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Fiúza   Direito Civil, Curso completo

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ou quando regule inteiramente a matéria de 
que tratava a lei anterior. 
 
 
 
 
 
 
 
78 DIREITO CIVIL 
Já a lei nova, que estabeleça disposições gerais ou especiais, a par das já 
existentes, não revoga nem modifica a anterior. 
Entrementes, a revogação não é a única razão pela qual uma lei deixa de 
vigorar. Às vezes, a lei traz em seu texto a data de sua morte. São as 
chamadas leis temporárias, destinadas a viger somente por prazo determinado, 
como, por exemplo, as leis orçamentárias, que vigoram por apenas um ano. 
Outra questão tratada pela Lei de Introdução diz respeito às leis 
repristinadoras. Que vem a ser lei repristinadora? É lei que ressuscita outra 
já revogada. Suponhamos Lei A em vigor. Posteriormente, é promulgada Lei B, 
tratando do mesmo assunto de forma exaustiva e, revogando a Lei A. Suponhamos 
ainda Lei C que, simplesmente, revogue a Lei B, sem regular o assunto tratado 
por esta. A Lei C poderia conter apenas um artigo: "fica revogada a Lei B", e 
nada mais. Como ficaria a questão? A Lei A estaria automaticamente revigorada 
pela Lei C? 
A resposta será não. Para que a Lei C ressuscitasse a Lei A, ou seja, para 
que fosse lei repristinadora, seria necessária disposição expressa neste 
sentido. Por exemplo, poderíamos ter: 
Lei C 
Art. 1º Fica revogada a Lei B. 
Art. 2º Volta a vigorar a Lei A. 
No caso em análise, tal não ocorreu. Portanto, simplesmente deixaria de se 
ter lei regulando a matéria. Em outras palavras, a repristinação jamais será 
tácita. 
 
2.2 Conflito de leis no tempo 
Dá-se conflito de leis no tempo quando não se souber que lei aplicar, se a 
nova ou a antiga. Assim, por exemplo, a um contrato de locação em vigor, 
celebrado sob a égide da lei de 1979, qual lei aplicaremos, a de 1979 ou a 
nova, de 1991? 
Segundo a Lei de Introdução ao Código Civil, nenhuma lei nova prejudicará 
direito adquirido, ato jurídico perfeito e coisa julgada. Em outras palavras, 
fica sacramentado o princípio da irretroatividade das leis. 
Direito adquirido é aquele que já foi concedido, mas ainda não foi 
concretizado, ainda não foi desfrutado pelo adquirente. É o direito 
conquistado, mas não usufruído. Suponhamos caso em que o juiz haja concedido 
a prisioneiro indulto de natal. Suponhamos ainda que, antes de o prisioneiro 
desfrutar o indulto, venha nova lei extinguindo tal benefício. Ora, esta lei 
só poderá ser aplicada aos casos vindouros. Aqueles indultos já concedidos e 
ainda não desfrutados não poderão ser prejudicados pela lei nova. 
 
 
 
 
LEI DE INTRODUÇÃO AO CÓDIGO CIVIL - EFICÁCIA, CONFLITO E INTERPRETAÇÃO...79 
Ato jurídico perfeito é aquele já consumado, acabado e formalizado. 
Analisemos o significado de cada uma destas palavras. 
Ato, no sentido aqui utilizado, é toda atuação humana que tenha por objetivo 
criar, modificar ou extinguir relações ou situações jurídicas. Exemplos são o 
que mais temos: celebração de contrato, feitura de testamento, casamento etc. 
Todos são atos. 
Ato jurídico, porque cria direitos e deveres, é fonte de Direito. 
Ato jurídico perfeito, por já estar consumado. Por já ter sido concluído. A 
palavra perfeito é na verdade o particípio passado do verbo perfazer. 
Perfazer/ perfeito, como ver/visto. É assim que a palavra deve ser entendida, 
e não como sinônimo de "absolutamente sem defeitos". 
Vejamos, agora, um exemplo. Contrato de locação, celebrado em 1990, para 
vigorar por quatro anos, uma vez pactuado pelas partes, torna-se ato jurídico 
perfeito. Acontece que, em 1991, a lei antiga, sob a qual o contrato fora 
celebrado, foi revogada por nova Lei do Inquilinato. Esta última não pode, 
sob nenhuma circunstância, retroagir para prejudicar o contrato celebrado sob 
a lei antiga, que, para este, continua em vigor. 
Mas suponhamos que, sob a lei antiga, fosse permitido fixar o reajuste de 
aluguéis em salários mínimos. Suponhamos ainda que a lei nova tenha proibido 
tal índice de reajuste, substituindo-o por outro. Que aconteceria se o 
contrato em questão tivesse escolhido o salário mínimo como índice de 
reajuste de aluguéis? Seria ele afetado pela nova lei? 
A resposta é afirmativa. Em relação aos aluguéis vencidos e não pagos antes 
da nova lei, o reajuste, é lógico, se fará com base no salário mínimo, pois a 
lei nova não pode retroagir. Já quanto aos aluguéis a vencer, depois da lei 
nova, aplicar-se-á o novo índice. A lei nova não estará retroagindo nesse 
caso. Estará sendo aplicada a situação nova. 
Coisa julgada ou caso julgado é toda decisão judicial da qual já não caiba 
mais recurso. É a decisão transitada em julgado. Dela o vencido já não tem 
como recorrer. Tal decisão judicial, tampouco, poderá ser prejudicada por lei 
nova. Imaginemos um indivíduo que tenha sido condenado à pena máxima, 
suponhamos 6 anos de prisão, por um crime que cometera. Prolatada a sentença, 
dela recorreu, sendo julgado improcedente o recurso. A partir desse momento, 
diz-se que a sentença transitou em julgado e, se uma lei nova for editada, 
aumentando a pena máxima para 10 anos, aquela decisão já transitada em 
julgado não poderá ser alterada. 
Mas e se a pena máxima for diminuída para 4 anos? A sentença transitada em 
julgado poderá ser modificada? 
Bem, nesse ponto a doutrina se divide. Alguns entendem que a pena poderá ser 
diminuída, porque a lei nova não estaria retroagindo. Tanto é que se o 
condenado já houver cumprido 5 anos dos 6 a que havia sido condenado, será 
solto, sem direito a nenhuma indenização por parte do Estado, por ter 
cumprido pena além da devida. 
 
 
 
 
 
 
 
80 DIREITO CIVIL 
Outros já são de opinião que a pena poderá ser diminuída, uma vez que, 
tratando-se de Direito Penal, a lei nova poderá retroagir para beneficiar o 
réu. De qualquer forma, o condenado não cumprirá os 6 anos. 
 
2.3 Conflito de leis no espaço 
Do art. 7º até o último, a Lei de Introdução trata do conflito de leis no 
espaço, fixando regras para que o juiz brasileiro saiba qual Lei aplicar em 
conflitos internacionais, se a Lei brasileira ou a estrangeira. Vejamos um 
exemplo: suponhamos que uma brasileira tenha se casado com um holandês, na 
Holanda. Vindo morar sozinha no Brasil, resolveu pedir divórcio perante juiz 
brasileiro. Acontece que o holandês continuava morando na Holanda. Que Lei o 
juiz irá aplicar para processar este divórcio, a brasileira ou a holandesa? 
É para responder a tais perguntas que a Lei de Introdução dedica a maioria de 
seus artigos. 
Assim, há normas sobre personalidade, nome, capacidade e direitos de família. 
Em relação a estes itens, diz o art. 7º aplicar-se a Lei do país em que for 
domiciliada a pessoa. Imaginando, só para efeito de argumentação, que a 
capacidade plena para o casamento seja de 16 anos nos Estados Unidos, o 
casamento de americano de 16 anos seria válido no Brasil, mesmo que realizado 
sem a autorização dos pais. Se este americano se casasse novamente no Brasil, 
seria considerado bígamo. 
Este princípio da Lei do domicílio se aplica a outros casos também: 
 1º) aplica-se a Lei do domicílio do proprietário quanto aos bens móveis que 
tiver consigo; 
o penhor regula-se pela Lei do domicílio do possuidor da coisa apenhada; 
as obrigações contratuais regulam-se pela Lei do domicílio do proponente, 
salvo disposição contrária; 
a Lei do domicílio do defunto ou do ausente regula sua sucessão; mas é a Lei 
do domicílio do herdeiro que regula a capacidade para suceder. 
Há outras regras além do princípio da Lei do domicílio. Por exemplo, para 
qualificar os bens e regular as relações a eles concernentes, aplica-se a Lei 
do país no qual se situarem. Para qualificar e reger as obrigações, aplica-se 
a Lei do país em que se constituírem. 
Dessa forma, vemos que se aplicam no Brasil leis, sentenças e outros atos 
legislativos estrangeiros. Duas regras importantes serão, todavia, 
observadas: 
1ª) não se aplicará nenhuma lei, sentença ou ato estrangeiro