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LOUIS DUMONT - TEXTO: Ensaios sobre o Individualismo; Cap. 1

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este mundo e 0 além, 0 corpo e a alma, 0 Estado e a Jgreja, 0 Anligo e 0 
Novo Test~~ento, a q.ue Caspary chama os «pares paulinianos». Remeto para 
a sua anahse num llvro recente e notavel sobre a exegese de Origenes 1. 
É clara que nestas oposiçôes os dois pélos se encontram hierarquizados 
mesmo quando isso à superficie nao é evidente. Quando Jesus Cristo ensin~ 
a dar a César 0 que é de César e a Deus 0 que é de Deus, a simetria é apenas 
aparente, porque é em funçâo de Deus que nos devemos vergar às pretens6es 
legitimas de César. A distância assim criada é cm ceno sentido maior do que 
se as pretensoes de César fossem simplesmente negadas. A ordem mundana 
é relativizada enquanto subordinada aos valores absolutos. Ha aqui urna dico. 
tomia ordenada. 0 individualismo cxt~@!..undano engloba 0 reconhecimento 
~ . .:...a~ência em re2açâo aos poderes deste mundo. Se se ilustrasse esta situa: 
. çào ~:::~~~ fig_~.! .~~":9..~1?0!2:::..i~..?e dois circulos coocêntncos, repre. 
~~~ .. ~ .. "!~~~~?~~~~~n;~~elaçâo.com-De~s e ~-~ais pequeno 
a ace~.J2-~s_J!.eçessid~.ge..s.~dev.eJ.e.s"_UJ.~a~~ dO_ql,~;;ctQ. g~dizer."a~ 
J.~çào n~~::. ~9.~~~~~P~.s!L~~PQis. qi.stà._g~.,nào..dcixou de seT holista 
Esta figura, onde a referência primaria, a <.lefiniçào fundament~~~;t,·a 
camo sua antitcse a vida mundana, onde 0 individuaIismo-fora.do-mundo 
subordina 0 holismo normal da vida social, é capaz de conter economica. 
mente todas as principais transformaçôes subsequent.es conforme as for-
mula Troeltsch. 0 que ac"ontecera na ;list6ria é que 0 valor supremo exercera 
um~ pressao sobre 0 elemento mundano antitético que contém. Par etapas, 
a vlda ~undana sera assim contaminada pelo elemento extramundano até 
q~e fi~alrnentê' a' hei·erogeneidade do mundo por completa se desvaneÇa . . 
Entâo todo 0 campo estara unificado, 0 holismo tera desaparecido da ~'fe~! 
sentaçào, ~ vida no mundo sera concebida camo podenda conformar-se 
inteirarnente corn 0 valor supremo, 0 individuo-fora-do-mundo ter-se-a 
transformado no moderne indivfduo-no-mundo. Trata-se da prova histérica 
da cxlraordinaria potência da disposiçào inicial. 
1 Gerard Caspary. Polùics and Exegesis: Origen and the Tho Swords, Berkeley University 
of California Press. 1979. ' 
41 
J 
ElvSA/OS so/mE () INDIVIDUALISMO 
Gostaria de acrescentar pelo menas uma observaçào sobre a aspeclo 
milcnarista do cristianismo nos scus começos. Os primeiros cristàos vivi am 
na expectativa do iminente regresso do Messias que instauraria 0 reino de 
Deus. A crença era provavelmente funcional no senti do de ajudar as pes-
soas a aceitarem ~ pelo menas provisoriamente, 0 dcsconforto de uma 
crença que nào cra imediatamente pertinente quanta à sua situaçào de 
facto. Ora, acontece. que 0 mundo conheceu nos nossos, dias um!1 extra9r-
din~ria proliferaçâo de movimentos milenaristas, muitas vezes ~hamados 
cargo cuIts, em condiçôes muito seme1hantes às que prevaleciam na Pales-
tina ao tempo da dominaçào romana. Em termos sociolégicos, a diferença 
principal consiste precisamente no cJima extramundano da épaca, c em 
particular na orientaçâo extramundana da comunidadc cristà, que triunfou 
duradouramente sobre tendências extremistas, fossem as dos judeus rebcJ-
des ou dos autores apocalipticos, dos gn6sticos ou dos maniquclstas. 
Desle ponta de vista, 0 primeiro cristianismo parece caracterizado pela 
combinaçào de um elemento milenarista e de um elemento extramundo, 
corn prcdominio deste ultimo J. 
Por esquematico e insuficiente que seja 0 meu resumo, espero que tenha 
tornado verosimil a ideia de que os primeiros cristàos estavam, afinal de 
contas, mais pr6xirnos do renunciante indiano do que de n6s. instalados 
corno hoje nos acharnas num mundo que julgamos ter adaptado às nossas 
necessidades, De facto - deveria dizer «também»? - fomos n6s que nos 
adaptâmos a este mundo. Tai sera 0 segundo ponta deste estudo, onde con-
sideraremos sucessivamente aIgu mas etapas dessa adaptaçâo. 
Como é que a mensagem extramundo do Sermâo da Montanha pôde 
exercer uma acçâo sobre a vida "do mundo? No piano das instituÎçôes, a 
relaçâo foi estabelecida através da Igreja. que podemos ver coma urna espé-
cie de ponta de aJ.:.oio ou de testa de ponte do divino e que s6 lentamente e 
por etapas cresceu, se unificou e estabeleceu 0 seu irnpério, Mas era necessa-
ria também uma ferramenta inte1ectual que permitisse pensar as instituiçôes 
terrenaS a partir da verdade extranid:iid-anâ',' Eni'st Treeltsch insistiu muito mi 
ideia da Lei da -Natûrèza qû~e os'-Padres da 19reja adoptaram dos est6icos. 
o que era ao certo essa «Lei da Natureza ética» dos pagâos? Passo a citar: 
! Sir Edmund Leach chamou a atençâo para 0 aspecto mîlenarista, mas viu·o um lamo 
apressadamcllle como um modelo de «subversàOH. (Leach, «MeJchisedech and the Emperor: 
!cons of subversion and orthodoxy», Proceedillgs of the Royal Amhropologicallnstitute for 
1972, Londres, 1973, pp. 5-24; cf. também mais adiante a nota 18. Trad. francesa em L'Unité 
de "homme et Autres Essais, Paris, Gallimard, «Bibliothèque des sciences humaines», 1980, 
pp. 223-261. 
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GÉNESE,1 
«A idcia mCSlra é a ideia de Deus como Lei da Nawreza universal, e5piri-
tual-e-fisica, que reina uniformemenle sobre IOdas as coisas e como lei uni-
versai do mundo ordena a natureza, produz as diferentes posiçôes do indivi-
duo na natureza e na sociedadc, e transforma-se no homem cm lei da razào, 
a quai reconhece Deus e é deste modo una corn cie ... A Lei da Natureza 
exige assim por um lado a submissào ao curso harmonioso da natureza e ao 
pa pel atrlbuido a cada urrf-,no) istG.ma social, c por outre a elevaçào interior 
acima 'de \ud6 isso, a libe;dade é;ico-rcJigiosa e a dignidade da razào que, 
sendo una corn Deus, nâo podera ser penurbada por qualquer aconteci-
menta exterior ou sensiveh) (p, 52). 
Poderia objectar-se a esta afirmaçâo de Treeltsch de uma relaçâo espe-
cial corn 0 estoicismo a facto de semelhantes concepç6es se encontrarem lar-
gamente difundidas na época, e de taillo Filon como, dois séculos mais 
tarde, os Apo!ogetas terem bebido igualmente e talvez mais ainda noutras 
escolas de pensamento. Objecçào à quai TrocJtsch respondeu antecipada-
mente: 0 conceito de uma Lei da Natureza ética da quai sào derivadas todas 
as regras juridicas e todas as instituiçôes sociais é uma criaçâo da Sloa!, e 
sera ao nivel da ética que a Igreja construira a sua doutrina social medieval, 
«uma doutrina sem duvida imperfeita e confusa de um ponto de vista cienti-
Fico, mas que assumiria na pratica a mais alta significaçào cultural e social 
e tornar-se·ia al go camo 0 dogma de civîlizaçào da Igreja» (p, 173). 
o empréstimo comraido parecera inteiramente natural se admitirmos que 0 
esrolclSmô'éaïgrëjaestavam amoûs-apegà-dôs acoricêpçào extramundanà-e 
'a-relahvlzaçâo conco"milantêëfà ··vida"nomû-ndo.-sêri1- vistas ··as ·c'015a5, -a 
mënS"à:[ëm-(fe Bu-d-; j;â;a·'ë' hOnîérri~nô-l~undo ' ~ô~ôtai--era da rnesm~ natu-
rezâ:a~lid~d~~-;;bJë~~-'; éiièàconstituem-a"'artic'~!;çâ~ e~;;~ ·~ ·~ida 
no mundo "e as imposiçô-es·s ûdaj·s por 'u~-i~do: a" ~è·rdàde e os valore~· ~b~o-
-,ntOs-porontrb-. -------.. -.. " .. - - ._-~ . .... --.-_.-.-. 
.----r5ëSëëbi1fi1'OS-,7"~ fundador da Sloa, três séculos antes de Cristo, 0 prind-
pio de todo 0 posterior desenvolvimenta. P.rraz;~ de Chîum - mais '.JJm, 
.' _ profeta do que um [ilosof;: segundo Ed"wyn sëV'a;2 - 0 Bem é aquiio que 
, toma 0 homem independente de todas as circunstâ~i~~-ex'l~~-i~;~~:-S6-o 
- ._------ _. _- _ .- - --_ .. -.. -.- ---_. -_. 
Bem é imerior ao homem. A vontade do Îïiaivfcfuo é a fonte da sua digni-
-dad;;-da~~~70;pÎ~tlliie·. CC;~tànlo" qûë aJustë-asûâ ~oniâ·de a tuctè-;; qüè 
odêst"lÎl-OTh-e poss'a- rcservar, estara a salvo, ao abrigo de todos os ataques do 
! Troeltsch, «Das stoisch-christichc Naturrecht und das moderne