apostila etica e responsabilidade social  2
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Apostila da Disciplina de Ética 
e Responsabilidade Social 
 
 
Ementa da Disciplina: Conceito e contextualização de 
Responsabilidade Social; Avaliação e vantagens da 
Responsabilidade Social; Medidas de desempenho social, 
indicadores, prêmios e certificações; Atuação da empresa 
frente à comunidade e público interno; A Ética 
Empresarial e prática de valores; A Crise de Valores na 
Sociedade e a Ética; O Nascimento da Ética: ética e 
história; Práticas Sociais, Morais, Éticas e o Cidadão; A 
Ética e a Ação Profissional; Ética e Responsabilidade 
Profissional. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
2017 
Autor: Professor Mestre Oswaldo 
Oliveira Santos Junior 
 
 
Ética e Responsabilidade Social 
 
Oswaldo Oliveira Santos Júnior 
http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4282701Z8 
 
Resumo 
O artigo trata dos aspectos centrais da discussão sobre a Responsabilidade 
Social Empresarial e sua interface com a ética. Para tanto buscou-se trabalhar 
os conceitos elementares da ética e sua configuração filosófica e histórica, bem 
como os pressupostos da responsabilidade social empresarial, procurando 
situá-la no marco histórico nos anos 1990, momento em que a sociedade 
brasileira experimentava o avanço das políticas de cunho neoliberais. Outra 
característica deste texto é sua abordagem e análise da sociedade capitalista e 
as contradições oriundas deste sistema em sua relação com os pressupostos 
da ética e da responsabilidade social empresarial. 
Palavras-chave: Responsabilidade Social Empresarial; Ética; Cidadania; 
Capitalismo; Organização. 
 
Introdução 
A sociedade humana sempre se caracterizou por ser um palco com interesses 
diversos e em constantes conflitos e lutas sociais. Um espaço onde as relações 
sociais são marcadas por inúmeras disputas entre grupos. Nestas relações de 
poder a igualdade entre os sujeitos praticamente não existe, tornando todas as 
lutas sociais desiguais e marcadamente violentas. 
Neste ambiente torna-se necessário uma reflexão profunda sobre a ética, 
entendida aqui como a melhor forma de viver e conviver entre os seres 
humanos, ou seja, um modo de arrumar a casa comum (o mundo) para nela se 
viver. A ética, como aqui apresentamos não é uma lista de coisas certas e 
erradas. Não é, portanto, um conjunto de regras e normas prontas para se 
cumprir. Compreendemos como sendo equivocada a ideia de ética como 
sinônimo de lei, norma ou regra. 
A reflexão sobre a ética nos ajuda a compreender a forma mais adequada para 
se viver em sociedade. Esta reflexão só possui efeito na medida em que há 
diálogo entre iguais, ou seja, a ética necessita de espaços dialogais para se 
efetivar. A ausência do diálogo impede o desenvolvimento da reflexão e da 
busca pelo convívio entre os seres humanos. 
Neste contexto, este artigo também tratará da Responsabilidade Social 
Empresarial (RSE), entendendo-a como uma forma de buscar por esse 
convívio social. Contudo, nossa abordagem crítica nos leva a levantar e 
observar algumas contradições presentes neste conceito e suas práticas, visto 
que existem situações em que os programas de RSE implementados nas 
empresas visam exclusivamente agregar valor às organizações, 
transformando-se em \u201cmoedas\u201d e ações de propaganda. 
Por outro lado, observaremos que os programas de RSE, criam também 
condições para se criticar e avaliar processos no interior das organizações que 
contradizem os princípios éticos e os valores morais dominantes na sociedade, 
contribuindo para inibir tais práticas nocivas. É possível observar que esses 
programas acabam também ensejando, nos indivíduos que estão trabalhando 
neles, a descoberta das estruturas geradoras de exclusão social. 
1. Conceito e contextualização de Responsabilidade Social Empresarial 
Abordar o tema da Responsabilidade Social Empresarial (RSE) é ir além do 
modismo ou dos sonhos alternativos assistencialistas. A sociedade atual possui 
mecanismos vorazes que consomem pessoas e a natureza, que excluem e 
segregam um grande contingente de seres humanos. Ao tratar do tema com a 
seriedade necessária, será inevitável o questionamento da estrutura social e 
econômica vigente em nossa sociedade. 
Conceitualmente falando, podemos entender a RSE como \u201cuma modalidade de 
atuação das empresas que se apresentam como comprometidas com o 
fortalecimento econômico e social do país\u201d (GRACIOLLI; TOITIO, 2008, p. 
166). Historicamente podemos situar esse movimento, no Brasil, no contexto 
do avanço das políticas neoliberais nos anos 1990. 
Entendemos que a partir dos anos 1990 o Brasil experimentou inúmeras 
políticas de \u201cajustes\u201d de cunho neoliberais que impediram os avanços das 
conquistas da constituição de 1988. Ocorreu, assim, uma contra-reforma do 
Estado, que impediu a construção de uma ruptura com o modelo excludente de 
sociedade. Neste sentido as reformas e ajustes vieram sempre na direção da 
manutenção do status quo da classe dominante, perpetuando e legitimando a 
hegemonia do projeto neoliberal. 
Neste sentido, vemos a partir dos anos 1990 uma série de ações políticas em 
que: 
Os governos de orientação neoliberal não buscaram \u2013 FHC 
ainda mais Lula \u2013 construir arenas de debate e negociação 
sobre formulação de políticas públicas, e dirigiram-se para 
reformas constitucionais e medidas a serem aprovadas 
num Congresso Nacional balcanizado ou mesmo medidas 
provisórias. Preferiram, portanto a via tecnocrática 
(BEHRING; BOSCHETTI, 2008, p. 154 e 155). 
Ou seja, no Brasil não ocorreram reformas que estimulassem processos de 
modernização das relações sociais e uma maior e efetiva distribuição de 
riqueza. Ao contrário, desde os anos 1990 o que se observam são políticas que 
favorecem uma indecente concentração de riqueza em detrimento do aumento 
da miséria (COUTINHO, 1989). 
Neste ambiente é que a RSE ganhou espaço, ainda mais respaldada pela 
noção de Terceiro Setor1, \u201cque reivindica um novo modelo de resolução aos 
problemas sociais pautado na ação privada, profissionalizada, voluntária e 
focalizada de agentes e organizações\u201d (GRACIOLLI; TOITIO, 2008, p. 167). 
Em nosso contexto é necessário considerar que o conceito de RSE possui 
muitas vertentes e possibilidades de interpretação, que são contraditórias e 
 
1
 \u201cO conceito de terceiro setor surgiu em 1978, nos EUA, cunhado por John Rockfeller III, 
concebido por intelectuais orgânicos do capital. O recorte efetuado da totalidade social em três 
esferas (Estado, \u2018primeiro setor\u2019; mercado \u2018segundo setor\u2019; e sociedade civil, \u2018terceiro setor) 
atribui autonomia e isolamento à \u2018dinâmica de cada um deles, que, portanto, desistoriciza a 
realidade social\u201d (GRACIOLLI e TOITIO, 2008, p. 167, Apud: MONTAÑO, Carlos. Terceiro 
Setor e a questão social. Cortez, 2002, p. 53). 
ambíguas. Desde uma prática corporativa ética e socialmente responsável, até 
como uma estratégia de mercado, que atua com o objetivo de agregar 
benefícios às organizações que dela se utilizam, tornando-a uma \u201cmoeda\u201d que 
soma valor e prestígio às empresas e instituições que se valem deste 
emblemático título. 
Nota-se que no interior destas instituições e corporações que se utilizam da 
RSE como estratégia de mercado, há a clara convicção de que a sociedade 
consome também um \u201ccapital simbólico\u201d, e que os denominados \u201cselos de 
responsabilidade social\u201d ganham valor nas sociedades de consumo. Presume-
se, então, que há consumidores bem-intencionados e dispostos a aportar 
recursos para participarem das ações relacionadas às causas humanitárias. É 
certo que não podemos desconsiderar que os sujeitos atendidos por essas 
práticas assistencialistas da RSE são beneficiados, mas tais práticas não 
geram as transformações sociais necessárias, tampouco questionam a 
estrutura geradora de desigualdades e exploração,