A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
19 pág.
LOUIS DUMONT - TEXTO: Ensaios sobre o Individualismo; Cap. 1

Pré-visualização | Página 3 de 14

in tensifi-
cadas em toda a sua cxtensâo, tera sem qualquer duvida favorecido 0 movi-
mento. Noternos que, neste meio, a intluência directa ou indi recta do tipo 
indiano de renunciante nào pode ser a priori excluida. ainda que os dados 
sejam insuficientes. .... . 
Se f6sse necessaria uma demQnstraçào do facto de que à' mcntalidade 
extra-mundana Împerava ent re as pessoas inst ruidas em geral, no tempo de 
Cristo, poderiamos descobri-la na pessoa de um judeu, Fi lon de Alexandria. 
1 Cilado por Edwyn Be\'an, Stoïciens el Sceptiques, Paris, 1927, ;J.63, lraduzido do 
inglês. Este amor viu benl a semelhança corn a renûncia indiana. Cita longam.:!l1le a Bhagavad 
Gita para ind icar 0 paralelismo cam as nuiximas dos eSl6icos acerca do dcsprcndimenlO (ibid., 
pp. 75-79), de facto a Gîla contêm ja a adaplaçào da renuncia ao mundo. Cf. ({A renuncia ... » , 
loc. cit., sccçao 4. 
38 1 
I,: 
Filon 1ll0slrou ~IOS fUlu l"Os apologet3s crislàos como adarl3r a menS3QCm 
rdigiosa a um plHllico pagào inslruido. Expri me calorosamentc a sua fe;vo-
rosa predilecçao pela vida cOlllcmplaliva do recl uso, a que anseia impacien-
temente regressa r, depois de a 1er înrerrompido apenas para servir a sua 
comunidade no piano pOlÎtÎCo - coisa que alias fez corn disl inçào. Goode-
nough moslrOll precisamcnte como esta hierarquia dos dois modos de vida 
e a da fé judaica e da filosofia pagà se reflcclem no duplo jujzo poHtico de 
Filon, ora exotérico e apologélico>ora ' esolérico e hcbraicol. 
VoItando·agora ao hi st'i anismo,Tàe~~ c~meçar por dizer que 0 meu prin-
cipal guia sera 0 historiador-sociologo da Igreja, Ernst Troeltsch. No seu 
volumoso livra, As DOM/rinas Sociois dos 19rejas e dos Grupos Cris/Gas 
publicado em 1911 e que pode ser considerado uma obm-prima, Troeltsc~ 
apresentara jâ uma imagem re lativamente unificada, nos seus pr6prios ter-
mas, de «toda a extensào da historia da 19reja Cristà»2 (p. VIII). Se a 
exposiçào de Troeltsch l'ode cm certos pontas necessitar de ser completada 
ou modi ficada , 0 meu esforço COnSiSlira principalrnente em tentar alcançar 
graças à perspect iva comparativa que acabo de esboçar uma imagem ainda 
mais unificada e mais simples do conjunto, conquanto, de momento, s6 nos 
ocupemos de uma parte desse conjunto3 . 
Trata-se de matéria conhecida, e limilar-me-ei a isolar esquematicamente 
alguns traços criticos. Resulta dos ensinamentos de Cristo e em seguida de 
Paulo que 0 cristào é um «individuowem-relaçâo-com_DellS)} . Ha, diz 
Troeltsc h,~((il1diyid~a lîsl!l.:L.a.~~njye!gtli~mo._absotUl9)! na relaçào 
corn Deus. A a lma individua l recebe va lor eterno da sua relaçào filial corn 
Deus, e 'é nessa rel~çào que igualmente se fundamenta a rraternidade 
huma na: os crislâos reunemwsc em Cristo, de quem sâo os membres. Esta 
afirmaçâo extraordinaria situa-se num plana que transcende 0 mundo do 
homem e das inSlituiçôes sociais, embora também elas procedam de Deus. 
~ E. R. GoodenOUg l ~, An !lIfrodllClioll 10 Philo Judaeus. New haven, 1940. 
Ems! Troehsch, Die SOZlalehrel/ der christ/ichen Kirchen III/d Gruppen, em GesammellC 
Schrjj)en, 1. 1. Tubi nga, 1922; Aalen , 1965. Trad. inglesa: The Social Teaching af lhe ChriS/Îon 
Chuiches, New .York , Harper Torchbooks, 1960,2 vols. (A Iraduçl1o, mais aÛSSÎveJ conser~ 
a nu rnttà'Ciio das notas de Troehsch; mas nem sem pre é segura.) As rcfcrêncîas de pagina înduî-
das no lexlo relllelcr;1o para eSla obra, exceplO indicaçâo em contrario . 
. 3 É peqtena a di stância elllrc 0 sentido geral do Ji\'ro de Troeltsch e a preseme formulaçao. 
Assml um sociologo pcrspicaz, BenjamÎn Nelson. obser\'ando que 0 illleresse nào s6 de 
Trocll sch mas d~s p:in c.ipais. pcnsadores a!cmâes dos sêculos XIX e XX, a panir de Hegel, se 
concentrou na ({lIlstlluclOnahzaçao da c r;~landadc primîtiva», enunciou 0 problema de dua~ 
man .... iras, sendo um a delas a seguinlc: «Corna deu uma sei la ultra-mundana orÎgem à Igreja de 
Roma?)) «(Weber, Troehsch. Jellinek as compara lÎ\'e historical sociologiSls» Sociofogicof 
Anofysis, 36-3, 1975, pp. 229-240; cf. n. p. 232). ' 
39 
1 
r 
ENSAJOS SOBRE 0 /NDIV/DUALISMO 
o valûT infînito do individuo é 30 mesma tempo 0 rebaixamento, a desvalo-
rizaçao do munda tal como é: afirma-se uro dualismo, estabelece-se urna 
tensao constitutiva do cristianismo e que atravessara toda a historia. 
Detenhamo-nos neste ponlO. Para 0 hornem moderno, tal tensao entre ver-
dade e realidade tohnou-se muite dificil de aceitar, de apreciar positivamente. 
Falamos por vezes cm «mudar 0 mundQ), e é evidente nos seus primeiros 
esc~itos queo jovem H~gel tcria preferido ver Cristo declru;ar guerra 30 ~undo\ 
tal coma é. TodaviiI, retrospectivament~ vernas que se Cristo eoquanta li.omem 
tivesse agido desse modo, 0 resultado tcria sido pobre por comparaçào corn 
as consequências que os seus ensinamentos acarretaram ao longo dos sécuM 
los. Na idade madura, Hegel corrigiu honestamente a impaciência da sua 
juventude reconhecendo plenamente a fecundîdade do subjectivismo cristao, 
quer dizer a tensâo congénita do cristianismo 1:... De facto.] se a con~iderarn:'?~ 
comparativamente, a ideia de «rnudar 0 mun~~~ um ar tâo absurdo ~~. 
acabamos par compreendÇ.r~y'ç s6 pÊ~.rur.Jluma civillzaçaO que durante 
-muit"Otemj5Omantivera im la~ros'p!Ç...~J!la d~~!!!ç!2 absoll!.~.5!!~~~~!d~ . 
promeu a ao home!f1 e a vida que. de facto é a dele. Esta {oucura mode~a~_ 
""enraiza-se naquilo a que alguém chamou 0 absurdo da cruz. Lembro-me de 
ouvir Alexandre Koyré, em conversa, opondo a loucura de Cristo ao bom 
senso de Buda. No entanto, ambos têm algo em comum: a preocupaçâo exclu-
siva corn 0 individuo ligada a ou antes assente nurna desvalorizaçao do 
rnund0 2. É deste modo que as duas Teligiôes sâo deveras religiôes universais 
e por conseguinte missionarias, que se estenderam no espaço e no tempo e 
forneceram consolaçâo a inumeros homens. É deste modo - se me.posso per-
mitir avançar tante - que as duas sao verdadeiras pela menos no sentido em 
que afinnam que os valores devem ser mantidos fora do alcance do aconte-
cimenta se quisermos que a vida humana seja suportavel, particularrnente para 
uma mentalidade universalista. 
o que nenhuma religiao indiana plenamente alcançou e que pela contraM 
rio se encontra dado à partida no cristianismo é a fraternidade do amor em 
e par Cristo, e a igualdade de tÇd9S que dai resulta, uma igualdade . que, 
:~ / •. , . '> 
1 Cf. Hegels theologische ]ugendsc::i;:n, Thbinga, pp. 221M 230, 327 sq., .trad. francesa: 
L'Esprit du christianisme el son deslin, Paris. Vrin, 1971: ? jove~ .Hegel delxou-se arrastar 
pelo seu zelo revolucionario e pelo seu fascinio pda polis Ideal (Ibid .• pp. 163-164, 297-302. 
335). Sobre as concepçôes da maturidade, cf. Michael Theunissen , H egels Ll!hre vorn absolulen 
Cdsl ols lheologisch-polilischer Traktat, Berlim. 1970, p. 10-11. 
20 facto de a desvalorizaçao seT relativa aqui. radical ali , é OUlra Queslâo. É claro Que 0 
paralelismo mais limitado estabelccido por Edward Conze entre «Buddhism (Mahayana) an~ 
Gnosis)) assenta na presença subjacente dos dois 1ados do individuo-fora-do-mundo. (Cf. paru-
culannente a cond usào e a liltima nota em Le Origini dello GnOSlicismo. Col6quio de Mes-
si na, 13-18 de Abril de 1966, Leyde, 1.967, p.665 S8· ) 
40 
GÉN ESE, J 
Troeltsch insisle Il CSSC ponto, «cxistc purarncntc na prcscnça de Deus» . Em 
termos sociol6gicos, a emancipaçào do individuo por urna transcendência 
pessoal, e a uniâo de individuos fora -do-mundo numa comunidade 
. h que 
ca~m a na tcrra mas lem 0 seu coraçâo no céu, talvez seja uma formula 
aceltavel para a definiçâo do crislianismo. 
Troeltsch sublinha a estranha combinaçâo de radicalismo e de conserva-
d~ris~o ?aq~i decorrente. É proveitos.~ observar as .. coisas de um ponto de 
VIsta hlcrarqUlco. Encontramos {oda umà série de oposlçôcS semelhantes entre