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A Diplomacia Na Construcao Do Brasil Ricupero

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teriam esterilizado boa parcela de sua capacidade de inicia-
tiva diplomática. Não só a natureza pacífica, mas também o senso de oportunidade 
de resolver relativamente cedo todas as questões pendentes criaram condições 
para desenvolver diplomacia voltada não para conter danos ou sanar conflitos, 
mas para construir conteúdos concretos de cooperação e de comércio. A diplo-
macia precisa, para isso, saber captar a realidade exterior, interpretar corretamente 
o mundo e suas oportunidades. Em sentido inverso, necessita igualmente explicar 
seu país ao mundo, torná-lo admirado, digno de atrair apoio político, de receber 
capitais, imigrantes, tecnologia. 
A IDEIA DE PAÍS
O ponto de partida é invariavelmente uma ideia de país que se pretende projetar. 
O general Charles de Gaulle ficou célebre por haver concebido “uma certa ideia da 
França”, para ele inseparável da grandeza, da glória. Para o Brasil, graças, em primeiro 
lugar, ao barão do Rio Branco, com a ajuda de outros diplomatas, estadistas, pensado-
res, edificou-se aos poucos uma ideia de país satisfeito com seu status territorial, em 
paz com os vizinhos, confiante no Direito, nas soluções negociadas, empenhado 
em ver-se reconhecido como força construtiva de moderação e equilíbrio a serviço 
da criação de um sistema internacional mais democrático e igualitário, mais equili-
brado e pacífico.
Toda ideia de país resulta de uma construção ideológica. Como dizia da Vinci 
sobre a pintura, é “una cosa mentale”, isto é, uma obra do espírito. Alguns dos ele-
mentos que entram na composição podem ser escolhidos com o objetivo de disfar-
O PRESTÍGIO DA DIPLOMACIA NO BRASIL
Na Argentina, na Venezuela, na maioria dos vizinhos hispânicos, a tradição diplomática 
nunca foi tida em alta conta, e o ressentimento com o passado diplomático dissemi-
nou-se amplamente. Acusa-se a diplomacia de haver perdido na mesa de negociação 
o que as armas teriam conquistado no campo de batalha. Nesse particular, é notável a 
distância que separa essas sociedades da brasileira, que cerca ou cercava a diplomacia 
e seu órgão executor, o Itamaraty, de respeito e admiração com poucos paralelos no 
resto do mundo. 
Credita-se muito desse prestígio aos sucessos e à obra pedagógica do barão do 
Rio Branco. Contudo, antes dele e ao menos desde o último quarto do século XIX, ces-
sadas as intervenções no Rio da Prata e a Guerra da Tríplice Aliança, a aprovação da 
política externa se convertera quase em unanimidade. Generalizava-se a percepção de 
que, em termos proporcionais, o órgão da diplomacia contribuiu para o Brasil muito 
mais que outras instituições e algumas vezes supriu e compensou deficiências do frá-
gil estado brasileiro. 
O TERRITÓRIO
Acima de todas essas contribuições, sobressai, em primeiro lugar, o território. A acei-
tação pacífica e a consolidação jurídica da expansão além da linha de Tordesilhas 
se deveram essencialmente à energia e à perseverança com que a política externa se 
devotou sistematicamente à questão até a primeira década do século XX. “Território é 
poder”, frase atribuída ao Barão, pode ser exagero retórico. O território é, no entanto, 
a condição que torna possível não só o poder, mas a soberania mesma. Traçar no ter-
reno a linha que define onde começa nossa jurisdição e acaba a do vizinho constitui o 
ato inaugural do relacionamento do país com o mundo. Sua importância não deve ser 
subestimada. Não é à toa que as guerras no passado e no presente tiveram quase sem-
pre origem em disputas territoriais. 
Como todo ato fundador, a maneira pela qual se cumpre a delimitação do território 
pode determinar a índole futura do comportamento do país em relação aos vizinhos. A 
Rússia, por exemplo, país de tradição imperial durante séculos, enfrenta, ainda hoje, enorme 
dificuldade em manter relações de amizade e confiança com as nações que dominou no 
passado (Polônia, países bálticos, Ucrânia, Geórgia). Disputas mal resolvidas ou não resol-
vidas alimentam antagonismo perpétuo como o que opõe a Índia ao Paquistão, a China 
à Índia. A probabilidade de desentendimento cresce com o número de países contíguos.
VERSÃO DE DIVULGAÇÃO - TODOS OS DIREITOS RESERVADOS© PROIBIDA A REPRODUÇÃOVERSÃO DE DIVULGAÇÃO - TODOS OS DIREITOS RESERVADOS© PROIBIDA A REPRODUÇÃO
A DIPLOMACIA NA CONSTRUÇÃO DO BRASIL 1750-2016 INTRODUÇÃO
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legítimo de independência dos uruguaios ao anexar a Província Cisplatina. Mais irrea-
lista do que a obstinação sobre Colônia, a incorporação da Província Cisplatina não 
completaria dez anos, terminando com o impasse militar, no fundo uma derrota, e 
a independência oriental (1828). Saía de cena para sempre a miragem da “fronteira 
natural” no Rio da Prata. Nem por isso se dissolveria a índole conflituosa do relaciona-
mento com os vizinhos meridionais, inaugurado no distante passado colonial. A partir 
de 1850, o envolvimento militar ressurgiria, por motivação diferente, com as interven-
ções no Uruguai e um pouco menos na Argentina, culminando na crise de 1864, esto-
pim da catastrófica Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870). 
A fase das intervenções terminaria no último quarto do século XIX, quando a 
prosperidade trazida pela exportação de carne e grãos, a maciça imigração europeia 
e os capitais ingleses transformariam Argentina e Uruguai em nações mais moder-
nas e estáveis que o Brasil de então. Ainda assim, os ressentimentos de uma longa 
história de conflito, a emulação militar e os problemas do aproveitamento dos rios 
platinos manteriam viva a rivalidade. As hipóteses de guerra continuariam a ser leva-
das a sério pelos estados-maiores dos dois lados da fronteira; a corrida armamentista 
com os argentinos não sofreria interrupção, da questão dos encouraçados do tempo 
de Rio Branco até os programas nucleares secretos mais recentes. 
Semeado no distante 1680, o antagonismo só se esgotaria três séculos mais 
tarde, em fins dos anos 1980 e inícios dos 1990, com a criação do Mercosul e a cons-
ciência de uma comunidade de destino. Como nos exemplos inglês, suíço e sueco, a 
passagem de conflito para cooperação, a mudança do objetivo de expansão territo-
rial para o de integração comercial, demorou séculos, da mesma forma que os ciclos 
de longa duração de Fernand Braudel. 
OBJETIVOS DO LIVRO
Compreender o como e, quem sabe, até o porquê da lenta maturação desse e de 
outros temas constitui a ambição principal do presente livro. Sua ênfase repousará 
na floresta, não nas árvores, na visão de conjunto de períodos extensos, sem perder-
-se nos detalhes. Abordará a diplomacia e a política exterior como elementos fun-
damentais da construção do Brasil, ao mesmo título que a política interna e a eco-
nômica. Na maioria das obras sobre a história brasileira, a evolução da diplomacia 
se refugia quase em notas ao pé da página ou, no melhor dos casos, em parágrafos 
esparsos dissociados do eixo central da grande narrativa. Aqui, não. Ao menos na 
çar interesses ou simplesmente nascem de uma complacente idealização do ego 
coletivo. Mesmo quando o exagero salta aos olhos, a escolha das qualidades que as 
pessoas atribuem ao próprio povo não é indiferente. Corresponda ou não à verdade 
objetiva, melhor é ver-se como pacífico, obediente ao Direito Internacional, mode-
rado e disposto a transigir no relacionamento com os outros do que imaginar-se beli-
coso e conquistador, orgulhoso da capacidade de submeter e dominar, envaidecido 
de glória militar. 
A consciência da própria personalidade internacional modula a maneira pela 
qual cada país deseja inserir-se no mundo. Baseia-se na estimativa realista ou não 
das potencialidades nacionais e visa atingir interesses concretos econômicos ou 
políticos. Por outro lado, a visão do país no mundo deve também agir no sentido 
de reexaminar o valor real desses interesses em termos de custos e benefícios. Em 
algumas ocasiões, pode até levar ao abandono