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LOUIS DUMONT - TEXTO: Ensaios sobre o Individualismo; Cap. 1

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em grande 
medida aut6nomas, lerâo podido variar no seu tratamento da propriedade, 
pondo talvez aIgu mas delas :udo em comum a dado momento, enquanto s6 
a injunçâo de ,auxi liar os\.-tr-mâos desprovidos de recursos era obriga toria. 
Os est6kos e outres tinham declarado os hQl1J.cns iguais enq uantq ser~s·'· · 
--.....---:--- .. ---- ._- - _._- ---- -_. --- .. . - -----,. ~ 
racionals. A igualdade '€As~ talvez estivesse mais profundamente enraizada 
--no p;op~i o coraçào da pessda., mas era do mesmo modo uma qualidad ~ 
ext ramunda-n-a:-- «Nâo pode haver judeu ncm grego ... ncm escravo nem 
homem livre ... nem macho nem fêmca, porque todos vos sois um homem 
1:111 Jesus-Cristo», diz Pau lo, e Lactâncio: «Ninguém, aas olhos de Deus, é 
escravo ou senhor. .. Som os lOdos ... seus filh os.~) A escravatura era coisa -
deste mundo, mas é uma indicaçào do abismo que nos separa dessas pe"Ssoas 
o facto de aq uilo que para nos ' fcre 0 proprio principio da d ignidade 
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i 
L '. ,. 
GÉNESE.I 
. na contradiçào incrcntc à vida nO mundo, a quai 
humana ser para clas UI . ' esgale da humanidadc, para tedos 
'd elo propno Cn sto para r fora asSUml a P . ct ct ' al Todo 0 esforço no sentido 
, 1 mildade uma vlrtu e car J • lOrnando asslm a lU ém ao individuo-fora-do-
. para dentro como conv 
da perfeiçào se onentava ' la ao nive! «tropologico» da exegese 
dÉC vernoS bem por exemp 
-mun o. 0 qu · . t s biblicos sâo interpretados camo 
de Origencs pois todos os aconteclmen 0 '1 ) 
, ..' do crisüio (Caspary, op. CI •. te~do 'por teatro a' Vida ', lI1ter~or _ 1'1' a sua abordagcm por Troeltseh 
No que se re:e:e à :ue~~~~~~:~a;r~~tls~~a~egue Carlyle: a atitude perante 
pode ser sem duvlda _ d Le· da Nawreza mas 0 poder que 
as leis é governada pelas concepçodefs a 1 olhado com~ divino 1. De facto 
1 · , 'sto de modo 1 erente e promulga as elS C VI _ uito estranhas uma à outra. Eis 
l ealeza sacral nao eram m 
a lei natura e a r . _ h' rarquica das coisas pareee mais conve-
asO cm que a Vlsao le D de novo um c Plo' todo 0 poder vern de euS. 
. 0 t esscncial cncontra-se cm au . 
mente. pon 0 . , . lobaI ha lugar para a restriçào ou para a 
Mas no quadro destc pnnclplO g mentario sobre Paulo do grande 
d'ça-o 0 que se vê daramente num co cont ra 1 • 
Origenes, no seu Contra Celsum: 
Ele diz: «N~O ha peder ;~:~â~a:~~:he:s~e ~~~s:')'q~~a~~~:g~~t:~ 
poderia entao dlzer. ,Cd D ' s? Respondamos brevemente a este res-
scrvidores de Deus ... e e : u . _ sa nào para abuso. Havera 
peite. 0 dom de ?:us, a: l~:~:a~:~~: :q~eles que adrninistram a 
na verdade um
b 
JUIZOsedgundo as suas impiedades e nào segundo a lei 
oder que rece cra m f' por ~. . Ele [Paulol nâo fa ta desses poderes que perseguem a~. -
Ivm:'~i é necessario dizer: «Devemos obedecer a Deus e ~ao aos 
que q do peder em geral (Troeltsch, n. 73), 
homens» , mas fala apenas 
empto camo uma instituiçao relativa ultrapasso
u os 
Vernos bem neste ex 
fli to corn 0 valor abso1uto. 
seus limites e entroU .cm con l r ultimo dos cristâos, a subordinaçao politica 
Enquanto contrana ao va 0 . 'r' - a Lei da .Natureza rela-
trava a sua JUStI lcaçao n 
resultava da Queda, e encon . [longe) de Deus ... le} ... Deus impôs-
' 1 . «Os homens calram tiva. Asslm reneu. s impedir de tai coma os 
• . d de outres homens ... para 0 
-lhes 0 fre10 do me 0 0 onto de vista foi aplicado 
peixes se dcvorarem uns aos outros.» mesmo P 
. ! le tratou, em dois capilU!OS separados. da (jgual-
1 Numa obm aliàs classlca, A. J. Car y d d P,',", ;pe)) R W. e A. J. Carlyle, d t ·dade sagra a 0 . . d 
dade natural e do governo») e a «au on . Th West t 1 por A. J. Carlyle. «The Secon 
A Hîslory of Mediaeval Political Theory me, . ., . 
Century 10 lhe Ninth», Edimburgo e Londres, 1903. 
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1 
1 
ENSAIOS SOBRE 0 INDIVIDUALISMO 
por Ambrosio à escravatura, um pouco mais tarde, talvez porque esta apare· 
cia como urna queslâo individual , ao passo que 0 Estado era urna arneaça 
para a Igreja inteira. (É nctavel que uma explicaçao semelhante nao tenha 
sido dada para a propriedade privada, salvo par Joao Crisôstomo, que era 
urna figura excepc)onal). Também aqui lui lugar para alguma variaçâo. Por 
um lado 0 Estado e 0 imperador sâo queridos por Deus coma todas as coi-
... :. sas da terra. Por outro 'Iado o ' Ëstado esta para} a 19rejà como a terra para 
o céu. e um mau principe 'pode ser ~ma puniçâo envlada por Deus. É neces-
sario em geral nâo esquecer que na perspectiva exegética a vida na terra 
depois de Cristo é uma mistura: Cristo abriu uma etapa de transiçâo entre 
o estado dos homens ainda nâo resgatados do Antigo Testamento e a plena 
realizaçao da prornessa esperada corn 0 regresso do Messias (Caspary, op. 
cil., p. 176-177). No intervalo, os ho mens 56 dentro de si proprios possuem 
o reino de Deus. 
Apresentamos urna perspectiva sumaria das concepçôes dos Padres da 
Igreja dos primeiros séculos em maté ria social e politica, deixando de fora 
Santo Agostinho. que deve ser considerado à parte 1. Por um lado, corn ele 
encontramo-nos ja no século v, no Império tornado cristào, mas sobre-
tudo, a originalidade do pensador renova 0 quadro conceptual que herdara. 
Sabemos estar di ante de um homem que exprimiu 0 cristianismo corn urna 
intensidade de pensamento e de sentimento inteiramente nova. Corn ele, a 
mensagem crista de Paulo ganha toda a sua profundidade, toda a sua para-
doxal grandeza. Agostinho ergueu a sua religiâo a um nivel filosofico sem 
precedentes, e ao fazê-Io antecipou no mesmo gesto 0 futuro, de ta] modo 
a sua inspiraçâo pessoal coincide corn a força mot riz, 0 principio capital do 
desenvolvimento posterior. Por algo que muito precisarncnte se nos rcfere, a 
hist6ria exige-nos que saudemos aqui 0 génio. 0 que sentimos toma-se sem 
dûvida ainda mais forte por sabermos pelos cscritos de Agos~:nho através de 
que limites humanos, de que sofrimentos e de que esforços ele pôde subir 
tao alto. Seja coma for, trata-se de al go que faz corn que seja dificil falar-
mos d~le condignamente. formarmos urna ideia adequada da amplitude e da 
profundidade dq1~~ù 'Pènsamento; contudo, mesrno neste breve ensaio, tere-
mos que lhe dedicar um pequeno nicho - ou talvez urna capela onde possa-
mos, honrando-o, esperar sermos beneficiados pela sua extraordinaria pene-
traçao. 
1 AfaSlamo-nos assim um lanto de Trocllsch, cmbora nos sirvamos principalmenlc das 
suas eitaçôes, e mais ainda de Carlyle, cm quem Troeltsch se apoiava. Nâo live accSSQ à obra 
que Troellsch scparadamcnte eonsagrou a Agostinho (Augustin, die christjche Anlike und dos 
Mittleolrer, Muniquc, 1915). Outras refcrências: Étienne Gilson, Introduction à /' étudede saint 
Augustin, Paris, 1%9; Peter Brown, Lu Vic de SoÎ11I Augustin, trad . J.- H. Marrou , Paris, 1971. 
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GÉNESt~ 1 
Agoslinho ci: do seu tcmpo. e lodavia prefigura, aponta, com 0 dedo ,infa-
livelmentc 0 que esta para vir. É assim que a sua inlluêncl3, ou a sua hnha-
gem inte1ectual, sc estenderâ à ldade Média, e muito para alé~ dela: ~asta 
pensarmos cm Lutero, nos jansenistas, e até mesroO nos, eXlstenclahstas. 
Corremos portanto 0 risco de nos enganarmos a seu respclto, ~as talvez a 
perspectiva aqui esboçada permita situa-lo melhor, com~reende-IO ,mclhor. 
Assim, Q:uanto aq. que aqui diTef.l~m~ntc nos aeupa. nao b.~sta dlz~r q,~e. 
em relaçâo aos seus anlecessores, Agostinho rcstringe 0 campo ~e. aphcaçao 
da Lei da Natureza e alarga 0 da Providência, 0 da vontade dlvma. lntra-
duz, corn efeita, urna mudança mais radical. Em vez de aceitar a realeza 
sacral, subordina absolutamente 0 Estado à Igreja, e é neste nove quadro 
que a Lei da Natureza conserva um valor limitado. . 
Toma-se deste modo muito clare um duplo desenvolvlmento qu~ ~ncontra­
mos sobre 0 Estado na Cidade de Deus (cf. Troeltsch, n.o 73). AdrnntndO ~om 
Cicero que 0 Estado sc funda na