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LOUIS DUMONT - TEXTO: Ensaios sobre o Individualismo; Cap. 1

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corn 0 calvinismo.» 
o contexto sugere a possibilidade de urna alternativa: apôs a unificaçâo, 
- bu como acontece corn Calvino,o espirito anima a vida intei:.a, ~u pela con~ 
--- . 
~ ... 1"~·-" '" 
1 Este epilogo nao passa, assim, de um simples exercicio sobre 0 texlO de Troelt sch". ~ 
tiver que me desculpar por nao ter levado em linho de conta uma literatura. mais vaSla, d l r~ 1 
que, na sequência de algumas incursôes, nomeadamente nos livros de ChOISY para os quais 
Troeltsch remete, ou nos pr6prios InslilulOs de Calvino, descobrimos que as questôes col~adas 
recebern corn facilidade urna resposta univoca : nao ha penumbra. nao hâ zona que exlJa um 
outro ângulo de observaçâo ou outra luz; os contornos foram traçados por mao fi rme e ~ao 
ha enganos possfveis. Ha att algo de um tanto inquielante na decidida segurança de Calvmo. 
E nisso como noutros aspectos, ele é irit~iramente moderno: 0 ffiundo rico, complexo e nu· 
tuante da estrutura foi banido. 
62 
. , 
GENESE. 1 
tnirio a ~id a materia~ passa a govcrnar a vida cspiritual. 0 dualismo hie-
rarquico é substituido por ul11.., caitlin;;;"" raso governado por uma alter-
naliva. 
Calvino julga scguir Lutero, e todavia produz uma doutrina difercnte. 
o facto convida-nos a tomar par ponta de partida 0 seu caracter ou temM 
peramento particular. Como notou Troeltsch, Calvino tem uma muito sin-
gular conccpçâo de Deus. Essa concepçao corresponde precisamente à.-
inclinaçào de Calvino, c de um modo geral ele projecta em toda a parte 
a sua inspiraçao pessoal profunda. Calvino nào é um temperamento con-
templativo, é um pensador rigoroso cujo pensamento se orienta para 
a acçao. De faclo, reinou sobre Genebra coma um homem de Estado 
expcriente. e ha nele urna ceeta tendência legalista. Gosta de promulgar 
regras e de submeter à disciplina destas a sua pr6pria pessoa e a dos 
outres. Encontra-sc possuido pela vontade de agir no munda e afasta par 
meio de raciocinios coerentes as ideias fcitas que disso poderiam im-
~"', pedi-lo.. f-2 .~~ ~"".J~ t-_~ •. :.. ,~? CAr: -... A"\.l1.o./~ 
'\.~ Est~ dlsPo~lçao pessoal es~larece os t~ês elementos estreitamente ligados p __ ':Jotre SI que sao fundamentals na doutnna de Calvino: as concepçôes de 
Deus _~?~~ ~o'!t!'..q!, ~_a predestinaçào, e ~~ ~i.~ade cri~mo 0 -,objëZt"O, 
sobre 0 quai a vontade do mdividuo incide. 
Para Calvino,.E~~~ ~ ~:sencÎa1..l"!le~~t!. ~o~ ~a~<:_~_rnaj~~de. 0 que implica 
uma distância : Deus "esta agora mais longe do que antes. Lutera expulsara 
Deus do mundo ao rejeitar a mediaçào instituCÎonalizada da Igreja 
Cat61ica J, onde Deus estava presente através de delegaçào em homens que 
se distinguiam como intermediarios (dignitarios da Igreja, sacerdotes inves-
tidos de poderes sacramentais, monges consagrados a uro tipo superior de 
vida). Mas. para Lutere. Deus era ainda acessivel à consdênda individual 
por meio da fé, dO'3rTiôr e, 'ëm c'erta ~e~1ida, da rmo. Em Qii\iiii,Ço amor 
rceua, ê"â fazào aplica-se apenas a- 'e~të mundo. Ao mesmo tempo, 0 Deus 
de Calvino é 0 arquétipo da vontade, onde podemos ver a afrrmaçao indi-
"~."', recta do pr6prio homem coma vontide, e, .... "P~lerfiQjsso. a Ul3lS foiΠcas 
-afirmaçôeSdohlcti';fdù ~, "'se necessario "~n-qüânto 'opostô,Oü- SüPerior à 
-râZào:~ Semaùvida~-a-t6nicâ' p~st; " na~acïo é Central "iiâ"1ili16na de t~da 
" a civilizaçao crista, de Santo AgostinhoarÙosofia alemâ moderna, para 
1 Este aspecto parece ter sido bastante descurado pela hist6ria das ideias, Semelhante lipo 
de trans-:endència afigurar-se-a mais tarde insuportavel aos fil6sofos alemies.. Colin Morris 
conlrasla oe forma fel iz 0 dizer de Karl Barlh, segundo 0 quai nao ha ponto ~ contacta entrt' 
Deus e 0 homem, corn a presença pr6xima de Deus em Sao Bernardo e no esforço osterciense 
de «descobrir Deus no homem e através do homem» (Discovery of rhe Individuol. I05().1200, 
Londres, 1972, p" 163). 
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ENSAIOS SOBRE 0 INDlVIDUALlSMO 
nao falarmos jâ da Iiberdade em geral e da ligaçao com 0 nominalismo 
.. ~ (Occam). 
. ~ .. ~ A supremacia da vonlade exprime-se dramaticamente no dogma da 
\ . _. -
",:1. } ')prede_sÊ1?açào ...... Aqui, 0 ponta de partida encontra-se na rejeiçào por 
~ 'TùÎero da salvaçilp pelas obras, que visava antes de tudo 0 mais a destrui-
çao do edificio catolico, do ritualismo da Igreja e da dominaçao que esta 
_ exercia sobre 0 individuo. LlIt~ro sujJstituira a justificaçào pelas obras pela,; " 
justificaçào pela fé, e no essencial por ai se ficara, deixando ao individuo': ';f-
l'' :-. -_. -_. -~--- - . .• -- .. . ... 
_ ,~ . uma margç.ffi , de liberdade. Calvino foi mais longe, afirmando corn uma 
~ . ," -;;;rê~~ia implacavel a completa impotência do homem frente à omnipo-
tência de Deus. À primcira vista, ver-se-ia aqui mais uma limitaçào do 
individualismo do que urn seu progresso. E Troeltsch vê no calvinismo 
uma forma particular de individualismo, e nào propriamente um indivi-
dualismo Întensificado (n.o 320):. Gost~ria de mostrar pela meu lado .. que 
estamos de facto perante uma intensificaçào no que se refere à relaçào do 
individuo éom ' o ~u~do. . -,,~ .. _- .. --- - '-' ~ . --_.~ 
-A ïnsonaif"ëf 'vôiitade divina investe certos homens corn a graça da 
eleiçào, e condena outras como réprobos. A tarera do eleito é trabalhar 
para a glorificaçào de Deus no mundo, e a fidelidade a essa tarefa sera 0 
sina1 e a unica prova da eleiçâo. Assim 0 eleito exerce sem descanso a sua 
vontade na acçào. Ora, ao fazê-Io na absoluta submissào de Deus, partici-
para nele contribuindo de facto para a realizaçào dos seus designios. 
Estou a tentar, sem duvida muito imperfeitamente, captar ' 0 complexo de 
submissào e de exaltaçào do eu presente na configuraçào das ideias e dos 
valores de Calvino. A este nivel, quer dizer na consciência do eleito, reen-
contramos a dicotomiéi hienhquica que nos é familiar. Troeltsch previne-
-nos contra uma interpretaçào que visse em Calvino um individualismo 
alomico e desenfreado. E é verdade que a graça divina, a graça da eleiçào, 
é central na doutrina, e que a Calvino nada interessa a 1iberdade do 
homem. Considera que «a honra de Deus esta salva quando 0 liOmem se 
verga à sua Jei, s~ja: a sua submissào.1ivre ou forçada» (Choisy, citado pOI 
.} ' . 
. . Troeltsch, n.o 330). Conludo, se vernos aqui a emergência ·do individuD-no-
-mundo, e se conhecernos a dificuldade intrinseca desta atitude, aé~~~mos 
por ver na submissào do eleito à graça de Deus a condiçào necessdria da 
legitimaçào desta transiçào decisiva. 
Até entào, corn efeito, 0 individuo era obrigado a reconhecer no mundo 
um factor antagonico, um outra irredutivel que nào podia suprimir mas 
apenas subordinar, englobar. Esta limitaçào desaparece corn Calvino, e 
descobrirno-Ia de certo modo substituîda par uma submissào muito espe-
cial à vontade divina. Se tal é ~ ' génese daquilo a que Troeltsch e Weber 
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GÉNESE. 1 
chamaram «ascetismo-no-mundo)), seria prefcrivel inverter os termos e falar 
antes de umalniiimundanidade 'ascética ou condicionada 1 • 
. . .Podemos também contrapor a participaçâo~a~e Calvino em Deus à 
participaçao tradicional."'COÎltempfatîvà~que é'aih-tfa .a ~e .. Luter,o. Dir-se-ia 
que cm vez de achar' iiUffi-aufrê,-- riiJnLd6 0 reftigio que nos permite 
desembaraçarmo-nos melhor ou pior no meio das imperfeiçôes deste, deci-
di~' en.carnar -nos pr6prios esse outro mundo na nossa acçào decidida 
sobre '~st~. E cis - ponto da maior importância - 0 modela do artificia-
lismo moderno em geral, a aplicaçào sistematica às coisas deste mundo de 
~m valor extrfnseco, imposto. Nâo um valor extraido da nossa pertença ao 
mundo, da sua harmonia ou da nossa harmonia corn ele, mas uro valor 
enraizado na nossa heterogeneidade cm relaçào a cie: a identificaçào da 
nossa vontade corn a vontade de Deus (Descartes: 0 homem tornar-se-a 
«senhor e dono da natureza»). ~vt;~~}_~im