Mulheres, Raça e Classe, Angela Davis
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Mulheres, Raça e Classe, Angela Davis


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Mulher, Raça e Classe
Angela Davis
Tradução Livre. Plataforma Gueto_2013
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1ª publicação na Grã Bretanha pela The Women\u2019s Press, Ltda. Em 1982 
 
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Nota das mulheres que traduziram este l ivro 
 
No dia 1 de maio 17 mulheres negras encontraram-se Angela Davis a propósito 
da tradução para português do seu livro "woman, race&class". 
Porque buscamos a nossa história para que possamos conhecer o papel das 
mulheres negras e assim destruir a colonização da nossa mente e construirmos 
de forma autodeterminada os nossos pensamentos e comportamentos, 
começamos por definir como nos reconhecemos como mulheres negras. 
 Encontramos nas nossas definições elementos que nos oprimem na condição 
sexista de objeto sexual; que nos caraterizam apenas na dimensão estética; que 
nos reduzem à condição de capacidade de ser mãe. Constatamos que na 
imagem que temos de nós mesmas está a apreciação que o machismo faz de 
nós e os papéis que a sociedade patriarcal nos incumbiu de desempenhar. 
Tomámos consciência que não foi ainda dito pelas mulheres negras em Portugal 
o que pensam de si mesmas e como se pretendem definir, libertas da opressão 
do racismo e do sexismo. 
Procurando saber como nos definimos do ponto de vista do caráter e do 
comportamento, encontramos caraterísticas como trabalhadoras, corajosas, 
sinceras, dedicadas, guerreiras, desenrascadas, guerreiras, inteligentes. 
 Buscamos o que Angela Davis chama no seu livro de "legado da escravatura" 
que deu às mulheres negras "a experiência acumulada de todas essas mulheres 
que trabalharam arduamente debaixo do chicote dos seus donos, trabalharam, 
protegeram as suas famílias, lutaram contra a escravatura, e foram batidas e 
violadas, mas nunca dominadas." 
Tomamos conhecimento que essas mulheres escravas "passaram para as suas 
descendentes nominalmente livres um legado de trabalho pesado, 
preserverança e auto-resiliência, um legado de tenacidade, resistência e 
insistência na igualdade sexual - resumindo um legado que fala das bases de 
uma nova natureza feminina" (capítulo1). Percebemos que as caraterísticas que 
reconhecemos hoje em nós não são o resultado da condição feminina, mas o 
resultado da condição histórica e racial das mulheres negras. 
 Ouvimos o discurso de Sojourner Truth, um ex-escrava que se dirigiu a uma 
plateia de homens brancos e algumas mulheres brancas (quando ainda não era 
permitido às mulheres falarem em público) falando sobre a sua rude condição 
de mulher escrava, contrária à fragilidade da mulher branca atual, e que nem 
por isso se sentia menos mulher. Ain't I a Women? é a pergunta que ecoou 
nesse discurso, e que continua a ecoar quando nos definimos com 
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caraterísticas de força, orgulho, trabalho, determinação, inteligência e coragem. 
(capitulo 3) Sim, somos mulheres. Mulheres negras. 
Definindo-nos a nível económico, social e educacional, encontrámos a nossa 
condição social. Pobres, domésticas, sobreviventes, miseráveis, desenrascadas, 
que apostam na educação dos filhos para serem melhores do que nós, com 
grande carga moral a nível de comportamento. 
Encontrámos na nossa condição social aquela que nos reservaram por sermos 
negras. Dialogando com livro de Angela Davis tomamos conhecimento como 
depois da abolição da escravatura, continuamos a desempenhar os mesmos 
papéis domésticos - mudando apenas as pessoas para quem trabalhávamos: 
dos donos de escravos passamos a trabalhar para o patrão que procura 
incansavelmente explorar-nos para enriquecer à custa da nossa cor que nos 
põe, no seu ver racista, na primeira fila da exploração (capítulo 9). 
Vimos como o interesse dos homens brancos em lutar pela libertação dos 
escravos do sul nos Estados Unidos, foi o de ir buscar mão-obra de que 
necessitavam. A luta do abolicionismo foi uma luta de exploradores ricos 
industriais capitalistas que se revoltaram contra os exploradores ricos rurais 
esclavagistas. No meio foi erguida a bandeira da liberdade do povo negro que 
trocou grilhetas e chicotadas por salários baixos e más condições de trabalho. 
Constatamos que ainda hoje continuamos a trabalhar como domésticas, mal 
pagas e exploradas. (capítulos 4 e 9) 
Quanto ao feminismo que diz a alta voz defender as mulheres da opressão do 
machismo percebemos nas palavras de Angela Davis que esse movimento que 
se emancipou enquanto lutava pelo abolicionismo, porque foi quando as 
mulheres decidiram lutar pela libertação do povo negro que perceberam que 
não tinham direitos políticos; foi esse mesmo movimento abolicionista feminino 
que ficou chocado por ser dado primeiro o direito de voto ao homem negro 
antes de se dar o voto às mulheres. As mesmas mulheres que lutaram pela 
libertação do povo negro, disseram que se não lhes davam o direito ao voto, e 
se seriam governadas pelo homem, então preferiam continuar a ser governadas 
pelo homem branco, o letrado, educado e civilizado.(capítulo 4) 
E assim vimos como os brancos que lutam por nós não aceitam em tempo 
algum que tenhamos mais do que eles têm. E com esse fundamento, o 
movimento feminista que lutava pelo sufrágio das mulheres exprimiu o racismo. 
Demarca-se aqui o feminismo branco e o feminismo negro. As mulheres negras 
continuaram a apoiar o direito ao voto conquistado pelos seus homens. Porque 
homens e mulheres negros são uma única raça. São uma única condição social e 
racial explorada pelo capitalismo e oprimida pelo racismo. 
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As mulheres negras nos Estados Unidos organizaram-se numa outra luta pelos 
homens (capítulo 8) - a luta contra os linchamentos dos homens mistificados 
de violadores. Porque para além da união racial, perceberam que a epidemia de 
pensamento do homem violador, que justificou o assassinato de milhares de 
homens por multidões que ditavam condenações populares de morte sem 
direito a julgamento, andava de mão dada com uma outra ideia naturalizada nas 
cabeças dos homens brancos- de que as mulheres negras eram promíscuas, 
sexualmente disponíveis. (capítulo 11) 
Chegamos então à concepção de que as mulheres negras são "quentes". De 
quanto nos sentimos assim, de tanto nos dizerem que pensamos e 
aceitamos ser. Mas quando pelo livro da Angela Davis percebemos que somos 
"quentes" porque nos vêm como mulheres sem alma nas quais os homens 
podem soltar os seus ímpetos; que somos "quentes" porque as outras 
mulheres são sérias e puritanas, que somos "quentes" porque somos imorais; 
sacudimos essa expressão da nossa cabeça e passamos a abomina-la. 
Falámos ainda sobre uma outra demarcação das mulheres negras à luta das 
mulheres brancas feministas aquando da defesa do direito ao aborto e das 
políticas de controlo de natalidade. Escutámos a Angela Davis dizer-nos que é 
diferente lutar pelo direito ao aborto como se luta pelo direito ao voto, porque 
se quer libertar da opressão de ser mãe e dona-de-casa e se pretende vingar 
em trajectos políticos e profissionais; e lutar pelo direito ao aborto porque se 
exigem condições para se realizar em segurança o aborto, não porque não se 
deseja ser mãe, mas porque não se tem condições para o ser, ou porque falhou 
o método contraceptivo. 
Percebemos os motivos racistas que estiveram por detrás das políticas de 
controlo de natalidade (eugenia), nesse tempo em que esterilizaram 
definitivamente milhares de jovens e mulheres negras para garantir a pureza e 
domínio da raça anglo-saxónica - e que ainda hoje existem - recentemente uma 
mulher negra foi ameaçada de perder a tutela dos seus filhos se não aceitasse 
ser esterilizada. 
Percebemos que as críticas dos trabalhadores sociais às famílias pobres - e 
negras - que têm "muitos" filhos e filhas são iminentemente racistas. Não há 
uma relação causa efeito entre dispor de mais ou menos dinheiro e ter mais ou 
menos filhos e filhas. Ser pobre ou rico