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A Diplomacia Na Construcao Do Brasil Ricupero

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Embora confusamente, já então me preocupava a mesma questão à qual 
Jacques Le Goff tentou responder no ano de sua morte: “Resta a saber se a his-
tória é uma e contínua ou segmentada em compartimentos. Ou melhor: será que 
é verdadeiramente necessário recortar a história em fatias?”.1 A resposta como 
que brotava da pergunta: da mesma forma que a vida, a história é uma túnica sem 
costura, um contínuo no espaço e no tempo, um rio perene que escorre, se espraia e 
transborda, mesclando águas claras e turvas, calmas e turbulentas.
É só para organizar as informações que a matéria da história é fracionada em 
pedaços, cada qual com sua etiqueta: “história política”, “história econômica”, “his-
tória das ideias”, “história diplomática”. Pela mesma razão, separam-se os retalhos 
do tempo: “Colônia”, “Independência”, “Segundo Reinado”, “Primeira República”. Na 
verdade, como disse no título de um de seus livros o padre Manuel Bernardes, todos 
esses pedaços não passam de um Pão partido em pequeninos.
Não tive escolha a não ser a de montar eu mesmo o curso que desejava dar e 
que não encontrei em nenhum compêndio. Em vez de gastar três quartos do currí-
culo com o período colonial, preferi partir do mais recente. Utilizei imagens, filmes de 
ficção e documentários para evocar com movimento, cores e ruídos os homens e as 
coisas do passado próximo, Os anos JK, de Silvio Tendler, Jânio a 24 quadros, de Luiz 
Alberto Pereira, as séries da BBC sobre o século XX. Compus roteiros para as aulas, 
preparei fichas, recolhi mapas e gráficos. 
Dos livros consultados, o que se aproximava do ideal e mais me auxiliou foi a 
História diplomática do Brasil, de Carlos Delgado de Carvalho, já então esgotado e 
circulando em cópias manuseadas e gastas. Delgado tinha sido, como eu, professor 
do Instituto Rio Branco e passara antes pela mesma experiência: fora obrigado a criar 
seu próprio curso. O livro dele, não planejado, nasceu das notas tomadas em aula 
pelos estudantes, mais tarde sistematizadas. 
A ideia de organizar um livro a partir do curso brotou desse precedente e teve 
de esperar décadas até que a aposentadoria me permitisse retomar as velhas fichas, 
salvar o aproveitável e dar início ao que faltava, que era quase tudo. Como seu 
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A DIPLOMACIA NA CONSTRUÇÃO DO BRASIL 1750-2016 PREFÁCIO DO AUTOR
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viver, que se funde e confunde com o amor maior aos “brasileiros no seu desejo de 
ter uma política externa”[1], parafraseando Antonio Candido.3 Não me envergonha 
confessar esse amor e tenho esperança de que o leitor não me acuse de haver, por 
amor, exagerado a contribuição da diplomacia à construção de um Brasil ainda longe 
do “sonho intenso” do nosso hino. 
Rubens Ricupero
São Paulo, 23 de junho de 2017.
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
1 LE GOFF, Jacques. Faut-il vraiment découper l’histoire en tranches?. Paris: Éditions du Seuil, 2014, p. 10.
2 RICUPERO, Rubens. Guimarães Rosa, examinador de cultura. In: João Guimarães Rosa, edição 
especial (números 20 e 21, dezembro de 2006), Cadernos de Literatura Brasileira, Rio de Janeiro: 
Instituto Moreira Salles, n. 20-21, dezembro, 2006, p. 66-75.
3 MELLO E SOUZA, Antonio Candido de. Formação da literatura brasileira (momentos decisivos). 
Belo Horizonte: E. Itatiaia, 9ª ed., v. I, 2000, p. 25.
[1] N. E. O contexto da expressão de Antonio Candido na introdução de Formação da literatura brasileira é: “Sob 
este aspecto poder-se-ia dizer que o presente livro constitui (adaptando o título do conhecido estudo de Benda) 
uma ‘história dos brasileiros no seu desejo de ter uma literatura’. É um critério válido para quem adota orientação 
histórica, sensível às articulações e à dinâmica das obras no tempo, mas de modo algum importa no exclusivismo 
de afirmar que só assim é possível estudá-las”. 
O próprio Antonio Candido, como se vê, adaptava a expressão de Julien Benda no título de Esquisse d’une histoire 
des français dans leur volonté d’être une nation (Esboço de uma história dos franceses na sua vontade de serem 
uma nação). 
ensaio que escrevi em 2006, “Guimarães Rosa, examinador de cultura”2, no qual nar-
rava o exame de Rosa em contraponto ao meu. 
“Quando minha mãe morreu, meus irmãos encontraram entre seus papéis todas 
as cartas que eu lhe havia escrito desde que deixei São Paulo para fazer o exame de 
ingresso no Itamaraty. Estavam cuidadosamente guardadas dentro de uma pasta 
de couro verde, presente de um de meus irmãos, na qual ela havia feito gravar em 
letras douradas ‘Meu filho diplomata’. A primeira das cartas, que eu tinha esquecido 
totalmente, era datada do Rio de Janeiro, 9 de setembro de 1958.
Nela, eu relatava a primeira prova eliminatória, de português, cujos resulta-
dos não eram conhecidos ainda, mas que dizimaria os candidatos, reduzindo-os 
de 116 a pouco mais de 20. Na carta, eu também registrava, deslumbrado, minha des-
coberta do mundo fascinante do Itamaraty e da diplomacia. Com inexperientes 21 
anos, crescido num dos cantos mais pobres do operário bairro do Brás dos anos 1940 
e 1950, entre as ruas Caetano Pinto e Carneiro Leão, ao lado do Gasômetro, eu nunca 
havia sido exposto a um cenário tão majestoso e imponente.
O exame havia sido num sábado, começando às dez horas da manhã, no salão 
nobre da biblioteca neoclássica, com todas as portas de vidro abertas ao lago onde 
deslizavam os cisnes. Ao fundo da aleia de palmeiras imperiais, os estudantes 
pensativos inspiravam-se na doçura do casarão cor-de-rosa do velho palácio dos 
condes de Itamaraty. A manhã era plácida, luminosa, mas não muito quente, pois 
soprava leve brisa.
Esse ideal cenário físico lá fora era harmoniosamente completado pelos cuida-
dos atenciosos de que éramos objeto no magnífico interior da biblioteca mandada 
edificar ao tempo de Otávio Mangabeira. Acostumado à massificação, já naquele iní-
cio da expansão da universidade pública, do vestibular à Faculdade de Direito de São 
Paulo, à impessoalidade e distância burocrática dos contatos com o secretariado 
das Arcadas ou da Faculdade de Filosofia na rua Maria Antonia, não esperava que os 
jovens diplomatas incumbidos de supervisionar as provas nos tratassem de quase 
colegas, de igual a igual, como se o exame não passasse de formalidade sem impor-
tância e estivéssemos já assegurados do ingresso.
Meu encantamento chegou ao auge quando, em certo momento, contínuos de 
luvas e uniformes brancos com botões dourados nos serviram café em elegantes 
xícaras de bordas de ouro com as armas da República. Foi amor à primeira vista, 
jamais desmentido ao longo de todos os anos que eu haveria de passar no acon-
chego do Itamaraty.”
Por isso é que escrevi: por amor a uma instituição, a uma tradição criada pelos 
que nos precederam, aos valores morais que nos deixaram, a um estilo de ser e de 
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Ao chegar certa manhã ao Itamaraty para ver seu paciente, o médico de Rio Branco 
encontrou-o estendido sobre enorme mapa desdobrado no tapete, com ar de quem 
havia mal dormido. Constrangido, o Barão levantou-se, explicando: “Ontem à noite, 
quis examinar mais de perto os pormenores de um mapa que desenrolei no chão e 
acabei por adormecer em cima dele”.1
O episódio narrado por Álvaro Lins ajuda a explicar o êxito da diplomacia na 
negociação dos limites do Brasil. Foi por terem literalmente adormecido no estudo 
de velhos mapas esquecidos, por gastarem anos em vasculhar arquivos poeirentos 
em busca de alfarrábios extraviados que diplomatas de vocação pesquisadora prepa-
raram as futuras vitórias nas negociações. 
Graças a essa “diplomacia do conhecimento” e a métodos de “poder suave”,