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A Encarnação de Jesus Cristo - Jacob Boehme

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Jacob Boehme
Encarnação
d
eJesus
Cristo
A
 
2
 
Sociedade das Ciências Antigas
A Encarnação de
Jesus Cristo
por
JacobBoehme
DESCRITO NOS SEGUINTES TRATADOS:
Livro 1: Como o Verbo eterno tornou-se homem;
Livro 2: Como devemos penetrar o sofrimento;
Livro 3: A árvore da fé Cristã;
Traduzido do Inglês:
“The Incarnation of Jesus Christ”
 
 
 
3
A ENCARNAÇÃO
DE
JESUS CRISTO
Exposta em três partes:
I. Como o Verbo eterno tornou-se homem; Maria, a Virgem, quem Ela era no princípio, e que
tipo de mãe se tornou através da concepção de seu filho, Jesus Cristo.
II. Como devemos penetrar o sofrimento, agonia e morte de Cristo; como devemos, com ele e
através dele, ressurgir de sua morte, nos tornarmos a sua imagem e viver eternamente nele.
III. A árvore da fé Cristã. Uma verdadeira instrução, mostrando como muitos podem ser um
espírito com Deus, e o que é preciso para se operar as obras de Deus.
Escrito conforme iluminação Divina por
Jacob Boehme
No ano de 1620
“Temo que em muitas passagens de meus escritos, dificilmente serei compreendido. Mas por Deus,
sou facilmente compreendido pelo Leitor, se sua alma encontra-se fundamentada em Deus, é Dele o
único conhecimento do qual escrevo. Pouco sei sobre a ciência histórica deste mundo, e não escrevo
por vaidade. Não fui gerado pela ciência deste mundo, mas da vida de Deus, a fim de frutificar no
paradisíaco jardim de rosas de Deus. Não só para mim mesmo, mas também para meus irmãos e
irmãs, para que nos tornemos um santo corpo em Cristo, para Deus nosso Pai, que nos amou e nos
ordenou em Cristo, antes que a fundação do mundo fosse estabelecida”.
Carta de Jacob Boehme à
Christian Bernhard, 14 de Novembro de 1619
Livro I
COMO O VERBO ETERNO TORNOU-SE HOMEM, Maria, a Virgem,
quem Ela era no princípio, e que tipo de mãe se tornou
através da concepção de seu filho, Jesus Cristo.
CAPÍTULO I
A pessoa de Cristo, assim como a sua encarnação, não pode ser conhecida pela
compreensão comum ou pela letra das Santas Escrituras, sem a Iluminação Divina. E ainda, sobre
a origem do Ser Divino e Eterno
1. Quando Jesus perguntou a seus discípulos: “Quem, dizem os homens ser o Filho do Homem?”
Disseram: “Uns afirmam que é João Batista, outros que é Elias, outros ainda, que é Jeremias ou
um dos profetas” Então lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Simão Pedro,
respondendo disse: “Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo”. Jesus respondeu-lhe: “Bem
aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne ou sangue que te revelaram isso, e
sim o meu Pai que está nos céus. Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra
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edificarei minha Igreja, e as portas do Inferno nunca prevalecerão contra ela. Eu te darei as
chaves do Reino dos Céus e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na
terra será desligado nos céus”. Em seguida, proibiu severamente os discípulos de falarem a
alguém que ele era o Cristo. A partir dessa época, Jesus começou a mostrar aos seus discípulos
que era necessário que fosse a Jerusalém e sofresse muito por parte dos anciãos, dos chefes dos
sacerdotes e dos escribas, e que fosse morto e ressurgisse ao terceiro dia”. (Mt.16, 13-21). Sua
intenção era mostrar que a razão pessoal, no conhecimento e sabedoria deste mundo, não
poderia conhecer ou compreender a pessoa que era Deus e homem; mas que essa pessoa seria
corretamente conhecida daqueles capazes de entregar-se inteiramente a ele, e por seu Nome
suportar a cruz, a tribulação e a perseguição, de forma fiel. De fato, embora essa pessoa vivesse
visivelmente entre nós neste mundo, era pouco conhecido pelo sábio da razão. E embora
caminhasse nas maravilhas Divinas, a razão exterior era tão cega e tola que aquelas grandes
maravilhas ou milagres foram atribuídos, pelos mais sábios da ciência da razão, ao demônio.
Exatamente como no tempo em que vivia visivelmente neste mundo, ele permanece
desconhecido da razão e do conhecimento pessoal, de modo que é e continua sendo, até agora,
irreconhecível e desconhecido da razão exterior.
2. Tantas contentas e disputas surgiram sobre a sua pessoa, na medida em que a razão exterior
sempre acredita ter compreendido o que é Deus e o homem, e como podem ser uma só pessoa.
Essa disputa preencheu a terra, pois a razão pessoal sempre pretendeu ter apoderado-se da
pérola, sem refletir que o reino de Deus não pertence a este mundo e que a carne e o sangue não
podem conhecer ou compreendê-lo, muito menos penetrá-lo.
3. Do mesmo modo, convém a todos que pretendem falar sobre os mistérios Divinos ou mesmo
ensiná-los, que possuam o Espírito de Deus, e que saibam à luz Divina o que expressar como
verdade; nunca se deve extrair o ensinamento de sua própria razão, nem se apoiar meramente na
letra, sem o conhecimento Divino, arrastando-se nas Escrituras, como faz a razão. Muitos erros
surgem daqui, pois os homens tem buscado o conhecimento Divino em sua própria
compreensão e ciência, passando da verdade de Deus para a razão pessoal, considerando a
encarnação de Cristo como algo remoto e distante, enquanto todos devemos nascer novamente
de Deus, nesta encarnação, se pretendemos escapar da cólera da natureza Eterna.
4. Cabe aos filhos de Deus uma obra íntima e inerente, com a qual deveriam ocupar-se de hora em
hora, diariamente, a fim de penetrar continuamente a encarnação de Cristo, deixar a razão
terrestre, e assim, durante esta vida de sofrimento, nascer no nascimento e encarnação de Cristo,
caso queiram ser os filhos de Deus em Cristo: Eu me propus a escrever sobre este alto mistério,
de acordo com meu conhecimento e dons, para um memorial, para que eu possa assim, ter a
oportunidade de recriar e renovar a mim mesmo cordialmente com meu Emanuel, - pois,
encontro-me como outros filhos de Deus neste nascimento, - para que eu tenha um memorial e
um apoio, caso os trevosos e terrestres, carne e sangue, colocarem em mim o veneno do
demônio, obscurecendo minha imagem. Proponho este trabalho como um exercício de fé,
através do qual minha alma possa, como um ramo em sua árvore, Jesus Cristo, renovar-se com
sua seiva e poder. Assim, não com instrução e grandes discursos da ciência ou luzes da razão
deste mundo, mas segundo o conhecimento que tenho de minha árvore que é o Cristo, para que
meu ramo também possa florescer e crescer, ao lado de outros, na árvore e vida de Deus.
Embora meu fundamento seja elevado e profundo, explicarei de forma clara; contudo devo dizer
ao leitor, que sem o espírito de Deus, tudo será para ele um mistério incompreendido. Portanto,
que cada um reflita sobre o julgamento que emprega, a fim de não cair no julgamento de Deus,
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ser agarrado por sua própria turba, e derrotado pela razão. Digo isto com boa intenção e afeição,
para reflexão do leitor.
5. Se iremos escrever sobre a encarnação e nascimento de Jesus Cristo, o Filho de Deus,
corretamente, devemos refletir sobre a causa, considerando o que movimentou Deus a tornar-se
homem, tendo em vista que isso não era necessário para a realização de seu ser. Não se pode
dizer que o ser de Deus, propriamente dito, tenha sido modificado na encarnação. Deus é
imutável, e ainda assim tornou-se o que Ele não era; mas sua propriedade permaneceu, ao
mesmo tempo, imutável. Foi unicamente por causa da queda e salvação do homem, para que Ele
pudesse trazê-lo novamente ao Paraíso. É preciso considerar o primeiro homem, da forma que
era antes da queda, o que motivou a movimentação da Divindade.
6. Sabemos que Moisés diz: “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou,
homem e mulher ele os criou” (Gn 1,27). Compreenda, então, que Deus, que é um Espírito,
olhou a si mesmo numa imagem, como numa semelhança. Ele também criou este mundo, para
que pudesse manifestar a Natureza Eterna em essência e substância, assim como nas criaturas e
figuras viventes, para que tudo isso pudesse ser uma