A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
29 pág.
sopros e bulhas cardiacas

Pré-visualização | Página 4 de 9

no entanto, não fez uma descrição etiológica dos ruídos. No século XVII inicia-se a ausculta direta: consistia em encostar o pavilhão auricular no peito e nas costas do doente. Método este inconveniente não só para o doente como para o médico. 
	 Figura 1: Ausculta direta
 
	 Figura 2: Estetoscópico de Laennec
	Em 1816 Laennec, inventou um aparelho que simultaneamente cumpria a função de afastar o doente do médico, mas também amplificaria os ruídos cardíacos. O primeiro estetoscópico inventado por Laennec era um cilindro de madeira na qual uma das extremidades era encostada ao peito do doente e a outra no pavilhão auricular do examinador. Assim, começaram as primeiras descrições dos ruídos cardíacos.
	Em 1952, surge um estetoscópico biauricular, muito semelhante aos estetoscópicos que utilizamos atualmente. Era composto por estrutura em tubos e olivas, mas com um funil de madeira que era encostada ao peito do doente. Entretanto, este estetoscópico não amplificava os ruídos, apenas os conduzia sem grande amplificação
	No século passado Bazzi e Bianchi adaptaram uma membrana na cabeça do estetoscópico e esta sim já amplificava os sons cardíacos, criando assim o fonendoscópico. Assim a designação clássica de estetoscópico que nós usamos ainda para o estetoscópico moderno, na realidade era apenas uma estrutura de madeira com uma campânula que se encostava ao peito do doente. O que se usa na maior parte das vezes na cabeça do estetoscópico, é um fonendoscópico (cabeça com membrana), chamando-se a esse conjunto de diafragma, permitindo captar melhor as altas freqüências e amplifica os sons cardíacos.
 
Figura 3: Fonendoscópico de Bazzi e Bianchi
2. Conceitos
	Sopro é a percepção auditiva, na região precordial ou nas imediações sobre os vasos, de uma sensação acústica, semelhante àquela obtida quando se deixa sair o ar pela boca, sob certa pressão, mantendo os lábios entreabertos. Comparativamente aos sons descritos até aqui, os sopros cardíacos correspondem a um conjunto de vibrações de duração bem mais prolongada, que surgem quando o sangue modifica o seu padrão laminar de fluxo, tornando-se turbulento
Em condições normais, o sangue flui sob a forma de corrente laminar, com velocidade um pouco mais rápida na porção central, sem formar turbilhões, pois, quando isto acontece, o fluxo deixa de ser laminar e surgem vibrações que dão origem aos sopros. 
A existência do fluxo laminar depende de uma relação entre o raio dos vasos, a velocidade do fluxo, a densidade e a viscosidade do sangue. A relação matemática é dada pela equação de Reynolds abaixo:
Raio x Velocidade x Densidade = 970
Viscosidade
O resultado da equação é chamado número de Reynolds. Qualquer alteração desse valor pode acarretar turbilhonamento. O principal elemento de modificação na fórmula é a velocidade.
Dessa forma, a produção do sopro é atribuída à turbulência da corrente sanguínea, a qual origina vibrações audíveis e palpáveis (frêmito catáreo). Portanto, é necessário um fluxo turbulento para se gerar um sopro cardíaco.
Os sopros aparecem na dependência de alterações do próprio sangue, da parede do vaso ou das câmaras cardíacas, principalmente nos aparelhos valvares, incluindo os seguintes mecanismos/fatores de turbulência:
Aumento da velocidade da corrente sanguínea
	No aparelho cardiovascular o sangue flui sob a forma de corrente laminar que não se misturam e apresentam velocidade crescente da periferia para o centro. Com o aumento da velocidade da corrente sanguínea, as camadas passarão a se misturar, levando à turbulência, originando os sopros. Esses fatos têm importância na gênese dos sopros, porque o fluxo laminar é silencioso, e o turbulento produz vibrações. Este é o mecanismo dos sopros observados no exercício físico, na anemia, no hipertiroidismo e na febre.
Diminuição da viscosidade sanguínea
	A viscosidade sanguínea exerce efeito amortecedor sobre a turbulência do sangue. As alterações na viscosidade do sangue capazes de aumentar a velocidade sanguínea (nível crítico) haverá a produção de sopros. 
Passagem de sangue através de zona estreitada
	Nesta condição, o fluxo de sangue sofre modificações, deixando de ser laminar para se fazer em turbilhões. O turbilhonamento produz vibrações que correspondem aos sopros. Os defeitos valvares (estenose e insuficiência) e algumas anormalidades congênitas (comunicação interventricular, persistência do canal arterial) representam zonas de estreitamento entre duas câmaras cardíacas ou entre uma câmara e um vaso ou entre dois vasos. A análise semiológica dos sopros produzidos nestas condições constitui a base para o diagnóstico dessas afecções.
Formação de redemoinhos (passagem de sangue para uma zona estreitada/dilatada)
	A massa fluida correspondente ao sangue, ao passar de um lugar estreito para outro de maior amplitude, forma redemoinhos (turbilhões), que produzem vibrações e, conseqüentemente, sopros.
Passagem de sangue por uma membrana de borda livre
	Quando isto acontece, originam-se vibrações que se traduzem também como sopros.
Impacto do jato de sangue
	O choque do sangue contra a parede cardíaca ou vascular associado ao aumento da velocidade pode produzir sopros. Os impactos do jato da corrente sanguínea podem chegar até a produzir lesões nas estruturas anatômicas. É o que acontece na parede do septo interventricular, na insuficiência aórtica e na parede posterior do átrio esquerdo, na insuficiência mitral.
	É importante ressaltar que na maioria das alterações cardiovasculares em que surgem sopros, há associação de dois ou mais mecanismos aqui descritos.
3. Características semiológicas dos sopros
	Deve-se iniciar a ausculta na ordem, pelos focos mitral, tricúspide, aórtico, pulmonar, mesocárdio, procedendo sempre o rastreamento até a região lateral esquerda, região infra-axilares, infraclaviculares, lateral direita, e pescoço. As principais características dos sopros são:
Localização (sede)
Situação no ciclo cardíaco (tempo)
Irradiação
Intensidade
Timbre e tonalidade (altura)
Variações com a posição, respiração e exercício.
Natureza dos sopros
A adequada abordagem clínica dos sopros cardíacos exige cuidadosa pesquisa para caracterização detalhada dos elementos mencionados, que, em conjunto, permitirão identificar o processo fisiopatológico, determinante do ruído cardíaco. Isso implica numa abordagem sistematizada, que busque analisar, individualmente, cada uma das características, utilizando-se as propriedades do estetoscópio que mais se ajustem a cada tipo de sopro.
Localização
	Os sopros podem ser localizados em qualquer parte do precórdio ou fora dele, porém, de preferência, localizam-se nos clássicos focos de ausculta. Mais raramente podem ser encontrados no pescoço, no epigástrio ou na face posterior do tórax. È importante frisar que o ponto onde ele é auscultado com maior intensidade, nem sempre é aquele que representa seu foco de origem. Neste aspecto, a direção que se irradia contribui significativamente para se conhecer o local de origem do sopro.
Situação no ciclo cardíaco 
O tempo no ciclo cardíaco é o momento em que o sopro ocorre. Situar o sopro corretamente no ciclo cardíaco é a primeira e mais importante análise semiológica. Portanto, do ponto de vista de localização no tempo, devemos distingui-los entre sístole e diástole, e por isso é tão importante identificarmos B1 e B2 e o grande e o pequeno silêncio para dizermos se é na sístole ou na diástole. Depois deveremos dizer se é no início, no meio, no final ou percorrer todo o tempo, quer da sístole quer da diástole. 
Quando os sopros estiverem localizados no pequeno silêncio serão denominados sopros sistólicos e, quando localizados no grande silêncio, sopros diastólicos. Serão classificados em holossistólicos ou holodiastólicos quando ocuparem inteiramente o silêncio respectivo. Quando ocuparem apenas parte dos silêncios serão chamados merosistólicos ou merodiastólicos que, por sua vez, podem ser divididos em protossistólicos,