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A Diplomacia Na Construcao Do Brasil Ricupero

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ou três de seus numerosos vizinhos, que se caracterizavam por estágio 
de desenvolvimento político-econômico e capacidade de ação inferiores aos nossos.
Por volta de 1850, mesmo a Bolívia, citada pelo Barão, e com muito mais razão 
o Peru, a Colômbia, a Venezuela e as Guianas não passavam de “vizinhos à maneira 
da América”, separados de nós por imensos desertos humanos cobertos de flores-
tas impenetráveis, que formavam o subsistema do Pacífico, com escasso contato 
conosco ou mantendo-se ainda como território colonial de potências europeias. 
Em boa parte da segunda metade dos Oitocentos, a área na qual se exercia a ini-
ciativa diplomática do Brasil coincidia com o núcleo histórico do Mercosul de 
nossos dias: Argentina, Uruguai e Paraguai. No perímetro formado pelos quatro 
países, já então Brasil e Argentina polarizavam o eixo da disputa de influência 
sobre os dois menores. 
No interior dessa vasta zona, a rivalidade concentrou-se, sobretudo, em torno 
do território uruguaio, a ponta meridional da debatable land, as terras de soberania 
indefinida por largo trecho da era colonial. O próprio envolvimento do Paraguai 
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A DIPLOMACIA NA CONSTRUÇÃO DO BRASIL 1750-2016 PARTE V APOGEU E QUEDA DO IMPÉRIO (1850-1889)
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nos eventos que desencadeariam a Guerra da Tríplice Aliança deu-se em função das 
vicissitudes da política uruguaia e das consequências que acarretariam aos vizinhos. 
O que se vai passar nessas décadas de 1850 e 1860 reflete, de certa maneira, 
a sequência dos comprometimentos luso-brasileiros anteriores, embora, dessa vez, 
o propósito seja diferente. O desfecho da Guerra Cisplatina e a independência do 
Uruguai tinham curado o Brasil de qualquer veleidade da velha ambição de anexar 
a Banda Oriental. A antiga estratégia territorial cedera lugar a objetivos novos: asse-
gurar a independência oriental (e paraguaia) e impedir a emergência, sob a liderança 
de Buenos Aires, de uma poderosa reunificação do Vice-Reino do Rio da Prata.
Origens e causas 
Com frequência, repete-se que a turbulência da fase de formação e consolidação dos 
estados nacionais na região platina fornece o pano de fundo, se não a causa primeira, 
das intervenções brasileiras nessas paragens. A afirmação, substancialmente correta, 
requer, entretanto, esforço adicional de explicação. 
Não é porque um estado se ache na complicada etapa de formação que será 
necessariamente causa ou vítima de guerras internacionais. Embora ocorra assidua-
mente, como se viu em nossos dias nos conflitos desencadeados pela dissolução da 
antiga Iugoslávia, em outros casos, talvez mais numerosos, a instabilidade formativa 
manifesta-se, sobretudo, em lutas internas, conforme sucedeu no próprio Brasil do 
período regencial. Por que na América do Sul e, sobretudo, em seu extremo meri-
dional, o difícil processo de consolidação dos novos estados transbordou e provo-
cou tantos conflitos entre vizinhos? 
A resposta é que os conflitos externos antecederam a criação das instituições 
nacionais. Já estavam presentes no passado colonial e seguiram latentes ao longo de 
todo o processo de independência. A anexação da Banda Oriental por D. João VI e 
sua posterior transformação em Província Cisplatina do Brasil atuaram como meca-
nismo de transferência dos antagonismos das potências coloniais a seus sucessores. 
José Bonifácio entretinha sinceros propósitos de amizade com Buenos Aires e 
desejava que o Uruguai recebesse o estatuto especial de estado associado ao Brasil, 
e não de simples província como as demais. Não obstante, sua recusa (e falta de 
poder, mesmo que quisesse) de abrir mão da Cisplatina comprometeu irremedia-
velmente a proposta de aliança que submeteu aos portenhos. 
Buenos Aires poderia até resignar-se à independência do Uruguai, como de fato 
teve de fazer em decorrência do impasse na guerra. Jamais, porém, aceitaria que seus 
antigos conterrâneos do Vice-Reinado do Prata, com os quais partilhava língua, cul-
tura e história, fossem abandonados ao domínio dos sucessores do inimigo lusitano. 
Nas lutas internacionais que se seguiram, nenhum dos lados ou facções deixou em 
algum momento de ser responsável por agressões e provocações. No entanto, uma 
hierarquia de culpas obriga a reconhecer a indiscutível prioridade de Portugal e do 
Brasil. Afinal, fomos nós que incorporamos o Uruguai, não os orientais que anexa-
ram o Rio Grande do Sul (o que, aliás, alguns deles, como Fructuoso Rivera, sonha-
vam fazer, para edificar o “Grande Uruguai”!). 
Andrés Lamas, o estadista uruguaio que melhor conheceu o Brasil, atribuía ao 
“expansionismo rio-grandense” a origem das intervenções brasileiras nos eventos 
platinos. O historiador argentino Tulio Halperín Donghi transcreve aprovadora-
mente a opinião, sem esclarecer que “expansionismo” deve ser aqui entendido como 
interferência política e econômica; em outros termos, afirmação do interesse dos 
dirigentes do Rio Grande do Sul por terras e gados uruguaios, não anexação de ter-
ritório, ambição já então abandonada em definitivo. 
A emancipação do Uruguai, em 1828, não apagou as marcas implantadas em 
terras uruguaias por uma demorada presença de portugueses e brasileiros, cujas ori-
gens remotas provinham do tempo da Colônia do Sacramento. Por volta de 1840, 
estima-se que do total de 75 mil a 80 mil habitantes do Uruguai (dos quais 14 mil 
eram exilados argentinos anti-Rosas concentrados em Montevidéu), os brasileiros 
e descendentes de portugueses perfaziam quase um terço (25 mil). Predominavam 
ao norte do rio Negro e nos departamentos fronteiriços, onde mais de quatrocentas 
estâncias, correspondendo a cerca de também um terço das terras, pertenciam a rio-
-grandenses. Em certos casos, estendiam-se de ambos os lados da fronteira, ainda 
não definitivamente firmada. 
Serve de amostra característica o principal líder da Rebelião Farroupilha, Bento 
Gonçalves, que chegou a combater sob as ordens de José Gervasio Artigas e se 
casara com uma uruguaia ao tempo em que esteve estabelecido em Cerro Largo. 
Estava longe de ser caso único, ocorrendo frequentemente vínculos de sangue ou 
compadrio entre personalidades do Rio Grande e próceres uruguaios, como Juan 
Antonio Lavalleja, Fructuoso Rivera e Venancio Flores. 
Muitas décadas depois da independência uruguaia, na época da Revolta 
Federalista no Rio Grande do Sul (1893/94) e nos primeiros anos do século XX, 
personagens brasileiro-uruguaios como os caudilhos Gumercindo Saraiva e seu 
irmão Aparício Saravia continuavam a tradição de chefes revolucionários, igual-
mente à vontade nas correrias de um lado e outro da fronteira. Gumercindo, prin-
cipal líder dos maragatos gaúchos, encontraria a morte em combate em 1894, 
enquanto Aparício, o grande líder blanco do interior, seria ferido numa das últimas 
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A DIPLOMACIA NA CONSTRUÇÃO DO BRASIL 1750-2016 PARTE V APOGEU E QUEDA DO IMPÉRIO (1850-1889)
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revoltas blancas contra o governo do presidente José Battle y Ordóñez, vindo a mor-
rer do lado brasileiro, em Santana do Livramento (1904). 
Para reconstruir o panorama do sul do continente durante essa fase formativa 
das nacionalidades, convém evitar tanto o mito de um Brasil como ilha de estabili-
dade num oceano de republiquetas turbulentas quanto a representação oposta, a de 
um país no mesmo estágio de (des)organização que os vizinhos. O mais apropriado 
seria afirmar que o Império se adiantara algumas décadas na obra de centralização e 
institucionalização do poder, comparado à maioria dos sul-americanos, com a exce-
ção do Chile, onde Diego Portales empreendera algo análogo quando