A Marquesa de Santos   Paulo Setúbal
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A Marquesa de Santos Paulo Setúbal


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PAULO SETÚBAL
1813-1829
A marquesa de Santos
A MARQUESA DE SANTOS
1ª edição \u2013 setembro de 2009
Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa
de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.
Editor e Publisher
Luiz Fernando Emediato
Diretora Editorial
Fernanda Emediato
Capa e Projeto Gráfico
Alan Maia
Diagramação
Genildo Santana/ Lumiar Design
Ilustrações
Osvaldo Pavanelli
Preparação de texto
Josias A. Andrade
Revisão
Márcia Benjamim de Oliveira
DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Setúbal, Paulo, 1893-1937.
A Marquesa de Santos / Paulo Setúbal. --
São Paulo : Geração Editorial, 2009.
eBook ISBN 978-85-61501-84-6
Print ISBN 978-85-61501-34-1
1. Brasil - História - Ficção 2. Ficção
histórica 3. Pedro I, Imperador do Brasil,
1798-1834 - Ficção 4. Santos, Domitila de Castro
Canto e Melo, Marquesa de, 1797-1867 - Ficção I. Título.
09-06220 CDD-869.93081
Índices para catálogo sistemático
1. Romance histórico : Literatura brasileira
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SUMÁRIO
UM ACONTECIMENTO ALVOROÇANTE
7 DE SETEMBRO
UMA NOITE HISTÓRICA
O GRÃO-MESTRE DA MAÇONARIA
O HOMEM DO DIA
O \u201cCORTA-ORELHA\u201d
UMA TRAMA NA SOMBRA
DUAS ALMAS DANADAS
UMA NOITE ALEGRE
A MISSA MA CAPELA IMPERIAL
A PRIMEIRA-DAMA
UMA SENTENÇA INTERESSANTE
O CONSELHO DOS MINISTROS
A NOITE DA AGONIA
A SENHORA VISCONDESSA
A VIAGEM À BAHIA
NO AUTO-MAR
PROMESSA É DÍVIDA
UM BAILE RETUMBANTE
UMA CENA NO PAÇO
D. LEOPOLDINA
UM BEIJA-MÃO TRÁGICO
DUAS CENAS NUMA NOITE
UMA AVENTURA DO CHALAÇA
O BANQUETE
A RUPTURA
O BILHETE FINAL
AS TÁBUAS QUE LEVOU D. PEDRO...
SUPREMO TRIUNFO
A SUPREMA DERROTA
UMA HISTÓRIA FASCINANTE,
por Fernanado Jorge
UM ACONTECIMENTO
ALVOROÇANTE
T
 
reze de janeiro de 1813. Toda a gente, na cidadezinha de São Paulo,
engalanara-se com espavento. Não houve matrona que não se
enfeitasse de suas velhas joias. Não houve moça que não se alindasse
de galantezas e tafularias. Tudo isso, tanto primor e garridice, para assistir a
um acontecimento alvoroçante, inteiramente inesperado, que viera abalar com
ruído, aquela pequenina sociedade de Província: o casamento do Alferes
Felício Pinto Coelho de Mendonça, moço fidalgo da Casa Real, com a
encantadora Domitila de Castro, última filha do Coronel João de Castro Canto
e Melo.
Por isso, no casarão da Rua do Ouvidor, onde morava a noiva,
burburinhava, havia dias já, tremenda fervedura de arranjos e preparativos.
O velho João de Castro sempre se gabara de seus avós. Gloriava-se,
frequentes vezes, de ser fidalgo de lei. A sua mulher, D. Escolástica Bonifácia,
apregoava-se, também, com orgulho, descendente dos Toledo Ribas. Eram
eles, não havia dúvida, gente de sangue limpo, honrada, com larga parentela na
cidade e na Província. E ambos, no casamento da caçula, timbraram em
oferecer aos amigos bela noitada de festança grossa, com bródio e baile, que
estivesse à altura do seu sangue e do seu nome.
Que rebuliço o que ia pela casa adentro! D. Escolástica, muito atarefada,
não cessava de vascolejar, de arejar, de espanejar. Era um destramelar
armários, um remexer empoeiradas arcas, um revirar canastras, um escancarar
baús, um arrancar lá do fundo de tudo isso, para expor ao sol, os preciosos
guardados antigos, as coisas nobres e magníficas, as largas toalhas de crivo,
as rendas de bilro, os panos bordados, a prataria do Reino, as peças de
porcelana. Sobretudo, com muitos mimos, era um esfregar aquelas pesadas
louças de friso azul, tão faladas na cidade, que a boa velha guardava com
ciúmes, enternecidamente, para os graves regabofes da família. Quando, em
meio àquela lufa-lufa, um canto de sala parecia mais despido, ou faltavam,
acolá, enfeites mais vistosos, logo a cuidadosa D. Escolástica, com o seu
pronto expediente, gritava para um dos moleques da cozinha:
\u2014 Dito! Corra à casa de prima Angélica e diga assim para ela me
emprestar o jarrão vidrado da sala de fora.
Os moleques e os escravos, à busca de jarrões vidrados, corriam à Rua do
Ouvidor. Da Rua do Ouvidor à Rua do Cotovelo. Da Rua do Cotovelo à Rua
da Princesa. Enquanto isso, na cozinha, entre as mucamas, ia largo e febril
atarefamento. Despejavam-se pacotes de araruta. Besuntavam-se forminhas
para bons-bocados. Desenferrujavam-se as rosetas de florear sequilhos.
Folheava-se a massa das queijadas. Recheavam-se os pastéis de Santa Clara.
Pingavam-se assadeiras de suspiro. E as raparigotas, brandindo garfos
célebres, faziam ecoar sonoramente, no bojo das terrinas, furioso bater de
gemas e de claras de ovo.
Essa atordoante trabalhadeira, tão desusado empenho em preparar a noite
de gala, revelava bem o júbilo que dava aos pais o casamento da caçula. Esse
casamento, no entretanto, tivera curiosa trama. Fora um caso violento de
paixão. Romance de amor tão fulminante, tão inesperado, que espantou a todos
na cidade.
A história foi assim:
Domitila, a Titília, como lhe chamavam os de casa, era uma criaturinha
perturbante, linda boneca de dezesseis anos, leve como pluma, botão de rosa
pelo amanhecer. Tinha o talhe fino, a cinturinha breve, ar de graciosa
petulância. Que primor de tentações! Os cabelos eram negros, profundamente
negros, encaracolando-se num donaire petulante. Olhos também negros,
negríssimos, dum fulgor líquido, que enchiam de quentura e brejeirice o
moreno róseo de seu rosto. A boca, vermelha, muito úmida, a cavar ao lado,
quando ela sorria, uma covinha gaiata, tentadora, que enlouquecia a rapaziada
do tempo.
E não foram poucos os que enlouqueceram! Toda a gente sabia que Pedro
Gonçalves de Andrade, primo e colaço do juiz de casamentos, passava noites
inteiras, de violão em punho, a entoar modinhas e lundus às janelas da
rapariga.
E era de ver-se, nos bailes, o Aires da Cunha, sobrinho do Almoxarife da
Real Fazenda! O rapaz grudado acintosamente às saias da pequena, vivia tão
junto dela, tão cioso dela, que a cidade inteira, com maldade, botou-se a
linguajar daquele caso.
E a briga do Moraizinho? Foi no Botequim da Princesa, no Largo da
Pólvora, em dia de procissão de São Jorge. O rapazola engalfinhou-se
violentamente com o Bento Furquim, um atrevidaço, namoriscador da pequena.
Lá se foi com ele aos bofetões e sopapos, numa fúria. Tão áspera cresceu a
rixa, tão brutal, que acabaria de certo em tiro de trabuco se o bom do Pe.
Bernardo Pureza Claraval, que por ali passava, não acudisse a tempo de
separá-los.
Nesse mesmo dia, ao escurecer, depois das vésperas, o bondoso cura
procurou o velho João de Castro. Narrou-lhe a briga do Moraizinho. Avisou-o
com prudência:
\u2014 Sr. Coronel! Vosmecê precisa tomar tento. Isto não acaba bem...
\u2014 Mas que hei de eu fazer, senhor pároco? Que hei de eu fazer?
\u2014 Que há de fazer? Homessa... Pois é casar a rapariga. Casá-la antes que a
rapaziada se destripe. Aquilo não é gente! Aquilo é demônio, Sr. Coronel,
aquilo é demônio... Cruzes!
GUARDAS DO PALÁCIO
Debret
Ora, foi justamente por essa época, nesses tempos em que os rapazes se
esmurravam por causa da fatal menina, que chegou à Província, e veio
aquartelar em São Paulo, um magnífico regimento de cavalaria, o Primeiro
Esquadrão do Corpo de Dragões, que tinha sede em Vila Rica, nas Minas
Gerais. O regimento, formado de guapos mocetões, equipados vistosamente,
atravessou a cidade com galhardia, marchando e rufando. Foi estacar diante do
Convento de São Francisco, onde se alojou. De cambulhada com esse Corpo
viera um