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A Diplomacia Na Construcao Do Brasil Ricupero

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como a negociação, um país sem grande poder militar ou econômico como o Brasil 
logrou assenhorear-se de um território de vastidão continental e riquezas naturais 
consideráveis. Se houvesse optado por medir forças militarmente com os sucessores 
da Espanha, se tivesse se contentado com os magros títulos jurídicos oriundos do 
Tratado de Tordesilhas, provavelmente jamais teria chegado perto de tal patrimônio. 
A CONTRIBUIÇÃO DA DIPLOMACIA
Poucos países devem à diplomacia tanto como o Brasil, e não só em relação ao ter-
ritório. Em muitas das principais etapas da evolução histórica brasileira, as relações 
José Maria da Silva Paranhos Junior, o barão do Rio Branco, em seu gabinete de trabalho em Paris: 
expoente da diplomacia do conhecimento e de métodos de “poder suave”, assegurou para o Brasil vastas 
parcelas territoriais e riquezas naturais consideráveis.
Introdução
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A DIPLOMACIA NA CONSTRUÇÃO DO BRASIL 1750-2016 INTRODUÇÃO
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exteriores desempenharam papel decisivo. Com seus acertos e erros, a diplo-
macia marcou profundamente a independência, o fim do tráfico de escravos, a 
inserção no mundo por meio do regime de comércio, os fluxos migratórios, volun-
tários ou não, que constituíram a população, a consolidação da unidade amea-
çada pela instabilidade na região platina, a industrialização e o desenvolvimento 
econômico. 
O prefaciador de recente obra sobre a evolução da política externa dos Estados 
Unidos dizia que, mais do que simplesmente contar a história da diplomacia ame-
ricana, o livro tencionava descrever como a diplomacia havia ajudado a moldar a 
inconfundível história e a identidade da nação, de seus valores e instituições.2 Com 
as devidas adaptações, a afirmação vale para o que se pretendeu fazer neste livro 
em relação ao Brasil. 
A experiência diplomática do Brasil contrasta frequentemente com a dos 
Estados Unidos em temas fundamentais. Na expansão territorial, no sucesso 
maior ou menor do comércio exterior, na convicção sobre a qualidade das respec-
tivas instituições políticas, americanos e brasileiros viveram situações diversas, 
até opostas. Positivas ou negativas, as experiências deixaram em cada país conse-
quências que permanecem até hoje em matéria de valores e ideias.
Na história da expansão americana, a dose de compras de territórios e de 
conquistas por guerras ultrapassa nitidamente a de negociações e arbitramen-
tos, ao contrário do que ocorreu na experiência brasileira. O expansionismo cedo 
gerou nos Estados Unidos a ideologia do “Destino Manifesto”, corrente de opi-
nião que pregava a ocupação pelos ianques de toda a América do Norte, inclusive 
Canadá e México, em razão de uma suposta superioridade racial e civilizatória. 
Nos períodos que precederam e seguiram a Guerra Mexicano-Americana (1846-
1848) e a Guerra contra a Espanha (1898), a paixão popular em favor da expansão 
pelas armas avassalou a opinião pública, com raríssimos críticos e opositores 
(um deles, significativamente, Abraham Lincoln). Há certa ironia numa república 
de vocação imperial, em contraste com um império só de nome, sem apetite 
(nem recursos) para aventuras de conquista territorial.
A extraordinária pressão da explosão demográfica, uma das forças impul-
sionadoras da expansão territorial americana, ajudou a criar igual dinamismo na 
economia ianque, que buscou desafogo na enérgica abertura de mercados exter-
nos. Embora protecionistas na defesa da indústria doméstica, os Estados Unidos 
sempre revelaram extrema agressividade na política comercial externa. O êxito em 
aumentar e diversificar as exportações consolidou no espírito dos americanos a 
crença no comércio internacional como elemento central da prosperidade.
Já o Brasil conheceu experiência bem mais decepcionante com o comércio 
exterior. As exportações mostraram-se pouco dinâmicas em boa parte do século XIX, 
tanto em valor quanto em diversificação. Os privilégios arrancados pelos britânicos 
nos “tratados desiguais” de 1810, renovados na Independência, alimentaram persis-
tentes ressentimentos e rancores. A perda de autonomia para fixar tarifas de impor-
tação decorrente dos tratados ocasionou constante dificuldade em financiar os 
gastos do governo. O resultado cumulativo de tantas decepções imprimiu na men-
talidade coletiva brasileira atitude de desconfiança em relação a acordos comerciais 
que subsiste até nossos dias. 
Também no caráter excepcional do sistema de governo e das instituições políti-
cas, a posição dos dois países se parece em alguns aspectos e se opõe em outros. 
Desde o começo, os norte-americanos consideraram-se um povo à parte, escolhido 
por Deus para levar ao mundo os benefícios da democracia e da liberdade, a “cidade 
edificada sobre a colina” da imagem bíblica. Primeira república democrática e rela-
tivamente igualitária da era moderna, os Estados Unidos jamais se libertaram intei-
ramente de um messianismo e ativismo externo cuja sinceridade não impediu que 
por vezes servissem de conveniente máscara ideológica para encobrir objetivos ego-
ístas. O intervencionismo bem ou mal fundamentado tornou-se traço frequente do 
comportamento diplomático ianque.
No Brasil, a estabilidade da monarquia parlamentar inspirou análogo sentimento 
de superioridade em relação às turbulentas repúblicas sul-americanas. A suposta 
superioridade não impediu que o regime monárquico fosse encarado pelos demais 
como corpo estranho num continente de repúblicas imperfeitas, mas afinadas com 
os ideais de progresso do século XIX. O isolamento acentuou-se com o tempo à 
medida que a escravidão gradualmente desaparecia nos outros países, que enxer-
gavam na sua sobrevivência entre nós uma prova a mais do anacronismo de um sis-
tema de governo inexportável para as Américas. 
Os estadistas da monarquia, menos por pacifismo e mais pela consciência da 
fragilidade, mostraram-se circunspectos na veleidade de influir sobre as instituições 
de países estrangeiros. Somente se resignaram a intervir no Uruguai e, de modo mais 
limitado, na Argentina de Rosas, com propósito defensivo: tentar pôr fim às intermi-
náveis guerras civis que contaminavam as áreas fronteiriças do Rio Grande do Sul 
e ameaçavam a unidade do Império. Fora esses exemplos limitados no escopo e no 
tempo, prevaleceu na prática diplomática brasileira obediência ao princípio de não 
intervenção. Só em época muito recente, o sentimento de identidade latino-ame-
ricana e a afinidade ideológica motivaram alguns afastamentos, controvertidos em 
sua maioria, da posição tradicional.
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Uma das particularidades que pesaram na definição do caráter diplomático 
do Brasil reside no elevado número de vizinhos, hoje uma dezena (compare-se aos 
Estados Unidos, ao Canadá, à Austrália, com poucos vizinhos ou nenhum). Em certo 
momento, os nossos chegaram a ser onze, quando o Equador ainda disputava com 
o Peru terras amazônicas limítrofes. Esses vizinhos pertencem a universos culturais 
e políticos heterogêneos, que vão da Guiana Francesa ao Uruguai, do Suriname à 
Bolívia, do Peru à Guiana ex-inglesa, para citar alguns. Não é façanha menor haver 
conseguido estabelecer com todos eles fronteiras mutuamente aceitas em decor-
rência de negociação, transação, arbitragem. Nenhum desses limites resultou de 
guerra de conquista. A forma não violenta da delimitação explica a inexistência 
de graves ressentimentos, inconformidade ou contenciosos importantes em aberto. 
A definição pacífica do território poupou ao Brasil a condição de refém de lití-
gios fronteiriços que