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LOUIS DUMONT - TEXTO: Ensaios sobre o Individualismo; Cap. 1

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aplica~a_~,? wund9, 0 fim 
procurado, :) motivo ou mola pro un a da vontade sào estranhos ao mundo. 
Por outras palavras, sac c:xtramundanos __ ~ ~~ramun~a~n~dade cOEce~!?...:!~_ 
agora na vontade individual. 0 que corresponde bem à distinçào de Toen-
niés~ëntre-voiîiàd; espontânea e vontade arbitraria, Naturwille e Kürwille. e 
vernos onde 0 arbitrario. Willkür, tem a sua fonte. Na minha opiniào. esta 
disposiçâo subjaz tambérn àquilo a que Weber chamou a racionalidade dos 
modernos. 
Para mais, a concepçào de Calvino permite-nos corrigir e aprofundar 0 
paradigma até aqui uti1izado:.,~~3: ~~.r3mu.n~an!~ad:. ~~.~~_n~~t~~go~_~:.-~ 
vontade do individuo, ~ podemos pensar que 0 arttflclahsmo mo(femo 
enquanto fm6~eno '~cepcional na historia da humanidade so pode com-
preender-se como urna cons~uência historica 10nginqua do individualismo-
-fora-do-mundo dos cristàos, e que aquilo a que charoamos 0 moderno 
«individuo-no-mundQ) tem em si proprio, escondido na sua constituiçào 
interna um elemento nào percepcionado mas essencial de extramundani-
. -- --
-._--
~~ "'1 Mix Weber di~se pouco mais ou menos a mesma 'coisa em' 1910 numa discussao ~~ a " .,. C conferência de Troelsch sobre 0 'Oireito Natural: opunha as «formas de sentimento rdiglOSO • recusando 0 mundo» ao «S(:ntimento religioso calvinista que descobre a certcza de ser ntho de 
, :-:-::r" or Deus na prova.de si pr6prio (Be~iihrung) consistente e~ triunfar" :,.~_~do ~ado ~~ 
nado)), ~u!Ù'a iljnda 'l. «co~~c!~~ Èt. arp.or ac6sml~ caracte~lstJca da_l!reJ~ O~.!!!.~ 
"*'"aa1ûssia à «sociedade}) ou dormaçao da estrutura social numa base egocentnca» (4I:Max 
- Webèi-· on- êhurch. Séet ana'"M""yStiéism».~ed . Por Nelson. Sociological AnalysÎS, 34-2, 1973, 
~- . . Benjamin Nelson diz alias que 0 mÎsticismo-no-mundo exige uni rero,lheclmento malS 
explicito do que 0 proposto por Weber e TI"oeltsch (Sociological Analysis, 36-3. 1975: p. 236. 
cf. acima n. 6). Tai parece confirmar a t6nica aqui colocada mais sobre a intramundamdade do 
que sobre 0 ascetÎsmo. 
65 
.,1 
ENSAIOS SOBRE 0 lND1VIDUALlSMO 
dade, Existe pois entre os dois individualismos urna continuidade maior do 
que de inicio supusemos, de onde decorre que uma hipotética transiçâo 
directa do holismo tradicional para 0 individualismo moderno ja Dào nos 
parece apenas improvavel, mas impossivel l , 
A transiçào para 0 individuo-no-mundo, ou, se assim posso dizer, a con-
versâo à intramund'anidade, tem em Calvino concomitantes notaveis. Houve 
jéi quem assinalasse ,a recessào dos aspectos misticos e afectivos. Nâo se 
~ è acham J9inp~etàinente ausentes (Jos eScritos de Ca1vino, mas sim, e muita 
espectacularmente, da sua doutrina. A pr6pria redençào é considerada, de 
um ponta de vista secamente legalista, como a reparaçao de uma ofensa à 
honra de Deus. Cristo é 0 chefe da Igreja (em vez do papa), 0 paradigma da 
vida cristâ, e 0 selo autenticador do Antigo Testamento. Os ensinamentos 
pr6prios de Cristo nào eram adequados à regulamentaçao de uma cidade 
terrestre cristâ, e 0 Sermao da Montanha acaba por desaparecer por tras do 
Decalogo. 0 pacto entre Deus e a Igreja reproduz 0 antigo pacto entre Deus 
e Israel. Choisy insistiu na transiçâo da «cristocracia» de Lutero para a 
«Domocracia» ou «logocracia» de Calvino, ._-- - ._- -
..... Domesmo modo, "a ;'âTô;p~rt~ 'd~s ~~ços correspondentes à extramun-
danidade perdem a sua funçâo e desaparecem. 0 regresso do Messias per-
~ta.È.~~!~t~l'i!o ,tel1!P.9 grande pêP1~_"~a, sua urgêiiërâPOêleaizer:Se' q'ue 0 
~ reine de Deus é agora algo que a pouco e pouco se constr6i na terra graças 
ao esforço dos eleitos. Para quem quer que enfrente sem descanso os 
hornens e as instituiçôes tais como sâo, 0 estado de natureza ou de inocên-
cia, a distinçâo entre Leis da Natureza absoluta e relativa, nao passam de 
vas especulaçôes. 
Ha uma questào que se Ievanta: poderemos deveras afirmar que 0 valor 
individualista reina agora sem contradiÇâo nerri liiiiitâÇap?-A p r1iîieirnvista, 
nào parece que seja-assim·. Calv~~'",@;e~a a id~ia medieval segundq,,~ 
-_. .. __ ........ ~._. -~._---,~ - _.-
q~.a.!.~..!grej~ deve domin~ ~ ~do (~.';1_~~oy~_o e.~!i.!.icQ ~da ,cidadc),, _~ 
acima de tudo perÎsà s "ernpre a Igreja como identificada corn a sociedade 
globaL Troeltsch sublinhou cuidadosame~te "este ponto: embora.l;muitos~tra=--~ 
, .. ~~ ~ '- .~ ~ 0- - -
1 As duas partes do nosso paradigma inicial começaram por ser introduzidas mais ou 
menos independentemenle, e podiam parecer contradit6rias, Ou em resumo: a dist!nçào 
holismo/individualisr,iO pressupôe Ufi îndividualismo-no-mundo, enquanto na distinçào intra-
mundano/extramundano 0 p610 cxtramundano nâo se opôe ao holismo (pelo menos do 
rnesmo modo que 0 p610 intramundano), De facto, 0 individualismo extramundano opôc-se 
hierorqlûcamente ao holismo : ~uperîor à sociedade, deixa-a no seu Jugar, ao passo que 0 indi-
vidualismo intramundano nega ou destroi a sociedade holista e suhstitui-a (ou pretende fazê-
-10), A continuidade que acabamos de detenninar entre os dois tipos, especia]mente no exem-
plo de Calvino, reforça a sua unidade e matiza a sua diferença, 0 paradigrna inicial fica assim 
confirmado. 
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\ 
1 
GÉNESE. J 
ços do calvinismo 0 fizessem tender para a seita, e independentemente dos 
ulteriores desenvolvimentos nessa direcçao ou na das «igrejas livres», Cal-
vino sempre aderiu estritarnente ao controlo pela 19reja de todas as activida-
des no interior da comunidade social no seu conjunto - mais ainda: apli-
cou estritamente esse controlo em Genebra. Poderiamos portanto supor que 
nem todos os traços holistas desapareceram e que, para Calvino coma ante-
riormente, 0 individ_ualismo-dev,Ç ter sido contrapalapçado em cena medida 
pelas necessidades dà vida so~ial. Troeltsch explica que nào foi assim: 
«A ideia de cornunidade nào é desenvolvida a partir da concepçào da Igreja 
e da graça, coma na 19reja luterana ; pela contrario, deriva do rnesmo prin-
cipio do quai ernana a independência do individuo - a saber 0 dever ético 
de preservar a eleiçào e de a tomar efectiva - e de urn biblicismo abstracto» 
(p. 625-626). 
Troeltsch cita Schneckenburger (n.o 320): «Nao é a Igreja que f~.-È2s. 
crentes aquilo Jll}~ ~àq, .. !!1a,~LQs .. cr.e.!1t<:s qu~_.~~IE....da !gr.Çj~. ~quilo que.ela.é», 
e ;cn;~~~Ïa~'«A co~~pçâo..d~l8!eja situa-se no quadro da predestinaçâo». 
Em suma, através ~redestina~è) 0 indivîduo passa à frente da 19reja. Eis 
uma transfcrmaçao fundaJl'l'êîUâi, que se compreendera melhor se nos lem-
brarmos de que Lutero, embora cODservando inalterada, segundo pensava, a 
ideia da Igreja, a esvaziou de facto do seu nucleo vital. Continuava a ser 
uma instituiçào de graça ou de salvaçao (Heilsanstalt), mas a predestinaçâo 
de Calvino até mesmo dessa dignidade ia priva-la, no pIano dos factos 
senao no dos princîpios. Da Igreja ficou um instrumento de disciplina 
agindo sobre os individuos (tanto sobre os eleitos coma sobre os réprobos. 
uma vez que na pratica é imposslvel distingui-Ios) e sobre 0 governo politico. 
Mais precisamente tratava-se dé urna instituiçào de santificaçâ,o (Heiligung-
sans/ait), eficaz na cristianizaçào da vida da cidade. A vida no seu todo, a 
Igreja,. a famI1ia e 0 Estado, a sociedade e a economia, todas as relaçôes pri-
vadas e publicas, deviam ser modeladas pela Espirito Divino e pela Palavra 
Divina comunicados pelos ministros da Igreja (e eventualmente confirmados 
pela Consistçdo onde os leigos se encontrav,~ representados). No pIano -
dos factos,.3<:Igreja-era agora 0 6rgào através do qual os eleitos deviam rei-
nar sobre o; --:réprobos e cumprir a sua tarefa para maior gloria de Deus. 
Conservava'certos traços da antiga Igreja e distinguia-se assim da seita, mas 
ao mesmo tempo tamara-se na pratica uma associaçào composta de indivi-
duos (cf. n.· 29). 
Em suma, Calvino nào reconhecia nem na Igreja nem na sociedade