temporal tal coma desde 
entao a conhecemos. e 0 campo unifica-se, de maneira que passamos a 
poder falar de «poderes)} espiritual e temporal. É caracteristico que 0 espiri-
tuai seja co::cebido corno superior ao temporal mesmo 00 nive/ temporal, 
coma se se tratasse de um grau superior de temporal ou, por assim dizer. do 
temporal elevado a urna potência superior. Mais tarde, st!fél segundo este 
:eixo que 0 papa podera 'ser c'oncebido coma «deJegando» 0 poder temporal 
no irnperador camo num seu representa"nte. ;.!~," ... ". 
Ern contraste corn a teoria de GcJasio, a superioridade é aqui acentuada 
à custa da diferença, e assumirei 0 risco de charnar por isso a esta transfor-
maçào uma perversào da hierarquia. Ao mesmo tempo, contudo, alcança-se 
uma coerência de um tipo nova. A nova unificaçào represenla uma transfor-
maçao de uma antiga unidade. Sc tivermos em conta 0 modela arquetipico 
1 RW. Southern, Wesrern Society and Ihe Church in Ihe Middle Ages. Londr~. Penguin 
Books, 1970. p. 60; cf. Peler Panner, The Lands of St. hter, Londres, 1972, pp. 21-23. 
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