Brunello Stancioli e Nara Carvalho - Da Integridade ao Livre Uso do Corpo
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Brunello Stancioli e Nara Carvalho - Da Integridade ao Livre Uso do Corpo


DisciplinaTeoria Geral do Direito Privado I32 materiais154 seguidores
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DA INTEGRIDADE FÍSICA AO LIVRE USO DO CORPO: 
RELEITURA DE UM DIREITO DA PERSONALIDADE 
 
Brunello Stancioli 
Mestre e Doutor em Direito pela Universidade Federal de 
Minas Gerais. Professor dos Cursos de Graduação e Pós-
Graduação da UFMG. 
 
 
Nara Pereira Carvalho 
Bacharela e Mestranda em Direito pela Universidade 
Federal de Minas Gerais. 
 
 
 
SUMÁRIO 
1. \u201cDesnaturalizando\u201d os Direitos da Personalidade; 2. Em Busca de Formas de Vida Melhores: A 
Autonomia e a Felicidade; 3. Modificações Corporais: Atentado à Natureza?; 4. Os Usos do Corpo; 
4.1. Os Usos Estéticos do Corpo; 4.2. Os Usos Médicos do Corpo; 4.3. Os Usos Esportivos do 
Corpo; 4.4. O Uso Sexual e Hedonista do Corpo; 5. Conclusão; Referências Bibliográficas. 
 
 
 
1. \u201cDESNATURALIZANDO\u201d OS DIREITOS DA PERSONALIDADE 
 
Uma das maiores e mais longevas construções do Ocidente é a de Direito Natural. Na 
verdade, o jusracionalismo dos séculos XVIII e XIX consistiu apenas numa das manifestações do 
fenômeno jusnaturalista, que apresentou inúmeras facetas ao longo da História. Como identificou 
WIEACKER, houve várias tentativas de se buscarem leis válidas atemporal e universalmente
1
. 
O argumento jusracionalista é, por certo, o mais invocado para se fundamentar os Direitos 
da Personalidade. Não são poucos os autores, mais tradicionais ou mais \u201cmodernos\u201d, que o utilizam. 
Hoje, pode-se afirmar, com certa tranquilidade, que não há mais sentido em se falar em 
Direito Natural. De fato, a fundamentação dos direitos da personalidade será reconduzida para a 
ética da autonomia
2
. Nela, pessoas dotadas de historicidade produzem, voluntariamente, normas de 
 
1
 Cf. WIEACKER, Franz. História do Direito Privado Moderno [Privatrechtsgeschichte der Neuzeit unter 
besonderer Berücksichtigung der deutschen Entwicklung]. Trad. A. M. Botelho Espanha. 2. ed. Lisboa: 
Fundação Calouste Gulbenkian, 1993, p. 290-302. 
2
 Cf. WIEACKER. História..., cit., p. 402. 
2 
 
direito positivo, que, por sua vez, também serão dotadas de historicidade (vinculadas a espaço e 
tempo), e compartilhadas por sujeitos de direito capazes de argumentação e fala. Assim, no 
pensamento contemporâneo, o papel, outrora desempenhado pelo direito natural, passa a ser 
exercido pelo pensamento político, ou mesmo pela ética
3
. 
 Nesse sentido, adotar-se-á o conceito, já desenvolvido em tese, de Direitos da 
Personalidade: 
 
Direitos da Personalidade são direitos subjetivos que põem em vigor, através de 
normas cogentes, valores constitutivos da pessoa natural e que permitem a vivência 
de escolhas pessoais (autonomia), segundo a orientação do que significa vida boa, 
para cada pessoa, em um dado contexto histórico-cultural e geográfico
4
. 
 
Os Direitos da Personalidade devem ser entendidos como autoconstruções que viabilizam a 
seus autores-destinatários aquilo que, hoje, pode ser tomado como a grande busca do Direito: a 
autorrealização. 
É verdade que toda realização pessoal não pode prescindir de uma vivência comunitária. 
Porém, e ao mesmo tempo, o Direito deve, em uma lógica democrática, permitir espaços para que 
cada um possa \u201cperseguir reciprocamente seus interesses egoístas\u201d5. 
 
 
 
2. EM BUSCA DE FORMAS DE VIDA MELHORES: A AUTONOMIA E A 
FELICIDADE 
 
A conclusão imediata do que foi até agora exposto conduz à afirmação de que é impossível 
abordar a pessoalidade e os direitos da personalidade sem se valer da autonomia como manifestação 
da Liberdade. Isso porque \u201ca ideia de Pessoa é inseparavelmente ligada à ideia de liberdade\u201d. Frise-
se: sem liberdade e autonomia não há Pessoa Natural
6
! 
 
3
 Cf. QUEIROZ, Cristina. A Tradição Ocidental do Direito Natural. In: CUNHA, Paulo Ferreira da (Org.). 
Direito Natural, Religiões e Culturas. [S. l.]: Coimbra, 2004, p. 189. 
4
 STANCIOLI, Brunello. Renúncia ao Exercício de Direitos da Personalidade ou Como Alguém se Torna o 
que Quiser. Belo Horizonte: Del Rey, 2010. [No prelo] 
5
 HONETH, Axel. Sofrimento de Indeterminação. Uma Reatualização da Filosofia do Direito de Hegel. 
[Leiden an Unbestimmtheit: Eine Reaktualisierung der Hegelschen Rechtsphilosophie Reclam]. Trad. Rúrion 
Soares Melo. São Paulo: Esfera Pública, 2007, p. 55. 
6
 Cf. SPAEMANN, Robert. Persons: The Difference Between \u2018Someone\u2019 and \u2018Something\u2019. Oxford: Oxford 
University Press, 2006, p. 197. 
3 
 
É na Liberdade como elemento indeclinável da Pessoa Humana, que se é possível conduzir 
a própria vivência segundo valores eleitos como \u201chiperbens\u201d (TAYLOR). Ou seja, a Pessoa articula 
sua vivência com aqueles valores que considera \u201csuperiores\u201d na busca da vida que vale ser vivida7. 
Observe-se, por outro lado, o artigo 11 do Código Civil Brasileiro, que dispõe: 
 
Com exceção dos casos previstos em lei, os direitos da personalidade são 
intransmissíveis e irrenunciáveis, não podendo seu exercício sofrer limitação 
voluntária. 
 
Tal dispositivo nega o próprio devir à pessoa natural: 
 
Só uma visão estática da personalidade poderia levar a uma categorização absoluta 
do exercício dos direitos que lhe são próprios
8
. 
 
Pode-se ir além: o artigo 11 é, na verdade, um oximoro jurídico! Se a Liberdade é condição 
de possibilidade para a existência da pessoa; e se, mais que não poder renunciar ao exercício de 
direitos da personalidade, não se pode renunciar à condição de Pessoa, proibir a \u201crenúncia ao 
exercício de direitos da Personalidade\u201d é inviabilizar a própria existência pessoal! 
Pessoas são seres dotados de sentido de vida. Há sempre uma \u201cmeta-vontade\u201d ou um 
\u201cdesejo de formas de vivência superior\u201d que fazem parte da própria constituição da Pessoa, e que só 
podem ser escolhidos pelos atores envolvidos, na busca da \u201cmeta-vontade\u201d de serem felizes9. 
Assim, na tentativa de contornar os efeitos indesejáveis do art. 11 do Código Civil 
Brasileiro, houve um esforço hermenêutico realizado na Jornada de Direito Civil, promovida pelo 
Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal. Na ocasião, VILLELA propôs como 
leitura ao art. 11 do Código Civil: 
 
O exercício dos direitos da personalidade pode sofrer limitação voluntária, desde 
que não seja permanente nem geral
10
. 
 
É nas próprias palavras de VILLELA que se encontra a melhor justificativa para o 
enunciado: 
 
 
7
 Cf. TAYLOR, Charles. Sources of the Self: the Making of the Modern Identity. Cambridge: Harvard 
University Press, 1989©, p. 53 et seq; TAYLOR, Charles. The Malaise of Modernity. Toronto: House of 
Anansi Press, 1991, passim. 
8
 VILLELA, João Baptista. O Novo Código Civil Brasileiro e o Direito à Recusa de Tratamento Médico. 
Modena, Roma e America. Diritto Romano Comune. n. 16, 2003, p. 58. 
9
 Cf. SPAEMANN. Persons..., cit., p. 206. 
10
 NERY JÚNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. Código Civil Comentado. 4. ed. São Paulo: 
Revista dos Tribunais, 2006, p. 1057. 
4 
 
O art. 11 não pode ter querido excluir em caráter absoluto a abdicação voluntária 
dos direitos da personalidade, pois isso equivaleria a fazer deles antes uma prisão 
para seu titular, do que uma proteção de sua liberdade [...]
11
. 
 
A mesma lógica pode ser aplicada ao art. 13 do Código Civil Brasileiro, que coloca a 
indisponibilidade do próprio corpo como regra geral, suscetível de exceção apenas para a exigência 
médica ou para fins de transplantes de órgãos e/ou tecidos. Trata-se, novamente, de negar o devir da 
pessoa e de sua dimensão corporal. De fato, se não se tem liberdade quanto aos usos do próprio 
corpo, torna-se