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LOUIS DUMONT - TEXTO: Ensaios sobre o Individualismo; Cap. 1

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justiça, Agostinho começa par afirmar vlgo-
rosamente que um «Estadm) que nao preste justiça a Deus e à relaçào do homern 
corn Deus nao conhece a justiça e por conseguinte nao é um Estad~. P~r out~ 
lavras nao pode haver justiça onde a dimensào transcendente da jUStIça esteJa ~:sente. 'Trata-se de um julzO nonnativo, de uma questao de princip~o ~c.D, XIX, 
21). Mais longe, 0 problema volta a ser abordado: estabelecido 0 pnnclplo, como 
'"' poderemos nos apesar de tudo reconhecer que 0 povo romano lem alg~ma rca-
lidade empirica, cmbora nao sendo um povo, ou uro Estado,. no .senudo nor-
mativo? Pois bem, podemos reconhecer que 0 povo romano esta umdo cm to~o 
de algurr.a coisa, ainda que tal coisa nao seja, coma deveria ser,. a v:rda~eJfa 
justiça. Empiricarnente, um pava é um agrupamento de seres ra:l~nals un~dos 
pela amor em comum por alguma coisa, por valores comuns,. DJflamOS nos, e 
é melhor ou pior conforme os seus valores sao melhores ou plo.re~ (CD, ~IX, 
24). Vernos mal coma pôde Carlyle dizer que Agostinho concebi3 msufi:lente-
mente a justiça (p. 175); de uro modo geral, 0 comentârio de Carlyle aproXlma-se 
1 ~ da incompreensao sistematica (op. cil., pp. 164-17~). _. . 
, :> ~ ., o..Vejamos as coisas mais de perto. _ A.-!~~aLo~,:~~~~~ha~.c.?_I!Se~!..do 0 
. L __ ,~~ Estaao.éÔ-rnüïïdoëmgërél4 -coQIO congenitamente:.sœ9s~0.e IOdepe~d~nte 
- . l.j· ·por ~ef~rên~i~'à ~gr~j~ e ao dominio da relaçao do hômzm corn D:us. q que 
Agostinho raz é reclamar que 0 Estado seja julgad?~ d? pon~o de vista, tr~ns­
~ .. ,. cendente 30 tfIünoo, da relaÇà6 ao ~_o~e~ corn Deus, que é 0 ponta d~ v~ ~t~ 
da ]greja~ Hfâëiüi urria preteiisiO teocratica, um passo em frente na ap!lca-
i;ào' de valores supramundan ..... s às circunsl~~.9~~ çles~ .mundo. AgO~tlOhO 
- anlffféia- a:qul (}déSenvoIVlriïëni~E.~i.~~rP~r~o~ . s~cu.~?~_~~gl!intes. ~ a, hngu~­
gem de Greg6rio Magno: ({Qûc 0 rcino terrestre sirva _~~ c.e~este~(ou seJa 
seu escravo: Jamuletur) (E]J:05). --
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ENSAIOS SOBRE a INDIVIDUALISMO 
,) ~. :'\ 0 que se passa nesle caso é caracteristico da atitude de conjunto de 
. ~ Agostinho, da sua reivindicaçâo radical, revolucionaria. Cristianizar desle '~-.."'" ~\ "-"~ "", modo a justiça é nào so obrigar a razâo a inclinar-se perante a fé, !1laS -
';::'1 ::.'-: fo-iça:nra,e~on1ië(:er "-ürii parëï1tesco corn eIi-:-<r ver" na -fé quaïèi~e-r- cois; 
\.:, :: "00010 a razao""el"~v_~~-~~ùma pôtênèia superioi-:....~ j"sso {nada menos"ëfè)"que 
lJrna -nova forma pe pensarnenlO correspondendo à imanência-e-
("\\.. ~ttanscendênci~ de De,us. Tai foi d:v~ras a ~retensâO ap~rentemente,:xt:ava~ ; 
i~' , gante de Agostmho: filosofar a partIT da fe, colocar a fe - a expenenCla de 
~ .:-:- Deus - no fundamento do pensamento racional. Os antigos podiam sem 
" ' ,\" dùvida ver nisto urna hybris; mas é apesar de tudo possivel sustentar que \2. "'" todos os fil6sofos fazem a mesrna coisa, no sen lido ern que toda a filosofia 
( : "'. parte de urna experiência pessoal e de urna tendência, senâo de um designio, 
-Ressoal. No plana da hist6ria universal, 0 acontecimento, 0 facto que ternos 
que reconhecer, é que começa aqui, sob a invocaçâo do Deus cristâo, a era 
moderna que podemos olhar coma U!ll esforço gigantesco visando reduzir 0 
abismo inicialmente dado entre a razào e a experiência. (Devo confessar que 
'~.a imensidadc do fen6meno ultrapassa os meus conceitos habituais e me 
'1 obriga à retorica.) Agostinho inaugura urna luta milenar, sempre renascente, 
proteiforme, existencial. entre a razâo e a experiência que, à força de se 
, 
. =-...... ..-.---...,_ . ..,,-
expandlf de um nivel para outro, acabara finalmè nte por modificar a rela-
çâo entre 0 ideal e 0 real, sendo nos de ceTto modo 0 seu produto. 
Esta espantosa mutaçào tem consequências no dominio que nos~. 
Em prirneiro lugar, trata-se de urn reforço da t6nica posta na i&ualdade~ 
Deus «nào quis que a criatura dotada de razào feita à sua_.iml~e~h! 
dorilinio dë'èutras'c rfiÜÜàsexce plôaiisdêsprovidas de~, (colocou) nào 
' "0 honièm aCiina do homem :"mas ·(rh~~e;;-aëi~aêios-ânim·ais. -A"ssim os pri-
- meiras honiens "l "ùStosfû;a"ffi fei iospastores -de rebaÎÎhos- e nâo reis de 
homens». Eis urna declaraçào que se diria quase est6ica, mas 0 vocabulario 
e 0 tom quase fazem pensar também em John Locke. Segue-se imediata-
mente a afirmaçâo do pecado, tâo categorica coma era a da ordem natural, 
por$ll)e· ({natural~ente, a escravatura é justamente imposta ao pee:ador», a 
puniçâo resulta da pr6pria Lei da Natureza, infringida pele pecildo '(CD, 
XIX, 15). Do homem que se tornou escravo do pecado é justo fazer um 
~ e~!=r~vo dc)"ho;;;em. 0 quesê apliëatantoàd;~i~açâ~ poÏiiica co~o à e;cra-
valura, 'mas "è'"nota"vel que a consequência seja explicitamente extraida ape-
nas quanto à escravatura, sem duvida por ser ai que é mais gritante a sujei-
çào do homem ao hornem, coma mais violentamente desrnentida a igualdade 
naturai querida por Deus. Ao senhor é lembrado que tambérn 0 orgulho Ihe 
é tâo funesto coma salutar a humildade ao servidor. (Vernos neste casa que 
a subordinaçâo nas relaçôes soci~ls nào é por principio recusada.) 
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GENESE. 1 
Agostinho intcressa-se pouco pela propricdade. S6 trata ocasionalmel11 e 
do te ma na sua luta contra os donatistas. Estes ultimos alegavam, contra a 
confiscaçào d2S suas igrejas pela governo imperial, que tinham adquirido as 
suas propriedades par meio do trabalho - amecipando assim 0 fmuro 
argumenta de Locke, conforme Carlyle observou. É clara que para Agosti -
nho a propriedade privada é exclusivamente uma questào de «di reito 
-"~lUmanO" e positi!,~Carlyle, ~p. .!:it.,-p.J40- 1~1). .""., ". 
Creio que,~oelt~ , na estem~.~e ~a!:xJe, nao pres~ mtelra JUStlça a on-
ginalidade do pens3.mento de Agostmlio, e procederel a algumas observa-
çoes a proposito das passagens em que os dois autores se lhe referem. Lem-
bremos para começar que, camo a maior pane dos antigos, gregos ou 
romanos 0 homem é para Agostinho uma criatura social. Ele proprio era 
, ------- - " .- - ,.,-
de resta üri1â'pessoa' eminëntëmente sociavel na vida de todos os dias. Além 
do mais. a ideia de hierarquia nào Ihe efa de maneira nenhuma esuanha, Ha 
uma hierarquia da alma e do corpo, ainda mais vincada pelo facto de em 
Agostinho 0 corpo ter uro valor, uma dignidade que por ceTta nàa possuÎa, 
digamos, em Origenes 1. É através da alma que estamo.!...t::m ElaS:~SQm 
r-""-~'-'- " ._."~~ .. _ --
Deus ; existe portanto 'uma ·câaë la de subordinaçâo .... q~_ .P~J1S à alma ... ~ dp. 
alma ao corpo. Assim Agostinho escreve, a prop6sito da justiça em relaçao 
--Com -01:staoo: «:"" quando um homern nâo serve Deus, que quantidade de 
justiça podemos supor que existe nele? Porque se urna alma nào serve Deus, 
nào pode comandar 0 corpo corn aigu ma justiça, nem a razào de urn 
homem pade controlar os elementos viciosos da alma» (CD, XIX, 21; 
XIX, 23). 
Penso no entanto que é p~ssivel ~~q~,ntos de por~enor, 
em Agostinho, uma progressao subt~ do mdlvlduahsmo...-o stado e urna 
colecçâo de homens unidos pelo acOtde-s e os v Tes e a UtI Idade 
---_._---- - -----"' --- - --------
. ·comuril:-A definiçilo vern de Cicero, mas em Cicero nâo é tào individualista 
"'côrnos'u~rge nesta traduçào. Numa passagem citada por Agostinho na pri-
meira referênc.ia que faz à questào em A Cidade de Deus, a conc6rdia da 
rriultidâo no Estado é a de diferentes ordens de pessoa,s, alla, baixa e média, 
e é comparada corn a harmonia de diferentes sons na musica (CD II, 21). 
mas esta referência a um conjunto nào é retida por Agostinho, e ficamos 
corn a impressâo de que para ele 0 Estado é fcita de individuos, ao passo 
que sô a Igreja seria um organismo. --- "~---- -
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1 Sobre a atitude Perante 0 corpo enquanto d"if; rente