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A Diplomacia Na Construcao Do Brasil Ricupero

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no sis-
tema do capitalismo mercantil da era dos descobrimentos.
Esses poucos mais de trezentos anos iniciais da colonização constituem não 
uma vida internacional própria, mas, como sugeria García-Bedoya, uma espécie 
de depósito, de repositório de situações, fatos, processos com características de 
relações exteriores e potencial de desenvolvimento que somente adquiririam certa 
autonomia após a independência.6
Muitas histórias diplomáticas de nações americanas iniciam-se pela ruptura do 
vínculo colonial. Se fosse possível, teríamos preferido seguir o mesmo caminho, con-
centrando a narrativa na fase cuja relação próxima com os fatos de hoje ajuda o leitor 
a melhor compreender o encadeamento de causas e efeitos. 
Sucede, no entanto, que uma especificidade brasileira, diferente de outros paí-
ses, desaconselha partir da independência. A formação do território e a expansão 
que o conduziram aos limites atuais já se encontravam praticamente concluídas e 
mais ou menos aceitas, embora não de modo definitivo, antes do fim do regime colo-
nial. É preciso, portanto, recuar várias décadas prévias à emancipação para entender 
como se definiu o território. 
OS ANTECEDENTES PORTUGUESES
A maneira pela qual se estabeleceu o território do futuro Brasil trouxe implicações 
tão perduráveis para as relações exteriores do país independente que justifica reter 
do período da Colônia ao menos a particularidade territorial. Esta narrativa arranca, 
portanto, dos primórdios da ocupação e ampliação do território e toma como exem-
plo emblemático da diplomacia de outrora a preparação e as consequências do 
Tratado de Madri (1750), mais de setenta anos antes da independência formal. 
Um benefício adicional desse ponto de partida é permitir destacar algumas das 
qualidades características da diplomacia, primeiramente portuguesa e, em seguida, 
brasileira, que a sucedeu e dela herdou muitos dos atributos originais. 
Salvador de Madariaga observou que o português tinha sido o único dos povos 
da antiga Ibéria romana que se provou capaz de resistir ao centralismo castelhano, 
superando até a Catalunha, região muito mais próspera e poderosa na Idade Média. O 
que teria possibilitado aos portugueses prevalecer onde sucumbiriam catalães, bas-
cos, galegos e outros? Seguramente não terão sido a força militar, sempre modesta, 
nem os meios econômicos, habitualmente precários. 
A diplomacia é que forneceu a Lisboa, por meio da aliança inglesa, a possibili-
dade de sobreviver no jogo de poder da Europa. A variedade de que lançaram mão os 
lusitanos consistiu na “diplomacia da fraqueza”, isto é, a capacidade de compensar a 
inferioridade militar por outras modalidades de poder, entre elas a busca de alianças 
e a influência de fatores intangíveis, os conhecimentos, os argumentos intelectuais, 
a preparação cuidadosa das negociações e a habilidade de negociar a partir de posi-
ções desfavoráveis. 
Eles sabiam por conhecimento intuitivo o que hoje o professor Joseph Nye 
ensina na Universidade de Harvard: além do hard power, do poder duro da coação 
militar ou econômica, existe um poder brando, suave, soft, da persuasão, da negocia-
ção. Entre as variedades do poder brando, sobressaem as do smart ou clever power, 
o poder inteligente ou da inteligência, que nasce do conhecimento, da preparação 
intelectual e cultural. 
A CONTINUIDADE DA DIPLOMACIA DO CONHECIMENTO
O barão do Rio Branco, fundador da política externa do moderno Brasil, não foi uma 
exceção do ponto de vista do apreço e da valorização do conhecimento histórico, 
cartográfico, geográfico. Seu pai, o visconde do mesmo título, já se havia distinguido 
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A DIPLOMACIA NA CONSTRUÇÃO DO BRASIL 1750-2016
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PARTE I 
O TERRITÓRIO (1680-1808)
numa etapa anterior da elaboração da doutrina brasileira sobre fronteiras, caso 
também de Duarte da Ponte Ribeiro, o mais eminente dos estudiosos das ques-
tões limítrofes entre os diplomatas do Império. Sem esquecer que foram também 
diplomatas profissionais Varnhagen e Joaquim Caetano da Silva, “os dois maiores 
pesquisadores que o Brasil produziu no século XIX”, na opinião autorizada de José 
Honório Rodrigues. 
O resultado mais notável da produção de conhecimento direcionado a um obje-
tivo diplomático se consubstanciou na construção do atual mapa do Brasil. Dois ter-
ços aproximadamente do território nacional estariam fora de nossas fronteiras se 
a diplomacia não tivesse completado o trabalho dos que deslocaram no terreno os 
apertados limites iniciais fixados em Tordesilhas. 
Obra coletiva por excelência, nela se combinaram ao longo de vários séculos, 
de um lado, homens de ação – bandeirantes, missionários, militares, exploradores –, 
do outro, diplomatas de vocação intelectual que dirigiram a preparação dos argu-
mentos cartográficos e criaram as razões e doutrinas jurídicas para fundamentar 
a negociação.
Convém assim que esta história da diplomacia brasileira principie pelo capítulo 
da formação e definição do território do Brasil, momento em que já se encontram 
presentes as sementes do que viria a dar no futuro feição inconfundível ao estilo 
diplomático do país. 
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
1 LINS, Álvaro. Rio Branco. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1945, vol. II, p. 622.
2 HERRING, George C. From Colony to Superpower: U.S. Foreign Relations since 1776. Introdução do 
Editor, David M. Kennedy, Oxford: Oxford University Press, 2008, p. XIII.
3 ALMEIDA, Paulo Roberto de. Formação da diplomacia econômica no Brasil: as relações econômicas 
internacionais no Império. São Paulo: Senac, 2001, p. 26.
4 GARCÍA-BEDOYA, Carlos. Lección inaugural, 26/04/79, texto mimeografado, anexo ao Boletin 
Informativo nº 1984, Lima, p. 9.
5 BOXER, Charles R. The Portuguese Seaborne Empire 1415-1825. London: Carcanet, 1991, p.1-2. 
6 GARCÍA-BEDOYA, Carlos, op. cit., p. 9.
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“Os americanos têm ao norte um vizinho fraco, ao sul outro mais fraco ainda, a leste, 
peixe, a oeste, mais peixe!”1 Essa pitoresca descrição da privilegiada situação de 
segurança dos Estados Unidos, feita há mais de um século pelo embaixador francês 
Jules Jusserand, explica o sucesso do país em ampliar o território sem enfrentar forte 
resistência.
Como no caso do Brasil, a ampliação partiu de uma estreita faixa ao longo do 
Atlântico, que foi sendo continuamente alargada para o oeste. A semelhança entre 
as duas experiências praticamente se esgota nesse aspecto. Tudo ou quase tudo mais 
é diferente, a começar pelos métodos utilizados na expansão territorial e o grau de 
oposição encontrado.
Na América do Norte, o obstáculo inicial provinha de potências expressivas 
na Europa, mas que preferiram vender suas possessões locais a arriscar um con-
flito armado. As aquisições mediante compensação monetária começaram com a 
Espanha, que cedeu a Flórida. Em seguida, foi a vez da França de Napoleão, que, 
obcecada pelo custo de guerras intermináveis, optou por receber o equivalente a 
US$ 250 milhões atuais pela gigantesca região da Louisiana. Essa transação repre-
sentou, segundo historiadores americanos, a “maior barganha imobiliária da histó-
ria”, por abarcar terras de mais de uma dezena de futuros estados da federação entre 
o Mississipi e as Montanhas Rochosas. Mais tarde, a Rússia venderia o remoto e, 
aparentemente, desvalioso território gelado do Alasca. O número e a importân-
cia das compras territoriais constituem singularidade da história