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A Diplomacia Na Construcao Do Brasil Ricupero

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definitivo do que antes parecia vital 
e irrenunciável. 
Na hora dos grandes descobrimentos marítimos, os ingleses desistiram da luta 
de séculos para dominar parte da França. Abandonaram Calais e passaram a cons-
truir o poder naval que lhes traria sucesso maior e mais duradouro. Frustrações 
análogas, após derrotas militares, convenceram os suíços a renunciar ao sonho de 
conquistar a rica planície da Lombardia e os suecos a abrir mão do projeto de domi-
nar o Báltico. Desde então, esses povos deram o primeiro passo na estrada que os 
conduziria à neutralidade e à concentração de esforços na busca da prosperidade, 
não da glória. 
A EVOLUÇÃO DA DIPLOMACIA BRASILEIRA
Algo de similar aconteceu na evolução da diplomacia hoje brasileira, ontem portu-
guesa, no tema que dominaria boa parte do relacionamento internacional no sul 
do continente. Muito antes que se cogitasse de um Brasil independente, Portugal 
afirmava a pretensão ao domínio da margem norte do Rio da Prata com a fundação, 
em frente de Buenos Aires, da Colônia do Santíssimo Sacramento (1680), pomo de 
discórdia e motivo de inúmeros conflitos com a Espanha, quase sempre desfavo-
ráveis aos lusos. Teve-se de esperar setenta anos para que Lisboa aparentemente 
se resignasse, pelo Tratado de Madri (1750), a trocar Colônia pelas Missões do 
Alto Uruguai. 
A desistência não durou muito, e a troca foi desfeita. Passadas incontáveis peri-
pécias, o Brasil realizaria sua ansiada independência e frustraria o desejo igualmente 
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A DIPLOMACIA NA CONSTRUÇÃO DO BRASIL 1750-2016 INTRODUÇÃO
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plenamente, correspondem a interesses alheios, os da metrópole colonial, não de 
sua dependência.
Conforme o caso, os antecedentes da diplomacia podem ser mais ou menos 
remotos. No Peru, segundo o ex-chanceler peruano Carlos García-Bedoya, existia já 
uma civilização pré-colombiana organizada sob a forma de um estado imperial duzen-
tos ou trezentos anos antes da chegada dos espanhóis. Esse estado, o dos incas, 
mantinha com os vizinhos algumas relações características da vida internacional.4
Para quem escreve da perspectiva do Brasil, dos Estados Unidos, de outros 
“países novos”, o antecedente mais afastado se situa na expansão da Europa e do 
Ocidente iniciada pelas grandes viagens marítimas de descobrimento dos fins do 
século XV. Como explicava Charles R. Boxer no prólogo de The Portuguese sea-
borne empire:
“Antes das viagens de descobrimento portuguesas e espanholas, a feição mais saliente da 
sociedade humana era a dispersão e o isolamento dos diferentes ramos da humanidade. ” 
Esses ramos não conheciam a existência dos mais distantes, ou se deles haviam 
recebido alguma noção, ela quase sempre se resumia a conhecimentos vagos, frag-
mentários, às vezes até mitológicos.
“Para o bem e para o mal, os ramos amplamente dispersos da grande família humana [...] 
começaram a ser aproximados pelos pioneiros ibéricos, fazendo [...] a Humanidade cons-
ciente, ainda que debilmente de sua essencial unidade [...]” (grifo meu). 5 
A expansão marítima produziu outro efeito imediato: o de tornar vastas regiões do 
mundo disponíveis para o domínio e desfrute do Ocidente. O processo de unificação 
do espaço planetário e de intensificação das relações entre povos e culturas, hoje 
denominado globalização, resulta dessa ação dos povos ocidentais, para o bem ou 
para o mal. Inexoravelmente, o processo avança nas três Américas, na Austrália, na 
Nova Zelândia, pela conquista, a colonização e a exploração direta, com a marginali-
zação ou o extermínio das populações preexistentes. Na Ásia, no Oriente Médio, na 
África, onde se defronta com vastas populações e culturas fortes, o processo afirma-
-se por outras modalidades de dominação: o colonialismo, o imperialismo, o predomí-
nio político, econômico e cultural, de implantação mais superficial. 
intenção se tentará inserir o fio da diplomacia na teia sem costura da vida nacional, 
da qual é indissociável.
A história em geral, mas a das relações exteriores ainda mais, consiste em per-
manente diálogo e tensão entre o país e o mundo. As histórias particulares, a da 
independência ou da abolição do tráfico de escravos, por exemplo, fazem parte de 
um quadro mais vasto. No primeiro caso, a emancipação do Brasil e da América 
Latina se insere no contexto maior da dissolução do Antigo Regime, que convul-
sionava naquele momento as estruturas políticas e sociais da Europa. No segundo, 
a Grã-Bretanha da Revolução Industrial triunfante tentou impor, em nome de con-
siderações éticas e humanitárias, novos padrões de trabalho incompatíveis com 
a mão de obra escrava mesmo a economias pré-industrializadas como a do Brasil 
da época. 
Sempre que possível e apropriado, o estudo adotará perspectiva comparativa 
com as histórias internacionais que apresentam analogias e afinidades com a brasi-
leira. Isso se aplica, sobretudo, aos países latino-americanos que viveram processos 
parecidos e simultâneos como a liquidação do monopólio comercial das metrópoles 
ou a conquista e consolidação da independência. A identidade básica da experiência 
sofrida por muitos povos do continente num mesmo período revela como, nesses 
exemplos, contaram mais que os fatores internos as correntes profundas das trans-
formações vindas de fora. 
Temos muito mais em comum com a experiência histórica de nossos vizinhos 
hispânicos do que admitiam os livros de outrora. Tanto a liquidação do pacto colonial 
e o consequente nascimento das novas nações, no começo do século XIX, quanto o 
impacto da Guerra Fria na política interna e externa, na segunda metade do século XX, 
seguiram padrões que impressionam pela semelhança. A fim de evitar o erro de tra-
tar como fenômenos especificamente brasileiros evoluções que pertencem a uma 
tendência generalizada, daremos atenção especial às forças externas, demográficas, 
econômicas, ideológicas que impulsionaram as grandes mudanças mundiais. 
PONTO DE PARTIDA
Por onde se deve começar a narrar a história da diplomacia brasileira? A resposta 
lógica parece ser: a partir da independência. Afinal, um país somente adquire a con-
dição de sujeito autônomo das relações internacionais quando se torna indepen-
dente. Antes disso, como escreveu Paulo Roberto de Almeida, certas decisões exter-
nas podem ser tomadas no país, mas não são do país.3 Isto é, não lhe pertencem 
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AS ORIGENS
O Brasil origina-se desse primeiro esboço de globalização; por isso, os fatores exter-
nos foram sempre cruciais em sua evolução e, com frequência, até determinantes. 
Em tais situações, o isolamento não é concebível nem como hipótese, uma vez que 
a própria existência do país não passa de desdobramento da expansão do Ocidente. 
O nome mesmo do Brasil expressa esse passado. Em lugar das fugazes deno-
minações de inspiração religiosa – Vera Cruz, Santa Cruz – o nome afinal adotado 
para o recém-descoberto território seria tomado de empréstimo de um produto 
primário de exportação, de uma commodity, o pau-brasil, exemplo quase único 
no mundo. 
O pau-brasil foi o primeiro de uma série de produtos – açúcar, ouro, diamantes, 
cacau, borracha, algodão, café – que deram viabilidade ao sistema de exploração eco-
nômica adaptada a uma situação onde são abundantes a terra e os recursos natu-
rais, mas existe escassez de mão de obra: o plantation system baseado na escravidão 
e orientado aos mercados externos. Desse modo, o Brasil, de maneira igual a seus 
vizinhos, começa a ingressar na história por meio do comércio e da inserção