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O jardim de caminhos que se bifurcam

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o JARDIM DE CAMINHOS QUE SE BIFURCAM
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A Vicloria OCRmpo
Na página 22 da Hist6ria da Guerra EuropéÚl, de
Liddell Hart, Iê-se que uma ofensiva de treze divisões bri-
tânicas (apoiadas por mil e ,quatrocentas peças de artilha-
ria) contra a linha Serre-Montauban tinha sido planejada
para o dia vinte e quatro de julbo de 1916 e teve que ser
adiada até a manhã do dia vinte e nove. As chuvas torren-
ciais (anota o CapoLiddell Hart) provocaram essa delonga
- 'nada significativa, por certo. A seguinte declaração,
ditada, relida e assinada pelo Dr, Yu Tsun, antigo cate-
drático de inglês na Hochschule de Tsingtao, projeta uma
insuspeitada luz sôbre o caso. Faltam as duas páginas
iniciais.
u ••• e pendurei o fone. Imediatamente após, reconhe-
ci a voz que havia respondido em alemão. Era a do Capo
Richatd Madden. Madden, no apartamento de Vlktor Ru.
neberg,'significaV:a o fim de nossos afãs e - mas isso pa-
Jorge Luis Eorges
", IF peri64ica. Se um eterno viajor a atravessasse' em qual.
'fer' diljeção;\comprovaria ao fim dos séculos que os mes-
flloS yolumes se repetem na mesma desordem (que, rei.
terada, seria uma ordem.: a Ordem). Minha solidão ale-
gra-se com essa elegante esperança'.
1941, Mar deZP/li til.
4 1.erizia Álvarez. de Toledo salientou que a vasra Biblioteca é jnútii;
a rigor, bastaria um ,16 vo/umo, de (ormato comum. imPle!SO em cozpo nou
ou em corpo dez, composto de um número infinito de fôlhas infinitamente
delgadas. (CavaUeri, em princípios do século XVII, di$$(! que todo corpo "SÓ-
lido é jwtaposição de um número infinito de planos.) O manustio ~se
vlk!e tMCUm sedoso não ~tia cômodo: ada 161ha aparente se de.5dobrarja
em outras análogas; a joooncebfvcl 16Iha a:otr.11 Dão te,ia renno.
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1 Hip6tese odiosa e ridícula. O espiio prussiano, Haas Rabener, s.liás
Viktor Runeberg. agrediu com UDU .pistola automática. o ponadol da or~
de prisão, Cap. Richard Maddeo. &te, em defesa l?rópria. causou-1be fetl~
mentas que determinaram SUB monto (NoJII tio &l"Of.~
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o Jardim de Caminhos que se Bifurcam
um balaço, pudesse gritar êsse nome de modo que o es-
cutassem na Alemanha. .. Minha voz humana era muito
fraca. Como fazê-la chegar ao ouvido do Chefe? Ao ouvido
daquele homem doente e odioso, que nada sabia de Rune-
berg e de mim a não ser que estávamos em Staffordshire
e que inutilmente esperava notícias nossas em seu árido.
escritório de Berlim, exanlinando infinitamente jornais ...
Disse em voz alta: Devo fugir. ~ncorporei-me sem barulho,
numa Ôca perfeição de silêncio, como se Madden já estio
vesse espreitando. Algo - talvez a mera ostentação de.
provar que meus recursos eram nulos - fêz-me revistar
meus bolsos. Encontrei o que sabia que ia encontrar. O,
relógio norte-americano, a corrente de níquel e a moeda
quadrangular, o chaveiro com as comprometedoras chaves.
inúteis do apartamento de Runeberg, a caderneta, uma
carta que resolvi destruir imediatamente (e que não des-.
!rUí), uma coroa, dois xelins e uns pennies, o lápis ver-
meIho-azuI, o lenço, o revólver com uma bala. Absurda-.
mente.o empunhei e sopesei para dar-me coragem. Pensei.
vagamente que um tiro de pistola pode ser ouvido bem
longe. Em dez minutos meu plano estava maduro. O guia
telefÔnico forneceu-me o nome da única pessoa capaz de
transmitir a notícia: vivia num subúrbio de Fenton, a me-
nos de meia hora de trem.
Sou um homem covarde. Agora o digo, agora que.
levei a têrmo um plano que ninguém deixará de qualificar.
de arriscado. Sei que foi ternvel sua execução. Não o fiz
pela Alemanha, não. Pouco me importa um país bárbaro,
que me obrigou à abjeção de ser um espião. Ademais, eu
sei de um homem da Inglaterra - um homem modesto
- que para mim não representa menos que Goelhe. Não
falei com êle mais de uma hora, mas durante uma hora
foi Goelhe ... Eu fiz isso, porque sentia que o Chefe temia
um pouco aos de minha raça - aos inumeráveis antepas-
sados que em mim confluem. Eu queria provar-lhe que um
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Jorgo Luis Borges72
recia muito secundário, ou devia parecer-me - também de
nossas vidas. Queria dizer que Runeberg tinl,a sido detido,
ou assassinado'. Antes que o sol dêsse dia declinasse, eu
sofreria a mesma sorte. Madden era implacável. Ou me-
lhor, estava obrigado a ser implacável. Irlandês às ordens
da Inglaterra, homem acusado de tibieza e talvez de traição,
como não abraçar e agradecer êsse milagroso favor: a
descoberta, a captura, quem sabe a morte, de dois agentes
do Império Alemão? Subi ao meu quarto; absurdamente
fechei a porta a chave e atirei-me de costas na estreita
cama de ferro. Na janela mostravam-se os telhados de
sempre e o sol nublado das seis. Pareceu-me incrível que
êsse dia sem premonições ou súubolos fôsse o de minha
morte implacável. Apesar de meu pai haver morrido, apesar
de ter sido um menino num simétrico jardim de Hai Feng,
eu, agora, ia morrer? Depois refleti que tôdas as coisas
nos acontecem precisamente, precisamente agora. Séculos
de séculos e apenas no presente ocorrem os fatos; inume-
ráveis homens no ar, na terra e mar, e tudo o que real-
mente sucede, sucede a mim... A quase intolerável
lembrança do rosto acavalado de Madden aboliu essas di-
vagações. Em meio ao meu ódio e meu terror (no mo-
mento não me importa falar de terror: agora que enganei
Richard Madden, agora que minha garganta anseia peIa
corda) pensei que êsse guerreiro tumultuoso e sem dúvida
feliz não suspeitava que eu possuísse o Segrêdo. O nome
do exato lugar do nôvo parque britânico de artilharia sôbre
o Anere. Um pássaro riscou o céu cinza e cegamente
tomei-o por um aeroplano e a êsse aeroplano por muitos
(no céu francês) aniquilando o parque de artilharia com
bombas verticais. Se minha bôea, antes que a desfizesse
\
amarelo podia salvar seus exércitos. De resto, devia fugir
do capitão. Suas mãos e sua voz podiam bater-me à porta
a qualquer momento. Vesti-me sem ruído, disse-me adeus
no espelho, desci, esquadrinhei a rua tranqüila e saí. A
estação não ficava longe de casa, mas achei preferível
tomar um carro. Argüi que assim corria menos perigo de
ser reconhecido; o fato é que na rua deserta eu me sen~a
visível e vulnerável, infinitamente. Lembro-me de ter dIto
ao chofer que se detivesse um pouco antes da entrada
central. Desci com lentidão voluntária e quase penosa; ia
à aldeia de Ashgrove, mas retirei uma passagem para uma
estação mais longe. O trem saía dentro de pouquíssimos
minutos, às oito e cinqüenta. Apressei-me; o próximo par-
tia às nove e meia. Não havia quase ninguém na plata-
forma. Percorri os vagões: recordo uns lavradores, uma
mulher de luto, um jovem que lia fervoroso os Anais de
Tácito, um soldado ferido e feliz. Os vagões, por fim, ar-
rancaram. Um homem que reconheci correu em vão até
o limite da plataforma. Era o CapoRichard Madden. Ani-
quilado, trêmulo, encolhi-me noutra ponta do assento, lon-
ge da temida janela.
Dessa aniquilação passei a uma felicidade quase
abjeta. Disse-me que já estava empcnhada minha luta e
que ganhara o primeiro assalto, ao iludir, ainda que por
quarenta minutos, ainda que por um favor da sorte, o
ataque de meu adversário. Argüi que essa vitória mínima,
prefigurava a vitÓria total. Argüi que não era mínima, já
que sem essa diferença preciosa que o horário de trens me
oferecia, eu estaria no cárcere ou morto. Argüi (não menos
soflsticamente) que minha felicidade covarde provava que
eu era homem capaz de levar a bom têrmo a aventura.
Dessa fraqueza tirei fôrças que não me abandonaram. Pre-
vejo que o homem se resignará diàriamente a emprêsas
maís atrozes; breve só haverá guerreiros e bandoleiros;
dou-lhes êste